IRINA ABRIU A PORTA DE AÇO. E com a própria lanterna, decidiu inspecionar o alojamento onde estava a novata brasileira. O quarto ficou bagunçado, porém não muito — observou. A mulher tinha dado um escândalo depois que soube da verdade. Faz parte, ponderou Irina. Era preciso saber da verdade o quanto antes. Porém a moça surtou e deixou o próprio alojamento bagunçado.
Passando com a lanterna até a cama, viu Janine adormecida. A água batizada fez efeito. Foi até a mesinha de cabeceira e levou a garrafa de plástico. Voltou à porta, fechando atrás de si logo em seguida. E girou a chave para manter a mulher presa ali.
Chegando no armário que fica dentro do seu escritório, abriu um escaninho que continha a identificação numérica de Janine. Pegou o celular confiscado da moça, já sabendo como desbloquear o aparelho. Conectando na rede Wi-Fi, Irina conseguiu ver uma quantidade grande de notificações chegando pelo WhatsApp. Alguém já estava preocupado com a jovem.
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— ESPANHA? — ALEX BRINCAVA COM a caneta entre os dedos, enquanto conversava com Pedro Henrique na sua sala. O rapaz atualizava sobre o progresso no caso.
— Barcelona. Pra ser mais preciso. — Pedro olhava para o nada, pensativo. — Espanha é um dos países que concentram o trabalho escravo. É uma pista a ser seguida.
— Uma pista que pode levar a gente dar um tiro no escuro — ponderou Alex. — Mas só temos isso.
— Podemos arriscar.
— Indo pra Espanha?
— É. Pode ser que apareça outra pista.
— A gente pode começar indo pro aeroporto de Guarulhos — Alex ajeitou-se na cadeira. — Vamos procurar saber primeiro se ela viajou sozinha ou acompanhada… Ou quem estava seguindo desde o momento do embarque…
— Muita coisa pra se considerar.
— Exato. Você vai, né?
— Claro — Pedro Henrique deu de ombros. — Tenho uns contatos da Segurança de lá.
— Consegue uma lista de passageiros que embarcaram nesse voo pra lá.
— Essa não vai ser difícil — Pedro Henrique bateu uma vez com a ponta da caneta na mesa, como que ressalta algo. — Eu consegui o voo exato que Janine embarcou.
— Como?
— Janine mandou print da passagem aérea para a moça que conversei lá… — Pedro Henrique estalava os dedos pra se lembrar do nome — Eliza, o nome dela. Daí ela vasculhou no celular pra confirmar que a moça foi pra Barcelona.
— Boa menina.
— Foi um achado e tanto. Me livrou de mais trabalho.
— E depois?
— Depois… — O rapaz organizava a linha de pensamento. — Eu vou me arriscar a dar um tiro no escuro.
— Você vai pra Barcelona.
— Tenho que ir — Pedro fez uma pausa. — Preciso saber se alguém viu a moça desembarcando e para onde foi. Se pegou um táxi ou foi na companhia de alguém…
— Eu tenho alguns contatos naquele aeroporto pra facilitar a sua ida. Ir direto pra pista, no caso.
— Se conseguir algo, pode me sinalizar — Pedro Henrique se levantou. — Vou a Guarulhos.
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— MUITO OBRIGADO — O RAPAZ claramente havia adorado a TV que acabou de comprar. Hugo conferiu a quantia que recebeu pelo pix. — Tudo certo aí?
— Tudo certo, sim.
— Essa TV parece que saiu da loja de tão conservada. Novinha, novinha… — o rapaz elogiou. — Você usou bem pouco, né?
— Infelizmente uso pouco a TV, por conta do trabalho… — Hugo deu de ombros.
— Imagino. Então, vou indo nessa. Valeu aí!
— Valeu… — ele acenou. O rapaz seguiu viagem.
Chegando de volta no apartamento, viu uma chamada de vídeo esperando ser atendida.
— Joyce… — Hugo pegou o celular, lendo o nome da irmã. Deslizou o dedo na tela, dizendo: — Oi, mana!
— Oi, meu anjo — Joyce soprou um beijo no outro lado da tela. — Tudo pronto pra viagem?
— Tá uma bagunça por aqui, tô me desfazendo de tudo… Olha só — Hugo mostrou a irmã fazendo um giro de 360 graus.
— Tô passada com o vazio que tá aí.
— Pois é, menina.
— Vai entregar a casa e vir direto pra cá?
— Exato. Já deixei algumas coisas minhas na casa da Chiara, que é minha amiga. Coisas da viagem mesmo.
— Ah, sim. E o apêzinho novo?
— Já mandei algumas coisa pra lá… — Hugo coçou a nuca. — Gata, quando eu penso na zona daqui e de lá… Fico logo com preguiça.
— Eu imagino. E não queria estar na sua pele, viu…
— Queira não, garota
— Mas e aí? Já fez a despedida de contatinho?
— Palhaça — Hugo riu. — Não tem contatinho nenhum.
— Sério?
— Sério.
— Amado… — Joyce apoiou a cabeça na mão. — Tô passada.
— Pois é.
— E aquela praga lá que não vou dizer o nome… Sumiu mesmo?
— Mana, eu tive o desprazer de encontrar essa criatura na mesma praia — Hugo contou com naturalidade. — Foi um dia desses…
— Que canalha, viu — Joyce se movimentava. Parece ter ficado de pé. E disse: — Pois eu espero você aqui no fim de semana, tá?
— Tá bom, meu amor, tô praticamente de malas prontas.
— Vou te buscar no aeroporto.
— Aí eu aproveito e te conto as novidades no caminho.
— Eu vou amar saber tudo — Joyce olhou para o lado, acenando. Olhou novamente pra tela. — Mano, tô indo. A gente se fala depois. Beijo.
