06 • Gesto Simples

...POV Victoria ...

Naquela que foi uma das piores noites de minha vida, me senti um lixo. As palavras de Matt me fizeram desejar voltar correndo para casa, pois aquele não era o meu mundo, aquelas pessoas jamais seriam minhas amigas. Ele agiu como um animal e quase conseguiu o que queria, talvez tivesse realmente acontecido se eu não tivesse batido em sua cabeça com o abajur, deixando-o para trás quando obriguei minhas pernas a sair correndo daquele quarto, ainda ouvindo sua voz me chamando de vadia, ridícula, idiota, entre tantas outras palavras que giravam em minha mente.

Quando o dia já amanhecia eu ainda estava acordada e talvez quando Kris levantou eu tenha conseguido cochilar por alguns minutos, mas foram breves e ao abrir os olhos lembrei que tinha combinado de ir ao shopping com as meninas. Claro que eu queria desistir e ficar o mais distante possível de todas aquelas pessoas que pareciam não ter sentimentos, mas ao pensar melhor decidi que não ia deixar de viver pela falta de coração alheio, eu ia sim sair com elas e me tornar alguém diferente, ao menos por fora.

Assim como Ashley propôs, no dia anterior, eu faria sim uma mudança permanente. Estava cansada das piadas, os risos e as pessoas brincando comigo apenas por meu exterior aparentar diferença ao que eles estavam acostumadas a ver ali. Nunca passei por aquele tipo de coisa antes porque sempre frequentei escolas para moças onde o uniforme era padrão e apesar de feio, ninguém podia reclamar. Na igreja, todas as moças se vestiam assim como eu, então não havia lugar algum que eu frequentasse onde as moças vestissem roupas curtas e provocantes, não havia rapazes com cantadas ou piadas, era um mundinho que me sufocava por um lado, mas naquele momento eu via que me mantive protegida dentro dele e ao sair comecei a sentir as pancadas que o mundo exterior é capaz de dar.

Kris me surpreendeu com o café e eu quase consegui gostar dela por alguns minutos, mas não queria me enganar, nem ela nem as patricinhas eram de confiança e mais cedo ou mais tarde eu poderia ser usada como um objeto.

Saí com as meninas, especificamente para o shopping onde entramos em uma loja que ficamos praticamente a manhã toda escolhendo exatamente todos os tipos de roupas. Pela primeira vez na vida eu estava gostando de fazer compras, afinal não era com minha mãe dizendo o que devia ou não comprar. Nós escolhiamos as roupas, eu ia no provador experimentar e quando saía elas diziam se ficou bom ou não. Acredito que depois da trigésima prova nós cansamos e acabamos apenas pegando as mais bonitas e do meu tamanho.

Almoçamos lá mesmo e voltamos para as compras de sapatos, bolsas, jóias, maquiagem e peças íntimas, algo que me deixou muito constrangida. Eu estava agradecendo mentalmente por ter um cartão sem limite, mas sabia que meus pais iam surtar.

Ao fim do dia fomos para a casa de Ashley, onde ela me deu mais uma aula, assim como no dia anterior, de como me maquiar. Consegui fazer minha própria maquiagem e ficou quase perfeita, pois escondeu completamente minhas insistentes olheiras e me deu uma nova cara. Nem parecia ser eu.

— Que orgulho — disse Ashley olhando para Charlotte.

— Nós somos maravilhosas — concluiu a outra. — Queime todas as suas antigas roupas, nunca mais use nenhuma! — Confirmei virando para me olhar novamente no espelho da linda penteadeira. — Você agora é quase uma de nós. — Dei um breve sorriso e vi as duas se afastando.

— Tudo o que precisávamos. — Ouvi Ashley pronunciar.

...POV Kris...

— Xeque-mate! — disse Ana com um sorriso vitorioso nos lábios ao final de nossa partida de xadrez na sala.

O dia estava tão empolgante que me peguei entre as garotas entediadas jogadas na sala, em mais um domingo sem grandes emoções. Já se passava horas desde que marquei com Paul de irmos ao clube, mas nem sinal dele.

Levantei do chão e decidi ir para o quarto, mas quando cheguei na escada me assustei ao ver três caras carregando uma quantidade absurda de sacolas e por entre eles surgiu ela, a beata, quero dizer, a Victoria, que carregava mais sacolas. Acredito que ali haviam mais compras do que o que fiz em dois anos. O quarto ficaria abarrotado.

