Capítulo dezenove

Hales estava com o jornal nas mãos, observando-o aberto diante dos seus olhos e um texto ao lado da foto com Sol. Algumas lembranças vieram como um assombro na sua cabeça, enquanto passava o dedo sobre o rosto de Sol, se recordava dos gritos da menina nas suas mãos.

Parte dele queria poder mudar o passado, pedir perdão ou simplesmente sumir daquele país, mas tudo o que fez foi exatamente o contrário. Usou o seu dinheiro como chave para a porta de um perdão, tendo em mãos a sua moça de cabelos alaranjados, de volta nos seus dedos.

Encostou a cabeça na cadeira e jogou o jornal na lixeira, ao lado direito do seu braço, depois fechou os olhos e sentiu o aperto usufruir do seu silêncio. Sol era teimosa e surtava todo segundo, perguntava para si sobre aquela mulher e se foi a sua escolha certa.

Ainda sabia que ela escondia algo e faria de tudo para encontrar a verdade.

Ouviu a porta sendo aberta de uma vez e ergueu o corpo, observando Heitor entrar com os ombros altos.

— Nosso pai disse que está afastado da empresa, o que faz aqui novamente? — Hales perguntou, erguendo-se.

— Quem é a moça que saiu daqui? — Heitor perguntou, sem rodeios.

Hales levantou as sobrancelhas.

— Não é da sua conta.

— Você pensa que me ofende, mas não sabe o que posso chegar a fazer para tirá-lo do meu lugar. — Heitor gritou. — Nenhuma mulher irá fazê-lo dono de tudo isso, muito menos aquela...

— Cale-se ao se referir a minha futura esposa! — Retrucou, num alvoroço berro.

Heitor afastou-se para trás, envolvido nos seus próprios pensamentos enquanto Hales o encarava na mesma intensidade.

— O quê? Irá se casar com aquela desconhecida? Nem conhece ela!

— Eu sei muito bem quem ela é. — Hales deu a volta na mesa. — É a minha noiva.

— Ela só quer te usar. Quer o seu dinheiro. Não sabe se faz parte de alguma máfia ou é filha de marginais...

— Vá embora daqui, Heitor. — Hales berrou.

— Você não irá se casar com aquela mulher.

— Aquela mulher é minha. — Hales voltou a gritar na direção do irmão. — Saia!

Depois, de poucos segundos, ele virou as costas e saiu, deixando Hales sozinho. Pouco tempo passou-se e ele deu a volta na mesa, pegando o celular e correndo na direção da porta, indo na direção do elevador.

As portas já haviam se fechado com Heitor dentro, então Hales cerrou as mãos com raiva e permaneceu no mesmo lugar.

Longe do centro de São Paulo, Heliópolis se mantinha num tempo repleto pelo calor, com o vislumbre de poluição no ar. A cerca de poucos metros da casa, Roberto estava vestido num curta-metragem preto e uma camiseta cavada, com o símbolo do Brasil sobre o peito. Agarrou o boné na mão e colocou na cabeça, escondendo os cachos castanhos.

Ouviu uma gritaria de longe.

As casas eram paralelas uma na outra, trazendo a simplicidade das cores com os azulejos escuros e as ruas desiguais. Roberto caminhava sozinho por uma rua, escondendo-se do sol aos arredores do local, permitindo que fosse o único a andar por aquele caminho.

As ruas pela manhã eram sempre cheias de crianças, após a almoço o alvoroço de todas elas indo para as suas casas após uma manhã na escola. A tarde, é mais tranquila e menos bruta. Já a noite, por todas as ruas, sem deixar de mencionar uma, ficava um tremendo vazio acusando a solidão e o perigo.

Roberto parou de andar, sentindo o medo na espinha quando ouviu a gritaria. Abaixou os olhos e observou dois jornais no chão, mas o que mais chamou a sua atenção foi os olhos amarelados da filha, com o cabelo jogados para trás e ao lado do homem em que precisaria fugir o mais rápido possível.

Abaixou o corpo num sobressalto e pegou o jornal, olhando para os lados e erguendo-o até os olhos.

