Por que ele estava sendo abraçado daquela maneira por aquele sujeito?
Não importava o quanto o olhasse, Leonardo fazia a menor ideia de quem ele era. Por acaso se conheciam? Quer dizer, o salvara no outro dia. No entanto nunca haviam se visto antes disso.
Afora tal detalhe, aquele rapaz o abraçava apertado e o chamara pelo apelido como se fossem íntimos. Deveria agir educadamente ou ser direto? Situações como aquela eram delicadas por o colocarem em um beco sem saída.
Para a sua sorte, o sujeito de olhos vermelhos puxara o trapezista o obrigando a soltá-lo.
― Vai assustar o projeto de herdeiro, se comporte Ben.
O trapezista olhara sobre o ombro formando um bico manhoso nos lábios, arrancando do outro um revirar de olhos.
Um pigarrear encerrara o assunto entre aqueles dois, tendo Vicente ficando na frente deles apontando para o garoto loiro que se mantinha quieto somente encarando Leonardo. Definitivamente era difícil de saber como agir com eles.
Quer dizer, eram pessoas importantes que não aparentava seriedade alguma.
― Esse é Aslan, nosso representante de logística. Ele é responsável por cuidar das vendas de nossas lojas.
Olhando o garoto de cima à baixo, Leonardo reconhecera as descrições feita por Gustavo mais cedo. Definitivamente aquele baixinho era a principal atração esculpido em Carrara. O seu cosplay era definitivamente chamativo de tão bem feito que era.
― Esse é o Alois Trancy?
O baixinho arregalava os olhos em fascínio com a pergunta, dando um passo à frente ignorando a perplexidade dos outros dois ao seu lado.
― Conhece o Black Butler?
A mera menção ao nome do anime fizera Leonardo corresponder o fascínio. Rindo educadamente, o universitário erguia o polegar em um sinal positivo.
― Gosto de ver animes quando tenho um tempo livre.
― É mesmo? Qual você mais gosta? Já assistiu todos os especiais de Black Butler?
A empolgação do baixinho loiro ganhara olhares diabolicamente mordazes dos outros dois que aguardavam suas apresentações. Uma atmosfera perigosa era emanada daqueles dois estranhos. Mesmo sob ameaça, Aslan não deixara de parecer animado com alguém que conhecia o vasto mundo das animações japonesas.
― Gosto do undertaker, mas ainda não vi os especiais. Preciso colocar a minha lista em dia, falando nisso.
A resposta de Leonardo arrancara suspiros de Aslan, que estendia a mão para ele.
― Será um enorme prazer conviver com você, jovem mestre.
O quê? Ele não era nada assustador. Do jeito que Gustavo contara sobre as atrações, nenhum deles parecia ter saído de algum lenda urbana. Na verdade eram muito novos. E aquele tal de Aslan parecia ser gente boa.
Apertando a mão do jovem garoto, o universitário sorria abertamente no mais puro alívio por ter se enganado sobre eles.
― Pode me chamar de Leo, é mais confortável não?
― Certo, Leo!
― Sai daí! ― Rosnava o trapezista.
― Tá apertando demais já!
Os outros dois puxavam Aslan para trás, tendo Leonardo recebendo um olhar feroz do sujeito platinado. Existiria algum tipo de regra que o impedia de tocar neles? Era só um aperto de mão.
Quantas pessoas esquisitas.
― Rapazes, modos por favor. ― Pedia Vicente, apontando para o sujeito de cabelos brancos e olhos avermelhados que o encarava ferozmente. ― Esse é Ray, nosso representante responsável pelo parque de diversões. Também participa de alguns espetáculos do circo com truques de mágica, mas grande parte do tempo passa no parque.
― Certo...
― Vou te fazer desaparecer se ficar de gracinha, jovem mestre.
Uma ameaça sendo feita com um sorriso afável era mais assustador do que a raiva explícita. Leonardo nem soubera o que responder. Tentava entender se era alguma brincadeira ou uma ameaça real.
Nota mental, tomar cuidado com o mágico.
― Peço que o perdoe, Ray gosta de fazer brincadeiras de mal gosto. Continuando, esse é Benjin. Creio que se recorde dele por tê-lo ajudado da outra vez.
Baixando os olhos para o sujeito de cabelos azul acinzentado e uma maquiagem artística o encarando em expectativa, Leonardo apenas meneara a cabeça. Novamente ele havia ficado perto de si, com os braços estendidos como se proibisse a proximidade de qualquer outra pessoa.
Quando seus olhos se encontraram, percebera que a cor deles eram esverdeados. Belos olhos verdes.
― O trapezista marionete.
― Você veio me ver naquela noite, não é? O que achou do espetáculo? Hm?
Dando um passo para trás, Leonardo definitivamente não sabia lidar com ele. Era como se a sua empolgação o surrasse sem misericórdia. Um tanto quanto sufocante. Precisava de espaço, entretanto mesmo com Leonardo retrocedendo seus passos, o trapezista o seguia.
