Capítulo 19

IRINA APRESENTOU A MARCA de Hank — a Hanks & Co. — desde o começo até o crescimento evidente no mercado e suas “ramificações”.

— Nós temos uma sede em Paris, Itália, Holanda e queremos inaugurar uma no Brasil — ela andava pelo palco com certo carisma, articulando bem a voz. — Por isso que abrimos uma grande seleção para preencher o quadro de funcionárias. Então, falando melhor sobre o cargo de Costureira Industrial…

No auditório, o coração de Camila martelava no peito e a mente fervilhava com as possibilidades de ajudar a família com o salário. Quanto mais Irina falava, mais ela tinha o desejo de ser selecionada. Atenta, soltou o ar devagar — mantendo o autocontrole.

— Agora, vamos fazer uma dinâmica em grupo para aliviar melhor a tensão de todas — Irina foi até uma mesinha e pegou um marcador para quadro branco, continuando: — Quero que todas façam um semicírculo aqui, na minha frente.

Assim que as meninas fizeram um semicírculo, Irina pegou os currículos recebidos na triagem. Deixou a papelada na reserva, ali. Ergueu o marcador — vulgo pincel — para que todas prestassem atenção.

— Cada uma de vocês vai dar uma característica para este objeto aqui — começou. — Mas vai funcionar da seguinte forma: por exemplo, eu dou uma característica ou definição para este objeto e passo para a próxima, que vai repetir o que eu disse e dar outra característica… Enfim. Vocês entenderam?

Todas assentiram com a cabeça, um pouco curiosas com a dinâmica.

— Eu começo… — Irina sorriu. Por um instante, parecia que ela não tinha intenção nenhuma de selecionar alguma delas para o trabalho escravo a um oceano de distância. — Este pincel é útil.

Passou para a próxima candidata. Camila ficou ansiosa, esperando a sua vez — era a terceira. Assim que chegou nela, ditou as três características já ditas e acrescentou mais uma. Foi uma dinâmica engraçada, até.

A próxima etapa, que é a eliminatória, foi a entrevista em grupo. Irina chamou o nome das candidatas aleatoriamente. Camila foi a quinta candidata chamada e a entrevista ocorreu bem — Irina perguntou sobre a disponibilidade, com quem ela morava, e pediu para descrever a experiência que ela possui com máquina de costura industrial.

— Bem… — Irina levantou-se. — Vocês vão receber um e-mail com o resultado positivo ou negativo dentro de até sete dias. Muito obrigada pela participação de vocês.

As garotas saíram. Irina dispensou a recepcionista freelancer. Eles preferiram tomar a decisão dentro do escritório, no galpão. Ruy analisava as fotos, até que pegou uma de Camila.

— Essa aqui — ele mostrou a ela.

— Ela? — Irina franziu a testa. — Camila?

— Isso mesmo. Ela tem boa experiência. Ela é boa. Pelo que eu vi, tá desesperada pra arrumar trabalho.

— Também notei — Irina concordou, pegando a foto. E disse, com escárnio: — De gente desesperada, eu gosto.

...****************...

HANK RECEBEU AS FOTOS das candidatas pré-aprovadas por Ruy e Irina. Das dez, ele só queria escolher cinco. Passou rápido até chegar na foto de Camila. Logo de cara, ele gostou. Ele ligou para Irina, colocando no viva-voz.

— Irina?

— Viu as fotos?

— Vi sim. — Ele deu zoom na foto de Camila. — Qual o nome dessa garota mesmo?

— O nome dela é Camila. Tem vinte e seis anos.

— Interessante — ele passou as fotos para o lado. — Seleciona essas cinco aí que te mandei. Vou precisar vender algumas delas.

— Vai vender? — No outro lado da linha, Irina ficou surpresa.

— Claro — Hank deu de ombros enquanto girava na cadeira. — Você sabe que as meninas são moeda de troca para alguns conhecidos nossos.

— E qual critério você usou dessa vez? Beleza ou experiência na área?

— Os dois — Hank parou, brincando com a caneta. — Nunca se sabe qual o ramo da oferta irrecusável que vou receber.

— Entendi — Irina brincava com uma mecha de cabelo, perguntando: — Quanto tempo a gente vai ficar por aqui?

— Tô pensando num jeito diferente pra fugir de qualquer suspeita — Hank ponderou. — Enquanto isso, esperem mais um pouco para chamarem as garotas.

— Hum… — Irina assentiu com a cabeça.

— E quero que me faça um favor.

— Diga.

...****************...

AURA ANDAVA DEVAGAR, pela calçada. Parou em frente à delegacia, batendo com o endereço que Hank havia lhe passado. Ficou ali, olhando discretamente, sob os óculos escuros. Seu celular tocou. Assim que viu quem era, fez muxoxo de reprovação.

