Capítulo 11

JANINE PRECISOU PENSAR rápido. E lutava pra não deixar transparecer a sensação de calafrios que sentia ao ver a figura que havia colocando a mão em seu ombro, com certa pressão. Aquela inspetora ali deve ser a má.

— Eu… — Janine se levantou do chão. — Eu esqueci de pegar o meu kit e passei aqui. Só pra isso mesmo…

— Mostra o kit.

— Aqui — Janine ergueu a mão.

— Vem comigo.

Dando a volta na cama, Janine foi seguindo a inspetora. Ela virou a chave na fechadura, trancando o alojamento.

— Você deve ir lá fora tomar um banho de sol e ar fresco. Já que terminou de almoçar.

— Sim, senhora — Janine apenas assentiu com a cabeça, seguindo o mesmo caminho que a mulher.

...****************...

DISCRETAMENTE, JANINE FOI procurar Valquíria — que estava sentada na arquibancada. O local onde as garotas tomavam sol era parecido com o de um estádio de futebol. Ao invés da grama, o piso era de concreto e macio. A arquibancada também, com quatro degraus para que pudessem se sentar. Umas e outras estavam espalhadas por aí. E era a céu aberto, permitindo que o sol e o vento circulassem por ali. Atrás da arquibancada, existe um muro alto e grosso de 15 metros — além da cerca elétrica — que afastava qualquer tipo de esperança para escapar do complexo. Janine olhava ali, sentindo a resignação chegando, ao lado da colega.

— Você demorou um pouco — Valquíria comentou. — O que estava fazendo, além de pegar o kit?

Janine se virou discretamente, de frente para Valquíria. Cochichou:

— No meu quarto tem um duto de ventilação. E eu fui dar uma olhada pra ver se me cabia. Ele é largo e com certeza dá pra percorrer.

— Mas você tentou fazer isso? — Valquíria franziu a testa.

— Não, né?! — Janine deu de ombros. — Não ia dar certo. Só deu tempo de fechar o duto e fingir que tava procurando o kit.

— A inspetora chegou na hora?

— Chegou.

— Menina… — Valquíria ergueu as sobrancelhas, perplexa. — Por meio segundo ela não te pega.

— Foi por meio segundo mesmo.

— Por pouco você não foi pra solitária.

Houve um momento de silêncio. A tarde ali estava estranhamente agradável.

— O que você pretende fazer?

— Quero explorar aquele duto pra ver a possibilidade de fugir daqui. Até onde ele vai.

— Eu acho melhor você tomar cuidado — Valquíria alertou, embora falasse baixo. — Porque você acabou de chegar agora, aqui. Melhor não causar problemas. Se você quiser fazer alguma coisa, tem que ter cuidado.

— Você já tentou fazer alguma coisa? — Janine estava intrigada. — Alguém tentou fazer algo?

— Agora, sem chance.

Janine notou que Valquíria estava conformada. E não era uma resignação recente.

— Há quanto tempo você tá aqui?

— Sei lá, uns oito meses. A gente fica incomunicável. Não sabe que dia é hoje e que horas são exatamente. Só sei que o intervalo está perto de acabar. Faltam trinta minutos, como mostra aquele telão ali.

Janine olhou na direção que Valquíria indicou. Viu um telão que contava de forma regressiva o tempo do intervalo. Um telão digital.

— E por que ninguém mais faz alguma coisa? — Janine franziu a testa, cochichando de forma incisiva.

— Essa quadrilha aqui é muito poderosa, garota. Quantas pessoas podem ter morrido só por tentar resgatar a gente? Enfim… Não quero ter que pensar nisso.

— Quando foi a última vez que alguém fugiu ou algo do tipo?

— Garota, como você é curiosa hein? — Valquíria deu uma risadinha. — Quase fico desconfiada de que você seja da polícia, mas seu olhar não nega o horror que é estar aqui.

Mais um momento de silêncio. Valquíria balançava as pernas, deixando o vento bater no rosto.

— É uma longa história. Na primeira oportunidade, eu te conto só o que sei — ela prometeu. — Nosso tempo é limitado. Daqui a pouco temos que voltar ao trabalho.

Janine permitiu se recostar na arquibancada, pensativa. Não queria se permitir ficar conformada com o fato de estar vivendo em cárcere. Talvez Valquíria tenha desistido de correr atrás da liberdade, mas ela prometeu a si mesma que não chegaria nesse ponto. Prometeu que resistiria. Primeiro, ela teria que estudar o terreno onde caiu de pára-quedas. Depois, criaria um plano de fuga com as aliadas — as que quisessem sair dali. E denunciaria toda a máfia.

...****************...