"Affair", ele não sabia o que significava, mas sentia um embrulho no estômago.

Os seus olhos rastejaram para o lado e viu um garoto, magro e cheiro de alegria. Brincava perto da filha, com a mesma cor de pele e o cabelo desalinhado. Rasgou a primeira página e jogou o restante fora, enfiando no bolso e correndo na direção dos gritos.

A porta foi empurrada num estrondo, saindo um homem de terno e uma mulher bem-vestida, Roberto deu um passo para trás e esperou o casal sair de dentro da sua casa.

— Você deve ser o Roberto Campos. — A mulher disse, caminhando até ele. — A sua esposa me deve uma nota, espero que consiga até semana que vem ou eu mato-a.

— Quem são vocês? — Roberto perguntou, curioso.

— Pergunte a ela, seu imbecil. — Empurrou o corpo de Roberto e o homem de terno se aproxima. — Mostre para ele que estou falando a verdade.

O homem ergueu o braço e antes de perceber, ou tentar recuar de alguma maneira, Roberto foi jogado para trás devido ao soco no rosto, onde acertou o seu olho direito e deixou um pequeno corte no local.

Ele deu alguns passos para trás e o homem caminhou na direção do carro, entrando e partindo com a mulher.

Roberto, com raiva, andou na direção da porta e entrou, procurando pela esposa. Chamou algumas vezes e nada ouviu, correu na direção do quarto, um pequeno cômodo depois da cozinha, e entrou. Encontrou ela jogada no chão, com algumas sacolas sobre a barriga e um pequeno sangramento ao redor dos lábios.

Agarrou a cintura dela e a ergueu, preocupado.

— O que houve? Quem era aqueles?

— Precisamos de dinheiro. — Ela agarrou o ombro do homem e levantou-se, colocando a mão na cabeça e cambaleando para o lado. — Mërda...

— Está drogada de novo? — O homem berrou, indignado. — Aqueles eram os traficantes? Qual o seu problema? Sabe o quanto já estamos devendo? Pensa que a minha vida vale tão pouco assim?

— Deixe de ser dramático, Roberto. — Ela cambaleou na direção da cama, coberto por um lençol colorido e sujo. — Onde está... onde está...

Passou a mão por baixo do travesseiro e puxou um pequeno pacote, quadrado, tinha um recipiente fino e branco dentro. Roberto pulou na direção dela e agarrou a cocaína, enfiando no bolso, com o jornal, voltou a olhar para a esposa.

Ela empurrou o corpo dele com raiva.

— Vou voltar a vender essas mërdas, Roberto. Precisamos do dinheiro para pagar as nossas dívidas! — Ela passou a mão no cabelo, um pouco laranjas.

— Foi por causa dessas dívidas que perdemos a nossa filha. — Roberto disse, rapidamente. — E onde paramos? Na mesma situação precária de antes.

— Precisamos dela novamente. Temos que encontrar ela.

Roberto ficou calado.

— O que foi? Você não a encontrou, não é? — A mulher perguntou desconfiada. — Roberto! Roberto!

— Não. Não encontrei.

— Que bom. Por que se você esconder a localização dela, estaremos mortos. Se você sabe de alguma coisa, precisa dizer. — Se sentou na cama, passando a mão nos cachos. — Está dizendo a verdade, não é?

Roberto pensou, assentindo.

— Não sei onde está a nossa filha, mas vamos descobrir em breve.

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Comments

Solange Lopes

Solange Lopes

mais mais mais mais mais por favor autora atualizar mais capítulos 🙏🙏🙏

2022-11-27

2

Mell Silva

Mell Silva

amando a história?
mais capítulo por favor

2022-11-26

2

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1 Capítulo um
2 Capítulo dois
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9 Capítulo nove
10 Capítulo dez
11 Capítulo onze
12 Capítulo doze
13 Capítulo treze
14 Capítulo quatorze
15 Capítulo quinze
16 Capítulo dezesseis
17 Capítulo dezessete
18 Capítulo dezoito
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