— Por aqui — disse ela passando por mim mostrando o caminho aos homens.

Estava extremamente linda, o rosto bem maquiado, usando um vestido justo no corpo até a cintura, curto o suficiente para deixar suas belas pernas a mostra. Ela usava sapatos de salto e parecia outra. Eu não conseguia ver a esquisita naquela garota à minha frente. Fiquei parada na escada olhando eles subirem e quando dei por mim todas as garotas estavam ao pé da escada, também olhando e fofocando.

— O que aconteceu com sua colega de quarto? — perguntou uma das meninas e apenas dei de ombros antes de subir a escada quase correndo.

Encontrei os carregadores no corredor, já saindo. Quando entrei me deparei com o mar de sacolas.

— Você comprou o shopping inteiro? — Chutei uma sacola que estava próxima a porta.

Ela não respondeu nada apenas abriu a cômoda e começou a jogar todos os trapos no chão, em seguida juntou em um monte e carregou até a janela, onde jogou tudo de cima a baixo. Eu permaneci de pé em frente a porta embasbacada com o que fazia. A garota então girou e me olhou.

— Você tem razão, as meninas não são de confiança — disse ela indo arrumar as novas peças de roupa.

— É a segunda vez que você confirma sobre eu ter razão. — Segui para minha cama onde sentei. — Mas passou o dia com elas.

— Eu precisava usá-las a me favor. — Nem acreditei que estava ouvindo aquilo dela.

— Usar? — Franzi o cenho — Você não precisa ser mais idiota do que alguém que não soube te dar valor, só para se sentir melhor.

— Vão me chamar de idiota de qualquer jeito, não é? Olha para mim. — Virou-se de frente abrindo os braços. — Não estou visualmente bonita? — Arquei uma sobrancelha. Sim ela estava verdadeiramente linda. — No entanto, você continua me achando uma idiota, mas eu não vou mais aguentar calada, vou mostrar que sou muito melhor que qualquer pessoa que se ache superior a mim. — Levantei as mãos em sinal de rendição.

— Certo! Mas cuidado com o que faz, aqui as pessoas costumam deixar as emoções falar mais alto e a conta dos erros às vezes vem na mesma altura. Não acho que mudar quem realmente é por causa dos outros seja um bom caminho, mas faça como quiser.

— Não precisa ficar fingindo se importar com o que faço ou deixo de fazer.

Caramba, ela voltou atacada.

— Você voltou insuportável. Já sinto saudades daquela garota esquisita que ficava quieta me olhando com raiva. — Ela riu sem humor.

— Se depender de mim ela não volta nunca mais.

— Ótimo... — Suspirei, deitando, ouvindo ela ainda arrumando as roupas até que de repente o silêncio invadiu o quarto.

— Kris? — Pela primeira vez ouvi meu nome saindo da boca dela.

— Oi? — Virei a cabeça para olhar ela que estava sentada na cama com a cabeça baixa.

— Venho mantendo essa máscara o dia inteiro para não ter que admitir que estou sozinha em meio a pessoas que não gostam verdadeiramente de mim. Estou tentando não jogar tudo para o alto e me trancafiar em casa com meus pais me controlando, assim como fizeram durante toda minha adolescência. A verdade agora é que... — Observei ela suspirar, ficando em silêncio. Eu estava surpresa por suas palavras, ela estava se abrindo comigo e aquilo era estranho. — A verdade é que preciso de alguém em quem possa confiar, alguém de verdade, sem segundas intenções, que não queira me usar em benefício próprio. — De início fiquei sem palavras.

Desviei o olhar para o teto e permaneci encarando-o por alguns segundos até decidir sentar na cama e ela me olhou com seus pequenos olhos marejados.

Eu não sou uma pessoa tão ruim assim, acho que se não fizesse nada que deixasse a garota melhor me sentiria um ser humano sem coração. Fiquei de pé e pela primeira vez atravessei o limite imposto por mim mesma, sentei na cama ao lado dela e coloquei um braço ao redor de seus ombros.

