05 • Pequena Gentileza

...POV Kris...

Victoria voltou a baixar o rosto, passando as costas da mão secando as lágrimas, me inclinei e abri a porta para ela que ainda soluçando entrou e se acomodou no banco do passageiro. Seria uma longa caminhada até chegar ao campus, isso se ela conseguisse chegar. Antes de voltar a colocar o carro em movimento, olhei por tempo demais para ela que respirou fundo virando o rosto para o lado da janela. Eu queria perguntar o que aconteceu, mas não sabia se devia.

Andando com aquela gente nada confiável já era de se esperar que quebraria a cara.

Olhei novamente, pelo canto do olho e quando decidi finalmente falar ela se antecipou.

— Você tinha razão... — Fez uma pausa, ainda olhando para o lado oposto. —  Eu sou mesmo uma idiota. — Suspirei me perguntando o que aconteceu, não entendendo o motivo de não conseguir perguntar. — Ele é um babaca. — Ela voltou a chorar e fiquei sem saber o que fazer. Então riu sem humor, passando as mãos no rosto, novamente secando as lágrimas. — Droga, eu nunca falo palavrão. — Voltou a chorar me deixando meio nervosa por não saber o que fazer.

— Nem esta falando nada demais — murmurei. — Calma. O que... O que aconteceu? — Alternei olhares entre ela e a estrada.

— Ele me tratou feito um... lixo —  A última palavra saiu como um sussurro. — Como se eu fosse alguém sem sentimentos, como se... — Voltou a chorar, não terminando a frase.

Fiquei verdadeiramente sem palavras, era difícil encontrar uma frase que a confortasse, quando eu não tinha intimidade com ela e tudo que vinha em minha mente era: Estava na cara que ele não presta. A Candice avisou várias vezes, mas você estava cega. Mais cedo ou mais tarde isso daria merda!

Eu de certa forma incentivei que a deixasse em paz para quebrar a cara a vontade e olha só, nem demorou muito.

Quando estacionei próximo a casa ela saiu do carro e praticamente se arrastou para dentro, eu acompanhei em seu ritmo, mantendo as mãos nos bolsos da calça, com a cabeça baixa. E assim que paramos em frente a porta abri a mesma e ela foi direto para a cama onde se jogou enfiando a cara no travesseiro.

— Ele fez alguma coisa com você? Digo, algo que você não queria? — Procurei me certificar de que ele não havia passado dos limites.

— Não...  — respondeu ainda com o rosto enfiado no travesseiro. — Mas... — Levantou-se ficando sentada. — Ele tentou e eu me senti tão amedrontada, jamais imaginei que passaria por algo parecido e...

— Você não é idiota — falei sentando na minha cama, de frente para ela. — Mas foi uma tola, não sabe nada das pessoas e está se metendo justo com as piores.

— Como vou saber? Você me trata mal, a Cand... — Ela baixo a cabeça. — Ela se afastou e encontrei pessoas que não eram grossas comigo, que se mostravam compreensivas e não me tratavam com indiferença, nem faziam piadas o tempo todo.

— Olha, desculpa. — Pela primeira vez eu estava me sentindo mal por ter tratado ela daquela forma. — Mas se essas pessoas não tentaram abrir seus olhos em relação ao Matt, isso só significa que são falsas.

— Não sei mais em quem confiar. — Victoria voltou a deitar e fiz o mesmo.

— Não confie em ninguém — falei.

Permanecemos sem dizer nada enquanto ainda escutava ela fungar, até que o silêncio se fez presente. Levantei para tirar minha roupa, desliguei o celular, pois não estava com cabeça para comentar sobre aquela desastrosa festa com Paul. Depois me joguei embaixo das cobertas, logo adormecendo.

Quando acordei no dia seguinte a beata ainda dormia. Após o banho desci para a cozinha da casa e vasculhei os armários porque não estava afim de sair. E mesmo fazendo um tempão que não preparava café, tentei fazer um que desse para engolir. Por sorte a dispensa estava sempre cheia, mesmo que as meninas quase nunca entrassem ali. Preparei panquecas e peguei de tudo um pouco, torradas, geleia, suco, coloquei em uma bandeja, pois sabia que a última coisa que Victoria ia fazer naquele dia era sair do quarto e de certa forma eu estava sensibilizada.

Subi e quando entrei ouvi o barulho do chuveiro, sentei no chão colocando a bandeja encima da fita, logo começando a comer. Quando ela saiu, parou me olhando enquanto secava os cabelos, arqueou uma sobrancelha que eu notei estar mais bem feita que era antes e desci os olhos para o corpo dela que usava um de seus habituais vestidos de vovó. Já era de se esperar.

— Pode comer. — Apontei para a bandeja.

— Por que está fazendo isso? — perguntou, parecendo desconfiada.