― Acho que é algum engano. Eu só estava lá por acaso.
― Por acaso? Não veio assistir o seu noivo?
O mundo simplesmente parara de girar naquele momento. Aquele sujeito estava o encarando como o gato de botas do filme do Shrek, parecendo entristecido com a ideia de Leonardo não ter ido até o circo para vê-lo. Uma baita chantagem emocional.
Contudo, Leonardo não seria afetado por aqueles belos olhos claros pedintes. Não quando a incredulidade o fizera lembrar da maior besteira daquele acordo. Um dos motivos de ele ter ido para aquele lugar.
― Que merda é essa?― Sussurrava Leonardo virando-se para Vicente. ― Hein... Palhaço?
― Benjin é o outro possível herdeiro da Dreamland, caso vocês se casem e compartilhem seus bens. Esse foi o acordo feito por seu pai.
― Uhul, parece que o jovem mestre está com problemas pra entender isso. ― Zombava Ray, abraçando Aslan por trás mexendo em seus cabelos loiros.
― Quieto seu pervertido. ― Reclamava o loiro, dando um tapa em sua mão.
Dando outro passo para trás, Leonardo olhara diretamente para aquele trapezista. O sujeito que o enroscara numa situação completamente desfavorável. Coincidentemente era o mesmo sujeito que salvara no outro dia, o que tornava o segundo motivo para sua situação desfavorável.
Quem era ele para fazê-lo se casar?
― Não pretendo me casar com um cara, muito menos em herdar esse lugar. ― Com determinação Leonardo direcionou-se aos demais. ― Permanecerei aqui por um tempo apenas, o suficiente para me livrar de qualquer coisa que me prenda a esse lugar. Por isso, não esperem muito de mim.
― Oh, garoto abusado.
― Não se preocupe, ― Sorria Benjin, esticando-se para cobrir a distância longa entre ele e o jovem mestre. A pureza de outrora parecia dividir espaço com a sedução daquele sorriso ladino. ― farei com que nunca mais deseje sair daqui, Leo.
Um pedaço de papel intervinha no espaço entre aqueles dois, causando a salvação de Leonardo. Vicente recebia o olhar nada amigável de Benjin, mas o administrador não parecia se deixar acuar.
― Devemos jantar, o jovem mestre precisa descansar por hoje.
― Um jantar seria delicioso, o que teremos essa noite?
Aslan revirara os olhos puxando Ray pelo braço para saírem do escritório. Vicente lançara um olhar rápido para os outros dois, tendo Leonardo encarando o trapezista sem muito ânimo. Preferindo deixá-lo a sós, Vicente encostara a porta.
Nenhum dos dois diziam uma palavra sequer, mantendo a troca de olhares. O seu noivo. O que raios o seu pai tinha em mente ao criar um acordo como aquele? Quer dizer, bastava deixar claro que se o Leonardo não desejasse herdar, ele teria a possibilidade de passar para aquele trapezista.
Só isso.
Simples e fácil.
Seria desnecessário aquele noivado. A menos que aquele sujeito e o pai dele tivessem algum rolo pesado. Leonardo não duvidaria daquele enredo digno de uma novela mexicana.
O que também lhe incomodava era a semelhança daquele sujeito com um boneco de pelúcia de sua infância. Quer dizer, a maquiagem, suas roupas e o cabelo. O circo parecia levar à sério a questão do cosplay, imaginava Leonardo.
― Pode desconfiar de mim, mas estou realmente feliz que tenha voltado para cá.
Certo, enquanto ele estivesse naquele teto fingiria ser um herdeiro. Era ele quem comandava tudo e todos. Não deveria se rebaixar para um trapezista de circo.
Leonardo inclinou-se na direção do trapezistas, com as mãos no bolso no moletom parecendo desleixado sem se abalar com as palavras do sujeito. A despeito de sua proximidade, Benjin não se abalara sem se mover. Um tanto quanto audacioso, como se o enfrentasse Leonardo de alguma maneira.
Mas Leonardo estava tentado a competir pela vitória.
― Realmente não vejo motivos para você ficar feliz por mim, já que não nos conhecemos. Mas disse estar disposto a me fazer desejar ficar aqui, então fique à vontade.
A malícia carregada naquele sorriso esnobe não amedrontara o trapezista. Pelo contrário, o fez dar um passo a diante segurando o rosto de Leonardo com ambas as mãos.
― Você não me escapará.
Antes que qualquer palavra fosse dita pelo universitário, seus lábios foram tomados em um ousado beijo dado pelo trapezista.
O que...
Estava sendo beijado por um cara?
Um cara que nunca vira mais gordo em sua vida?
Quando Benjin afastou-se o suficiente, sorrindo de canto antes de lhe dar as costas, Leonardo tinha sua mente em branco. Não soube como reagir. Sua mente simplesmente ficara em branco como um flash.
― Que porra é essa? ― Gritava Leonardo esbugalhando os olhos na direção da porta ― Sua marionete dos infernos, isso é abuso sexual!
