Sol chegou em Elisa feliz, foi a primeira pessoa que beijou em toda a sua vida. Parte dela estava feliz e empolgada com o dia seguinte, mas ainda acreditava faltar algo.
Bateu na porta duas vezes até o ouvir o grito do filho do outro lado, outro grito em seguida de Elisa e ele abrindo a porta, pulando nos seus braços.
— Mamãe. Mamãe.
— Oi, filho. Se comportou? — Sol ajoelhou-se e beijou a sua testa, o menino assentiu e correu para dentro do apartamento de Elisa. — Onde está a sua tia?
— VENHA ME DESAMARRAR! O SEU FILHO ME AMARROU E NÃO QUER SOLTAR MAIS.
Sol entrou sorrindo no quarto de Elisa. Ela estava sentada no chão, com as duas mãos amarradas com uma corda no pé da cama, os seus olhos estavam sérios na direção dela, enquanto Caio sorria ao seu lado.
Ela abaixou-se e desamarrou a amiga, aos risos.
— Caio, não pode fazer essas coisas. — Sol falou na direção do filho e ele assentiu. — Vá tomar banho que iremos para casa, para acordar cedo devido a sua escola.
— Não tem aula, mamãe.
— Como assim não tem aula?
— É feriado, amiga. — Elisa passou a mão no vestido preto. — Terá que levar ele amanhã novamente.
— Você não tem folga amanhã?
— Não. Melissa está viajando, só terei eu nas ruas com as papeladas.
— Meu Deus! — Berrou eufórica, preocupada.
— E essa sua cara, o que foi? — Inquiriu, desajeitada. — Jacobi foi rude novamente? Quer que eu bata nele?
Sol pensou, antes de dizer. Elisa sempre foi uma amiga bastante protetora, embora as suas táticas não fossem nada saudáveis. Tinha sorte de que nunca fora parar na cadeia por tantas histórias que contava ter feito.
Caio foi brincar com algum brinquedo que deixava na asa de Elisa, enquanto Sol apertou as próprias mãos e decidiu dizer a verdade.
— Jacobi vem me assediando faz alguns meses. — Ela confessou, observando os olhos da amiga arregalarem no mesmo instante.
— É O QUÊ? Aquele imbecil fez o quê?
Depois daquilo, Sol teve que ouvir dezenas de formas nada comuns de alguém que faria com outra pessoa. Achava engraçado a forma da sua amiga agir, mas também se sentia triste ao lembrar de um assunto tão delicado quanto aquele.
Não restava mais dúvidas para dizer a única coisa que a faria parar de gritar.
— Beijei Isac hoje.
Elisa calou-se, respirando fundo.
— Isso é demais! Chame-o para sair, deixe Caio com Fátima. — Ela berrou entusiasmada. — Sabe o quanto ele ama ficar lá.
Fátima é a mãe da melhor amiga de Caio, vizinha de Sol, com quem sempre implora para que Caio fique mais tempo por lá.
Depois disso, Sol foi para a sua casa, pois teria muito o que fazer no outro dia. Junto ao filho no emprego. Parte dela ficava feliz em dizer que aquela semana distante da faculdade causar arrepios, não gostava de se sentir longe do que amava fazer. Odiava feriados e quaisquer outros meios que impedia as suas aulas a noite.
Os dois acordaram cedo, comeram alguns bolinhos fritos e saíram pelas ruas de São Paulo. O porteiro lembrou do seu jantar com Sol, mesmo sabendo que jamais iria conseguir algo, depois teve que enfrentar um pequeno engarrafamento, que a atrasou mais alguns minutos.
Isac estava esperando por ela na porta dos fundos, segurava uma flor branca com detalhes azuis. O seu sorriso era encantador, Sol segurou a mão do filho e caminhou na direção do amigo, segurou a flor e ele beijou o rosto dela, como um pequeno cumprimento de respeito devido à criança ao lado dos dois.
Depois do último dia ter se passado, o coração de Sol ainda batia na mesma coerência, a imensa vontade de nunca mais ser tão ingênua e "simpática" como todos dizem que ela era, mas que não agradava a todos.
Estava quase pegando o avental quando um dos empregados pediu para que Sol subisse novamente no escritório, a menina virou-se para Isac e respirou fundo com Caio ao seu lado.
— Vai ficar bem, estarei aqui. — Isac disse, calmo.
