No dia seguinte, Tássala acordou cedo para ir ao trabalho e se deparou com o pai bastante pensativo na cozinha, aparentemente com uma ressaca moral. Assim que ele a viu, se queixou de dor no estômago para evitar receber sermões novamente.
– Ai, filhinha, meu estômago está virado. Faça um cafezinho bem forte para o seu papaizinho com torradas, minha querida, por favor. E você poderia avisar ao tio do seu namorado que não irei hoje, estou com muita dor. — Fez careta de dor.
Tássala fez uma careta desanimada, seu pai estava correndo o risco de ser demitido pelo seu Genivaldo, um emprego no qual Tássala agradecia a Deus por ter convencido Cassiano a falar com o tio para mantê-lo. Nenhum comerciante das barracas de praia queria empregar seu Calixto devido ao seu histórico com bebidas e falta de comprometimento com o trabalho. Ele já estava velho de mais para aguentar dias de pescaria em alto mar, mas as dores nas costas não o impedia de beber até cair.
– Papai, por favor, você não pode faltar mais, eu não sei mais o que inventar para segurar seu emprego, você precisa ir. Ah, e não tem café.
Seu Calixto ficou preocupado, pois não podia ficar sem seu cafezinho.
– Como assim não tem café? Tássala, o que você está fazendo com o seu dinheiro que não consegue nem comprar comida para o mês, minha filha?
Falou um pouco bravo, o que deixou Tássala irritada, já que ela trabalhava duro para sustentar a casa, comprar alimentos e ainda pagar as dívidas do pai, que lhe traziam mais preocupação do que um filho.
– E o que você faz com o seu, papai? Me diz? Gasta tudo com bebida e agora quer torradas quentinhas. O armário está vazio porque a Dona Gorete fez o favor de levar toda nossa comida como adiantamento da sua dívida.
Disse muito brava, as bochechas de Tássala estavam vermelhas, e o pai viu o quanto irritada a filha ficou, e murchou as orelhas.
– Eu prometo que vou resolver isso de uma vez.
Falou pisando duro. Tássala pegou seu chapéu para se proteger do sol e correu atrás dele. Ficou com a mão na cabeça quando viu ele subindo os degraus do bar da dona Gorete. Tássala apressou os passos, presumindo que o pai iria arranjar confusão novamente.
– Dona Gorete, sua ladra, devolva a comida que você pegou da nossa casa.
– Eu peguei porque você me deve, e fique sabendo que vou querer meu dinheiro o mais rápido possível. Ou então, pago alguém para te dar uma surra, seu alcoólatra.
Tássala ficou chocada ao ouvir aquilo, pois dona Gorete tinha um jeito bem peculiar de resolver as coisas. Ela iria tentar defender o pai das garras daquela mulher raivosa, quando se deparou com seu nome estampado no cartaz da vergonha.
– Vejo que você não perdeu tempo, Dona Gorete. Que vergonha, papai, vamos temos que trabalhar.
– Vão mesmo, que tenho urgência de receber meu dinheiro, seus caloteiros.
Tássala arrastou o pai até a peixaria e foi correndo até a praia onde ficava o pessoal responsável por coletar as algas marinhas. Aquele era o emprego mais acessível para mulheres como ela, que não teve oportunidade de fazer uma faculdade. Tássala desde muito cedo começou a trabalhar para não morrer de fome, pois seu pai sempre teve problemas com a bebida desde que sua mãe foi embora para bem longe com outro homem e nunca mais voltou.
– Olha só quem apareceu, a caloteira. Ai, meu Deus, Tássala, que vergonha. Vi seu nome no cartaz da vergonha. Ainda me admiro como o Cassiano está namorando uma pessoa tão sem caráter.
Riu, zombando de Tássala, que nem podia revidar contra Clara, pois isso poderia prejudicar seu emprego, já que a mãe dela era sua chefe.
– Deixe-me em paz, Clara. O Cassiano está comigo porque me ama e sabe muito bem que não tenho culpa de ter um pai dependente alcoólico alcoólatra.
— Olha só Nara dando uma de coitadinha. Me poupe, sua sem sal. Você vai ver eu vou conseguir roubar seu namoradinho, é só questão de tempo, querida.
Clara e sua melhor amiga Nara empurraram Tássala, que caiu no chão. Ela ficou furiosa e encheu o punho de areia, jogando nas duas, fazendo-as gritar. Dona Dorotéia apareceu para acabar com a confusão.
— O que está acontecendo aqui? Eu posso saber?
— Mãe, olha a Tássala ao invés de começar a trabalhar, fica implicando com a gente, ela jogou areia em mim e na Nara.
— É mentira, foram elas quem vieram me provocar. A sua filha é uma soia daquelas bem sonsas.
— Mamãe, você vai deixar essa criatura me ofender desse jeito?
Falou irritada. Dorotéia olhou firme para Tássala e apontou para as algas, que precisavam ser colhidas.
— Vai trabalhar sua preguiçosa, fica matando tempo atoa, isso tem que estar nos caixotes até amanhã. O capitão Leonel estava chegando e ele não admite atrasos com sua mercadoria.
— Dona Dorotéia, por favor, eu preciso de um adiantamento.
Falou, lembrando da dívida em que seu pai se meteu. Dona Dorotéia odiava a palavra "adiantamento", pois na visão dela, depois que os coletores recebiam os seus faziam corpo mole para trabalhar.
— Não tem a mínima possibilidade, o caixa está zerado. Só quando o capitão chegar para levar a mercadoria.
Tássala bufou, chutando a areia, e foi trabalhar antes que perdesse o emprego, já que Clara fazia de tudo para prejudicá-la. Clara se achava superior a todas as outras pessoas, só porque sua mãe era chefe.
Ali ninguém era melhor que ninguém, todos eram iguais, até porque se tivessem uma posição econômica confortável, não ficaria ali no meio do sol e da água salgada tentando sobreviver.
Na colheita, não existia sexo frágil. Homens, mulheres e jovens dividem as diversas atividades de acordo com as suas habilidades e interesses. Os homens, acostumados com a pesca, eram responsáveis pelo cultivo no mar, enquanto as mulheres, mais cuidadosas, cuidavam da limpeza dos materiais.
Tássala passou pela lavagem das algas e fez careta para Clara e Nara. Ela não queria ficar ali hoje, já que as encrenqueiras estavam presentes. Decidiu ficar perto de seu Joaquim, nas reservas de corais. Ele era um senhor bastante gentil, o mais velho coletor de Praia do Mar, e sempre ajudava Tássala.
— Olha lá, os "lobos do mar" estão vindo.
Apontou para os barcos surgindo em meio o oceano. Tássala abriu o sorriso de felicidade, já fazia quase uma semana que não via Cassiano. Ela levantou e começou acenar e gritar.
— CASSIANO, AQUI!
— Grite mais alto, que ele não está ouvindo.
Brincou o velho senhor, devido a euforia de Tássala. Ela deu risadas, com o coração cheio de alegria. Finalmente, a pessoa que a ajudaria tinha chegado.
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Atualizado até capítulo 60
Comments
Luzia Nogueira
vejo que tassala vai sofrer muito
2024-09-17
0
Maria Das Neves
coitada da Tássala povo cruel
2024-07-06
2
Denize Almeida
nossa que triste,um lugar pequeno onde todos se conhecem mas cheio de gente cruel sem amor ao próximo
2024-06-08
1