Capítulo 9

O ALARME, QUE MAIS PARECIA uma sirene, tocou. Janine abriu os olhos, entorpecida ao olhar para o teto meio cinzento e azul. Não sabia definir exatamente a cor. Uma mensagem apareceu no monitor que fica no alojamento onde estava:

...FALTAM 1 HORA E 30 MINUTOS PARA O INÍCIO DO TRABALHO. É OBRIGATÓRIO ORGANIZAR O QUARTO. ESTEJA PRONTO (A). ...

Mais com má vontade do que grogue, Janine sentou-se na cama. Viu que algo havia chegado por uma espécie de “tubulação”, quando viu uma led verde indicando para abri-la. Levantou-se e foi até lá. Assim que abriu, encontrou: uma farda completa, um crachá com uma sequência de 4 dígitos, toalha com escova e pasta de dente. Um beep na TV chamou a sua atenção. Era uma mensagem:

...CONFIRME SE VOCÊ RECEBEU O KIT. ...

Na tela, tinha as opções “Sim” e “Não”. Janine confirmou ter recebido. Outra mensagem apareceu na tela:

...VOCÊ TEM 1 HORA E 30 MINUTOS PARA ESTAR PRONTA E SAIR PARA O CAFÉ DA MANHÃ. ...

Um contador regressivo substituiu a mensagem. O tempo começou a correr. Mais por necessidade do que desejo de obedecer a ordem, Janine pegou a toalha e foi ao banheiro.

...****************...

CHEGANDO NO REFEITÓRIO, ELA não conseguiu falar com ninguém. Ao observar em volta, chegou à conclusão de que era um batalhão de mulheres que estavam na mesma condição que a dela: reunidas numa espécie de complexo, parece um presídio de segurança máxima; todas ali usavam a mesma farda e um crachá de identificação numérica. Bizarro demais. Inspetoras robustas e fardadas andavam com um cassetete para repreender qualquer mau comportamento. Todas ali se limitavam a ficarem quietas. Estavam em pânico. Assim com o Janine, todas foram vítimas de uma enrascada.

Irina foi até o pequeno palanque e usou um megafone para falar.

— Bom dia, garotas… — seu tom era levemente debochado. — Como vocês podem notar, estamos com uma remessa nova para ajudar na superprodução da marca. E para poder celebrar essas boas-vindas, o café da manhã será especial: incluirá waffle, além do pão com manteiga e café…

— Cachorra — Janine rangeu os dentes.

— Shhh… — Foi a mulher ao lado de Janine que fizera o alerta. E sussurrou: — Se você tivesse falado mais alto ia parar na solitária.

— Silêncio, garotas! — Gritou uma das inspetoras. Irina tinha parado com o discurso, mas fingiu não se importar. A inspetora acenou para a mulher continuar falando.

— Eu avisei — a mulher recompôs a postura.

— …Então vocês têm exatamente 1 hora e 30 minutos para tomar o café da manhã — finalizava Irina. — Mais um turno, mais um dia vai começar. E vamos produzir, não é mesmo?

Silêncio.

— Não precisa me responder — emendou ela. — Gosto do silêncio e da ordem. Por ora, podem ir tomar café para não perdermos tempo.

A aglomeração ali se desfazia em ordem, controlada pelas inspetoras. Janine começava a se dar conta de onde havia chegado. Que tipo de escravidão moderna é essa que mantém alguém em cárcere?

Seguindo para a mesa, ela pensou no quanto a sua família estava preocupada. Seus olhos começaram a arder, deixando escapar uma lágrima. A ficha continuava caindo.

...****************...

— PEDRO HENRIQUE… — HANK LIA o arquivo que recebeu pelo e-mail. O levantamento que tinha solicitado chegou em menos de vinte e quatro horas. Franziu a testa, estudando os dados ali. — Então é você que viu uma fumaça, e acha que tem fogo…

O levantamento tinha tudo: o nome completo, endereço, telefone, ocupação na polícia federal. Ele ficou satisfeito com as informações que tinha em mãos.

— …mal sabe ele que o mesmo fogo pode queimar — concluiu Hank, que já sabia o motivo do rapaz ir ao aeroporto de Guarulhos: Janine foi dada como desaparecida no Brasil e ele seguia algumas pistas.

Hank pensou no fato da Irina e Ruy não terem se dado ao trabalho de deixar uma pista falsa, de modo que ganhasse tempo para Janine ficar longe do radar. Tinha dado certo com as outras. Não vai ser dessa vez que vai dar errado só por causa de um erro feito pelos subordinados e um investigador metido a competente. Precisava evitar que a polícia chegasse mais perto. Com a solução em mente, discou um número no telefone. A pessoa do outro lado da linha atendeu prontamente. Ele disse:

— Chegou a hora de você pagar o favor que me deve.

...****************...

— TENHO OUTRA PISTA — PEDRO Henrique entrou na sala de Alex, que estava digitando um relatório no computador. Faltava meia hora pra começar o plantão do dia. Assim que conseguiu a atenção do homem, completou: — Vou precisar ir à Barcelona só para ver a última vez que ela foi registrada pelas câmeras de segurança do aeroporto de lá.

— E você pretende ir quando?