Sol assentiu.
Começou a subir as escadas no topo do restaurante. Ultimamente ele havia passado mais tempo naquele estabelecimento do que na sua empresa de vendas alguns quilômetros dali, sentia que deveria sair daquele lugar, mas lembrava de que estava quase realizando o seu sonho de se tornar uma psicóloga, cursando o final da sua faculdade.
Em poucos meses toda a sua vida mudaria, teria o seu escritório e atenderia os seus clientes como sempre quis. Deixaria o seu dinheiro reservado para uma casa dos seus sonhos, se apaixonaria por um homem incrível e daria irmãos para Caio, que tanto implorava por um. Queria dar a vida que nunca teve para o filho, longe da escuridão daquela favela que morou sempre com os pais, que nunca procurou por ela.
Se perguntava o que havia acontecido com eles, o que fizeram com todo o dinheiro que recebera quando a vendeu para a máfia da baixada de São Paulo, se estavam bem ou se pensava nela em algum momento. Elisa foi o anjo na sua vida e jamais iria encontrar alguém tão maravilhosa como ela, deixando que morasse na sua casa por três anos, até conseguir guardar uma pequena quantidade de dinheiro para comprar os seus móveis e se mudar para um pequeno apartamento.
Sol caminhava lentamente pelas escadas, segurando a mão do filho, arfando profundo e batendo duas vezes na porta, com medo e com muita euforia. Lembrou falar demais quando estava nervosa e sentia iria colocar tudo a perder quando soltar a primeira palavra.
A voz logo foi ouvida, então ela abriu e entrou. De todas as pessoas do mundo, aquela que estava junto ao seu chefe era a menos provável de estar ali.
Era evidente a sua surpresa.
Conheceu pelas suas costas, enquanto ele olhava para Miles. O seu pescoço bem limpo, o cabelo bem cortado, o terno bem-passado e o mais importante, que ela não havia se esquecido segundo nenhum, o perfume masculino que invadira os seus pulmões.
O que ele estava fazendo naquela sala? Veio reclamar dela por algo tão fútil como o dia passado? Sentiu um aperto no peito quando se aproximou.
— Mandou chamar-me, Sr. Miles? — Ela sussurrou, envergonhada, com o filho do lado.
O homem ficou de costas, sem mover um músculo, enquanto ela estava imóvel logo atrás. O filho abraçou o seu braço e logo encolheu-se perto do seu corpo. Jacobi olhou-lhe com os olhos sérios e semicerrados.
— Sr. Alexandre veio aqui ontem reclamar do atendimento no dia anterior. — Miles começou e Sol rapidamente abaixou os ombros, amedrontada. — Quero que peça desculpas, que não irá mais acontecer.
Sol ergueu os olhos, surpresa. Então ele queria apenas desculpas? Não pediu que a demitissem?
Enfim, o homem dos ombros largos virou-se na direção de Sol, algo que ela ansiou em um dia improvável, mas que era agora possível, trazendo consigo os olhos tão azuis quanto o mar. A barba estava bem-feita na pele, uma pele tão lisa que ela queria muito tocar para sentir a textura. O seu coração aumentou as batidas, sentindo o que jamais havia sentido na sua vida, uma pequena curiosidade e faísca das suas veias.
Queria poder sentir isso quando beijou Isac, por que com alguém desconhecido?
Queria tanto olhar-lhe e agora as suas expectativas foram ultrapassadas. Imaginou-o de muitas maneiras, mas nenhuma chegou ao ponto daquela exuberante beleza extraordinária.
Os olhos do homem entornou pelo corpo de Sol, mas o que mais o chamou atenção, foi o garoto ao lado da moça, agarrado no seu braço como apoio. Ele ergueu os ombros e soltou o ar dos pulmões, exalando a sua busca pela esperança: tomar a empresa do seu ímpio irmão.
— Peça desculpa, Solare Campos. — Jacobi ordenou.
— Sim, senhor. Eu pedirei, a culpa foi minha por ser intrometida demais...
— Então, peça.
Ela limpou a garganta, enquanto o homem apenas observou o seu filho com atenção.
— Não será necessário. — Ele ressoou a sua voz, num pequeno intervalo de tempo os dois entreolharam-se e ele continuou. — Quero que a demita, urgentemente.
Sol arregalou os olhos, magoada.
— O quê?
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Atualizado até capítulo 69
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