— Olha, eu posso ter mil e um defeitos, sou grossa, falo besteiras, palavrões, digo coisas que as vezes não são nada legais de ouvir, mas acredite, eu jamais usaria você ou qualquer outra pessoa. Não mentiria ou brincaria com seus sentimentos. Talvez soe meio falso eu estar agindo assim justo agora que você esta linda e... sexy... — Ela deu um fraco sorriso e fiquei sem graça por admitir aquilo em voz alta. — Mas acho que as pessoas aprendem quebrando a cara e você já está no caminho certo. Se aceitar eu serei verdadeiramente sua colega, mesmo com nossas diferenças acho que da pra manter uma boa relação. Tipo, eu e Amy...

— Aquela que você estava beijando? — perguntou e pigarriei.

— Não, eu quero dizer eu e Candice. Nós não somos necessariamente amigas, no entanto sempre que uma precisa a outra ta lá para dar uma forcinha, apesar de que a verdade é que a única pessoa que posso dizer com toda certeza ser meu amigo aqui é o Paul. Então, acho que dá pra manter uma boa relação e nos defender sem necessariamente nos tornamos melhores amigas...

— Você tem... Um problema em se aproximar das pessoas, não é? — Ela virou o rosto para me olhar e seu rosto nunca esteve tão próximo ao meu. Eu nunca tinha reparado tão bem em cada detalhe, cada traço de suas feições delicadas. Havia uma aparência inocente por trás daquela maquiagem. — Você seria verdadeira comigo? — Observei sua boca levemente rosada, as bochechas cheinhas e o olhos castanhos que pareciam cheios de dúvidas e medos. Por um momento eu não consegui responder, pois fiquei perdida ali naquele olhar. — Kris? — Pisquei várias vezes e retirei o braço do ombro dela.

— Claro que estou! Quero dizer, vou... Serei verdadeira. — Suspirei tentando manter o raciocínio. —  Eu não vejo motivo para não termos uma boa relação. Mesmo se você fosse lá embaixo agora e pegasse aqueles trapos e voltasse a vesti-los. — Ambas rimos e voltamos a nos olhar, com aquela distância mínima.

— Não vou fazer isso. — Ficamos sérias. — Obrigada, eu acredito em você. Nem sei porquê, mas acredito.

Normalmente eu abriria a boca e diria um monte de besteiras do tipo ser uma ótima pessoa, bancando a convencida para fazê-la rir um pouco, mas algo me impediu. Eu estava me sentindo meio sem jeito.

— E quanto a fita? — perguntou ela me retirando de meus pensamentos. — Espera, não fala nada. — Victoria levantou e começou a retirar a fita que dividia nossos lados e por incrível que pareça senti como se a barreira que eu mesma criei estivesse sendo derrubada não apenas ali, diante de meus olhos, mas dentro de mim. — De qualquer forma vou respeitar sua privacidade — disse ela arremessando o bolinho que fez, no cesto.

Eu fiquei parada olhando ela que deu um breve sorriso me olhando e refleti sobre o quanto estava linda, mas rapidamente esfreguei as mãos no rosto na tentativa de acordar. Tínhamos acabado de firmar uma trégua e eu estava me sentindo uma completa imbecil por ter julgado ela tão mal e estar baixando a guarda justo quando tinha outra aparência.

— Marquei com o Paul de irmos ao clube, mas ele não apareceu. Quer ir comigo? — Não sei de onde tirei aquela idéia, mas quando vi, as palavras já tinham saído.

Ela, que tinha voltado a abarrotar a cômoda com as novas roupas, parou e me encarou com as sobrancelhas arqueadas.

— Tenho que terminar isso aqui e não quero correr o risco de encontrar o Matt hoje, não estou preparada. — Levantei de sua cama e fui até o celular.

— Posso pedir uma pizza, fico aqui te fazendo companhia. — Ela virou novamente e me olhou.

Balancei o celular entre os dedos, me perguntando o motivo de estava fazendo aquilo e porquê estava ficando tão sem jeito sempre que ela me encarava. Era só a beata, poxa!

— Não precisa fazer isso, vai lá divirta-se! Eu fico bem — falou e eu coçei a testa me perguntando como explicar que não queria ir sozinha e preferia ficar.

— Mas é que... eu não quero mesmo sair. Você quer pizza? Eu vou pedir uma e um refrigerante — falei já buscando no aplicativo.

— Tudo bem, então.

