Capítulo dois

Elisa estava demorando demais, Sol faltava explodir com a agonia em ter que ficar dois dias naquele hospital, sozinha. Tinha que agradecer aquela mulher que tanto a ajudou nas últimas horas, trazendo roupas e acessórios pessoais para um bom banho depois de tanto que passou naquela maldita mansão.

Olhava o pequeno espelho embutido na parede do banheiro, bem organizado e limpo. Os seus olhos estavam inchados, escuros e doloridos. Não se lembrava da última noite de sono em que tivesse dormido em paz, ou que já tenha dormido em paz durante toda a sua vida.

Vestiu aquele vestido vermelho e embolou o cabelo ondulado, amarrando-o com ele mesmo, num coque desalinhado. Passou a mão no rosto e saiu da sala, preparada para enfrentar mais um dia e lamentar por tudo que tenha acontecido com ela.

O seu sorriso abriu num instante para o outro, observando o seu filho nos braços do médico, colocando-o sobre a incubadora, observando-o em silêncio enquanto dormia. Os seus passos logo aumentaram na direção dos dois e agarrou o pequeno objeto, para observar o pequeno Caio, dormindo como um anjo.

— Creio que ele terá a cor dos seus cabelos. — O médico falou, virando o rosto na direção de Sol, que não tirava os olhos do filho.

— Como sabe? Se ele não tem um fio de cabelo na cabeça?

Ela sorriu, o médico fez o mesmo sem tirar os olhos da moça.

— Posso fazer uma pergunta, sem parecer invasivo? — Ele perguntou e ela ergueu os olhos na direção dele, já imaginando a pergunta e ela assentiu. — Porque o pai do nenem não está aqui?

— O meu filho não tem pai, doutor. — Ela respondeu convicta. — Sou a única que ele tem.

— Pode me chamar de Eduardo, se preferir.

— Obrigada, Eduardo...

— ADIVINHA QUEM CHEGOU? — A voz de Elisa ecoou na sala e Sol rapidamente abriu um sorriso, contente. — A tia preferida do Caio! E trouxe um presente para ele!

Elisa correu até ela e a abraçou, feliz em vê-la novamente.

— Pare de esforçar, garota, acabou de parir uma pessoa. — Elisa empurrou Sol e a encarou com o rosto fechado.

— Solare é mais forte do que pensa, senhorita. — Eduardo falou caminhando na direção das duas. — Venho ver se está bem daqui uma hora, tudo bem?

Sol assentiu.

— Obrigada, Eduardo.

Ele saiu da sala.

— "Senhorita", que educado esse Eduardo. — Elisa disse colocando as duas sacolas sobre a poltrona confortável ao lado da cama e virou na direção de Solare. — Ele é um gato.

— E tem uma aliança no dedo, você não notou? — Sol sorriu caminhando na direção das sacolas. — Ele só é bem gentil, para quem me viu abrir as pernas na cara dele.

— Não foi uma cena bonita, mas parece que o seu rosto encantou o doutor. — Ela brincou indo até Caio e o observando.

— Por que você trouxe tantas coisas, Elisa? Não precisava disso tudo.

Observou as roupas de bebê, com alguns objetivos infantis, fraldas e roupas para Solare. Ela enfiou as mãos na sacola e ergueu um pacote de preservativo fechado, virando o corpo na direção de Elisa.

— Você ia conseguir onde? Pelo estado que lhe encontrei, não iria conseguir nem a fralda do meu filho. — Elisa disse encarando o bebê a dormir. — E que horas ele vai acordar? Quero constatar os olhos dele.

— E esses preservativos?

Elisa ergueu os olhos para ela.

— São para você. Certamente não sabe usá-los, já que teve essa gracinha aqui. — Abriu um sorriso e Solare revirou os olhos, voltando a guardar o preservativo na sacola. — Confia em mim, não confia?

— Pelo incrível que pareça, sim.

As duas sentaram-se no banco de espera, na sala particular.

— Os meus pais são pessoas más, Elisa. — Começou Sol. — Eles não me deixavam sair de casa na esperança de que eu nunca fosse dormir com algum menino. Quando completei dezoito anos, eles disseram que eu iria morar na casa de um homem muito bonito, um pouco mais velho que eu, que iriam resolver as nossas vidas para sempre ao ganhar uma grande porcentagem de dinheiro com isso. Tive que ficar ao lado de três garotas naquela enorme casa, mas quando descobri o motivo de estar lá, não tinha mais como fugir.

— Sol... do que está falando? Foi vendida?

— Sim. Tecnicamente sim...

— Que merdä de pais são esses? Isso não são pais, Sol, são piores que animais. Até animais são mais amorosos que esses... esses trastes. — Ela começou a berrar, indignada.

Solare começou a lacrimejar os olhos.

