ELE SE OLHAVA no espelho. Estava pronto, de saída. Resolveu dar uma conferida antes de chegar à porta. Escolheu um look all black, apostando na versatilidade. Mexeu no cabelo, com cuidado para não desbotar o penteado. Era uma noite importante. E pegou o celular, mandando uma mensagem para ele:
... Tô descendo. Beijo. ...
Ele respondeu:
...Quase virando a esquina aqui. Vou te esperar. ...
As luzes se apagaram, de repente.
— Que merda é essa…
Ele ouviu dois passos na sua direção. Como estava tudo escuro, não sabia em que direção deveria seguir. Antes mesmo dele calcular uma reação, a luz de uma lanterna mirou-lhe bem no rosto.
— Parado aí — ordenou uma voz robotizada. — Agora.
Hugo não estava sozinho. Teve certeza assim que viu o cano da arma apontado na mesma direção. A única reação instintiva foi erguer as duas mãos.
— Quem mandou você aqui? — Foi a única pergunta que ele conseguiu fazer.
O disparo foi ensurdecedor.
...****************...
HUGO ACORDOU, ASSUSTADO. O relógio marcava uma da manhã. A TV ainda estava ligada. “Você ainda está assistindo?”. Não se lembrava do que assistia na Netflix antes de adormecer. Acendeu o abajur e desligou a TV. Precisava anotar todo e qualquer sonho, lembrou-se. Por mais insignificante que fosse. Aquele pesadelo estava longe de ser. Estava no top 3 dos piores. Pegou o caderninho e a caneta, começando a escrever. Depois que narrou, tentando ser o mais exato possível, começou a descrever sentimentos:
Se eu não morri agora, não morro nunca mais. O coração tá martelando ainda. Pode ser que esse pesadelo tenha relação com o fato de ter visto meu ex na praia do Leblon. Se ele teve a coragem de tentar me matar jogando um vaso grande no espelho e depois correr atrás de mim pelo apartamento usando um pedaço grande e afiado… Eu esperaria esse pior dele. Seria um mau presságio? Sair desse apartamento pra não ter que passar por isso novamente… No sonho, o cômodo era semelhante; o espelho estava no mesmo lugar. A luz incandescente também. Será que essa Transferência não é coisa do destino? Não tenho dúvidas… Ou sou eu que tô assustado demais com esse sonho? Não posso perder a cabeça. Foi só um pesadelo. Na medida que tô colocando tudo no papel, percebo que foi só isso mesmo: um pesadelo. E, como sempre, um pesadelo é esquecido quando você volta a dormir e a memória é ocupada com outro sonho qualquer. Um pesadelo bem realista. Vou encarar como um aviso para me manter longe do inominável.
Ele tentou dormir quando deixou o caderninho de lado com a caneta, mas não conseguiu. Pegou o laptop e abriu o e-mail, para ler melhor o Ofício de Transferência que havia chegado pela tarde, enquanto estava com Chiara. Não é só apenas uma transferência. Hugo foi promovido para atuar como investigador na Polícia Federal. Uma promoção que exige começar do zero.
...*Suas atividades inerentes à função de INVESTIGADOR DA POLÍCIA FEDERAL serão iniciadas na nova unidade, PF — SÃO PAULO - SP, a partir do dia 03 de agosto. É imprescindível o cumprimento da função a partir da data citada. *...
Hugo retorna das férias nesse dia.
...****************...
MAIS UM DIA. Onze da manhã. Pedro Henrique alimentava informações no relatório que precisava entregar para Alex: a respeito dos depoimentos que havia coletado e a pista que vai seguir.
— Com licença — Alex entrou na sala dele.
— Pensando no Diabo… — Pedro brincou. — Finalizei o relatório e acabei de enviar pro teu e-mail. Era sobre isso?
— Não, mas obrigado.
— Então é o quê? — Pedro cruzou as mãos sobre a mesa. — Alguma novidade?
Alex sentou-se na cadeira, de frente para o rapaz.
— Você vai trabalhar de dupla nesse caso — disse.
— Uau.
— Ele vem do Rio. Acabou de ser promovido. Tem um perfil muito bom.
— Já andou avaliando, foi? — Pedro voltou a digitar no computador.
— Era necessário. Enfim… Ele começa mês que vem. Foi entregue o Ofício de Transferência e ele deve estar, neste momento, organizando a vida dele por lá para vir morar aqui.
— Vocês não tem vergonha de mudar a vida do rapaz assim tão de repente…? — O tom de Pedro foi seco e ao mesmo tempo irônico.
