Graças à sua mudança para a mansão, toda a rotina de Leonardo mudara. Tinha aula de manhã, de tarde trabalhava com Barley e de noite voltava pra faculdade para suas aulas noturnas. No final de semana ainda tocava no bar junto com seus amigos, e continuava a trabalhar. Para somar a sua lotada agenda, Vicente começara com as aulas particulares para treinar o seu jovem herdeiro.
Principalmente depois que um certo detetive se tornara constante na Dreamland.
Inicialmente Leonardo não queria se importar em gráficos e lista de fornecedores, ou sobre lista de pagamentos. No entanto as palavras de Benjin vibravam em sua mente incessantemente. Que todos dependiam dele.
Não conhecia bem a sensação de pessoas dependendo dele, mas já reconhecia o peso em suas costas que o fazia permanecer naquele lugar.
Qual seria o problema em ser o jovem herdeiro que eles tanto queriam?
Reviver memórias doloridas?
Se casar com um trapezista pervertido?
Aguentar um mágico com suas tentativas de irritá-lo?
Tão irritante quanto ponderar a ideia de ser um herdeiro era perceber que não havia problema algum. Apenas sua teimosia em não aceitar.
Era frustrante viver pouco menos de dez anos por conta própria, e então ter de retornar como se tivesse falhado miseravelmente. Não tinha o conforto que aquele lugar lhe proporcionava. Se abandonasse, sairia com uma mão na frente e outra atrás.
Mais uma vez Leonardo se encontrava no meio de suas tempestades internas, se corroendo por não enxergar a saída mais óbvia. Em momentos como aquele o rapaz aproveitava para explorar a mansão. Grande como era, certamente seus finitos corredores silenciosos escondiam surpresas intrigantes o suficiente para fazê-lo se sentir melhor.
Dessa vez, caminhava ocasionalmente pelo corredor oposto de onde seu quarto ficava. Haviam algumas portas ali, sendo que apenas uma se encontrava aberta. Parando na frente da mesma, percebia a figura de Aslan sentado na frente de um computador concentrado.
Era o seu quarto aquele?
Encostando-se na porta percebia os diversos posteres e papeis colados na parede de personagens e celebridades. Haviam também manequins com algumas vestimentas que Aslan costumava usar no parque. O cômodo era relativamente maior que o seu, mas estava abarrotado de coisas como um ateliê.
― Oh, Leo!
Aslan havia se levantado da cadeira ao notar a presença do jovem mestre. Pego de surpresa, Leonardo sorria entrando no quarto.
― O seu quarto é maior que o meu, que injusto.
― Era pra ser o meu estúdio de criação. ― Ria Aslan apontando para os manequins ao canto do cômodo. ― Mas costumo passar a noite aqui, então Vicente colocou uma cama. O que faz andando por aí?
― Apenas explorando, estou entediado.
Aslan cruzava os braços arqueando a sobrancelha.
― Ben está no circo e você se sente sozinho?
― Isso se chama liberdade, Aslan! Então, o que tava fazendo aí pra estar tão concentrado?
Aslan olhara para o computador atrás de si, onde uma planilha estava aberta.
― Trabalho, nada empolgante.
― Pensei que estivesse vendo anime.
― Falta tempo pra eu me divertir. ― Suspirava o garoto um tanto quanto desanimado. ― Queria colocar alguns episódios em dia, mas é difícil quando o trabalho acumula.
Aslan costumava usar maquiagem quando usava suas fantasias, mas na mansão ele permanecia de cara limpa e de roupas comuns. Somente dessa maneira Leonardo poderia perceber as acentuadas olheiras abaixo de seus olhos.
Há quanto tempo aquele garoto não dormia?
― Você não sai pra se divertir com seus amigos?
Aslan encolhera os ombros ao se sentar novamente abraçando as pernas. Uma aura melancólica surgia em sua volta, deixando Leonardo arrependido de ter feito aquela pergunta.