Sozinho no escritório, debaixo daquele teto estrelado, Leonardo tocava os próprios lábios como se ainda sentisse a pressão em seus lábios.
Definitivamente se esforçaria para ir embora daquele lugar o quanto antes.
Não poderia, de modo algum, mostrar-se abalado pelos feitos daquela pessoa.
Estalando a língua, Leonardo também deixara o escritório para seguir o corredor onde podia ouvir o falatório animado dos demais. Bastara ir em direção das vozes, que vinham do térreo, para alcançar a sala de jantar.
Um cômodo comprido com uma mesa em seu centro já repleta de pratos quentes de aromas deliciosos. Parado na porta, Leonardo observava os quatro sujeitos conversarem entre si enquanto se dispunham a se sentar, deixando a ponta da mesa vazia.
O mágico pervertido parecia se divertir em irritar o menino cosplay. Vicente falava seriamente com o trapezista, enquanto o mesmo formava um bico nos lábios o respondendo. Observando-os de longe, Leonardo não conseguia compreender como que aqueles quatro poderiam encabeçar lendas tão assustadoras que se encontram na internet.
Eram novos como ele, vivendo sozinhos naquela mansão e trabalhando em um circo. Brincavam e se irritavam como qualquer outra pessoa.
Então por que haveriam rumores tão escabrosos?
― Jovem mestre, por favor venha se juntar a nós.
Leonardo acordara de seu devaneio para se aproximar da mesa posta. O lugar apontado por Vicente era justamente a ponta da mesa. Se sentando ali, notara os olhares dos demais sobre si.
― Qual foi?
― Faz um tempo que ninguém se senta aí. ― Murmurava Aslan, abrindo um ligeiro sorriso. ― Que seja, vamos comer antes que o saco sem fundo acabe com toda a comida.
― Ah, meu pequeno pedaço de nuvem, espero que não esteja se referindo a mim. ― Sorria Ray girando a faca entre os dedos.
― Se a carapuça serviu. Para de brincar com facas, pode acabar se cortando.
Ray continuara a girar a faca entre os dedos, até fazê-la desaparecer em um pequeno truque mágico. Leonardo piscara algumas vezes tentando encontrar a dita da faca, que aparecera no seu lugar na mesa intocável.
― Uau.
― Impressionante, não é jovem mestre? ― Ria Ray divertido em ter capturado a atenção do universitário.
― Aqui, jovem mestre. ― Vicente estendera o prato servido para Leonardo, que piscava ainda mais aturdido.
― Valeu, eu acho.
Encarando o prato servido, purê de batatas, bife ao molho madeira e uma porção de arroz branco, Leonardo erguera os olhos para a mesa. Comida farta e pessoas conversando enquanto se serviam. Há quanto tempo não tinha uma vista daquelas?
Quer dizer, já saíra com seus amigos para comer fora e sempre conversavam durante os encontros. Mas era diferente aquela atmosfera. Parecia um tanto quanto... Familiar.
Um leve rubor surgia em suas bochechas. Dando-se conta dos pensamentos que lhe rondavam, Leonardo baixara a cabeça e começara a comer silenciosamente, sem se envolver demais na dinâmica daqueles quatro.
Somente quando começaram a comer que eles se acalmaram. Mas Leonardo nem havia notado, pois estava completo absorto nos próprios pensamentos.
― Jovem mestre. ― Chamava Vicente, o cutucando com o braço. Leonardo erguera os olhos lentamente com o garfo pendurado na boca. ― Estava perguntando o que pretende fazer amanhã.
― Amanhã? Trabalhar, é claro.
― Oh, diz que não pretende ficar aqui por tempo demais, só que já quer por a mão na massa. ― Zombava Ray voltando a girar a faca entre os dedos.
Leonardo fizera uma careta em resposta.
― Não trabalho aqui.
― Então onde trabalha? ― Quis saber Benjin, inclinando-se na mesa com os olhos brilhantes.
Leonardo não conseguira olhá-lo diretamente por muito tempo. Apenas baixara a cabeça para o próprio prato, cortando a carne.
― Numa oficina mecânica.
― Ora, eu já deixei sua carta de demissão para o seu chefe. Não é necessário que compareça.
― Certo... Espera, o quê? ― Piscando os olhos castanhos sobre Vicente, que comia elegantemente como se tivesse saído de algum livro velho, Leonardo não encontrara sinal de brincadeira. ― Por que fez uma merda dessas?
― Jovem mestre trabalha para ter o próprio sustento. Mas enquanto estiver aqui, não há necessidade de se preocupar com isso. Poderá focar na sua bolsa de estudos e na Dreamland.
A chuva que caía pesada no lado de fora soava distante aos ouvidos de Leonardo. Estarrecido ele se dava conta de que uma corrente o prendia aquele lugar.
Só não havia notado o momento em que Vicente o prendera ali magicamente.
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Atualizado até capítulo 102
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