— AQUI, SENHOR — O RAPAZ entregou a lista completa de passageiros que embarcaram no voo para Barcelona. E um CD com as cópias das filmagens. — Mandei outra cópia pelo e-mail, porque vai ser necessário.
— Vai sim, claro — Pedro franziu a testa, folheando a lista. — Muito obrigado pela cooperação.
— Qualquer outra informação que esteja faltando e que seja necessária, pode vir até aqui.
Pedro Henrique bateu o olho no nome completo de Janine na lista, mas fechou logo em seguida para analisar com mais calma ao chegar em casa.
— Mais uma vez, obrigado.
Ambos trocaram um aperto de mão.
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— ELA NÃO ME LIGOU até agora — Eliza colocou a mão na têmpora, preocupada. Tinha acabado de largar o celular em cima da mesa. — Faz três dias que ela provavelmente chegou lá na Espanha. Era pra ter ligado…
— Pois é — Simone cruzou os braços, sentada no sofá, observando a aflição da amiga. — Nenhuma mensagem ela mandou até agora, gente.
— Não quero pensar que algo de ruim possa ter acontecido assim que ela chegou lá — Eliza soltou o ar.
— Deus me livre, garota — Simone se inclinou até a mesinha de centro. — Bate na madeira três vezes.
As duas fizeram o gesto simultaneamente.
— Mas daqui pra lá — Simone começou — é quanto tempo?
— Daqui pra Espanha?
— É.
— Então… — Eliza procurou se lembrar. — Ela me disse que faria conexão em Lisboa. De lá ia pegar outro voo para Barcelona.
— Ela conseguiu entrar no voo de Lisboa, então.
— Conseguiu. Ela me ligou assim que chegou lá, no aeroporto.
— Depois disso ela embarcou no voo para Espanha.
— Exato — confirmou Eliza. — Ela só me mandou uma mensagem que chegou lá na Espanha. Disse que me ligaria assim que estivesse na outra hospedagem.
— Então a polícia vai tentar ir atrás dela na Espanha — Simone deu de ombros.
— Pode ser. O detetive lá me perguntou o destino, e eu ainda tinha a foto da passagem que ela me mandou. Não sei porque guardei comigo.
— Mas ainda bem né, amiga — Simone se levantou do sofá, indo até a outra cadeira na mesa de jantar. — Tomara que achem essa menina logo.
A moça pegou na mão de Eliza, como quem conforta.
— Tomara, amiga — disse ela. — Tomara que isso seja só um susto, porque lá ela não conhece ninguém.
— Ela ia encontrar com quem lá?
— Com a pessoa que indicou a vaga.
Simone soltou o ar.
— A Janine também não conta as coisas por completo, sabe… — o tom dela era de frustração. — Essas coisas ajudam a gente a dar uma pista pra quando, infelizmente, acontecer um negócio desses.
— O problema não é contar tudo — começou Eliza. — E sim porque mal explicou quem estaria acompanhando ela nessa viagem. Não explicou muito bem se chegando lá na Espanha ia ficar num hotel ou direto pra casa do patrão ou contratante… Enfim.
— Eu achei essa parte mal contada, embora tenha entendido um pouco — opinou Simone.
— Também — Eliza ficou de pé. — Vem dar uma volta comigo na rua. Preciso tomar um ar.
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— OI, FILHO — CARMEM OBSERVOU Pedro Henrique entrar com algumas pastas e a mochila que sempre carregava nas costas. — Trouxe o trabalho pra casa hoje?
— Oi, mãe — Ele foi até o sofá, onde Carmem estava sentada. Na TV passava a novela das nove. Carmem era viciada em assistir novelas depois de cuidar da casa o dia todo. O rapaz beijou a mãe de criação no alto da cabeça. — Sim, hoje vou ter muito trabalho.
— É sobre aquela moça…
— É sim — Pedro seguiu em direção às escadas. — Vou indo.
— Não vai jantar?
— Não… — Pedro parou no pé da escada. — Agora não.
— Deixei sua comida no microondas. Tenta não dormir sem jantar, querido.
— Tá bom, dona Carmem — Pedro subiu as escadas, rindo. — Cadê o seu Osvaldo?
— Decidiu dormir cedo… — Carmem continuou assistindo a novela.
Pedro Henrique entrou no próprio quarto, deixando a mochila em cima da poltrona que ele usava para ler ou ficar sentado ali sem fazer nada. Foi até a mesa para acomodar as pastas. Ligou o laptop, sentando-se na suntuosa cadeira de trabalho.
— Janine, Janine… — Falou consigo mesmo, colocando o disco rígido na entrada de mídia do dispositivo. Queria analisar melhor as filmagens. — Por onde você anda… Sequestro, emboscada, falsa promessa de trabalho…?
Ele folheou mais uma vez a lista impressa de passageiros que embarcaram no voo para Barcelona, com conexão em Lisboa. Em Portugal certamente não aconteceu nada. Eliza disse que a moça entrou em contato para avisar que chegou bem por lá, e que esperava outro voo. Seu sumiço ficou nítido quando ela prometeu avisar que chegou bem na hospedagem.