— Outro, baby — Hugo soprou um beijo. Ligação encerrada. Ele sentiu o coração ficar mais quentinho com aquela conversa trivial.
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— PRECISO DE MAIS GAROTAS — Hank encarava Irina e Ruy, que estavam ali no seu gabinete sentados de frente para ele.
— Onde e quando? — Ruy perguntou num tom seco.
Irina encarou Ruy, como quem pede para ter cuidado.
— Brasil. Logo. — Hank retribuiu o tom, fuzilando o rapaz com os olhos.
— Mas a gente já pegou duas brasileiras recentemente — Irina ponderou.
— Você tem alguma sugestão melhor do que a minha?
O tom de escárnio fez a moça recuar um pouco.
— Ué — ela deu de ombros. — Que tal umas japonesinhas a mais? Elas trabalham duro…
Hank apenas balançou a cabeça para os lados acompanhada de uma leve expressão de desprezo, como quem descartava tal ideia.
— Tá bom — Irina continuou. — Vamos voltar pro Brasil então, né? Hum?
— Sinceramente… — Hank pegou uma caneta, começando a brincar na mesa. E continuou: — Qual é o problema, Irina?
— E se a gente tiver sendo observado? Todo cuidado é pouco…
— Tá sabendo de alguma coisa que eu não sei?
— Não. Tô sabendo de nada.
— E qual é o problema?
— Não tem problema nenhum… — Irina se levantou, começando a andar para os lados pelo gabinete. O tom era um pouco mais incisivo. — A gente só precisa mudar os ares pelo Brasil. Rio de Janeiro e São Paulo tão dando muito na vista…
— E você acha isso? — Ruy observava a colega agora, virando-se levemente na direção dela. — Porque eu, particularmente, não fico nenhum pouco preocupado…
— Porque você manda dar um chá de sumiço né, Ruy? É por isso que não fica preocupado. E acaba deixando passar alguma coisa.
— E eu deixei passar alguma coisa, Irina? — Ruy cruzou os braços, recostando na cadeira. — Deixei?
Hank observava agora os dois subordinados discutindo entre si, esquecendo a sua presença. Até que achava aquilo um barato.
— Não deixou. Mas corre risco de deixar se ficar escolhendo o eixo Rio-São Paulo, seu imbecil. Tem que variar.
— A gente tá tendo problema, Irina? Repito a pergunta do chefão aqui: Tá sabendo de alguma coisa? Responde “sim” ou “não”.
Irina soltou o ar.
— Não.
— Então não viaja, porra — concluiu Ruy.
Hank estava ponderando. Irina, por um momento, lembrou-se da presença de Hank e voltou a se sentar.
— Irina tem razão — ele começou. — Pra resolver esse problema vai ser bem simples: vão para o Nordeste. Fim de papo.
Irina assentiu com a cabeça, concordando com a ideia.
— Quando a gente vai?
— Próxima semana, talvez… — Hank ponderou. — Eu aviso.
— Tá bom, então — ela deu de ombros. Fez menção de se levantar.
— Mais uma pergunta — Hank a parou.
— Pois não?
— Você olhou a novata?
— Olhei… — Ela ficou de pé. — Deu um pouco de trabalho, mas amanhã mesmo ela começa a pegar no batente.
— Batizei a água da garota… — Ruy falou num tom debochado. — Deve tá no sétimo sonho.
— Pesadelo, né… — Irina riu, saindo da sala.
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PEDRO HENRIQUE ENTROU no aeroporto de Guarulhos, já seguindo na direção onde queria chegar: o setor de Monitoramento e Segurança. Ele foi na ala de Embarque Internacional. Primeiro, ele foi na Segurança — que fazia a vistoria das bagagens e dos passageiros. Encontrou o primeiro agente, mostrando o distintivo. O rapaz assentiu com a cabeça.
— Posso ajudar em alguma coisa, senhor?
— Preciso falar com alguém responsável pela ala de Monitoramento e Segurança — Pedro Henrique repousou o distintivo no peitoral.
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NÃO FOI DIFÍCIL SER conduzido até o local, Pedro Henrique avaliou. Agora, ele analisava as filmagens salvas pelas câmeras de segurança. Primeiro, na entrada do aeroporto — viu uma figura parecida com Janine seguindo para a ala de voo internacional; segundo, para a segurança e imigração — nada suspeito, a mesma figura havia passado de forma tranquila; agora, na sala de embarque — entrou no voo com destino final à Barcelona, com conexão em Lisboa. Dava pra observar nitidamente o nome da cidade.
— Consegue me confirmar que companhia aérea é desse voo aqui?
O rapaz do monitoramento repassou a informação. Pedro Henrique assentiu com a cabeça.
— Quero uma lista de passageiros desse voo. Com quem eu consigo?
— Eu posso conseguir para o senhor em minutos — o rapaz disse.
— E quero uma cópia dessas filmagens também.
— Pode deixar — o rapaz pegou o telefone, discou para um ramal, e começou a falar com alguém da companhia aérea em questão. Ele assentiu com a cabeça e pousou o telefone no gancho: — Daqui a dez minutos, no máximo, essa lista chega aqui.
— Beleza. Eu espero aqui, caso não se importe.
— Fique à vontade — o rapaz ofereceu a cadeira ao lado.
— Obrigado — Pedro sentou-se.
— É um caso de desaparecimento, senhor? — O rapaz perguntou, apressando-se em completar: — Se não se importar em responder, claro.
— É sim — Pedro olhou para um ponto entre a tela de monitoramento e a mesa de controle. — Desconfio que seja mais do que um desaparecimento qualquer…
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Cleide Almeida
ainda bem q Pedro Henrique é bem esperto viu É q tá achando provas e sinais do desaparecimento d janine
2023-10-08
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