Capítulo 12

HANK FALAVA NO TELEFONE. Ele não tinha o costume de ficar até tarde no gabinete. Mas como morava dentro do próprio complexo, decidiu adiantar algumas coisas. Irina e Ruy voltarão para o Brasil dentro de alguns dias.

— Preciso que você me ajude lá naquele processo — ele não mantinha expressão alguma. — Sim, o meu pessoal fará conexão novamente. Caso alguém que não seja do nosso meio resolva farejar, você toma a frente e limpa a barra — ele fez uma pausa, franzindo o cenho ao escutar a voz no outro lado da linha. — Combinado. Aguarde os meus senhores no mesmo local de sempre. A maleta é toda sua.

Ele finalizou a ligação com um meio sorriso. Nada como molhar algumas mãos importantes para continuar acima de qualquer suspeita. Hank era bom nisso. Seu objetivo é se manter fora do radar da Interpol. Sentia que estava conseguindo.

— Chamou, chefe? — Ruy entrou na sala.

— Chamei. Quero comunicar que você e Irina voltarão para o Brasil.

— Isso eu já imaginava. No mesmo lugar de sempre?

— Não. Dispersa eixo Rio-São Paulo.

— Então você pegou a ideia da Irina…

— Ela deu uma sugestão para continuarmos fora do radar — Hank deu de ombros. — Você queria que eu fizesse o quê? Escolher entre o certo e o duvidoso?

— Duvidoso? — Ruy franziu a testa.

— Duvidoso.

— Rio de Janeiro e São Paulo ainda tem muita gente miserável e desesperada pra mudar de vida — protestou Ruy, xenofóbico.

— Concordo com você — Hank se recostou na cadeira. — Ainda mais porque vem gente lá do Nordeste querendo tentar a vida em uma dessas metrópoles. Você está se concentrando demais no subúrbio ou interior… — Seu tom começou a ficar incisivo: — Quantas brasileiras suburbanas você não trouxe pra cá? Garotas do interior? Tá começando a dar na vista, entendeu? Se você tivesse mais cuidado trazendo a última remessa pra cá, eu não teria tido o trabalho de criar uma solução pra manter a Polícia Federal, lá do Brasil, longe dos nossos pescoços.

O homem ficou em silêncio.

— Foi mal — limitou-se a dizer. Começou a andar para os lados da sala. — Foi mal… Você tem razão. Posso ter me descuidado, mas nada como uma queima de arquivo que não resolva.

— E você acha que ficar matando gente vai tirar o nosso rabo da reta pro resto da vida, seu animal? — A voz de Hank era cortante. — Deixa de ser burro, cara.

O chefão acendeu um charuto. Dando uma tragada forte. Ele soltou a fumaça densa pelo nariz levemente inclinado. E disse:

— Vocês vão para o Nordeste, mas antes vão passar no Rio pra ver se tem algum burburinho. Depois, vão pra São Paulo. De lá, vão para qualquer estado do Nordeste e me tragam pelo menos cinco garotas desesperadas em dar um futuro melhor pra família — esta última parte ele falou com escárnio.

— Pode crer — Ruy sinalizou com a mão na testa, como quem faz continência.

— Sai daqui — Hank gesticulava com a mão. E acrescentou: — Amanhã você vai acompanhar um dos meus homens num serviço. Fale com algum deles.

— Beleza. — com essa, Ruy saiu.

...****************...

ARON ESTAVA RECOSTADO no banco do carro, até que viu Hugo se aproximando na entrada do condomínio. Ele ajeitou a postura, observando o rapaz atentamente. Hugo esperava o portão ser aberto. Em menos de meio minuto, o rapaz sumiu de vista.

Ele abriu o porta-luvas e encontrou a sua arma. Ficou ali, pegando nela. Cogitando…

...****************...

— EU FICO PREOCUPADA com essa viagem — Carmem jantava com Osvaldo. Os dois estavam sozinhos na mesa. — Sei que faz parte do trabalho, mas sei lá… Ainda mais num caso de desaparecimento como esse.

