Capítulo 6

— ENTÃO VOCÊS CONVERSARAM. — Chiara encontrou Hugo num bistrô a céu aberto, localizado em Botafogo. Tomavam um café, enquanto o tema da conversa era sobre David.

— Veio me dizer pra ter cuidado. Logo com quem… — Hugo bebericou a xícara.

— Complicado — Chiara colocou atrás da orelha uma mecha de cabelo. A brisa estava forte. — Ele sabe que você está de mudança?

— Ele chegou na hora que despachei um comprador. Deduziu, com certeza.

— E você acha que ele conta?

— Não. Eles se afastaram.

— Como assim?

Hugo ficou pensando na conversa que teve com ele.

— Não mantiveram mais contato depois da soltura. Pelo que eu sei, o processo agora está nas mãos de outro advogado.

— Menos mal. Eu acho.

— Aron fez isso pra me provocar.

— Por quê?

Houve um momento de silêncio.

— Eu não te contei. Ainda.

Chiara franziu o cenho.

— E o que você não me contou ainda, garoto…

— Uma longa história.

Ela bebericou mais um gole da xícara de café.

— Se quiser resumir… — disse. — Sou toda ouvidos.

Um tempo depois de ter terminado com Aron, Hugo saiu com David para um jantar — como quem não queria nada. Após a ida no restaurante, eles continuaram conversando sobre o vinho que tomaram, que era muito gostoso. Hugo afirma que tinha o mesmo vinho, da mesma safra, na pequena adega e David não acreditou. Hugo o chamou para entrar em seu apartamento.

— Aí você mostrou que tinha o mesmo vinho guardado — Chiara disse.

— Mostrei — Hugo deu de ombros.

— E o que aconteceu depois?

— A gente bebeu umas taças o suficiente para esvaziar a garrafa.

— Caramba. Bebeu dinheiro, então.

Hugo não conseguiu segurar a risada.

— Foi tipo isso.

— E depois…

— Depois a gente começou a jogar conversa fora.

— Bêbados.

— Isso. Mas não foi um porre. No restaurante a gente bebeu uma taça e em casa foram pelo menos umas 3. Por aí.

— Jogando conversa fora…

— Continuando… — Hugo ajeitou-se na cadeira. — A conversa chegou num rumo que não era pra ter chegado.

— Rolou um clima.

Ele apenas assentiu com a cabeça.

— Vocês se beijaram.

— Poderia ter parado por aí — Hugo coçou a nuca.

— Passada — Chiara ficou boquiaberta.

— Eu me lembro exatamente do que ele falou, apesar de não me lembrar de tanta coisa naquela noite… — ele se permitiu viajar até o passado não muito distante. Continuou: — Aron é um tremendo filho da puta, por te tratar feito um lixo.

— Não mentiu.

— Daí ele pegou no meu joelho. E continuou falando que se Aron não tivesse chegado primeiro, a história poderia ter sido diferente.

— David não é uma má pessoa. Realmente tem cara de quem presta — brincou Chiara.

— Também acho — Hugo falou baixinho no mesmo tom de brincadeira. — Realmente poderia ter sido diferente, mas não aconteceu.

— A vida tem lá seus propósitos — Chiara bebeu o último gole de café.

— Coisa de destino mesmo… Prefiro não pensar, pra não ficar frustrado à toa.

— Pois é… — Chiara inclinou a cabeça para o lado. — Daí vocês dormiram juntos.

— Nem cheguei lá ainda — Hugo riu e continuou: — Depois que ele me disse tudo aquilo, a gente se beijou. Ele beija tão bem… Isso eu preciso concordar. Aí começamos na sala e eu, ousado, arrastei ele até o quarto. A gente ficou a noite toda.

— O dia seguinte deve ter sido um pouco constrangedor.

— Um pouco. Eu gostei, no fundo. Ele não quis tomar café da manhã, porque estava ficando atrasado para uma audiência. Não me importei. Queria assimilar o que tinha acontecido. Era melhor ele ficar longe.

— E como o Aron entra nessa história?

Hugo soltou o ar.

— Ele viu David saindo — disse. — O cretino tava começando a me perseguir. Quando ele viu o cara que já foi amigo dele um dia, saindo do mesmo condomínio que o meu… Descobri esse detalhe da pior forma.

— Como assim?

— David me mandou uma foto no WhatsApp. Estava com o rosto machucado, e deitado na cama. Fiquei sem reação. E me contou por telefone que aquele lá viu ele saindo do condomínio.

— Aí o estopim para aquela invasão no seu apê foi esse, então…

— Foi.

— Agora fez mais sentido — Chiara pontuou.

— O importante é ele estar longe de mim, agora. E eu que vou ficar cada vez mais.

Chiara decidiu mudar de assunto, após um breve momento de silêncio.

— Você vendeu mais um móvel, né?

— Vendi… Tá ficando mais vazio, o meu apê.

E a pauta agora era a mudança.

...****************...

— NÃO FIQUE NERVOSA. — Pedro tranquilizava Eliza. Eles estavam de frente um para o outro, separados por uma mesa retangular e grande, na sala de reunião reservada pela gerente. Ali reinava o silêncio, um pouco de paz. O comércio dois andares abaixo era um som quase inaudível.

Eliza bebeu um gole de água, atenta.

