...QUATRO ANOS DEPOIS...
Sol correu pela casa, vestida apenas com uma calça preta colada no corpo e um sutiã aveludado, o seu cabelo estava solto, despenteado e jogados pelas suas costas. Correu na direção da bolsa cinza sobre o balcão da cozinha e voltou na direção da sala, pegando a bolsa azul fosco com desenhos animados do Avatar, colocou abaixo do braço direito e prensou na costela, indo até à porta.
Abaixou o rosto na direção dos pés e observou as sandálias bem limpas, virou o rosto para trás e gritou:
— CAIO? Vamos, você vai se atrasar!!!
— Já vou, mamãe. — A criança gritou de volta, correndo do banheiro.
Enquanto corria, o seu tênis iluminava com os brilhos incandescentes no solado, agarrou a mão da mãe e os dois saíram pelo corredor, descendo as escadas mal-acabadas e indo para o porteiro.
— Bom dia, Dione. — Sol cumprimentou.
— Bom dia, "raio de Sol". — Ele voltou a falar, chamando-a pelo apelido. — Quanto irá em outro encontro comigo?
— Quando o sol esfriar. — Ela gritou de volta, indo para a rua.
— VOCÊ JÁ É FRIA. POSSO MARCAR PARA AMANHÃ A NOITE?
Os dois foram direto para o carro, ignorando Dione, enquanto Sol apertou o cinto na cadeirinha do filho e entrou na frente, dando partida rumo ao colégio Sala Das Pequenas Letras. Todo o percurso durou quinze minutos, beijou a bochecha do filho e se despediu correndo na direção do carro e dirigindo para o serviço.
Fiat Mobi branco, a célula do passageiro estava um pouco amassada na parte superior do teto, devido a um acidente com o último passageiro, mas que não o impedia de andar. Não era um carro elétrico, cujo interior é feito de um material composto de fibra de carbono ou o teto com seda de luxo de algum Lincoln em especial, mas era confortável em alguns momentos e não a deixava ir a pé nos lugares.
O celular tocava no outro branco, ela ergueu a mão na direção do objeto e atendeu, enquanto esperava no sinal.
— Alô?
— Sua vaca! — Elisa gritou do outro lado. — Você não veio ontem, fiquei esperando vocês dois.
— Caio recebeu visita da vizinha dele, depois perdemos o horário. Você troca de namorado toda a semana, no próximo domingo iremos conhecer o próximo.
Sol sorriu.
— Isso é mentira. Ele é o cara certo.
— Enfim, ligou para isso? Estou atrasada. — Sol seguiu adiante no cominho.
— Aceite a minha proposta, Sol. Leila disse que ainda estão precisando de uma secretária na empresa Hh. — Implorou. — Eles te levam para as melhores festas da cidade de graça, você pode levar quem quiser.
— Sabe o que penso dessas empresas áreas. Não suporto esse tipo de convivência. Passei pela favela a minha vida toda e venderam-me para pessoas que não ligam para outros como nós.
— Foram os seus pais. E não precisa fazer muita coisa lá.
— Não vou aceitar esse emprego, eu já disse. — Freou de frente ao restaurante Ravioli.
— Não vou mais insistir. — Ela berrou do outro lado. — Beijos, eu te amo.
— Também te amo.
Desligou.
Ela passou a mão na calça preta e apertou os botões do seu uniforme, uma cor escura com a placa do seu nome escrito em negrito. Passou a mão no cabelo e tentou consertar os fios desalinhados.
Fechou a porta e correu para dentro do restaurante, atravessando os carros de luxo e abrindo uma pequena porta ao lado, no corredor. Os seus colegas já estavam nos seus postos, fazendo os seus afazeres, enquanto ela correu e pegou o avental com o seu nome na frente dos peitös. Ergueu e colocou a alça no pescoço, amarrando nas costas e andando pelo corredor, entrando no restaurante.
Do lado de dentro, as vidraças eram embutidas no teto e simétricas, formando uma mesa redonda com cadeiras de madeiras e uma distância razoável uma das outras. O piso era embutido numa cor cinza com listras escuras, as iluminaria eram em formatos triangulares como cristais.
O seu colega de trabalho chegou ao seu lado, enquanto Sol pegava a bandeja com o seu nome abaixo e organizava a comida, para entregar na mesa que apitava desde que chegara há alguns minutos.
— Você bateu o seu ponto? — O seu colega perguntou, Sol virou para ele com o rosto assustado.
— Não.
— Farei para você. — Ele sorriu de lado, mostrando as presas bem alinhadas e o cabelo loiro preso na touca transparente.