— Ossos do ofício, meu chapa — Alex bebeu um gole longo de café.
Pedro franziu a testa, olhando o Delegado. Censurou num tom de brincadeira:
— Você não tem medo de ter uma overdose, não? É a quinta caneca antes do meio-dia.
— O medo que eu tenho é de não poder tomar um gole sequer disso aqui — ergueu a caneca preto e branco, como quem indica. Levantou-se. — Só vim trazer esse recado.
— Tá bom. Tchau.
— Vai sair? — Alex ergueu uma sobrancelha, com a porta entreaberta.
— Daqui a pouco. Vou almoçar e seguir uma pista. Não necessariamente nessa ordem…
— Bom garoto.
Alex fechou a porta.
...****************...
— TRANSFERÊNCIA? — CHIARA FICOU surpresa quando Hugo anunciou o Ofício que recebeu por e-mail. Eles estavam juntos no bistrô, almoçando.
— Sim, garota. Fui olhar a caixa de entrada como quem não queria nada… Mentira, queria sim — emendou num tom de brincadeira, rindo. — Só queria saber se tinha algo importante, porque né... Daí eu li o nome Ofício enorme. Fiquei sem saber o que fazer da minha vida durante cinco minutos.
— E eu pensei que a promoção era por aqui mesmo. Que você continuaria por aqui, trabalhando. — Chiara franziu a testa.
— Também pensei — Hugo deu de ombros. — Mas já que eu aceitei, não vou fugir da raia. Ser investigador foi algo que andei querendo nesses últimos anos.
— Chega de ser escrivão, né?
— Chega mesmo.
— Mas, e aí, já pensou no que vai fazer com o apê… os móveis…?
— Uma parte eu levo comigo. A outra parte vou ter que me desfazer, e vai ser vendendo as coisas.
— Praticamente vai ter que começar tudo do zero hein, amigo…
— Pois é — Hugo olhou para o nada. — E ainda tenho as férias que vão começar logo neste fim de semana.
— Mudou alguma coisa?
— Não. Graças a Deus.
— Ainda bem, né.
— Eu só preciso de, pelo menos, quinze dias. Somente. Porque eu tô com um leve pressentimento de que vão interromper.
— Por quê?
— Parece que tem um caso novo aí. Polêmico.
— Hum… — Chiara bebeu um gole de suco. — Conta mais.
Hugo pousou os braços sobre a mesa, aproximando-se melhor.
— Tráfico Internacional de Pessoas — cochichou.
— Passada. Aqui no Brasil?
— Vou descobrir melhor quando chegar lá — Hugo deu uma risadinha. — César não quis me contar muitos detalhes. Mas andei sabendo só isso mesmo. Cheguei de manhã para conversar sobre o Ofício e ele me adiantou pouca coisa. Disse que ia continuar a conversa depois do almoço.
— Ele quer conversar com mais calma — Chiara deu de ombros. — Pra te contar os detalhes. É um caso realmente polêmico. Se for aqui no Brasil, então…
— Vamos ver mais tarde.
Houve um breve momento de silêncio.
— Já achou o novo apê em São Paulo?
— E se eu te disser que achei logo de cara? — Hugo pegou o celular, abrindo um app. — Vou te mostrar as fotos…
...****************...
HUGO RESOLVEU PASSAR em casa. Com tempo de sobra, aproveitou para checar os anúncios que publicou no site de Compra & Venda na internet. Ele vai entregar o apartamento neste fim de semana — no sábado.
Passeando pela sala, olhou para boa parte das suas coisas que já estavam encaixotadas. O caminhão de frete vai buscar tudo amanhã — as coisas que ele não vai precisar. Fez a mala de viagem para as férias, deixou algumas roupas para continuar vestindo… Enfim. Uma loucura que ele precisou gerenciar. No fim, estava dando certo.
Sentou-se no chão de madeira, com o celular na mão, só imaginando os bons momentos que viveu no seu apartamento: a motivação por trás da mudança; o momento que conheceu o espaço pela primeira vez; o fechamento de contrato; o recebimento das chaves; a pequena inauguração que fizera com poucos amigos; o espaço sendo ocupado aos poucos com as suas coisas.
O primeiro lugar que ele conseguiu chamar de seu.
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Da Silva Lopes Clinger
já estou imaginando ele e o Pedro Henrique juntos
2024-08-26
2
Cleide Almeida
espero q essa mudança traga coisas boas pra ele
2023-10-07
7