A vida de um universitário gira em torno de tentar salvar seu tempo livre das pilhas e pilhas de trabalhos e projetos que caem em seu colo, caso opte por deixar tudo na última hora. Leonardo evitava tal caminho o máximo que pudesse, mesmo tentando conciliar o trabalho de meio período em uma oficina mecânica.
Seria por tal hábito regular que ele e alguns de seus amigos poderiam passar a tarde toda apenas dando os últimos toques de uma apresentação de trabalho, logo após o almoço. E faltando duas horas para o começo da aula noturna, a roda de amigos poderia jogar conversa fora no estacionamento do campus.
― Vai lá bonitão, mostra o que sabe fazer!
― Sem pressão, não sou profissional.
Leonardo subia em cima do skate de seu amigo e pegava impulso para deslizar no asfalto do estacionamento. Fora longe para dar a volta com mais velocidade, conseguindo pular no meio fio em uma manobra pequena. Ainda assim ouvira os gritos impressionados de seus amigos ao passar por eles. Notando ser filmado por um celular, erguera dois dedos fazendo um “v” e uma piscadinha antes de descer do skate.
― Exibido ele.
― Fico impressionada com vocês conseguindo ficar em pé nesse trem.
A garota de cabelos claros ora olhava o skate ora para Leonardo, tendo um sutil rubor nas bochechas. O rapaz empurrara o skate até os pés da garota e lhe estendera a mão em um convite.
― Questão de prática, quer tentar?
Ela abrira um sorriso largo, que fora contido à tempo, assentindo diversas vezes antes de segurar a mão de Leonardo e subir no skate. O equilíbrio era fácil de ser mantido enquanto o skate estava parado e alguém a segurava. Por isso o rapaz ia de um lado a outro fazendo o skate andar, sem deixar de segurar a garota.
― Oh, descolei alguns ingressos naquele parque fora da cidade. Tão afim de ir?
Imediatamente a mente de Leonardo ficara branca e o seu sorriso congelara. Mesmo mantendo sua atenção em ajudar a garota a manter o equilíbrio no skate, dentro de sua cabeça uma erupção de sensações nada agradáveis tomavam o poder de seus neurônios.
― Não sabia que você curtia uma coisa dessas.
― Uns amigos do prédio de direito falaram que é daora. Tava pensando em ir nesse final de semana. Mas é paia ir sozinho.
― Quantos ingressos tu descolou?
Um sorriso enorme brotava no rosto do universitário.
― Consegui três. ― Uma onda de resmungos alargou o sorriso do sujeito ― Qual é, essa porra é cara!
― É claro que é caro, aquele lugar é sempre entupido de gente. E tão sempre falando dele na tevê. Na época do ginásio...
Leonardo deixara de acompanhar a conversa.
“― Leo, vamos lá ver a marionete. Ele é real”.
A neblina, a escuridão, o frio e o pavor. Eram memórias que enraizavam na mente de Leonardo sempre que aquele lugar era meramente mencionado. Chegara a ter pesadelos naquela noite, revivendo o terror do sorriso diabólico de um sujeito escondido nas sombras, mesmo tendo sangue respingando em si.
Preferia dizer que tivera aquele sonho estranho devido ao seu cansaço de revisar suas anotações a semana toda tarde da noite. Bem... Menos a noite passada. Geralmente não negligenciava seus estudos, mas aquela noite havia sido péssima para ele. Não apenas para cantar com sua banda em um bar, mas por causa da visita inesperada que recebera naquela manhã.
Vicente.
Quando ainda era moleque, Vicente já trabalhava com seu pai mesmo tendo sua idade aproximadamente. Sempre segurando papéis e sorrindo gentilmente o tratando como se fosse da realeza. Sempre cumprindo os seus deveres com perfeição ao ponto de arrancar elogios de seu pai.
Trabalhando como seu braço direito.
Fora Vicente quem o procurou quando seu pai fora hospitalizado por ter tido um acidente vascular repentino. Tentara de todas as formas possíveis levar Leonardo para o hospital, mas o moreno somente ia em horários noturnos das quais sabia que ninguém estaria por perto.
Em suas visitas noturnas, Leonardo não ficava mais que meia hora no quarto de seu pai. Apenas mantinha-se sentado na cadeira o observando silenciosamente, percebendo os sinais de velhice e cansaço. A barba por fazer já tinha alguns fios brancos, assim como seus cabelos pareciam ter ficado acinzentados.
Quando ele tinha envelhecido daquela maneira?
A vez seguinte da qual vira Vicente, foi para anunciar a morte de seu pai. Três meses atrás. Fora o dito cujo quem cuidou de todo o enterro apesar de Leonardo não comparecer.
Mas sabia que naquela tarde o céu estava nublado e uma chuva intensa caía. Um clima digno de enterro.
E agora via Vicente mais uma vez.
Chegava a ser risório que as visitas daquele assistente maluco pareciam trazer problemas para Leonardo.
O suor frio começava a deixá-lo nervoso. A garota notara a frieza nas mãos do universitário, erguendo os olhos preocupada para ele. Tentando inclinar-se para olhar melhor seu rosto, a garota perdia o equilíbrio caindo para frente. Para a sua sorte Leonardo acordara de seu devaneio a tempo de segurá-la em seus braços.
― Isso foi perigoso, está bem?
O rubor tomara as bochechas da menina quando ela notara estar de cara com o peito do rapaz, e ainda de estar de segurando firmemente em seus braços. Afastando-se rapidamente, ela abria um sorriso nervoso.
― Estou sim, é realmente difícil ficar em pé nesse trem.
― Ainda bem que a segurei, nesse caso.
