Capítulo 14

— VOCÊ QUER MESMO fazer isso? — Valquíria ficou genuinamente curiosa. — Você se arriscaria para salvar pelo menos uma de nós?

— Uma não — corrigiu Janine. — Todas. Todas merecem a libertação. Sair desse complexo que faz a gente trabalhar feito um escravo para ganhar um dólar e ainda descontar do nosso dinheiro de forma abusiva.

— Você tem razão — Valquíria deu um meio sorriso. — Mas você tem que tomar cuidado, porque eles não perdoam. Eles já mataram uma.

— Mataram?

Janine ficou paralisada. Perplexa. Valquíria pegou na mão dela, colocando-a entre as suas.

— Você se lembra que eu te contaria algo na primeira oportunidade?

— Lembro.

— Já fizeram uma rebelião aqui — começou Valquíria, com um olhar distante. Parecia que estava viajando de volta para um passado recente. — Um grupo de dez garotas fugiram, mas antes fizeram duas carcereiras de refém e os mafiosos.

— Sério?

— Sério.

E Valquíria continuou falando da rebelião que aconteceu no complexo há sete meses. Olhando em volta, nem parece que o local tinha sido palco de horror. O grupo de dez garotas, em plena luz do dia, colocaram o terror em troca da liberdade. Duas carcereiras ficaram amarradas, uma de costas para a outra e amordaçadas. As garotas se dividiram para fazer Irina, Hank e Ruy de refém — também amarrados numa cadeira. Durante horas, os três mafiosos ficaram sob a mira de um revólver. Hank, durante todo o tempo, estava impassível — mas queimando de ódio por dentro.

As garotas estavam com sangue nos olhos. Elas premeditaram a rebelião há pelo menos um ano, conseguindo contornar o sistema de segurança. E foram de lancha até a cidade.

— Elas pensaram muito bem na hora de manter os mafiosos em refém — Valquíria ainda contava —, mas não souberam que a lancha que era de Hank tinha um GPS.

— E por que todas não fugiram também?

— Primeiro, eu não sabia que elas estavam armando essa fuga. Segundo, elas chamariam a polícia para libertar todas nós. Naquele dia, eu tive tanta esperança… Que morreu.

— E o que aconteceu? — Janine ficou impressionada. Parecia uma história de filme. — Por que não deu certo?

— Elas chamaram a polícia — a expressão de Valquíria mudou, ficando dura. — A polícia chegou no complexo, pedindo para que todas ficassem agrupadas. Daí ficamos. Todas esperavam libertação, quando levaram Hank e a dupla de mafiosos. Aliás, todos os três são mafiosos… Enfim.

Valquíria parou. Deixou escapar uma lágrima. Janine esperava o restante da história.

— A polícia estava com eles — disse ela. — Mancomunada com eles. Os mafiosos são protegidos pela polícia. Eles conseguiram molhar a mão de quase todo mundo de lá, parece. Daí as garotas ficaram sabendo, e pelo menos cinco delas fugiram a tempo e não se sabe mais notícias. Espero que elas estejam bem e vivas… Enfim, foi uma decepção muito grande. Nós ficamos em cárcere novamente e dessa vez o complexo passou por uma reforma colossal até se tornar o que você vê hoje.

Houve um momento de silêncio. Janine assimilava toda a história, agora.

— E a garota que morreu?

— Foi assassinada. Era a mentora, líder da rebelião toda — Valquíria disse num tom duro, mas ao mesmo tempo triste. — Eles fizeram uma execução em algum lugar, longe daqui. E para nos assustar, trouxeram a camisa dela cheia de sangue.

— Eles? — Janine arregalou os olhos, assustada. — Os três?

— Não. Com certeza, não — Valquíria fez uma pausa, pensativa. — Eles jamais sujariam as mãos de sangue. Mandaram os homens dele. No caso, os homens do Hank.

As duas ficaram em silêncio novamente.

— É por isso que eu disse para você ter cuidado, desde o começo. Uma fuga mal planejada pode custar sua vida.

— Eu sei — Janine disse baixinho, assentindo com a cabeça.

...****************...

— PREPAREI UMA GRANDE SELEÇÃO… — Irina entrou no gabinete de Hank sem pedir licença — Conforme você pediu, vou selecionar cinco garotas. Isso mesmo que você ouviu, Hank: cinco. — Ela segue falando, até sentar-se na cadeira de frente para o homem ali. — O local é discreto, tipo um galpão… Anfiteatro, sei lá. Muito bonito. Um local específico para seleção. Já preparei a triagem, entrevista e a etapa final que vai ser daqui alguns dias…

Hank apenas assentiu com a cabeça. Pelo menos ela já estava ali sem precisar chamá-la, porque queria dar um recado. Se fosse em outra circunstância, a mulher já teria levado um esporro e dos grandes. Não importava quem, Hank odeia ter o seu espaço invadido de forma repentina.

— Eu sei — ele ergueu a palma da mão. Irina parou de falar. — A etapa final é comigo. Você me manda as fotos e eu faço a seleção final.

— Exatamente, chefinho — o tom ela levemente irônico. — Queria te pedir uma coisa também.

— Dinheiro.

— Um empréstimo, pra ser mais exata.

— Vou descontar na tua comissão — Hank pegou um talão de cheque. — Diz logo o valor antes que eu me arrependa.

Irina disse o valor. Hank franziu a testa e preencheu o cheque.

— Considere isso como um adiantamento — ele a entregou. — Pelo menos um lado bom da sua invasão na minha sala.

— Como assim?

