― Fala sério que dor de cabeça dos infernos!
― Shhhh, minha cabeça está explodindo...
O vocalista observava os dois amigos, baixista e guitarrista da banda, reclamarem com pesar. Também estava com dores de cabeça, apesar de a sua advir de mais uma noite mal dormida. Balançando a cabeça em negação, o rapaz deixava sobre a mesa de pedra circular uma sacola com duas marmitas bem fechadinhas.
Os rapazes ergueram os olhos pedintes, ousando fazerem bico com os lábios.
― É sopinha?
― De mandioca com carne. Comam enquanto tá quente. ― Dizia o vocalista sorrindo de canto para os amigos.
― Você é um anjo, Leo!
― Vão à merda antes que eu me esqueça. Estão me devendo vinte reais com essa ressaca de vocês.
Os dois rapazes nem se importavam com as reclamações do vocalista. O cheiro delicioso da sopa pastosa abrira o apetite enjoado deles, que logo começaram a comer.
Naquele horário do almoço o movimento na universidade parecia aumentar gradualmente. Todo o falatório dos estudantes faziam a dor de cabeça dos meninos aumentarem, mas ainda assim era melhor do que ficar dentro do prédio, onde o eco judiaria mais deles.
― Pronto, enchi as garrafinhas de vocês. ― Avisava o baterista carregando duas garrafas térmicas, também as deixando sobre a mesa de pedra.
― Valeu, caçulinha. ― Sussurrava o guitarrista, fazendo careta ao menor movimento da cabeça. ― Ah que merda, me lembre de nunca mais beber.
― Sempre fala isso e sempre enche a cara quando fica animado. ― Avisava o vocalista, se divertindo com a ressaca dos amigos.
― Hehehe, vou lembrar disso. Aliás... Algum de vocês tinha marcado de estudar com alguém?
Os três rapazes entreolhavam-se e então negaram com a cabeça.
― Não que eu me lembre. Por quê?
O baterista olhara sobre o ombro, parecendo preocupado.
― Aquele cara tem nos encarado desde que chegamos, e tá segurando uma pasta.
Virando-se na direção observada pelo integrante mais jovem, os três rapazes percebiam a pessoa mencionada. Parecia ter a mesma idade que eles, pouco mais de vinte anos, e belo com seus cabelos loiros como o raio de sol.
Usando um sobretudo preto que parecia ter saído de algum livro velho, a figura desconhecida percebera o olhar dos rapazes e fizera uma mensura sutil com a cabeça. Um tanto quanto estranho a postura ereta e a atenção direta que o sujeito dedicava ao quarteto.
Era a mescla do elegante e do medonho, resultando naquele sujeito e sua presença.
― Que merda é essa?
― Será que finalmente teremos o nosso primeiro fã maluco?
Suspirando baixo, o vocalista deixava as mãos no bolso tentando esquentar os dígitos que ficaram subitamente gelados.
― Relaxa, é um conhecido meu.
Os três integrantes da banda viraram-se surpresos para o vocalista.
― Tu gosta de cosplayers agora? Que merda é essa?
― Tá bêbado ainda por acaso? ― Reclamava o vocalista ao se levantar do banco de pedra. ― O sujeito trabalha com o meu velho. Provavelmente veio me ver.
― Teu velho? Pensei que tinha cortado laços há anos.
O vocalista espreitara os olhos sobre o sujeito que estava alguns metros de distância.
― Pois é, eu também pensava. ― O sussurro não fora escutado pelos dois rapazes de ressaca, que voltaram para sua sopa. ― Vão indo na frente, e fiquem melhor logo que hoje à tarde temos um trabalho e eu não to afim de fazer a parte de vocês.
― Leozinho, querido, já te mandei tomar naquele lugar hoje?
Virando a cabeça sobre o ombro, o vocalista abria um sorriso afável apesar das espinhosas palavras.
― Estou te esperando para irmos juntos tomar naquele lugar, Rafinha.
― Ah, até mandando a gente tomar no cu ele fica bonitão. Que inveja. ― Murmurava o outro cabisbaixo.
Ignorando os resmungos dos amigos, o vocalista caminhara em direção do sujeito que permanecera parado como um boneco de cera. Na medida em que a distância era encurtada, mais o vocalista sentia aquela sensação estranha tomar seu corpo. O frio na barriga, o desejo de ir embora para longe.
Quanto mais aquele sujeito lhe dirigia um sorriso, maior era sua vontade de fingir não tê-lo visto.
E quando finalmente o alcançara, o vocalista ouvira aquela voz suave e formal lhe cumprimentar.
― Jovem mestre, peço que possa me ouvir nesse momento. Poderia me acompanhar até a cafeteria?
Sem dizer uma palavra se quer, o vocalista continuara a caminhar em direção da cafeteria mais próxima do campus. Sabendo estar sendo seguido pelo sujeito, o rapaz tentava afastar aquelas sensações.
Havia ignorado aquelas pessoas por mais de dez anos. Cortara qualquer relação que poderiam ter com eles. Tudo para ter uma vida meramente feliz, mantendo suas lembranças mais dolorosas presas no inconsciente.
Deveria ter considerado aquela matéria do jornal como um aviso. Poderia ter pego seu carro e matado aula para ficar no litoral até a poeira baixar. Como fizera da outra vez.
Entrando na cafeteria vazia, o vocalista sentou-se em uma mesa afastada tendo o sujeito elegante se sentando na sua frente. Deixando a pasta sobre a mesa, o loiro ainda sorria cordialmente para o rapaz.
― Fico tão feliz em finalmente contatá-lo, jovem mestre Leonardo. Já estava imaginando que fugiria para a praia mais uma vez.