Em Barcelona, ela havia feito seu último contato para familiares e amigos — no caso, Eliza. Depois disso, sumiu.
— Janine de Freitas Almeida — Pedro começava a escrever em seu bloquinho de anotações as pistas que precisava seguir. — Por onde você foi parar na Espanha…
E quando chegasse lá, qual seria a próxima pista?
— Vou precisar da cooperação de lá também — ele ainda falava sozinho num tom seco. Soltou o ar, completando: — O jeito é atravessar o Atlântico.
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HUGO ESTAVA NA MESA da cozinha, escrevendo no seu bloquinho. Observava o próprio apartamento ficando cada vez mais vazio. Estava chegando o dia de deixar esse lugar para trás, de vez. A viagem de volta será diretamente para São Paulo.
Não sei o porquê, mas tô numa mistura de ansiedade, empolgação e preocupação. Sei lá. Acredito que quando a mudança parte de si — quando você decide não morar mais naquele lugar… seja apartamento, um bairro, uma cidade ou até mesmo um país —, as coisas são relativamente fáceis. Mesmo que o baque da mudança venha depois, você mesmo quis que ela acontecesse — uma vez que já estava dentro do planejamento. O que não é o meu caso. Eu queria mudar de cargo, mas acabei tendo que mudar de cidade. Foi de repente. Foi algo que atravessou meu caminho. Não contava em deixar meu apartamento, se desfazer de algumas coisas para poder comprá-las em outra cidade. Não, não estou arrependido de ter feito a sequência de testes que me fez ser aprovado na nova função. O que me assusta um pouco é o fato de não conhecer São Paulo como gostaria. É tudo novo pra mim. Ao mesmo tempo que fico preocupado com a minha adaptação, fico excitado — empolgado, no caso — para sentir esses novos ares. Agora o Rio de Janeiro vai ficar como visita curta ou prolongada. A cidade onde nasci também. Não vejo a hora de dar um pulinho em Fortaleza pra ver como estão as coisas por lá. Preciso aproveitar essa viagem, porque quando eu voltar… O trabalho vai ser duro. Investigação. Caso novo. Burburinho pra cá, outro pra lá. A coisa pode tá ficando séria. Não sei, e não vou afirmar. Só preciso viver uma coisa de cada vez agora, pra não aumentar a ansiedade e estragar meu psicológico. Primeiro: me desfazer do apartamento de vez. Segundo, porque está mais perto: minha viagem de férias. A primeira coisa vai ser um pouco dolorida, mas a viagem pode amenizar. É isso.
Hugo colocou a caneta ao lado do bloquinho. Ainda pensativo, apoiou-se sobre os braços que estavam pousados em cima da mesa.
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HANK ESTAVA EM SEU GABINETE, analisando o faturamento que foi entregue conforme havia solicitado. As produções da tecelagem ficavam mais aceleradas, analisou. A remessa de garotas que haviam entrado recentemente fizeram um bom trabalho. Ele, por um momento, analisou se deveria aumentar o valor por peça produzida. Rindo, balançou a cabeça. Não vai aumentar.
Ele gostava de ver o desespero interno das garotas em querer pagar a dívida que fizeram para estarem envolvidas com o trabalho escravo. Hank era sádico.
Atualmente, ele pagava as garotas apenas 1 euro, mas descontava no valor total das produções o que cada uma devia — passagem, hospedagem e alimentação. O valor líquido que as garotas recebiam no final era uma mixaria.
Ou seja, cada uma das garotas produziam de 30 a 60 peças por dia. Não eram peças simples, porque a marca de Hank é uma das maiores no quesito qualidade em tecido. Elas ficavam com a metade do valor ou até menos, dependendo do tamanho da dívida. E isso acontecia todo dia.
Satisfeito, salvou o faturamento da semana em seu arquivo. O telefone tocou.
— Alô — seu tom era seco.
— Senhor?
Hank soltou o ar. Sabia quem era. A ligação vinha do Brasil.
— Aconteceu alguma coisa?
— Estava fazendo aqui a segurança do aeroporto e vi a Polícia Federal procurando o rapaz que faz o monitoramento.
— A polícia foi até aí? — Hank franziu a testa.
— Não. Foi um rapaz. Investigador, parece.
— Parece não, seu imbecil. É um investigador. Você viu um distintivo?
— Sim, senhor.
— Você foi procurar saber o que ele queria com esse rapaz?
— Fazer um levantamento da lista de passageiros do voo até a Espanha. Ele conseguiu a lista e uma cópia das filmagens.
Hank ficou em silêncio. Precisava agir, agora.
— Você sabe o nome desse investigador?
— Acabei de descobrir.
— Quero um levantamento completo.
— Sim, senhor.
— Para de me chamar de senhor.
Ele colocou o telefone de volta no gancho. Pegou o charuto que ainda estava aceso, dando-lhe uma tragada. Soltou a fumaça pelo nariz, o olhar enigmático.
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Cleide Almeida
afff espero q Pedro vá disfarçado pelo menos 🤔😔 pq essas cobras tem olhos em tds lugares
2023-10-08
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