— O que você souber a respeito dessa viagem de Janine pra fora do Brasil vai me ajudar bastante — Pedro frisou, com calma, sustentando o olhar da moda. — Entendeu?

— Pode deixar — Eliza soltou o ar. — Vou colaborar o máximo que conseguir.

Pedro assentiu com a cabeça, como quem aprova.

— Você e Janine são próximas?

— Sim — Eliza respondeu prontamente. — Ela até ficou de me ligar pra avisar que está tudo bem. Até agora não recebi nenhuma ligação. Soube por alto que a família andou denunciando o desaparecimento dela, mas não tenho tanta proximidade com eles… Só com ela mesmo.

— Mas a mãe dela sabia da sua proximidade com Janine.

— Sim, sabia. Já fui visitar Janine na casa dela algumas vezes. Papo de amigas, fofoca aqui e outra ali… Conheço a mãe dela, mas não tenho tanto contato.

— Janine te falou sobre essa viagem pra fora do Brasil? Essa oferta de emprego que havia recebido…?

— Me contou. Mas não deu tantos detalhes. Ela é do tipo de pessoa que espera dar certo pra poder compartilhar pra Deus e o mundo, sabe…

— Sei.

— E eu só ficava aguardando as novidades por parte dela… — Eliza fez uma pausa, pensativa. Continuou: — Porque também fiquei interessada em correr atrás desse tipo de emprego.

— E que tipo de emprego era esse? — Pedro uniu as duas mãos em cima da mesa, inclinando a cabeça de leve para o lado a fim de sustentar o olhar dela. — Qual foi a proposta que Janine recebeu? Consegue me contar?

Eliza ficou em silêncio por um breve instante. Buscava se lembrar com detalhes.

— Ela me disse que viu no Facebook. Sabe aqueles grupo de Vaga de Emprego? Pois é. Ela viu ali um anúncio para uma vaga de costureira. Já que ela tem experiência há um bom tempo, se candidatou e foi chamada pra entrevista.

— Essa entrevista foi recente?

— Acho que faz mais de um mês.

— Como ela conseguiu ir pra entrevista? Consegue me dizer?

— Ela… — Eliza hesitou por uma fração de segundos, mas prosseguiu: — Ela inventou que precisava sair cedo para resolver um problema importante. Isso foi depois do almoço. E ela foi pra essa entrevista. A gerente não sabe disso… — Olhou para a porta fechada.

— Relaxa. Qualquer informação dita aqui fica só entre nós. — Pedro indicou com a mão. — Pode continuar.

— Daí no dia seguinte ela me contou sobre a entrevista. Disse que tinha várias candidatas até que chegou na fase eliminatória. Resumindo: ela passou em tudo. Deu entrada no processo admissional, tirou passaporte…

— Passaporte?

— Sim. Ela precisou tirar. Disse que a vaga era pra fora do Brasil.

— Ela disse pra onde exatamente? O país, no caso.

— Barcelona.

— Espanha… — Pedro tamborilou com os dedos na mesa, pensativo.

...****************...

ELA ACORDOU, GROGUE. Não conseguia mexer muito o corpo sobre a cama, de forma alguma. Pode ser extremo cansaço físico, por conta da viagem que tinha sido demorada. Mesmo grogue, sonolenta, Janine conseguia se lembrar que era pra estar descansada o suficiente — ou estava confusa por conta do jet lag? Tentava fazer esforço para se situar.

Ela estava num quarto escuro. A cama, aparentemente, de solteiro. A luz natural do lado de fora entrava por alguma fresta interior, visto que ia até perto do teto. Supunha que era de madrugada ainda ou noite. Não tinha relógio. Seu celular, cadê?

Virou a cabeça de lado, pesadamente, e sentiu mais cansaço. Um pouco de vertigem. O que tava acontecendo? Porque ela estava quase vegetando? Não era pra tudo estar aparentemente normal?

Ela se permitiu parar. Respirava devagar, agora. Tentava buscar, com calma, alguma memória recente…

De olhos fechados, alguns flashes começaram a passar em sua mente como um filme de baixo brilho.

... Me solta! Me larga! Me tira daqui! ...

Braços fortes carregando o seu peso, arrastando-lhe, ao mesmo tempo que resistia.

... Eu não vou ficar aqui! Eu quero ir pra casa! ...

O chão. Quarto na penumbra. Choro. Alguém havia jogado uma garrafa de água pela fresta. Mais resistência, dando murros na porta de aço.

... Me tira daqui! Socorro! ...

Bebe essa água, garota*. Uma voz diferente agora.

Ela sentiu vertigem ao beber um longo gole de água, depois de secar a garganta de tanto gritar. Antes de se dar conta do que aconteceu, Janine sucumbiu ao sono sem sonhos.

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Comments

Angela

Angela

fico um pouco sensível em relação a esse assunto...
quando criança vi um vizinho de 9 anos ser levado num carro preto, foi puxado pra dentro do carro...
até hoje não há notícias dele...
😢😢😢

2024-08-20

1

Andreia Gregorio

Andreia Gregorio

geralmente ela caiu na rede do tráfico humano.. 😔😡😔😡😔😡

2023-12-27

0

Cleide Almeida

Cleide Almeida

coitada da Janine infelizmente essa realidade existe 😫😩

2023-10-08

3

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