Sol tinha o coração na mão quando observou pelas vidraças o carro de luxo se distanciar do Ravioli, até sumir na direção dos outros carros que se tornaram apenas "os outros carros". A dúvida no seu cérebro impôs-se a ela, foi a primeira vez em quatro anos que sentiu atração por alguém que jamais constatara na vida, sem ao menos ter que olhar nos seus olhos, apenas a voz, a seriedade do som daquela voz, a fez ficar totalmente sem o gosto da própria língua.
Estava se sentindo estranha.
Apesar daquela manhã apenas ter começado, tudo já dava errado. Percebeu o avental do lado oposto, os outros empregados com raiva dela, mais alguns clientes ignorantes. Jogou o seu desempenho para as pontas dos dedos e caminhou na direção das outras mesas, que precisavam ser atendidas com urgência, enquanto ignorava toda a energia negativa que tentavam tanto a derrubar.
O dia havia passado como de costume, lento e trabalhoso. Miles chegou de carro e Sol logo colocou o avental no prego, onde o pegaria no dia seguinte para mais outro momento.
O homem, aparentando ter os seus quarenta e tantos anos, estava vestido num terno preto, com uma maleta fina nas mãos quando entrou e cumprimentou primeiro Sol, depois o restante do pessoal, prontos para irem embora.
— Venha comigo, Sol. — Jacobi Miles pediu, caminhando para a escada, rumo ao seu escritório.
Sol virou o rosto na direção do seu único amigo em Ravioli.
— Fica tranquila, irei te esperar aqui. — Ele falou de imediato, tirando a touca da cabeça e deixando os fios loiros tocarem a sua testa.
Os outros tinham os olhares pesados sobre Sol, mas ela ignorou enquanto eles iam batendo o ponto e se retirando do local. Ela virou as costas e subiu as escadas, passando a mão na calça preta e abrindo a porta do escritório de Jacobi, que já esperava de pé, encostado na mesa de madeira.
O homem tinha um relógio de ouro na mão direita, tão grande quanto ela. Com as pernas retas e os ombros altos, o seu olhar estava diretamente ligado nos seus passos, seguros e determinados.
— Sr. Miles, eu...
— É um absurdo ter que dizer isso para você, justo para você. — Ele começou a falar, rígido. — Fez o meu melhor cliente ir embora do meu restaurante. Sabe que ele está à venda, precisa que tenha uma ótima reputação.
Talvez algumas das meninas que trabalha no restaurante tenha corrido e pegado o telefone para contar o que aconteceu naquela manhã de hoje, talvez Maria ou Suzanne.
Sol lamentava por isso.
— Eu sei, Sr. Miles. Me desculpe, não tive culpa. Não sei o que aconteceu, não vai acontecer novamente.
— É claro que não vai. — Ele deu alguns passos na direção de Sol e ela segurou as suas próprias mãos, nervosa. — Você sabe muito bem que é competente ao ponto de seguir as normas deste restaurante.
Jacobi ergueu uma das mãos e segurou o braço de Sol, subindo o seu toque até os seus ombros.
Sol estremeceu de medo.
— Você é uma boa funcionária, irei aumentar o seu salário, disse-me que estava precisando para pagar os últimos meses da faculdade. — Ele disse, abaixando o tom de voz.
— Algumas pessoas estão trabalhando aqui mais de dez anos, não mereço mais que elas. — Sol sussurrou, tremendo.
— Pense em você, meu Sol. Pense no seu filho. — Ele cochichou. — Talvez com alguns serviços extras, eu lhe dê o dobro que está ganhando.
Sol não sabia o que dizer, até chamarem na porta pelo nome de Jacobi.
— O QUE É? — Ele gritou, o que fez a menina gelar de medo.
A porta foi aberta e Isac colocou a cabeça para dentro.
— Sr. Alexandre está o procurando. — Isac falou e o homem assentiu.
— Depois conversamos, Solare. — Miles falou num tom diferente dos outros. — Mande-o subir, Isac. Todos já podem ir.
Sol virou as costas e correu na direção de Isac, agarrou a sua mão e desceu as escadas. Todo o seu corpo estava tremendo de medo, sentia-se perdida nos seus pensamos enquanto puxava o seu amigo para o canto.
Isac parou de correr e ela fez o mesmo, observando o local vazio, todos já haviam saído, os ombros de Sol estavam inquietos quando segurou as mãos do amigo com mais força, começando a chorar. A porta foi aberta, pelo homem que iria ver Jacobi, e ela virou as costas, para impedir que olhasse o seu desespero.
Apenas Isac observou quem era.
Os olhos do homem virou na direção de Sol, de costas, curioso. Isac encarou ele que assentiu e o mesmo subiu as escadas, mas virou o rosto para poder encarar a menina que chorava.
— O que Miles fez, dessa vez? — Isac perguntou assim que viu o homem entrar na porta do escritório. — Cheguei a tempo?
— Ele é muito nojento, Isac. — Ela limpou as lágrimas.
Isac ajudou, ergueu as duas mãos para o rosto dela e limpou as suas lágrimas, com carinho.
— Dessa vez ele foi longe demais, preciso conversar com ele.
— Não, Isac. Não pode perder o emprego por minha causa. — Ela berrou, chorosa.
— Você é tão simpática. Como ele pode fazer essas coisas? O que irão pensar de você? Por que um homem desses jamais irá ser o vilão.
— Não posso contar para Elisa. Ela vem aqui socar a cara dele sem pensar duas vezes.
— Eu amo ter que ficar aqui contigo, mas aceitar o emprego da sua amiga vai ser muito melhor do que suportar esse homem. — Ele rebateu. — Se a sua amiga não socar esse homem, eu mesmo soco.
— Obrigada por ficar aqui perto. — Ela disse, abraçando ele e o apertando. — É o único que gosta de mim nesse lugar.
— É, eu gosto. — Ele a afastou, sentindo as bochechas dela, nas suas mãos, e sorrindo de lado.
— Preciso ir. Depois nós conversamos. — Ela falou e ele assentiu, envergonhado.
Sol virou as costas e abriu a porta, deixando-o quieto e sem dizer nada. Ela parou de andar e segurou a maçaneta, abaixando o rosto e respirando fundo. Ele esteve com ela desde o começo de tudo, ajudou na cozinha, como pegar a bandeja de modo certo e como sobreviver num lugar tão "sofisticado" como aquele.
Lembra de que bebeu uma vez, foi ele que a levou em segurança para o seu apartamento. Era um homem muito bonito, alto com os fios de cabelo loiro. Não era um homem magro demais, tinha uma estrutura sólida na barriga e sabe como ela idealiza tanto um corpo de atleta. Adorava assistir seriados e Isac Ferreira fazia parte do seu homem ideal: inteligente, forte, corajoso, protetor, altruísta, singelo e o mais importante, ele era muito atraente.
Sol queria amar alguém. Queria alguém para ela. Esperou demais e não ir atrás seria o seu fim, pois sabia que não cairia do céu e nem mesmo iria atrás dela.
Empurrou a porta, respirou fundo e virou as costas, voltando os seus olhos para Isac que se manteve no mesmo lugar.
Ela caminhou na sua direção, ele respirava tão fundo que parecia que iria explodir. Sol ficou na sua frente e segurou o seu pescoço, beijando os seus lábios. Isac segurou a sua cintura e puxou o seu corpo para o dele, pois foi o que sempre quis há quatro anos.
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Atualizado até capítulo 69
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