— O mais rápido que puder — Pedro Henrique sentou-se na cadeira de frente com Alex. — Vou dar um pulinho lá e saber pelas filmagens se ela pegou um táxi ou um veículo particular.

— Eu ia te perguntar se seria mais fácil resolver tudo por aqui mesmo, mas imaginei que a colaboração à distância pudesse demorar um pouco — Alex disse, brincando com a caneta na mão.

— Exatamente. De fato, demora um pouco. Porque eles podem achar que é um desaparecimento qualquer e não dar importância.

— E o que seu faro tá apontando?

— Posso estar errado, mas toda essa história de oferta de emprego que é bastante tentadora lá fora… — Pedro franziu a testa e completou: — Ainda somado com o fato de que a garota não dá notícia há dias… Tem alguma coisa errada. Tráfico. Sequestro… Enfim. São várias hipóteses.

— Só indo à Espanha pra descobrir.

— É isso aí — Pedro assentiu com a cabeça, repetindo a frase de Alex com ênfase: — Só indo à Espanha pra descobrir.

— Providencia logo essa viagem — instruiu Alex. — Tem que ser curta.

— Deve ser curta — Pedro se levantou. — Ainda tenho muita coisa pra fazer por aqui. Vou nessa…

...****************...

HUGO ESTAVA SENTADO na poltrona, fazendo uma chamada de vídeo para Tande — seu amigo que mora em São Paulo. A tela do celular mudou assim que o rapaz atendeu:

— Amigo! — Hugo abriu um sorriso. — Quanto tempo, meu Deus…

— Eu que o diga, menino — Tande, um rapaz loiro de olhos cor esmeralda, retribuía o sorriso. — E aí, como vai a mudança pra cá?

— Tava uma bagunça, mas agora as coisas estão se ajeitando melhor… — Hugo mexeu no cabelo. — Depois das minhas férias, meu voo de volta está direto para aí!

— É mesmo? Que coisa boa…

— Vou chegar morando na grande São Paulo.

— Essa transferência foi uma loucura pra você, né? Aliás, está sendo.

— Garoto… Nem sei como tô conseguindo me desfazer da maioria das coisas que não vou poder levar. Eu vou precisar de uma organizer para dar um jeito no apartamento.

— Se você quiser indicação…

— Quero sim! E eu queria te pedir um enorme favorzão.

— Peça — Tande pousou a mão no queixo. No outro lado, estava na bancada da cozinha.

— Pode me ajudar com a mudança enquanto estiver fora? No caso, eu já designei duas pessoas para acomodar os móveis aí. A organizer vai fazer o serviço no meu quarto… Enfim. — Hugo deu de ombros e concluiu: — Você não vai precisar fazer muita coisa. Só ficar de olho mesmo.

— Mas é claro, meu amor! Só você me dizer como vai querer a acomodação que eu fico gerenciando direitinho.

— Ahhh — Hugo bateu as mãos uma com a outra. — Amigo, muito obrigado. Vai me ajudar tanto…

— Você sabe que pode contar comigo sempre, né?

— E obrigado por isso.

...****************...

HANK SEGUIA PENSATIVO em seu gabinete. Avaliava as possibilidades de surgir uma ameaça no meio do caminho. Desde a última vez que a Interpol havia chegado perto de farejar o seu pescoço — a fim de desbaratar o seu negócio —, aprendeu que a prevenção é melhor que o remédio. Havia folheado de cabo a rabo o levantamento que fizera de Pedro Henrique e o cara era perito em ajudar na derrubada de quadrilha. O último caso solucionado com sucesso foi o Narcotráfico, que não foi muito recente.

— Com licença, chefão… — Irina entreabriu a porta. — Vou entrando.

O homem a olhou com uma certa indiferença. Ainda estava submerso em pensamentos e ideias.

— Em doze horas as garotas dobraram a meta de produção do dia anterior. Foram mais de vinte e mil peças! Não é um barato isso? — Irina terminou de folhear o pequeno arquivo. — Agora faz mais sentido chamar outras garotas. Vou providenciar a ida ao Brasil já!

Houve um momento de silêncio.

— Chefe? — Irina franziu o cenho. — Você ouviu o que eu disse?

— Ouvi.

— Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu.

Irina não sabia o que era mais assustador em Hank: se era o tom seco na voz ou o tom incisivo quando estava com o ódio à flor da pele.

— Essa tal Janine tá começando agora?

— Agora mesmo.

— A Polícia Federal do Brasil tá querendo ficar no encalço da gente — disse ele, fixando o olhar em Irina.

— Eles tão chegando perto?

— Não. Mas pode chegar. Se isso não for resolvido logo.

— E como vai ser resolvido? — Devagar e atenta, Irina sentou-se na cadeira de frente para o chefão.

— Já consegui uma solução — Hank se manteve inexpressivo.

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Comments

Angela

Angela

eu aposto que o assassino de aluguel seja o Aron...ex do Hugo...tem toda pinta de psicopata 🤯😱😵‍💫

2024-08-20

3

Cleide Almeida

Cleide Almeida

aí é boca quente viu tomara q Pedro seja mto mas mto esperto e ñ s deixe enganar

2023-10-08

3

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