— O que houve depois disso? — Elisa perguntou, ainda assustada com tudo.

— As duas meninas foram dispensadas porque não eram virgens, eu fui a única que fiquei naquele lugar.

— O que fizeram com você?

— Eu tinha que engravidar, de um menino. Eu só tinha que dar o filho para o homem e eles me deixariam ir embora com uma abundante quantidade de dinheiro, para que eu nunca mais voltasse.

— Meu Deus! Sol! Que absurdo! Como isso existe nesse mundo?

Elisa segurou a mão de Solare.

— Tentei pedir aos meus pais para me tirarem de lá, mas eu estava com tanto medo que acreditei ser a única opção. — Choramingou, baixo. — Eu não impedi do homem me tocar, ele não me machucou, mas tive que permitir todos os toques nojentos dele...

— E quem é esse homem arrombado?

— Eu não sei. Ele estava com uma máscara quando teve relação comigo. Depois desse dia eu fiquei presa naquela casa todo o tempo depois que fiquei grávida, só vi ele quando decidiu tirar o meu bebê da minha barriga alguns dias atrás, e só de longe. — Começou a chorar. — Eu não consegui evitar e fugi na primeira oportunidade que tive naquela casa, todos estavam ocupados e eu simplesmente fui embora.

— Onde ficou depois disso?

— Na casa de uma mulher, abrigaram-me com todo carinho. — Contou. — Mas me encontraram e corri para a floresta. Eu me machuquei e a bolsa estourou, passei toda a noite sentindo dor. O dia inteiro no outro dia, até encontrar você. Deus me enviou você.

— Oh, Sol... meu Deus! Eu não sei o que dizer. — Elisa abraçou Solare com força. — Se eu encontrar essas pessoas que te deram a vida, vão rezar para nunca terem nascido.

— Nunca mais vi eles. Nunca foram me ver naquela casa. — Choramingou. — Fiquei sozinha, oito meses.

— Você tem alguém? Conhece alguém? Que não seja um imbecil!

— Não.

— Pois irá ficar comigo. Não vai para lugar nenhum com esse bebê, sozinhos nessa cidade gigantesca.

— Não quero atrapalhar você, nem o seu marido, ou a sua família. — Sol afastou-se, limpando as lágrimas. — Eu me viro sozinha. Dou um jeito.

— E eu lá tenho cara de casada, menina? Eu sou de todos. — Ela sorriu semanticamente. — Tenho um quarto vazio na minha casa, não é de rico, mas é espaçoso. Preciso de companhia mesmo.

Sol sorriu da forma engraçada que Elisa transmitia a sua opinião.

— Não vai ser nenhum incômodo? — Sol perguntou.

— De forma alguma! — Abriu um sorriso. — Venha, por favor. Te ajudo arrumar um serviço, sou boa na lábia.

— Eu vou sim, mas irei trabalhar e conseguir um dinheiro para ter o meu próprio cantinho. — Sol falou e Elisa fechou o rosto. — Não quero ficar parada também, vou realizar o meu sonho e cursar psicologia.

— Você já tem um futuro escrito nas mãos, eu gostei da sua determinação.

— Por tudo o que já vivi, pensar no meu futuro e agora o futuro do meu filho, é o meu o objetivo. — Ela disse, séria.

— Boa tarde, estou procurando uma moça de cabelo um pouco alaranjado. Ela é magra...

Uma voz masculina começou a dizer detrás da porta e Solare se ergueu, assustada e com o coração totalmente imobilizado pelo medo. Elisa logo fez o mesmo que ela, correndo até a porta e virando a chave, trancando-a de imediato.

Sol começou a chorar e correu na direção do filho, pegou-o no colo, com cuidado, e ergueu os olhos no rumo de Elisa, sem saber o que fazer naquele segundo. Ela sabia que estavam procurando por ela. Sabia que eles iriam em todos os hospitais possíveis até encontrá-la, para tirar o seu bebê dela, não deveria ter se acomodado naquele lugar por quase dois dias.

Olhou para os lados e não havia nenhuma janela que pudesse passar com o filho.

Ouviu o bater na porta do outro lado e tentaram abrir, mas estava trancada.

— Senhorita Solare, está tudo bem? Sou eu. — Eduardo falou, voltando a bater. — Não é permitido trancar a porta, senhorita.

— Se não é permitido, por que tem a chave então? — Elisa gritou.

— Abra, por favor. Preciso examinar o seu bebê. — Pediu.

— Ele foi gentil comigo, ele não é uma má pessoa. — Sol cochichou e Elisa negou.

— Ser gentil em São Paulo não é um bom sinal. — Ela disse. — E ele é gentil demais.

— Abra para ele. — Sol pediu, agarrada no seu filho.

Elisa virou na direção da porta, segurou firme a chave e abriu, com toda a rapidez que pôde.