PEDRO HENRIQUE TERMINOU de arrumar a mala de mão. O relógio marcava vinte horas e trinta minutos. Passaria apenas quatro dias em Barcelona, tempo suficiente para coletar algo no aeroporto ou descobrir quem foi o último motorista que levou Janine e para onde. Conferiu passaporte, documento e tudo mais. Apenas levaria uma mala de mão e a mochila. Carmem observou o filho pela porta entreaberta.

— Você precisa viajar mesmo pra Barcelona, Pedro?

— Vou precisar, mãe — Pedro Henrique soltou o ar, quando deixou a mala no canto do quarto. — É a trabalho. Preciso buscar uma pista, por menor que seja.

— Esse desaparecimento é mais complicado do que você imaginava, né… — Carmem sentou-se na lateral da cama dele.

— É sim — Pedro Henrique sentou-se também. Pegou a mão de Carmem. — Vão ser apenas quatro dias de viagem. Daqui a pouco tô de volta… Não posso deixar muita coisa acumulada aqui.

— Você vai ter que ligar pra mim ou pro seu pai quando chegar lá.

— Lógico que vou, Dona Carmem — Pedro deu um meio sorriso.

— Tome cuidado.

— Pode deixar — Pedro assentiu com a cabeça.

...****************...

ARON DIRIGIA SEU CARRO pelas ruas do Flamengo. Já havia passado pelo Catete e até mesmo deu uma volta em Santa Teresa. Seguia até Laranjeiras, rumo a Cosme Velho. Enquanto dirigia a 50km, seu braço esquerdo estava repousado, com um cigarro aceso entre os dedos. Vez por outra, dava uma tragada. Agora, seguia para a Gago Coutinho — rua onde Hugo morava. Sua intenção era esperá-lo.

Estacionou o carro ali, desligando-o. Observava de longe o condomínio — de aspecto clássico — onde o rapaz morava. Pegando o celular, abriu o Instagram a fim de stalkear. Não conseguiu abrir o perfil de Hugo, porque estava trancado e ele tinha o removido dos seguidores. Hugo tem o costume de remover seguidores fakes. E Aron de fato fizera um perfil fake para vigiar o rapaz.

...****************...

HUGO SALVAVA OS LEVANTAMENTOS que fizera no pendrive, pra quando voltar de férias e entrar no caso estudar tudo com mais calma. César havia lhe mostrado a cópia do Boletim de Ocorrência que foi registrado na delegacia de São Paulo. Com base nos relatos, ele separou casos similares que foram arquivados por falta de provas — que seguiam o mesmo padrão: a moça viajava e não dava notícias depois que chegava em outro país. Quando se certificou de que tudo estava salvo, desligou o computador. O pendrive estava dentro do bolso na mochila.

— Pensei que tivesse ido embora — César disse, passando por ele.

— Tô indo agora — Hugo pegou a mochila, colocando no ombro. — Já deixei tudo pronto pro caso que vou entrar assim que voltar de férias.

— Achou muita ou pouca coisa semelhante?

— Algumas — Hugo franziu a testa. — Tá tudo salvo, bonitinho, guardado…

Eles seguiam agora pelo corredor.

—… e eu não vejo a hora de chegar o dia da viagem — continuou Hugo. — Quero esvaziar a cabeça e voltar pra São Paulo novinho em folha. Esse caso vai ser… pancada.

— Vai mesmo.

— O rapaz lá já foi pra Espanha?

— Vai amanhã.

...****************...

ESTAVA TUDO ESCURO. Mais um dia de trabalho escravo no complexo foi concluído. Janine estava na cama desde à meia-noite. Esperou um tempo, antes de ficar em pé e testar o duto de ventilação. Da cama foi para o chão com muito cuidado, tateando as grades do duto. Com sorte, conseguiu removê-las no escuro.

Devagar, ela foi colocando a cabeça e em seguida o próprio tronco. Colocou a mão esquerda na frente, e deu um impulso de leve para seguir adiante. Decidiu que a melhor forma de passar por ali sem fazer barulho é rastejando. Depois de estar completamente dentro do duto, ela começou: esquerda, direita e rasteja; esquerda, direita e rasteja; esquerda, direita e rasteja…

Quando se limitou a olhar para trás, viu que estava longe do quarto. Logo mais à frente, ela viu uma fresta semelhante à que tem no seu quarto. Começou a ouvir vozes também — duas, exatamente. Até que conseguiu observar ao lado da fresta, para evitar ser vista.

Parecia ser um escritório. Duas vozes masculinas. Janine franziu a testa para entender o diálogo…

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Comments

Terezinha Gouveia

Terezinha Gouveia

ela poderia esperar um pouco, pra depois colocar o plano em ação

2024-08-28

0

Andreia Gregorio

Andreia Gregorio

Eta que Janine corre risco mais não desiste de se livrar..😬😬😬😬😬

2023-12-27

1

Maria Das Neves

Maria Das Neves

Janine cuidado eles vão te pegar

2023-11-20

0

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