— Você fica pensando no que aconteceu com a mãe dele — Osvaldo disse, levando o garfo com macarrão até a boca.

Carmem é a mãe que Pedro Henrique não teve a oportunidade de conhecer. Antes de Carmem, Osvaldo foi casado com Heloísa e ambos tiveram dois filhos — Ana Carolina é a filha mais velha, que já se casou e mora em Campinas com o marido e dois filhos. Heloísa era Delegada da Polícia Civil e seu último caso foi desbaratar uma quadrilha de narcotráfico, no ano em que Pedro Henrique nasceu. Ela foi morta a tiros perto de casa, quando o menino ainda tinha 7 meses de idade.

Quem sentiu a falta da mãe foi Carolina, que tinha 5 anos na época e até hoje se lembra da figura materna que fizera parte da sua vida. Pedro Henrique, claro, não se lembra da mãe. Depois de seis anos, Osvaldo conseguiu se casar de novo com Carmem — uma mulher tão boa e dedicada com os filhos, que nem Heloísa tinha sido um dia. Daí Pedro Henrique passou a chamá-la de mãe. Carolina também. Essa parte da vida de Osvaldo e dos filhos é bem delicada e triste, mas eles conseguem seguir com a vida mesmo que a tragédia tenha acontecido há 28 anos.

— Talvez — Carmem disse. — Todos os dias eu rezo não sei quantas ave-marias para proteger esse menino, embora eu procure não demonstrar tanta preocupação. Pedro não gosta de me ver assim. Enfim… Deve ser porque mãe é mãe, né?

— É — Osvaldo deu um meio sorriso. — Eu estaria mentindo ao afirmar que não fico preocupado, mas consigo administrar. Deve ser porque fui casado há anos com uma Delegada e agora meu filho é investigador da Polícia Federal há quase uma década…

— Ossos do ofício, meu querido — Carmem deu uma risadinha.

— É isso. Ossos do ofício. Taí a definição certa…

Houve um breve momento de silêncio.

— Acho que você consegue administrar melhor, querida — Osvaldo aconselhou. — Não procure ficar pensando muito nessas coisas. A gente corre perigo o tempo todo…

— Você tem razão, querido. Vou procurar não pensar nisso. Ocupar minha cabeça com mais coisas e afugentar essa preocupação.

— Isso faz bem — ele pegou na mão dela. — Estava aqui pensando… Nunca mais viajamos juntos, não é?

— Verdade… — Carmem franziu a testa. — Não consigo me lembrar da última vez.

— Vamos nos programar?

— Vamos — ela sorriu.

...****************...

HUGO FOI ATÉ A JANELA fechar as cortinas, para dormir no que sobrou do seu quarto — apenas um colchão inflável, porém confortável —, e viu o mesmo carro preto parado desde que chegara em seu apartamento. Ele morava no terceiro andar. Ficou ali parado por alguns minutos e percebeu que o veículo fora ligado, saindo logo em seguida bem devagar. Achou aquilo bem estranho. Uma pessoa não fica tanto tempo no carro antes de dar a partida. Hugo começou a ficar desconfiado.

...****************...

JANINE VIU QUE NÃO teria mais nada para ouvir, dentro daquele duto. Ela ficou horrorizada com a conversa entre Hank e Ruy, e já não tinha mais dúvida que caiu numa emboscada que a fez parar num complexo para trabalho escravo. Decidindo voltar para o quarto, ela começou a fazer os movimentos só que ao contrário — esquerda, direita e recua; esquerda, direita e recua…

Até que bateu com a cabeça de leve no teto do duto. — Que barulho foi esse…

Ela paralisou ao ouvir a voz de Hank.

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Comments

Andreia Gregorio

Andreia Gregorio

Si meu Deus...protege Janine!!😬😬😬😥😥

2023-12-27

2

Cleide Almeida

Cleide Almeida

meu Deus 😫🙀🙀🙀🙀🙀🙀

2023-10-08

1

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