Capítulos
1 Capítulo um
2 Capítulo dois
3 Capítulo três
4 Capítulo quatro
5 Capítulo cinco
6 Capítulo seis
7 Capítulo sete
8 Capítulo oito
9 Capítulo nove
10 Capítulo dez
11 Capítulo onze
12 Capítulo doze
13 Capítulo treze
14 Capítulo quatorze
15 Capítulo quinze
16 Capítulo dezesseis
17 Capítulo dezessete
18 Capítulo dezoito
19 Capítulo dezenove
20 Capítulo vinte
21 Capítulo vinte e um
22 Capítulo vinte e dois
23 Capítulo vinte e três
24 Capítulo vinte e quatro
25 Capítulo vinte e cinco
26 Capítulo vinte e seis
27 Capítulo vinte e sete
28 Capítulo vinte e oito
29 Capítulo vinte e nove
30 Capítulo trinta
31 Capítulo trinta e um
32 Capítulo trinta e dois
33 Capítulo trinta e três
34 Capítulo trinta e quatro
35 Capítulo trinta e Cinco
36 Capítulo trinta e seis
37 Capítulo trinta e sete
38 Capítulo triste e oito
39 Capítulo trinta e nove
40 Capítulo quarenta
41 Capítulo quarenta e um
42 Capítulo quarenta e dois
43 Capítulo quarenta e três
44 Capítulo quarenta e quatro
45 Capítulo quarenta e cinco
46 Capítulo quarenta e seis
47 Capítulo quarenta e sete
48 Capítulo quarenta e oito
49 Capítulo quarenta e nove
50 Capítulo cinquenta
51 Capítulo cinquenta e um
52 Capítulo cinquenta e dois
53 Capítulo cinquenta e três
54 Capítulo cinquenta e quatro - HOT (+16)
55 Capítulo cinquenta e cinco
56 Capítulo cinquenta e seis
57 Capítulo cinquenta e sete
58 Capítulo cinquenta e oito
59 Capítulo cinquenta e nove
60 Capítulo sessenta
61 Capítulo sessenta e um
62 Capítulo sessenta e dois
63 capítulo sessenta e três
64 Capítulo sessenta e quatro
65 Capítulo sessenta e cinco
66 Capítulo sessenta e seis
67 Capítulo sessenta e sete
68 Capítulo sessenta e oito
69 Capítulo sessenta e nove
Capítulos

Atualizado até capítulo 69

1
Capítulo um
2
Capítulo dois
3
Capítulo três
4
Capítulo quatro
5
Capítulo cinco
6
Capítulo seis
7
Capítulo sete
8
Capítulo oito
9
Capítulo nove
10
Capítulo dez
11
Capítulo onze
12
Capítulo doze
13
Capítulo treze
14
Capítulo quatorze
15
Capítulo quinze
16
Capítulo dezesseis
17
Capítulo dezessete
18
Capítulo dezoito
19
Capítulo dezenove
20
Capítulo vinte
21
Capítulo vinte e um
22
Capítulo vinte e dois
23
Capítulo vinte e três
24
Capítulo vinte e quatro
25
Capítulo vinte e cinco
26
Capítulo vinte e seis
27
Capítulo vinte e sete
28
Capítulo vinte e oito
29
Capítulo vinte e nove
30
Capítulo trinta
31
Capítulo trinta e um
32
Capítulo trinta e dois
33
Capítulo trinta e três
34
Capítulo trinta e quatro
35
Capítulo trinta e Cinco
36
Capítulo trinta e seis
37
Capítulo trinta e sete
38
Capítulo triste e oito
39
Capítulo trinta e nove
40
Capítulo quarenta
41
Capítulo quarenta e um
42
Capítulo quarenta e dois
43
Capítulo quarenta e três
44
Capítulo quarenta e quatro
45
Capítulo quarenta e cinco
46
Capítulo quarenta e seis
47
Capítulo quarenta e sete
48
Capítulo quarenta e oito
49
Capítulo quarenta e nove
50
Capítulo cinquenta
51
Capítulo cinquenta e um
52
Capítulo cinquenta e dois
53
Capítulo cinquenta e três
54
Capítulo cinquenta e quatro - HOT (+16)
55
Capítulo cinquenta e cinco
56
Capítulo cinquenta e seis
57
Capítulo cinquenta e sete
58
Capítulo cinquenta e oito
59
Capítulo cinquenta e nove
60
Capítulo sessenta
61
Capítulo sessenta e um
62
Capítulo sessenta e dois
63
capítulo sessenta e três
64
Capítulo sessenta e quatro
65
Capítulo sessenta e cinco
66
Capítulo sessenta e seis
67
Capítulo sessenta e sete
68
Capítulo sessenta e oito
69
Capítulo sessenta e nove

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!