— Todos ainda me odeiam? — Sol perguntou, desajeitada.
— Enquanto você for a preferida do Sr. Miles, sim. — Ele sorriu simpático. — O importante é que eu não odeio você.
Sol transmitia empatia quando virou as costas e correu com a comida italiana na bandeja, andando rapidamente na direção da penúltima mesa do Ravioli. Uma mulher muito bonita estava de frente para ela, ao lado de um homem elegantemente alto, vestido num terno azul fosco.
Apenas de costas ela havia gostado do que constatou, mas optou por não olhar para respeitar a mulher que estava na sua frente.
— Freud não concorda com você, amor. — A moça começou a dizer, enquanto Sol caminhava lentamente na direção dos dois.
— Você não sabe usá-lo do modo correto. — O homem disse, Sol gostou do que ouviu.
— Como andam as coisas hoje em dia, ninguém conhece Freud. — A loira falou, colocando os cachos para as costas. — É raro de acontecer. Uma em um milhão.
Sol aproximou-se.
— Os seus pedidos, com licença. — Ela abaixou a bandeja, colocando a comida na frente da moça, com cuidado, sem olhar para o homem ao seu lado. — Perdão a demora.
Ninguém disse nada.
A mulher encarou Sol, atenta, como se a conhecesse de algum lugar, mas ela não se importou com os olhos verdes daquela elegante moça sobre ela, enquanto sentia apenas o perfume masculino nas suas narinas, mesmo sem vê-lo.
Sol colocou os pratos sobre a mesa, e ergueu o corpo.
— "Não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire a alegria das coisas simples da vida".
Sol citou, calma, com o sorriso. A mulher a encarou com mais firmeza, surpresa e indiferente, aparentemente perplexa com a citação da garçonete.
O silêncio pendurou no local, permitindo que Sol esperasse mais do que devido na mesa. O que não havia percebido, era os olhos do desconhecido inteiramente nela, desde que havia chegado naquela mesa, com o avental do lado errado, o cabelo desalinhado de cor diferente das demais, os olhos amarelados e a pele mais limpa que qualquer outra mulher que já tenha visto.
Se Sol pudesse ouvir mais que os outros humanos, ouviria o coração daquele indivíduo bater mais que o normal, realçando as suas veias e nervos por um impulso. Não era paixão, era uma intensa curiosidade para ele, em como alguém tão jovem e de pequena classe pudesse saber tão bem usar uma frase tão forte numa situação tão adequada naquele segundo. Percebera a voz complexa daquela mulher, abrigar a linguagem formal mais fixa que já tenha visto, suave e, em simultâneo, tão cativante que encontrara na vida, lembrando que de todas as dezenas de mulheres que já conheceu, nenhuma o cativou tanto e em segundos.
Sol ouviu o suspiro do homem, mas lutou para não olhar e não passar dos limites naquele instante.
— O seu trabalho é fingir que sabe algo? — A mulher perguntou, ignorante. — Isso é um absurdo!
— Deixe-a, querida. — A voz do homem ressoou na cabeça de Sol, esquentando o seu coração.
— Está defendendo esta mulher?
— Com licença. — Sol pediu, virando as costas e retirando-se.
Do outro lado do balcão, o seu colega de serviço já aguardava, com os braços sobre a vidraça grossa. Os seus olhos estavam retos na direção dela, que tinha a afeição magoada. Não foi a primeira vez que fizeram isso com ela, muito menos seria a última.
— A sua simpatia não é digna de certos humanos. — Isac falou, meio mórbido.
— O que houve? Por que está com esta cara?
— Sr. Miles ligou, quer falar com você. — Ele respondeu.
O casal que estava na mesa, havia se levantando após alguns segundos. Deixaram o dinheiro sobre a mesa e andaram para partir do estabelecimento, Sol percebeu e virou o rosto na direção dos dois que se organizavam para sair.
A garota sentiu um aperto no peito, pois sabia que aqueles clientes iam embora por sua culpa e que aquilo seria o fim do seu emprego, que tanto lutou para conseguir. Isaac observou, mas quando o homem virou na direção de Sol, a mesma de imediato fez o mesmo em sentido contrário, abaixando os ombros, envergonhada.
— Diga ao Miles que conversarei com ele mais tarde. — O homem falou, logo atrás de Sol, com a voz terna e tensa.
Não disseram mais nada, Sol abaixou o rosto, enquanto o homem não tirou os seus olhos dela, na esperança de que ela se virasse também.
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Atualizado até capítulo 69
Comments
Luinne Ribeiro
o homem que sempre some esse Dione
2023-02-04
0
Stephany Ricarte
+um +um +um
2022-11-08
1