O rapaz arqueava a sobrancelha em notar que sua tentativa de fuga fora descoberta. Mais surpreendente ainda era saber que aquele sujeito não fora atrás dele mesmo sabendo onde estaria se escondendo.
― O que quer, Vicente?
― Devo cumprir com o meu dever, e lhe apresentar o testamento de seu pai.
Deveria acabar com aquele assunto de uma vez por todas? Seria melhor do que continuar a fugir daquele sujeito medonho.
Puxando o envelope amarelado, Leonardo retirara alguns documentos dele. O testamento de seu pai não era de seu conhecimento, assim como qualquer outra informação a seu respeito dos últimos anos desde que saíra de casa.
Nada era do seu interesse.
Não queria se envolver com mais nada.
Porém, ao ler as linhas digitadas, os olhos castanhos de Leonardo se arregalavam ao ponto de pular da cadeira e encarar o sujeito à sua frente.
― O que é isso?
― O testamento de seu pai. ― Respondia o loiro pacientemente.
― Estou perguntando que merda é essa que tá escrito aqui! ― Gritava o rapaz deixando as folhas sobre a mesa.
O sujeito apoiara os cotovelos sobre a mesa, engolindo em seco sem esforçar-se a sorrir. Erguera os olhos de âmbar para o moreno, mostrando-lhe a seriedade do assunto.
― Jovem Mestre, sempre foi desejo de seu pai que herdasse o...
― Não, eu não vou. ― Respondera categoricamente. ― Eu disse que nunca mais pisaria naquele lugar, e estava sendo sério. Venda pra alguém, faça o que quiser, isso não tem nada a ver comigo.
― Mestre Evilian tinha um sócio, de fato, mas ele falecera quando o jovem mestre ainda era de colo. ― Dizia o rapaz loiro, tirando um par de óculos do bolso de seu sobretudo ― O Mestre Douglas tem um filho que trabalha conosco atualmente, mas ele não poderá herdar o imóvel.
― Por que não?
O sujeito loiro batera a ponta do indicador sobre o papel, tendo Leonardo suspirando derrotado ao terminar de ler o documento. Se antes o sobressalto fora devido a sua herança, agora seu terror advinha do trato decidido por seu finado pai.
― Casamento? ― Virando-se para o sujeito que apoiava o queixo sobre a palma da mão sorrindo docemente para si, o rapaz fazia careta. ― Nem ferrando. Não vou me casar só pra passar aquele lugar pra uma mulher que nem conheço.
― Um homem, jovem mestre. A pessoa do trato é um rapaz.
Piscando aturdido, Leonardo se recostara na cadeira.
― Eu não sou gay!
― Com todo o respeito, não está dito que precisa consumar o casamento. ― Dizia o outro, parecendo se divertir com a frustração do outro.
― Não vou me casar.
― Então herdará o imóvel?
―Nem herdar aquele lugar. ― Rosnava Leonardo.
Suspirando derrotado, fora a vez do loiro em se recostar na cadeira. Entrelaçando os dedos sobre os joelhos, ele ponderou silenciosamente sem desgrudar os âmbar de Leonardo. Segundos depois de mudo, ele meneava a cabeça.
― Venha assistir um espetáculo, jovem mestre.
― Não. ― Respondera categoricamente.
― Permita-me a franqueza, jovem mestre. ― Dissera Vicente, olhando o rapaz por cima dos óculos. A aura em sua volta mudara, toda a cordialidade fora substituída por uma frieza que dispensava comparações. Leonardo chegara a encolher os ombros e a engolir seco quando tivera os âmbar presos em si. ― Já está na hora de parar de agir feito um moleque, e assumir os compromissos. Você saiu de casa e soube se virar muito bem até agora, mas seu pai morrera e deixou um parque em seu nome. Se quiser abrir mão de sua parte, então terá de vir hoje à noite, se reunir com representantes de cada parte do parque e fazer uma declaração.
― Você está correndo atrás desse moleque pra herdar aquele lugar.
Tornando a apoiar os braços na mesa, inclinando-se ameaçadoramente na direção de Leonardo, o loiro não rompera o contato visual.
― Se quer me provar que é adulto o suficiente, estarei à sua espera na frente da tenda. E então, resolveremos isso de uma vez por todas.
Vicente não havia mudado em nada com os anos. Bem, em questão de personalidade, é claro.
Sempre elegante e formal, sendo responsável por seu trabalho o fazendo impecavelmente. Mas quando se tratava de brigar com alguém, bastava mirar aquele âmbar em sua direção e engrossar a voz que a aura fria se fazia presente.
Quantas vezes levara bronca dele ao longo dos anos? Mesmo quando saíra de casa, Vicente era o único que o procurava para desejar feliz aniversário ou apenas espioná-lo em nome de seu pai, o que ocorria uma à três vezes por ano.
O conhecia o suficiente para saber que não haveria outra forma de fugir daquela situação. Vicente realmente iria esperá-lo na frente da tenda, e o ajudaria a encerrar o assunto. O problema era sempre que com Vicente as coisas tinham que ser resolvidas por lá.
Nunca em outro lugar.
― Nos vemos hoje à noite. Não precisa faltar às suas aulas noturnas, se conseguir chegar ao fim do espetáculos é o suficiente.
Observando aquele sujeito ir embora da cafeteria, deixando para trás aquele envelope, Leonardo tinha a certeza de uma coisa.
Aquele maldito tinha verificado até sua grade curricular para encurralá-lo. Deveria temer o que mais ele poderia saber sobre a sua vida tão medíocre.
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Atualizado até capítulo 102
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