JANINE FICOU PARALISADA diante da máquina de costura. Havia tecidos, adereços, e entre outros materiais para produção de modelos — as peças de roupa desenhadas no catálogo ao lado. Ao seu redor, várias outras garotas estavam sentadas de frente para a máquina — que nem ela. Bem na frente, perto da entrada do enorme galpão — que é a ala das “novatas” — a inspetora dava instruções sobre a jornada de trabalho.
— O expediente começa às dez horas da manhã — ela olhou no relógio de pulso —, ou seja, daqui a dez minutos. A primeira pausa de vocês é para o almoço, sempre às quatorze horas, com duração de duas horas… o que é bastante suficiente. Depois disso vocês seguem até às vinte e duas horas. O expediente se encerra e todos participam de uma contagem, para garantir que estão todos no complexo. Se ajudarem, essa contagem finaliza em trinta minutos. Depois, vocês têm duas horas para tomar banho e jantar. À meia-noite devem estar no alojamento e dormindo.
Isso aqui tá parecendo um presídio, pensou Janine. Aliás, é um presídio. Um presídio com trabalho escravo.
— É muito importante que todas participem da contagem — ressaltou a inspetora. — Se tiver algo de errado, a contagem pode ser refeita. Só acabaremos quando o número total bater com a nossa base de dados. — A mulher sisuda fez uma pausa dramática e continuou: — Vocês podem estar se perguntando: “mesmo que isso leve à noite toda?”. A resposta é sim.
Janine sentiu um calafrio. Ficou horrorizada com a possibilidade disso acontecer.
— Mas não se preocupem — a mulher deu um sorriso duro, que não chegou aos olhos. — Esse tipo de situação é rara, porque só acontece quando alguém resolve fugir daqui. E não dá pra fugir desse complexo, porque a segurança é máxima tal qual um presídio.
Houve um momento de silêncio. Um silêncio fúnebre.
— Sem mais delongas… — a inspetora tirou um apito do bolso da frente, dizendo: — O expediente começou.
Ela soprou o apito, por cinco segundos. O som era estridente.
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TODAS ESTAVAM ACOMODADAS nas respectivas máquinas de costura industrial. Janine teve de admitir que a máquina era das boas, mas lembrou-se que estava ali sendo submetida contra à sua vontade. Só conseguiu ficar estática olhando os tecidos e papéis com as peças que precisavam ser produzidas no dia.
— É melhor você fazer alguma coisa — cochichou uma mulher para Janine, que ficou surpresa pelo fato de ter outra brasileira no mesmo lugar. A mulher continuou: — Senão você corre o risco de passar três dias numa solitária ou até mais.
— Eu vou fazer alguma coisa, sim — o tom na voz e Janine era amedrontado. — Vou fugir daqui.
— Não faz isso — a moça continuou cochichando, mas incisiva. — Você corre o risco de ser apagada.
— Eu que não vou ficar aqui.
— Infelizmente você é só mais uma de nós — a mulher começou a produzir uma peça na máquina. — Antes de tentar fazer ou planejar alguma coisa, dance conforme a música.
Uma mão coberta por uma luva de couro preta pousou no ombro de Janine.
— Algum problema? — Era a inspetora. — Por que não começou a produzir a primeira peça? O tempo está correndo.
— Ela só tinha uma dúvida em relação à máquina de costura — disse a mulher ao lado de Janine. — Vai começar a produzir a peça agora.
A inspetora assentiu com a cabeça, saindo. A mulher disse “Começa logo” para Janine, que pegou um tecido e começou a trabalhar na máquina de costura.
— Qual o seu nome?
— Valquíria. E o seu?
— Janine.
— Você vai almoçar comigo hoje.
Pela primeira vez em alguns dias, Janine deu um sorriso fraco. Mais pela técnica do que pela força de vontade, ela começou a trabalhar.
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HUGO ESTAVA NA PF, realizando alguns trabalhos burocráticos na sua mesa. Queria deixar tudo organizado antes de sair de férias e assumir a nova função em outra cidade. Controlava também uma grande parte da sua mudança para São Paulo, remotamente, deixando seu amigo Tande apenas gerenciar pequenas funções para não dar tanto trabalho. Alguém chegou perto da sua mesa, enquanto ele se perdia em pensamentos ao mesmo tempo que desempenhava o trabalho.
— Não era pra você estar de férias? — César parou, sentando-se na quina. Seu tom era de brincadeira. — Você sabe que não precisa mais fazer nenhuma atividade burocrática, né?
— Eu não me importo — Hugo deu de ombros. — A mudança tá indo bem, agora.
— Tá tudo se ajeitando, então?
— Felizmente — Hugo soltou o ar. — Você não sabe o alívio que tô sentindo.
— Faço ideia. Enfim… — César pegou uma das canetas de Hugo e começou a brincar entre os dedos. — Eu não vim aqui pra falar só da sua mudança.
— É sobre o caso que provavelmente vou ajudar?
— Exato. O delegado de lá é bastante meu amigo, o Alex, e conversamos bastante entre si.
— E o que ele disse?
— O investigador está seguindo algumas pistas — respondeu Cesar. — A próxima é ir em Barcelona, que foi o último destino da mulher que desapareceu.
— Então foi lá que ela estava pela última vez, no caso.
— Exato.
— Ele vai pra Barcelona? — Hugo franziu a testa. — O investigador.