— Só exijo que vocês… sim, você e Ruy… tenham mais cautela na hora de desembarcar. Prestem atenção se a polícia federal ficar agindo diferente, porque no Brasil eu não consegui mais “molhar” outras mãos.

— Pensei que estivesse tudo certo, que o caminho estivesse livre… — Irina fez muxoxo de reprovação.

— Não está mais — Hank foi incisivo. — Agora eles estão caindo pra cima de qualquer suspeita de tráfico internacional de pessoas, trabalho escravo e essas coisas… Bléh! — ele fez uma careta.

— A gente consegue dar um jeitinho brasileiro — Irina debochou, com o sorriso duro. — Não é isso que eles fazem?

Hank deu de ombros.

— Aquela providência lá que você tomou… — Irina pegou uma mecha de cabelo e começou a brincar. E prosseguiu: — Como foi?

— É só um elemento atrapalhador que será meus olhos e meus ouvidos — Hank se limitou a dizer, com meio sorriso.

...****************...

ELA SEGUIA PELO aeroporto de Madrid, com uma mala de mão que a permitia carregar dentro da aeronave. O celular dela tocou.

— Fala, Hank — atendeu. — Eu já falei pra você que ia hoje, não falei?

— Posso saber o que você perdeu no Rio de Janeiro, Aura?

— Ué… — Aura jogou uma mecha de cabelo ruivo para atrás dos seus ombros. — Eu não posso dar uma passadinha na cidade maravilhosa que não visito há anos? Um momentinho de turismo?

— Eu te dei verba para ir direto pra Guarulhos — Hank sibilou. — De Guarulhos, pegar um carro e ir para São Paulo. E em São Paulo, ficar num hotel qualquer e esperar a porra do meu sinal verde. Qual foi a parte que você ainda não entendeu?

— E qual foi a parte do “eu quero fazer um turismo” que você não entendeu? Será que sou apenas a única que não entende nada aqui? Não fode, Hank.

Aura era a única mulher que batia de frente com ele. Deve ser porque os dois são irmãos por parte de pai e praticamente carregam o mesmo sangue. Ela nunca abaixa a cabeça para o mafioso e quase sempre vence pelo cansaço. Quase sempre, porque tinha momentos que também era preciso ceder. Não era louca de ficar brincando com a sorte o tempo todo, porque conhecia a natureza do homem.

No outro lado da linha, Hank respirou fundo.

— Quanto tempo você vai passar no Rio? — O tom de voz dele foi seco.

— Só três dias. Tá bom pra você?

— Eu que pergunto: tá bom pra você?

— Eu vou pra São Paulo, Hank — Aura revirou os olhos. — Vou passar três dias no Rio e em seguida corro para os Santos Dumont e pego uma ponte aérea. Satisfeito?

— Pelo menos isso.

— Agora para de encher o meu saco — Aura desligou na cara dele. — Inferno.

E foi andando até a ala de embarque internacional.

...****************...

HORAS DEPOIS, PEDRO Henrique desembarcou em Lisboa para fazer a conexão. Assim que tirou o modo avião do celular, recebeu uma mensagem de Carmem no WhatsApp — ela o pediu para fazer uma ligação. Pedro iniciou uma chamada de vídeo.

— Oi, mãe!

— Filho! — Carmem apareceu no vídeo de óculos para leitura. — Como foi a viagem?

— Foi tranquila. Ainda não cheguei no destino final, mãe. Falta o voo pra Barcelona.

— Ah, sim! Quanto tempo você fica em Lisboa?

— Umas três horinhas, só. É o tempo que vou tomar um café e comer algo.

— Muito bem. Faz isso mesmo! Seu pai tá aqui, vou mostrar ele… — Carmem se levantou do sofá e foi até a cozinha. Osvaldo parecia estar consertando a torneira. — Fala com Pedro, Osvaldo.

— Oi, filhão! — Osvaldo acenou com uma chave de grifo na mão.

— Oi, pai! Já tá fazendo conserto na casa? Essa ferramenta aí…

— Tô aqui ajeitando a cozinha. Sua mãe reclamou que tinha um vazamento de leve aqui…

— Na-não — protestou Carmem, rindo. — Pedro, seu pai tá exagerando. Eu só comentei que poderia estar vazando…

Pedro riu, enquanto seguia para a cafeteria mais próxima dentro do aeroporto.

...****************...

OITO HORAS DA MANHÃ seguinte. Hugo trancou o apartamento pela última vez, carregando uma mochila nas costas. Todos os seus pertences necessários para a viagem de férias estão no apartamento de Chiara. Ele soube por Tande que a organização do novo apartamento estava indo bem. Agora, era só voltar de férias e curtir o novo espaço, na cidade nova.

Ele foi andando devagar até o elevador, ainda olhando de relance para o apartamento que deixava para trás. Deixava para trás momentos únicos que viveu ali. As portas do elevador abriram, e não tinha ninguém. Ele entrou, mantendo o olhar fixo até que pudesse ver somente o elevador. Estava indo de forma permanente, até então, mas esperava voltar. Quem sabe um dia.

Chegando no térreo, Hugo andava com calma. Foi até o balcão, pousando o pequeno molho de três chaves. O porteiro da manhã deu-lhe um sorriso cordial, e ele conseguiu retribuir.

— Bom dia.

— Bom dia — o sorriso alcançou de leve os olhos de Hugo.

Ele passou pelo portão, parando na calçada. E se permitiu dar a última olhada, erguendo a cabeça, para o andar cuja janela era a do apartamento que um dia já foi seu. Hora de viver uma história nova.

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Comments

Cleide Almeida

Cleide Almeida

espero q Janine plañeje bem essa fuga;
e outra Pedro tomara ver pistas d janine

2023-10-08

2

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