Geralmente, um cliente se esquecia dessas experiências prévias, mesmo que ainda reclamasse num curto momento, vislumbrando como premissas na sua conduta presente. Ela era muito bem capaz de entender os motivos daquele homem, o seu comportamento irracional por algo tão fútil, mas não foi capaz de compreender a sua mudança da sua ideia sobre ela daquela forma.
O seu emprego era tudo o que tinha.
Ela só havia citado um dos melhores psiquiatras dos tempos, o que mais era aquilo?
O seu coração estava magoado, dolorido por imaginar o que seria dela adiante.
— Senhor... por favor, eu não posso ficar sem esse serviço... — Ela implorou na direção do homem, tão bonito quanto rude.
Ele ficou calado.
— Perdão, Sr. Alexandre. — Jacobi inquiriu, preocupado. — Ela é umas das melhores funcionárias de Ravioli, não posso demiti-la.
Não poderia por querer muito mais do que pratos lavados, pensou Sol.
O homem virou as costas para ela e encarou Miles.
— Terá que escolher entre tê-la aqui, ou a minha opinião no jornal da cidade sobre Ravioli. — Ameaçou, Miles ergueu os ombros no mesmo instante.
Sol começou a chorar, sem saber o que fazer. Caio estava em silêncio, assustado por ver a mãe chorar, mas não se moveu. Sol segurou o rosto tentando impedir daquelas lágrimas caíssem, enquanto observava o homem de costas, tão sério e rígido quanto nunca imaginou que ele seria.
Por dentro dele, tinha o mesmo sentimento de culpa, mas não deixaria que um lado tão negativo o deixasse fracassar, distanciando-o dos seus novos planos.
Sol olhou para Jacobi, suplicando através dos olhos para que não a demitisse.
— Arrume os seus pertences, deixe a chave do carro sobre o balcão e pagarei todos os seus direitos pela manhã. — Ele disse.
Toda a sua vida desmanchou-se diante dos seus olhos. Colocaria um fim na faculdade e voltaria para a casa de Elisa, embora lá fosse perfeito, mas não era essa a vida que tanto queria. Lembrou-se do barraco em que vivia com os pais, o colchão fino no chão e um pequeno pano para se cobrir, recordou do seu pior dia quando percebeu os seus pais a tirando da favela e a colocando um carro de luxo.
A favela, teria que voltar para lá? Por que nada daquilo poderia voltar, ou ela enlouqueceria.
O seu peito foi preenchido pela dor, medo e angústia.
Se ela voltar para o seu passado, eles a encontrariam. Sabia que poderia ter alguém por lá, na espreita de que ela fosse voltar em algum momento. Tirar o filho dela seria o seu fim e não iria permitir isso, nem que o mundo caia sobre a sua cabeça. Faria de tudo pelo filho, mesmo que isso signifique se humilhar.
— Por favor, eu nunca mais direi mais nada. Foi erro meu, eu imploro. Tenho um filho, sozinha, para cuidar. Uma faculdade...
O homem ficou a encarando, sem dizer nada.
Na mesa em que o conheceu, jurou ter encontrado alguém de boa índole. Acreditou que o silêncio nos seus lábios e a respiração tensa quando ela citou a frase de Sigmund Freud fosse admiração, e não essa raiva tão absoluta que o fez vir até aqui para demiti-la.
Quem era ele para esse ato tão cruel?
Sol ergueu os olhos e fixou nos dele, quase como se suplicasse por sua relutância. Nada fazia efeito, nada aparentava abalar aquele homem, nem mesmo a tristeza dela que tanto transbordava dos olhos.
— Com licença. — Ele deu as costas.
Jacobi Miles sentou-se na sua cadeira, pensativo e irado por obedecer à ordem de um homem e por perder a mulher que desejou por quatro anos.
Longe daquela sala, Sol descia as escadas enquanto o seu filho seguiu atrás. Isac logo caminhou na frente dos dois, mas o menino correu na direção dele e começou a conversar algo, enquanto ela correu na direção da porta.
Assim que abriu, o homem estava simplesmente virado na direção dela, como se a esperasse, como se soubesse exatamente que ela iria atrás dele. Logo deu um passo para trás e ignorou o seu perfume forte nas suas narinas, passando a mão na mesma calça preta do dia anterior.
Teve que enfrentar muitos pontos na sua cabeça para não gaguejar na frente do homem desconhecido que sentia um breve vislumbre de desejo.
— Senhor, o meu nome é Solare Campos e tenho vinte e dois anos e um filho pequeno para cuidar. Estou cursando o último período da faculdade de Psicologia e tudo isso sozinha. Tenho esse sonho desde criança, tudo depende do meu serviço, não posso perdê-lo.
Ela começou, pausando para poder ouvir algo dele, mas ele ainda a observava, quieto.
Ela estava nervosa e lutava para não surtar.
— Eu não sei lidar com isso sozinha. Quero que vá lá dentro e retire o que disse sobre mim agora mesmo. Reconsidere algo que nem mesmo lhe afetará, jamais irei atendê-lo quando entrar nesse restaurante. Eu não vou ficar quieta sabendo que pode destruir tudo o que venho tentando conseguir sozinha.
Ele estava imóvel.
— Eu sou uma boa pessoa, senhor. Nunca fiz mal à ninguém na minha vida. Só quero poder realizar o meu sonho e não posso fazer isso sem dinheiro.
— "Solare Campos". — Ele repetiu, sereno, como se tivesse ignorado o resto. — Amiga de Elisa Sande?
Sol ergueu os ombros, meramente surpresa.
— Sim, senhor.
— Ela contou-me que estava procurando um emprego, uma vaga de secretária na minha empresa. Fiz um favor para você, livrando-a do imprestável de Jacobi Miles. Da próxima vez que quiser contar toda a sua vida para um estranho como eu, sugiro que procure antes saber os seus antecedentes.
Ela travou o maxilar, sem saber o que falar, olhando-o sem piscar.
— Quero que me encontre na empresa pela manhã, é só dizer o seu nome que subirá até a minha sala.
— E-eu...
Ela parou, o que diria? Todo o seu corpo estava em combustão, na beira de um colapso. Ele havia a salvado do próprio chefe, tirado das garras de um homem que a assediava quando queria. Acima de tudo o que ela queria dizer, desabafar, a sua aflição ganhou vida.
— De nada, Solare Campos.
Ele virou as costas, entrando no carro e dirigindo para longe dela.
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Atualizado até capítulo 69
Comments
Ella Moura
história muito top. parabéns autora
2022-11-23
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