Duas semanas haviam se passado até que o detetive conseguisse tirar um dia para visitar aquele lugar. Ou melhor dizendo, que conseguiria um dia para conversar com alguém daquele lugar, afinal já era a terceira vez que visitava Dreamland World naquele meio período de tempo.
As outras duas visitas foram para apenas observar como funcionava o local. Era inconcebível quatro pessoas desaparecessem sem deixar vestígios ou serem avistadas dentro de um parque lotado até seus últimos horários.
Em meio às suas andanças de um lado a outro, o detetive chegava à conclusão de que aquele caso era mais complicado do que imaginava. Nenhum funcionário parecia suspeito aos seus olhos, além de haver uma equipe de segurança rondando o parque. Não teria como alguém agir de maneira suspeita sem receber um olhar afiado dos seguranças fardados de vermelho.
O próprio detetive recebia tais olhares, porém não fora abordado graças ao distintivo preso em seu cinto. Mesmo que tivesse escolhido roupas casuais para não chamar atenção, precisava evitar problemas com seguranças por ficar indo de um lado a outro vasculhando os lugares e observando os visitantes.
No entanto sua terceira visita precisava de uma abordagem diferente. Sua sorte fora agraciada quando estivera em uma loja de sourvenir onde escutara a funcionara tratar um garoto jovem como seu gerente.
De primeira acreditara ser um absurdo que um rapaz tão novo parecendo ter recém saído do ensino médio fosse considerado um gerente, mas o observando resolver alguns problemas da loja em relação ao sistema de pagamento tivera de esquecer o seu espanto.
Esperou o rapaz de vestes estranhas sair da loja para abordá-lo.
― Com licença, não pude deixar de ouvir que é o gerente daqui. Isso é verdade?
O garoto virou-se para o detetive com desconfiança, apesar de sorrir educadamente para ele.
― Sim senhor, precisa de alguma coisa?
Pegando a carteira para mostrar sua licença, o detetive percebera que o rapaz não se abalara com sua identidade. Estava sendo cauteloso aparentemente.
― Sou um detetive e preciso conversar com o responsável pelo parque. Poderia me levar até ele?
― O responsável do parque? ― O garoto cruzava os braços pensando por um instante, até voltar a encarar o detetive diretamente. ― Acredito que seja inviável senhor detetive.
Os instintos do detetive faziam-no arrepiar com o olhar avaliativo que o garoto lhe dera. Como se analisasse-o apesar da máscara infantil que usava. Não deixariam que falasse com o responsável tão facilmente, imaginara, já que um mero instintivo e licença não seriam o suficiente para provar que ele era da polícia.
O garoto estava mantendo a guarda alta enquanto lhe dava atenção.
― Tenho um mandato se é o que deseja. Pode confiar em mim, desejo apenas fazer algumas perguntas.
O garoto estendera a mão em um pedido silencioso. Sem pestanejar o detetive retirara o papel dobrado do seu bolso da calça jeans e entregara ao garoto, que lera o conteúdo. Notara que fora avaliado pela segunda vez, por cima do papel, tendo depois o mandato devolvido.
Mesmo que fosse irritante ser alvo de tamanha desconfiança, o detetive manteve a compostura.
― Chamarei alguém que poderá ajudá-lo melhor. Podem se encontrar na cafeteria perto do carrossel, o que acha?
― Tudo bem.
O garoto não esperara por uma resposta sua quando virara de costas e continuara a seguir pela rua. Mas suas respostas evasivas foram devidamente registradas na mente daquele detetive.
A cafeteria mencionada pelo garoto trabalhava sobre o conceito de natureza. Feito de madeira e com plantas em volta, o intuito era um momento relaxante com direito a gatos passeando de um lado para outro. A imensa janela com o grosseiro vidro permitia aos clientes a visão do carrossel em primeiro plano, tendo a montanha russa no fundo.
Sentando-se em uma mesa afastada de costas para a porta, aguardara enquanto observava o intenso movimento de visitantes indo de um lado para outro. Definitivamente aquele lugar não parecia condizer com um cenário de desaparecimento apesar de ser propício. Justamente por haver tanta gente, era fácil perder uma criança de vista.