Fiquei mexendo no celular e quando dei por mim ela já estava juntando todas as sacolas e saindo do quarto, provavelmente para joga-las fora. Olhei a cômoda e acabei rindo ao ver que estava abarrotada, mas logo algo no chão chamou minha atenção, era uma pequena caixa branca. Me arrastei na cama para ver melhor e vi que encima estava escrito "Tori", me inclinei para pegar, mas na mesma hora Victoria entrou no quarto e com o susto acabei caindo da cama. Ela riu com gosto e eu fiquei no chão, me sentindo idiota.

— O que foi isso? — perguntou, se inclinando para pegar a caixinha. — Ei levanta eu quero passar! — Percebi que ainda estava jogada no meio do quarto e quando olhei na direção dela sem querer vi sua calcinha e isso me fez imediatamente sentar.

— Tori? — Mudei de assunto.

— Meu pai me chama assim desde pequena. — A observei sentar na cama abrindo a caixinha de onde retirou um cordão. —  Essa é a primeira vez que conversamos durante tanto tempo. — Sorriu vindo sentar no chão ao meu lado. — Veja, ganhei esse cordão do meu pai, certa vez em que brigamos. Ele me disse que representa o nosso companheirismo e amizade, acima de nossos laços de sangue. — Observei o pingente de prata onde havia uma árvore.

— Por que não usa? — perguntei, pegando o mesmo e olhando de perto. — É lindo.

— Eu uso, mas... —Seus olhos logo encontraram os meus. — Quer saber? Quero que fique com ele. — Franzi o cenho.

— Por que? — Devolvi o cordão a ela. — Não faz sentido.

— Vamos pensar que... Enquanto você usar ele saberei que não se arrependeu de se aproximar de mim.

— Não preciso disso para te respeitar e ser sua colega. Além do mais se eu quisesse te sacanear não iria anunciar retirando o cordão. — Sorri fraco.

— O objeto em si não tem nenhuma importância, mas sim o significado do gesto por trás dele — explicou. — Quando saí hoje pela manhã eu não tinha certeza se podia ou não confiar em você, mas enquanto voltava, ouvindo o que as meninas diziam sobre o Matt e percebia como elas não se importaram nada com o meu sumiço ontem, cheguei a conclusão que sou capaz de distinguir quem está sendo verdadeiro ou não. E... agora enxergo verdade em você. Já que vamos dividir o teto por alguns anos, quero que possamos tentar nos dar bem e se no futuro não conseguirmos manter nossa aproximação, me devolva.

— Você... — Eu estava sem palavras. — É estranho. —  Ela não podia ser tão ingênua a ponto de ter uma conversa e já confiar assim em mim.

— Não consigo explicar, mas... Suas palavras me passam confiança. — Victoria estendeu a mão e abriu a mesma na minha frente, com o cordão em sua palma. — Se não quiser basta dizer agora. — Olhei desde a jóia até seu rosto e pensei como seria uma sacana filha da mãe se não levasse a sério aquele gesto.

Peguei o cordão e ela sorriu vindo me ajudar a colocar, mas de repente ouvimos batidas na porta. Com certeza era a pizza e o refrigerante, então levantei em um salto e ao abrir, lá estava Amy, segurando meu pedido.

— O entregador já é bem conhecido, então me ofereci para trazer. —  Merda! — Pensei. — Ah, eu já paguei, tá? — disse ela já entrando no quarto. — Oi! — Ouvi falar com Victoria e quando virei já estava sentada no chão.

— Fala sério, quem te convidou? Quem disse que eu queria comer pizza com você? — As duas me olharam como se não entendessem nada a forma grossa que falei.

A última pessoa na face da terra que queria ali naquele momento era a Amy, justo ela que ficaria dando encima de mim.

Me obriguei a ir até elas e sentar enquanto Amy servia o refrigerante nos copos descartáveis e Victoria pegava um pedaço de pizza, olhando de mim à Amy. Me perguntei o quê se passava pela cabeça dela.

Por mais ingênua fosse, ainda assim conseguia me intimidar com aquele olhar.

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Comments

Mary Lima

Mary Lima

Waroy: amando /Drool//Drool//Drool//Drool/

2024-08-07

0

Laris 😼

Laris 😼

autora e a segunda vez que eu vejo essa história

2023-02-10

6

Sammy

Sammy

Aiiii q LINDOOO!

2023-01-20

2

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