Um pigarrear chamara a atenção dos dois, tendo Rafael apontando com a cabeça para o amigo que havia comprado os ingressos e dono do skate. Leonardo percebia que o sujeitinho não o encarava, mas sim à menina. Logo compreendia.
Havia comprado os ingressos pra convidar a menina.
Antes que dissesse alguma coisa, uma garota de cabelos escuros aparecera em uma corrida, ela se segurou nos ombros de Rafael o encarando horrorizada.
― Me diga que o almoxarifado ainda está aberto!
― Ele tá, mas a fila tá gigante.
― Quando iremos nos apresentar?
― Por último.
― Vazei, então. To indo imprimir nosso trabalho.
Nem dera tempo de recuperar o fôlego e a pobre garota já saíra em disparada em direção do almoxarifado. O pequeno grupo começara a rir do desespero dela, o que já era costumeiro dado que ela sempre se atrasava por conta do trabalho.
― Caralho que frio do cão! ― Resmungava Rafael, encolhendo-se no casaco.
Inclinando a cabeça para observar o céu ainda claro, Leonardo suspirava. Depois da aula tinha que ir para aquele lugar...
― Oh Leo, vamos lá catar algo pra comer. To morrendo de fome.
Antes de ir, Leonardo fora até o dono do skate e o empurrara em direção da garota. Sorrindo largamente para aqueles dois, ele dera uma piscadinha.
― Você manja bem mais do que eu, deve ensinar direitinho. Nos vemos na sala!
Sem olhar para trás, os dois amigos chegaram à lanchonete comprar salgados. Leonardo fora o único que apreciou lentamente o seu lanche, tendo de lutar bravamente para que nenhum pedaço fosse mordido por seu amigo esfomeado.
Matando um pouco do tempo antes de entrarem na sala, Rafael bebia o café quente sem desviar o olhar de seu amigo.
― Hoje você parece estar com a cabeça nas nuvens. Aconteceu alguma coisa?
Leonardo mordia o salgado e negava com a cabeça.
― Nada demais.
― Te conheço desde a escola. Eu sei quando está preocupado com algo. Fala ae.
Afastando o guardanapo do lanche, podendo mordê-lo novamente, Leonardo não encarava o seu amigo. Ainda que estivesse de boca cheia, ele sorria por ter alguém que o conhecia tão bem sem precisar dizer algo.
― Resolver uns problemas do meu velho. Só isso.
Recebendo um aperto em seu ombro, Leonardo sentia o calor de um conforto amigável. Sem tocar mais no assunto, os dois continuaram ali escondidos até que desse a hora de entrarem no prédio e irem para a sala de aula.
Quando entraram, se alojaram no fundo da sala onde o grupo de amigos já estava reunido. Conversavam sobre o trabalho, verificando a parte que cada um falaria e o slides que foram montados. Tão breve a professora entrava na sala dando início às aulas e às apresentações.
― Já que hoje vai ser só apresentação de trabalho, tão a fim de sair pra algum lugar depois? ― Sussurrava um colega para o grupo.
― Seria daora... Onde querem ir?
― Beber?
― Tô de ressaca ainda. ― Reclamava Rafael em uma careta ― Mas topo da gente ir na praça perder tempo lá. O que acham? Tu vai Leo?
Leonardo mantinha o olhar perdido sobre a chave do carro que segurara. Havia tirado do seu bolso sem perceber, quando o assunto fora tocado. Ele estaria o esperando na frente da tenda.
Não queria ir.
Mas seria melhor por um fim naquela história.
Respirando fundo, erguera a cabeça percebendo os diversos pares de olhos curiosos o fitando atentamente.
― O quê?
― Perguntei se vai com a gente pra praça depois da aula.
― Não. ― Respondera, apesar da pouca convicção. Leonardo voltara a encarar a chave do carro, a guardando no bolso ― Tenho um compromisso depois, não vai rolar.
Os demais garotos do grupo viraram-se para discutir o que fariam depois da aula, tendo apenas Rafael a encarar o amigo. Deixando alguns tapinhas em suas costas, dirigiu-lhe um sorriso sutil antes de entrar na conversa dos demais.
Uma hora e meia depois a aula começava com o professor chamando as equipes para apresentarem seus trabalhos. Para a sorte de um certo rapaz ansioso e fujão, sua equipe ficara por último nas apresentações. E por ter feito muito bem o seu trabalho, preparando uma dinâmica com sua classe para garantir mais pontos do professor, o grupo levara ainda mais tempo de apresentação.
A aula que deveria encerrar por volta das nove da noite encerrava uma hora e quarenta minutos depois. Graças ao excelente trabalho que fizera toda a classe participar ativamente da dinâmica.
Pouco a pouco a sala de aula ficava vazia e Leonardo voltara a segurar as chaves do carro indo ao estacionamento. Seu Chevette preto estava perto do prédio da biblioteca, aguardando friamente por sua chegada. Sentando no banco do motorista, Leonardo reclamava do frio pegando o celular para colocar no GPS o endereço daquele lugar.
Não precisou de muito esforço para encontrar a foto do parque no Google. A rota fora criada em segundos, mostrando que vários usuários pesquisavam por aquele lugar.
Tão diferente de anos atrás.
Mais uma vez queria fugir.
Queria ir para o seu apartamento dormir até dizer chega. O nervosismo subia por seu estômago o fazendo apertar o volante em suas mãos. De maneira alguma queria ir aquele lugar. Principalmente naquele frio.
Mas se não fosse, Vicente o buscaria novamente na faculdade. Provavelmente teria um sermão longo para lhe dar. E ainda jogaria na sua cara que agia feito um moleque mimado.
― Ah... Vamos logo.
Ligando o motor para se enfiar na longa fila de carros, Leonardo criava coragem para seguir o caminho para aquele lugar.
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Atualizado até capítulo 102
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