Aproveitando a sua vinda naquele lugar o detetive permitiu-se saborear uma xícara pequena de café. Completamente diferente do instantâneo da qual sempre tomava na delegacia. O sabor do café era mais acentuado e natural, tendo seu aroma forte o suficiente para atentar o seu desejo em beber mais.
Definitivamente era diferente.
Gostara daquele café.
Enquanto analisava o café naquela pequena xícara, um sujeito de vestes vitorianas surgia ao seu lado com um sorriso cordial no rosto. Ficara espantado com o quão silencioso ele chegara. Gabava-se de seus atentos ouvidos e instintos afiados que não lhe deixavam brechas para pegar um suspeito.
― É o detetive, não?
Espreitando os olhos castanhos, o detetive limitou-se a concordar com a cabeça enquanto o sujeito sentava-se na sua frente cruzando as pernas. Erguera o indicador ao olhar para a balconista sem precisar dizer absolutamente nada para realizar o seu pedido.
A julgar pelas vestimentas deveria ser outro funcionário do parque. Já notara que todos ali precisavam ser diferentes para ganhar atenção dos clientes. Apesar de que ele era o único a usar roupas com babados dignos de um romance de Jane Austen.
― Você é o dono desse lugar?
― Oh certamente que não, senhor...
― Monteccello. Giovani Monteccello.
― É um prazer em conhecê-lo, sou Vicente o administrador e secretário da Dreamland.
Uma jovem aproximou-se da mesa trazendo uma xícara de chá em porcelana bem enfeitada. Polido sem parecer assustado com a vinda de um suposto policial. Ao mesmo tempo que não parecia desacreditar de Giovani e sua suposta identidade.Com uma postura elegante o sujeito bebera um gole antes de erguer os olhos de âmbar para o detetive.
― Presumo que não tenha vindo aqui para se divertir, detetive Monteccello. No que posso ser útil?
― Queria ter uma conversa com o dono do lugar, mas parece ser bem difícil de chegar a esse cara.
― Peço mil perdões sobre isso, mas deve ter ouvido nas notícias que nosso Mestre Evilian falecera recentemente. As questões administrativas estão retornando lentamente enquanto organizamos nossa nova equipe.
Bem, tinha ouvido falar sobre o assunto. Quem não teria? Apesar de não ter saído uma nota sequer sobre o atual dono do parque, o lugar parecia funcionar muito bem. Como se nada tivesse acontecido.
― Então estão desfalcados, é o cenário ideal para pessoas desaparecerem.
Vicente parara o trajeto da xícara, erguendo o âmbar para o detetive. Fora necessária muita compostura de sua parte para manter a neutralidade em sua fisionomia, pois Giovani desejava jogar mais e mais iscas até que pegasse o peixe desejado.
― Ora, parece que temos um problema prestes a cair em nossas mãos.
― E dos grandes. Podemos conversar em um lugar apropriado?
Bebendo o restante do chá, Vicente secara a boca com um guardanapo de papel e se levantara da mesa.
― Certamente, me acompanhe por favor.
Deixando o dinheiro do café sobre a mesa, o detetive acompanhara o administrador para fora da cafeteria. Em meio ao silêncio observara as costas do sujeito sem deixar de prestar atenção por onde passavam, guardando em sua memória os locais que consideravam ideais para um suspeito se esgueirar. Porém, eles seguiam em direção da Dreamland Circus, onde só os funcionários estavam permitidos a entrarem.
Até onde sabia, o circo costumava funcionar somente à noite.
Vicente o guiara pela entrada da enorme tenda, onde chegaram ao palco. Pela primeira vez o detetive entrava em uma tenda de circo, ficando impressionado em ver a estrutura enorme. O palco continha alguns dançarinos que ensaiavam coordenadamente, ignorando por completo o administrador e o detetive.
Passando pelo palco e seguindo para os fundos, Giovanni ficava impressionado pela segunda vez.
― Perdoe a bagunça, usamos esse espaço para organizar nossos cenários dos espetáculos.
O detetive nada dissera em resposta, estava boquiaberto em perceber a quantidade enorme de pessoas que ali trabalhavam tão concentrados. Diferente do parque onde a atenção era voltada para a alegria dos visitantes, ali no circo os funcionários mal prestavam atenção em outras pessoas.