— Qual foi, Irina?

— Hank me pediu pra garantir a ele que você não está fazendo nenhuma besteira — disse ela, no outro lado da linha, seca. — Tá fazendo alguma besteira, Aura?

— Mesmo que eu tivesse fazendo, nem você e muito menos ele vão poder fazer algo — Aura deu de ombros, o tom sarcástico. — Esqueceu que você tá no Nordeste?

— Não, querida, não esqueci — Irina rebateu o sarcasmo. — Eu só não quero ser perturbada enquanto tô aqui garantindo mais uma remessa para crescer o faturamento.

— Ah, tá.

— Onde você está agora em São Paulo?

— Tô na frente da Delegacia que ele me pediu pra vir outro dia. Só que eu não tô fazendo nada. Garante isso pra ele, faz favor. E não enche meu saco.

Aura desligou. Deu uma última olhada, seguindo o próprio rumo.

...****************...

PEDRO HENRIQUE CHEGOU no hotel que Janine tinha passado pela última vez. Foi até um rapaz que, certamente, é o recepcionista do hotel.

— Boa tarde — Pedro deu um sorriso cordial.

— Boa tarde — o rapaz retribuiu. — Você fez alguma reserva neste hotel?

— Não, não. Eu só preciso tirar uma dúvida contigo.

— Pois não?

— Você sempre trabalhou durante esse horário?

— Não. Mudei há exatos três meses — o rapaz franziu a testa. — Posso saber o motivo da pergunta?

Pedro Henrique tirou a foto de Janine do bolso da jaqueta, colocando discretamente no balcão.

— Você consegue se lembrar dessa moça?

— Hum… — O rapaz franziu a testa ao olhar para a foto. — Eu me lembro dela sim. Passou por aqui e saiu aproximadamente duas horas depois, e fez checkout.

— Duas horas depois e fez checkout? — Pedro Henrique inclinou a cabeça para o lado, observando o rapaz.

— Achei incomum, mas pelo menos a hospedagem estava paga.

— Consegue me dizer se foi paga em dinheiro ou cartão?

— Primeiro, eu preciso saber quem é você.

A expressão de Pedro Henrique era enigmática agora. Tirou um bolo de dinheiro, em euros, colocando na mão do rapaz.

— Eu sou detetive particular — falou ele, num tom cadenciado e firme, sem esboçar reação. Parecia perigoso. — Essa moça desapareceu por aqui. Preciso achá-la.

O rapaz pegou o bolo de dinheiro e guardou no bolso.

— O que você precisa saber… — agiu naturalmente.

— O nome que ela usou para se registrar. Janine de Freitas. Olha aí se confere, por favor, na data de… — Pedro mencionou a data da hospedagem dela.

O rapaz digitou algo no computador.

— Achei — disse. — Janine de Freitas.

— Tem a forma de pagamento?

— Foi em espécie.

— Hum… — Pedro tamborilou com os dedos no balcão. — Consegue me mandar essa lista por e-mail?

— Você tá me colocando em risco… — o rapaz olhou para os lados.

— Por favor… — Pedro colocou mais um bolo de dinheiro, discretamente, na mão do rapaz.

— Me dê um minuto — ele guardou o bolo de dinheiro no bolso. Era equivalente ao salário dele.

...****************...

O SOL DESAPARECIA NO HORIZONTE, enquanto Hugo andava sozinho pela beira do mar. As ondas quebravam em seus pés descalços, a brisa tocava em seu rosto. Logo avistou um casal na areia, sentados e trocando carinhos. Lembrou-se de Luís, e do quanto o lance entre eles teve que acabar rápido. A primeira vez, foi a viagem de mudança para o Rio que Hugo teve de fazer. A segunda, a mudança de Luís para Lisboa.

Embora tenha ficado um pouco frustrado, porque — ao que parece — sua vida amorosa era oito ou oitenta, Hugo permaneceu tranquilo. Ele se lembrou do quanto gostava de Luís e era recíproco, mas o ritmo da vida deles não podia desacelerar por causa de um romance que era incerto. Se for para ser, o destino pode promover outro reencontro — desta vez, pela Europa.

Hugo nem se deu conta do quanto caminhou pela areia. O sol já se pôs. Sobrou o céu ainda alaranjado. Ficou ali, parado, pensando nos próximos dias de férias… Se valia a pena viajar para outro estado ou até mesmo dar um pequeno giro pela Europa… porque tinha um bom dinheiro pra isso.

— Hugo?

A voz familiar o tirou das abstrações. Quando ele se virou para conferir quem era, o coração amoleceu.

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