— O cara é bom… — César colocou a caneta de volta na mesa. Hugo devolveu no seu porta-canetas. — Ele já desmontou uma rede de narcotráfico aqui. Não foi muito recente…
— Bacana… — Hugo continuava digitando. Decidiu mudar de assunto, num tom de brincadeira: — Você vai querer alguma lembrancinha de Fortaleza?
— Mas é claro — César deu uma risadinha. — Traga um souvenir e um doce de leite. Qualquer coisa.
— Tá bom…
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— EU FIQUEI AQUI PENSANDO… — Pedro Henrique caminhava com Alex pelo corredor na PF de São Paulo. — Você falou que vem aí um investigador a mais pra cá?
— Exato — Alex caminhava com as mãos no bolso. — Ele vai sair de férias essa semana e assume a função no mês que vem.
— Ah. Ele é daqui?
— Não. Vem do Rio.
— Entendi — Pedro Henrique franziu a testa, perguntando: — Você conhece esse rapaz?
— Não conheço, mas sou amigo pessoal do Delegado lá da PF do Rio. Me falou bem do garoto, disse que ele é bom.
— Ah, tá. Mudando de assunto… — Pedro Henrique abriu um app no celular. — Comprei a passagem para Barcelona.
— Pra amanhã?
— Exato. Vou ficar no máximo três dias. Só para colher pistas e voltar lá em outro momento.
— Isso — Alex concordou. — Faça isso mesmo. Quando você voltar, a gente espera o rapaz voltar de férias. Ele está ciente que vai entrar nesse caso, mas não sabe de muita coisa.
Pedro Henrique apenas assentiu com a cabeça.
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— JÁ ACHEI A SOLUÇÃO — Hank garantiu. Irina ainda estava ali na sua frente, querendo saber o que ele fez para afastar a máfia da mira. Acrescentou: — E não, você não precisa saber.
— Poxa — ela deu de ombros. — Pelo menos pra saber se foi bem executado, né…
— Você só pode estar brincando com a minha cara, Irina — o tom de Hank foi seco.
— Imagina… Não — ela apressou-se em dizer. — Jamais duvidaria do seu poder de solução, chefe.
— Para de tentar me bajular. Continua o que você estava querendo me dizer.
— É sobre a meta de produção que foi dobrada. Em menos de doze horas.
— Hum… — Hank assentiu com a cabeça. — Não estão fazendo mais do que a obrigação delas. A gente gasta-gasta-gasta pra trazer cada uma até aqui, em busca de um sonho…
— … que é ganhar em euro… — complementou Irina.
— … E é o mínimo que elas fazem pela gente: pagar o que deve — Hank concluiu. Ele realmente não tinha nenhum escrúpulo.
— Pois é. Concordo com você, chefinho.
Hank não esboçou nenhuma expressão.
— Ah… — Irina mudou de assunto. — Eu vou ficar de olho na novata. A inspetora me disse que ela tá querendo ficar de conversinha com outra garota, que é brasileira…
— Faça o que você julgar melhor. Agora, se me der licença, eu preciso tratar algumas burocracias que ameaçam aparecer no caminho.
— Tá bom… — Irina deu de ombros e foi em direção à porta. — Mais tarde venho aqui negociar minha ida ao Brasil.
Hank assentiu com a cabeça, e gesticulou com a mão para ela sair da sala. Irina fez uma careta quando fechou a porta atrás de si, no corredor.
— Chato.
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HORA DO ALMOÇO. JANINE havia terminado com a sua refeição e foi até o local que despacha as bandejas para a cozinha. Encontrou Valquíria, sua nova colega.
— Eu preciso fazer uma coisa — Janine cochichou discretamente.
— O quê, exatamente?
— Preciso ir ao meu alojamento. No quarto, no caso. Será que pode?
— Poder, pode. Mas precisa pedir permissão para alguma inspetora.
— Sério?
— É — Valquíria deu de ombros. — Aqui é tudo controlado.
— Que merda, hein.
— Você trouxe sua pasta e escova de dente? É obrigatório fazer essa higiene aqui depois do almoço.
— É isso mesmo que eu preciso fazer.
— Ah, então vai lá naquela mulher ali — Valquíria indicou a cabeça para uma inspetora que parecia ser mais reservada e observadora. — Ela é mais de boa.
— Tá.
Janine seguiu em direção a mulher que estava na entrada do refeitório. Meio sem jeito, coçando a nuca, olhou nos olhos glaciais dela.
— Oi. Eu esqueci meu kit de pasta e escova. Será que posso buscar?
— Pode — a mulher abriu o portão, olhando discretamente para os lados. — Vê se não demora muito a voltar.
— Tá bom.
Ela andava devagar, mas assim que virou à direita já seguia a passos rápidos. Chegando no seu alojamento, estava destrancado — por sorte, porque eles tinham o costume de trancar. Não tinha nenhuma outra inspetora circulando por ali. Entrou rapidamente ali, sem fazer barulho.
Tem um duto de ventilação ali. Ela só não tinha coragem de explorá-lo. Mas respirando fundo, começou a remover a grade, colocando-a ao lado. Tomava bastante cuidado pra não fazer mais barulho. Com o duto aberto, Janine analisou que o espaço lhe cabia. Ali começava a nascer um plano perfeito.
Ouvindo passos pesados — que ela sabia que eram botas; e quem usavam botas eram as inspetoras — a moça colocou a grade de volta no duto.
— O que você tá fazendo aqui?
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Cleide Almeida
Janine tá dando mto a perceber
2023-10-08
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