— Porque eu não sou a completa imbecil que você pensa. — Ela se aproximou e sentou à minha frente. — Sei que teve uma noite péssima e que não vai querer sair.

— Não penso que seja uma completa. — Ela pegou o copo de suco e tomou um gole. — Nunca sei o que esperar de você.

— Eu gosto de ser imprevisível. — Sorri e ela suspirou baixando a cabeça, entristecida. — Mas olha, você não tem que ficar por aí chorando por causa do que aquele idiota fez. Se eu fosse você iria até a política denuncia-lo por assédio.

— Não vou fazer nada a respeito, minha mãe não pode sonhar com nada disso. — Eu até abri a boca para falar, mas não me sentia no direito de dizer nada, éramos estranhas uma para a outra. — As meninas me ensinaram alguma coisa sobre autoestima... Acho que posso lidar com isso daqui pra frente, não vou mais me encantar com falsos elogios.

— As meninas tipo... Ashley e Charlotte? — Ela confirmou, colocando uma torrada na boca.

— Sério que ainda vai confiar nelas?

— Sou quase uma delas e... Quer saber? Não vou confiar em mais ninguém, mas também não vou deixar de viver por causa disso — falou levantando o queixo.

— Você é quase o quê? Uma delas? — Arregalei os olhos. — Pirou Victoria?

— Não... — Ouvimos batidas na porta e quando abri a mesma me deparei justamente com Ashley e Charlotte, me olhando como se fossem me matar ali mesmo.

— Kris — as duas disseram em uníssono e sorriram falsamente.

— Onde está a... Aí esta você! — disse Ashley. — Vem, nós precisamos ir ao shopping. E quanto a você... — Apontou para mim. — Teremos uma conversinha outra hora.

Victoria passou por mim e se juntou a elas.

— Obrigada pelo café. — Ela forçou um sorriso e as três sairam caminhando pelo corredor.

Fechei a porta com força e voltei para minha cama.

Eu estava me esforçando para fazer alguém que mal conhecia se sentir melhor e ela simplesmente levantou e se jogou no meio das cobras. Bufei de raiva colocando os braços sobre o rosto, mas após alguns minutos percebi o quanto aquilo deveria ser insignificante, então peguei meu celular e após ligar o aparelho liguei para o Paul que atendeu no segundo toque.

— Ei sua piranha, finalmente ligou esse celular. Já estava a ponto de ir até aí jogar um balde de água fria nessa tua cara! — Atendeu ele já todo agradecido por eu ter colocado minha vida em risco na noite anterior.

— Bom dia pra você também. E de nada por ter salvo sua vida, quase sendo assassinada por um cara de dois metros de altura.

Escutei a gargalhada do outro lado, me fazendo revirar os olhos antes de tentar voltar a falar, mas ele ria sem parar.

— Ai meu Deus, eu não aguento...

— Dá pra parar?

Mais risadas...

— Não dá! Tinham que ter filmado. Você precisava ver a hora que jogou a coitada da Ellie na piscina, quase encima do brutamontes.

Ellie? Eu nem tinha visto quem usei na hora.

— Coitada, já não bastava a Ashley querendo se vingar dela.

Quando falei aquilo imediatamente ele parou de rir.

— Espera, se vingar? Por que? O que estou perdendo?

Decidi que precisávamos nos encontrar, afinal eu ainda tinha muito o que contar sobre aquela droga de festa.

— Esteja aqui o mais rápido possível para irmos ao clube, que te conto sobre a noite. Não aguento mais ficar entre essas quatro paredes.

— Olha, estou meio... Ocupadinho, mas assim que der uma brecha passo aí. Não esqueça de nenhum detalhe. Beijinhos.

Eu já podia até imaginar que tipo de ocupação ele tinha arranjado. Fiz cara de nojo, quase visualizando a cena obscena e fechei os olhos voltando a pensar sobre tudo que aconteceu nas últimas horas.

A reação de Victoria foi totalmente diferente do que eu imaginava. Para alguém como ela, imaginei que ficaria trancada chorando e talvez pudesse convencê-la a abrir um processo ou alguma coisa do tipo, sei lá, nunca pensei nessas questões, mas se ele tentou alguma coisa física eu só conseguia pensar na polícia. Eu entendia o fato dela não querer que a família ficasse sabendo, mas não podia imaginar que ainda ia sair correndo atrás da duas cobras.

O que ela estava pensando? Ingenuidade? Loucura? Qual o nome daquilo?

Chega, isso não é da minha conta!

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Comments

Mary Lima

Mary Lima

Que capítulo quente é doido tbm/Curse//Curse//Curse//Curse/

2024-08-07

1

Cleidiane Oliveira

Cleidiane Oliveira

QUERO MAIS...

2022-12-25

5

Ju Sato

Ju Sato

Oh ela ta toda preocupada com a Mozão!

2022-12-25

4

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