― Pode soar depressivo ou dramático, mas não tenho amigos. ― Sussurrava Aslan baixando os olhos ― Vivo em função do trabalho no plaza.
Leonardo sentara-se no chão, apoiando o braço em seus joelhos. Sorrindo amigavelmente encarava o rapaz, mesmo que não fosse retribuído. Ora ora, agora sim o enxergava como um garoto de sua geração e não uma super máquina do mundo adulto. Era reconfortante ver que Aslan podia fazer expressões mais tristonhas.
― Tem razão, soou bem dramático. Mas pode fazer alguns, não?
Um riso nada alegre escapara dos lábios do loiro.
― Você não percebeu ainda, Leo? ― Esperou que o jovem mestre respondesse, mas o seu silêncio fora o suficiente pra que Aslan continuasse. ― Só você e o Vicente podem sair da Dreamland.
― Quanta besteira. ― Ria Leonardo incrédulo, porém seu sorriso lentamente morrera ao notar a tristeza no semblante de Aslan. ― Tá falando sério? Por quê?
― Cada um deve ter o seu motivo, só posso falar por mim. ― Apoiando o rosto em seu joelho, Aslan parecia ficar cada vez mais melancólico. ― A vida aqui dentro é mais mágica do que lá fora.
Para Leonardo aquilo era uma reflexão inédita. Sempre vira o circo como uma prisão que o impedia de viver. Mas para Aslan parecia ser o oposto. Aquela sensação ele conhecia muito bem. A de não querer ir para algum lugar, desejando evitá-la a todo custo.
Será que para Aslan o custo fora a própria liberdade?
Agora fazia sentido quando fizera o convite pra Aslan vê-lo tocar e Ray ter intervido. Não fazia ideia de que eles não podiam sair, imaginava que a mansão servia apenas como uma espécie de pensão para aquelas principais atrações. Se Aslan não tivesse contado sobre não poderem sair do parque, jamais teria notado.
― Não tem vontade de sair? O mundo é vasto demais, nem sempre irá encontrar aquilo que te amedronta.
Aslan erguera a cabeça, apoiando o queixo em seu joelho ao sorrir para o seu jovem mestre.
― Tem algumas coisas que tenho curiosidade em conhecer. Toda vez que você volta pra cá parece ter se divertido lá fora.
Leonardo ria finalmente relaxando.
― É divertido subir no palco e ouvir a galera cantando junto comigo. Tem vezes que eu mesmo fico surpreso. Mas quando é semana de provas na faculdade, não consigo ter essa energia.
― Faculdade parece ser legal.
― Você teria idade pra frequentar uma, não?
Aslan corara quando Leonardo inclinara a cabeça, esboçando um carisma natural e suave para si. O genuíno interesse em saber mais a seu respeito, apesar de respeitar os limites era como o sol no verão. Mexendo os dedos dos pés um tanto quanto tímido, era a primeira vez que o garoto mostrava aquele lado.
― Tenho vinte anos, mas não sei se alguém como eu poderia frequentar um lugar desses.
― Ah, você é mais velho que o meu baterista. ― Ria Leonardo ― Claro que poderia ir. Se algum dia você se sentir corajoso, poderá me acompanhar.
Um brilho infantil surgia nos olhos claros de Aslan, apesar de ele apertar os braços em volta de suas pernas.
― Ir com você? Tipo... Sem ser aluno?
― Tem gente que leva o filho pra sala de aula. Os professores não se importam, desde que não atrapalhem a aula. Pelo menos os meus são assim.
Leonardo passara a contar diversas curiosidades sobre a faculdade, e alguns perrengues que passara no primeiro ano. No final das contas as curiosidades sobre como era a faculdade se tornaram histórias engraçadas de Leonardo e seus amigos, que não puderam ser deixados de fora.
Quanto mais contava para ouvir Aslan rir e se soltar, mais Leonardo sentia-se curioso para descobrir o motivo de ele não querer sair da Dreamland.
Fora inocência a sua em não prestar atenção em cada acontecimento naquele parque. Mantinha-se preso nas próprias lamentações, esquecendo-se das pessoas que conviviam consigo também tinham suas dores.
