— JÁ ENTREGOU O apartamento? — César Junqueira, o Delegado Titular da Polícia Federal do Rio, foi até a mesa de Hugo. Ele tinha feito a pergunta num tom de brincadeira.
— Ainda não… — Hugo respondeu num tom seco, porque estava concentrado. Digitava algo no computador. — Só neste fim de semana.
— Mas já?
— Porra, César — Hugo deu uma risadinha e continuou: — Eu recebo um Ofício de Transferência logo nos quarenta e cinco do segundo tempo, antes de sair de férias… E eu já tenho logo data marcada pra me mudar, me desfazer de tudo aqui… Tá uma bagunça!
— Mas tá tudo indo bem?
Hugo notou uma leve preocupação no tom de voz dele.
— Tá sim.
— Tem certeza?
— Mas é claro — Hugo enfatizou. — No começo foi tudo uma bagunça, mas com sorte eu consegui me desfazer de bastante coisa. O resto vai ser com o caminhão de mudança.
— Já conseguiu apartamento e tudo lá em São Paulo?
— Graças a Deus. Só vou me preocupar em arrumar o apartamento todo quando voltar.
— Por que não contrata uma Organizer de lá?
— Eu preciso deixar alguém encarregado… Peraí — Hugo teve um insight. — Você acabou de me dar uma ideia.
Hugo pegou o celular, anotando no bloquinho o que exatamente pretendia fazer. Lendo, ele notou que a ideia pode ficar bem melhor na prática. E sorriu.
— César, meu amor, você é um gênio!
Ele pegou o rosto do Delegado com as duas mãos, beijando-lhe a testa.
— Tá bom, tá bom, tá bom… — César riu, mas afagou os ombros do rapaz. Mudou de assunto: — Eu preciso falar uma coisa muito séria sobre essa mudança.
Hugo se recompôs.
— Diga.
— Você vai entrar num caso que pode ser delicado.
— Delicado como?
Ambos se sentaram nas cadeiras.
— Eu não sou de ficar deduzindo — continuou César —, mas um desaparecimento bem suspeito caiu nas mãos da PF de lá. Provavelmente você vai lidar com Tráfico Humano.
— Como foi que você soube disso?
— Não é certeza. Pode ser ou não. — César levantou a palma da mão. — Mas uma coisa é certa: seja qual for o caso, você vai ajudar.
— Entendi o recado.
— Não posso falar mais nada.
— Tá bom — Hugo deu de ombros.
Aquele assunto estava prestes de alugar um apartamento na cabeça dele.
...****************...
— VOCÊ VAI SEGUIR a pista, então. — disse Alex. Os dois terminaram de almoçar num bistrô. Pedro acena para o garçom mais próximo.
— Pois não?
— Poderia me trazer a conta, por favor?
— Claro. Um minutinho.
O rapaz saiu.
— Sim, vou seguir — Pedro afirmou. — Daqui a pouco vou no endereço que a mãe da desaparecida me entregou. É uma amiga mais próxima, que provavelmente pode me responder algumas perguntas.
— O esperado é que as respostas ofereçam um norte para esse caso.
— Exato.
— Quanto mais cedo você descobrir uma pista, por menor que seja, melhor.
— Tô ligado.
O garçom trouxe a conta. Eles pagaram meio a meio e com um acréscimo de dez por cento, para o rapaz. Saíram do restaurante.
— Então é isso — Alex foi em direção ao seu carro. — Vai fazer externa agora, né?
Pedro tirou o papelzinho no bolso da calça.
— Vou nesse endereço aqui. Procurar uma tal de Eliza.
Também entrou no carro.
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HUGO ESTAVA NUMA sala de descanso. Assistia a alguns vídeos no YouTube sobre o Tráfico Internacional de Pessoas. Ele notou que o ponto em comum em vários casos é a falsa proposta de trabalho, fora do Brasil, com promessas tentadoras: um retorno financeiro rápido, com ganhos altos. As vítimas de tráfico humano podem ser subestimadas ao trabalho escravo de qualquer seguimento, sendo mais comum a prostituição.
Ele leu um caso recente sobre o trabalho escravo na indústria têxtil: uma vítima foi submetida ao trabalho escravo como costureira, chegando a ganhar apenas 2 dólares por peça produzida e trabalhando durante 16 horas por dia. Quando foi resgatada, estava à beira de uma exaustão.
Entretido no vídeo, recebeu uma notificação no aplicativo de compra e venda: mais um produto saindo. O cliente quer combinar a retirada de outro móvel no seu apartamento.
— CÉSAR? — Hugo entreabriu a porta, parado na soleira. O delegado se limitou a erguer um pouco a cabeça, olhando o rapaz. Ele estava folheando uma pasta grossa.
— É importante? — O tom dele foi de brincadeira.
— Posso dar uma saída para resolver uma coisa? É do apê.
— Tá fazendo alguma coisa de importante agora?
— No momento, não.
— Tira uma tarde de folga. Te libero, vai.
— Obrigado…
Hugo saiu. César voltou à análise.
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— É AQUI… — PEDRO HENRIQUE estacionou o carro em frente à loja que batia com o endereço no papel. Com cuidado, naturalmente, saiu do veículo e subiu os três degraus com acesso ao estabelecimento.
Era uma loja de roupas femininas. Uma boutique, para ser mais exato.
Foi olhando para as peças nas araras espalhadas logo na entrada. No meio, tinha peças amontoadas uma na outra com um cartaz enorme escrito “PROMOÇÃO: TUDO POR 9,99.” Achou interessante.
— Boa tarde… — uma moça de estatura mediana veio atender com um sorriso simpático. — Posso te ajudar?
— Pode sim — Pedro sorriu de volta, mas não chegou até os olhos. — Estou procurando por Eliza… Trabalha aqui?
— Ela está logo ali, no balcão.
— Obrigado. Com licença…
Ele foi até o balcão de atendimento, onde tinha apenas uma moça — morena, de cabelos ondulados; tinha acabado de finalizar um atendimento.
— Volte sempre… — disse ela. Assim que olhou Pedro na sua frente, o tom era cordial: — Pois não?
— Eliza?
— Sim… — A moça franziu a testa. — Posso te ajudar em alguma coisa?
— Sim, pode — Pedro exibiu o distintivo de Investigador da Polícia Federal. — É sobre o desaparecimento de Janine — fez uma pausa dramática e concluiu: — Janine de Freitas.
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— PRONTO, ESTÁ ENTREGUE. — Hugo acompanhou a retirada do sofá que tinha acabado de vender. O cliente solicitou o frete por conta própria.
— Muito obrigado pelo bom negócio — o cliente era um homem de meia idade, que lhe oferecia a mão como cumprimento. Hugo retribuiu. — Minha esposa vai adorar esse sofá. Lindo demais.
— Tenho certeza que sim — Hugo apenas sorriu.
— Tudo certo com o pagamento?
— Certinho.
— Então vou indo nessa… — O homem se afastava. — O rapaz do frete é meu amigo e ele ainda tem uma rota pra seguir. Valeu aí!
— Valeu… — Hugo acenou.
Com as mãos no bolso, soltou o ar. O caminhão acabara de dar partida. Ficou parado ali por meio minuto, olhando o movimento calmo da rua.
— Hugo?
Ele se virou. Ficou meio estático ao saber quem havia chamado o seu nome.
— Você?
David, até então amigo de Aron — seu ex — estava ali parado. Ele também estava surpreso e carregava um pouco de tensão — como quem queria dizer algo.
— Tem um minuto para conversar?
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Cleide Almeida
acho q David veio alertar o.hugk do psicopata do amigo dele
2023-10-07
7