Podia ouvir o som de serras, de música, de martelos e o cheiro de metal. Era ali a oficina deles, aparentemente.
Um foco completamente invejável.
Passando por um corredor onde haviam várias salas, Vicente adentrara na última que se encontrava isolada de todo o resto. A porta fora fechada assim que o detetive entrara no cômodo, percebendo a elegância do local.
― Por favor, sente-se.
Sentando no estofado avermelhado, o detetive avaliava o ambiente. Nas paredes haviam cartazes semelhantes ao que vira na entrada, contendo todos os espetáculos já produzidos pelo circo. Uma estante de arquivos se encontrava na parede oposta, tendo no centro uma mesa amadeirada repleta de pastas e folhas espalhadas.
― Muito bem, o que desejava discutir?
Pegando o celular do bolso, o detetive abria as fotos das quatro pessoas desaparecidas e mostrava para Vicente. O administrador inclinara-se ligeiramente olhando as fotos, não parecendo surpreso em vê-las.
― Essas pessoas desapareceram, sendo que foram vistas pela última vez aqui no parque. A garota foi o último relato que recebemos, de duas semanas atrás.
― Isso é preocupante. Apesar de termos uma forte equipe de segurança, parece que algo escapa de nossos dedos. ― Murmurava o administrador ao se ajeitar no estofado da frente. ― Está suspeitando de alguém do parque?
― Todos os funcionários estão na lista de suspeitos. Trouxe o mandato para começar a investigá-los.
Novamente o detetive mostrava o mandato que carregava, tendo Vicente lendo atentamente.
― Compreendo. Devo avisar ao herdeiro sobre o assunto, sendo provável sua permissão em colaborarmos com sua investigação.
Giovanni arqueava a sobrancelha.
― Então vocês já tem alguém pra bancar o chefe por aqui.
― Não irá conversar com o meu mestre, Senhor Monteccello. ― Avisava o administrador, lançando um olhar furtivo sobre o papel do mandato.
― Está agindo como um suspeito, senhor administrador.
Ao deixar o mandato sobre a mesa de centro, o administrador soltara um suspiro. Havia algo nele muito semelhante ao que sentira naquele garoto de mais cedo. Como uma parede de três metros feita de metal o impedindo de conhecer o dono do lugar.
― O nosso novo mestre está ainda se acostumando com as atividades da Dreamland, já que a morte do Mestre Evilian foi repentina. Por enquanto fui designado a ser a ponte entre o parque e o herdeiro.
Não adiantava. Giovanni notava que o administrador não deixava pistas sobre o herdeiro. No entanto, se ele era a pessoa mais próxima do herdeiro e que ainda tinha controle de todo o parque, deveria bastar para começar sua investigação.
― Tem algum momento em que eu possa trazer meus colegas para começarmos?
― Acredito que seja melhor evitar finais de semana, pois não queremos que os nossos clientes fiquem assustados por verem policiais andando aqui. Um pouco antes do circo funcionar, por volta das dezoito horas, poderá falar com os funcionários que já encerraram suas atividades. ― Vicente puxava uma folha de papel fazendo anotações nela ― Mais alguma coisa que deseja de nós?
― Quero acesso à câmeras de segurança também, e preciso que os meus homens vasculhem o perímetro.
― Certamente. Tem algum cartão com o telefone para que eu possa ligar caso precise?
O detetive entregara o cartão da delegacia, tendo escrito atrás o seu número de celular particular. Percebendo o número escrito atrás à caneta, Vicente encarara o detetive.
― Prefiro que ligue diretamente para mim. O caso está sendo mantido em segredo da mídia, mas não será por muito tempo. Levando em consideração a fama desse lugar, é comum que telefones sejam grampeados.
― Compreendo. És muito astuto, Senhor Monteccello.
Ao sair da tenda do circo alguns minutos depois, o detetive fazia uma ligação. Sendo atendido rapidamente, o rapaz virou-se para observar a tenda atrás de si.
― Precisa de algo, detetive?
― Quero uma equipe pra investigar o parque hoje à noite. Prepare-se.
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Atualizado até capítulo 102
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