O que aconteceria com Aslan se ele saísse da Dreamland, independente por desejo próprio ou por forças externas?
Aquela mera pergunta o fizera relembrar as palavras de Benjin de outrora. Todos ali dependiam dele.
Será que Aslan também dependia? Para manter a mágica da Dreamland funcionando como seu lar?
Herdar aquele lugar era um fardo da qual Leonardo ainda precisava se decidir.
Os dois rapazes continuavam a conversar animadamente sem se importarem com as horas. Aslan até fora se sentar ao lado de Leonardo, sem se importar em rir alto demais com as histórias contadas. Estava se soltando para um grande amigo.
Um alarme chamara atenção dos dois. Leonardo retirara o celular do bolso da calça desligando o som barulhento.
― Precisa tomar algum remédio?
― Ah, é um alarme de fuga. Preciso vazar antes que aquela maldita marionete chegue.
― Está fugindo do Ben? ― Aslan soltara outra risada alta. ― Não acredito que até configurou um alarme pra isso.
Leonardo levantara-se do chão, também rindo.
― Foi necessária muita observação nos padrões de horário dele, então agora aquele maldito deve estar encerrando o espetáculo. Se eu me trancar no quarto, ele não vai conseguir entrar. Te vejo depois.
Um sorriso diabólico surgia no rosto de Leonardo quando saíra correndo do quarto de Aslan. O loiro engatinhara até a porta onde vira o jovem mestre atravessar o corredor seguindo para o outro lado da mansão. E permanecera ali até ouvir o baque da porta.
― Impossível... Ele não vai conseguir, vai?
Curioso, Aslan levantou-se indo até o mezanino olhando o térreo silenciosamente. Pacientemente aguardara, olhando um ponto fixo. Mesmo que sentisse a presença de um certo mágico se aproximando à sua esquerda, Aslan não desgrudara os olhos do térreo.
― O que está esperando, meu pedaço de nuvem?
Ignorando o apelido dado pelo mágico, Aslan cruzava os braços sobre o mezanino piscando curioso.
― Ben. Será que ele consegue entrar no quarto do jovem mestre?
― Oh, está interessado naqueles dois? Que safadinho.
Imediatamente o loiro corara dando um chute na canela de Ray, que ria divertido o abraçando por trás.
― Cala a boca!
― Não se preocupe, nossa marionete é mais destemida do que você imagina.
Um baque na porta anunciava a chegada da grande atração. Benjin logo aparecera no pé da escadaria, olhando para cima como um radar. Aslan notara que o trapezista nem tirara a roupa do espetáculo, que era fina demais para ser usada no lado de fora do circo.
Diante da determinação de certo trapezista, Aslan percebia a sede (ou seria melhor dizer fome?) em alcançar um certo andar onde um certo quarto se encontrava. Imaginara ter visto fumaça saindo de sua boca, tamanha o fogo que Benjin emanava somente em sua presença.
Literalmente um caçador ansioso para pegar a sua caça.
Em um rompante, Benjin subia as escadas de dois em dois degraus até chegar no andar dos quartos. Sem pestanejar atravessara o corredor alcançando a porta do quarto isolado.
― Que rápido.
O baque contra a porta fora alto, tendo Ray gargalhando quando o trapezista tentava girar a maçaneta repetidas vezes.
― Leo! Não vale! Abra a porta, eu to com frio. ― Benjin encostara o rosto na porta podendo ouvir algo e então formara um bico nos lábios. ― Vou ficar aqui até que abra a porta! E quando você sair, terá de lidar com alguém hipotérmico.
― Eu aposto cinquenta reais que o Ben irá arrombar a porta. ― Brincava Ray, apoiando-se na cabeça de Aslan.
― Acho que o Leo vai ceder e abrir a porta.
Os dois rapazes apertaram as mãos selando sua pequena aposta.
O vencedor fora Aslan.
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Atualizado até capítulo 102
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