Um motor sobre a mesa estava recebendo atenção de três estudantes de engenharia mecânica. Um olhava o projeto no computador, direcionando os demais a montarem o motor minuciosamente. Cálculos eram feitos, materiais eram checados e ferramentas preparadas. Os três dedicavam tanta atenção ao projeto que mal notaram a presença de um sujeito com vestes vitorianas preto e verde parado na porta da oficina.
― ‘Pera aí, acho que errei o cálculo! ― Gritava Rafael esticando os braços. Os outros dois estudantes ergueram a cabeça parando de mexer no motor.
― Tá de sacanagem? ― Bufava Juliano, o baixista da banda e colega de classe de Rafael e Leonardo. ― Pode revisar isso aí, não temos material sobrando caso dê erro.
― Me dê uns minutos e eu já checo isso aí, aguenta!
Juliano bufava impaciente, indo até Rafael olhar por cima de seu ombro o projeto no computador. Enquanto os dois rapazes tentavam encontrar o erro, Leonardo continuava a mexer no motor retirando algumas peças.
Prestes a ir à mesa onde peças de diversos tamanhos e finalidades estavam dispostas, o rapaz percebera aquela presença fantasmagórica parada na porta na oficina. Olhara para trás, tendo seus amigos concentrados, quase encostando suas caras no computador.
Aparentemente não teriam percebido a presença daquele sujeito.
Fora a sua vez em suspirar pesado antes de ir até Vicente. Já imaginava o tipo de problema que teria em mãos. Quer dizer, aparentemente ele batera em alguém que tinha influência no circo. Certamente renderia em alguns problemas administrativos.
Será que ele arrumara alguma dívida com o circo? Isso seria um problema, apesar de não haver arrependimento algum de seus atos.
― O que quer?
― Jovem Mestre ― Vicente fizera uma ligeira mensura com a cabeça ― Ainda temos assuntos pendentes. Eu disse que se desejasse renunciar, precisaria se reunir com outras pessoas para esclarecer e resolvermos a situação.
Leonardo espreitava os olhos desconfiado.
― É só por isso que veio me procurar?
― Haveria outro motivo?
Vicente era a inocência em pessoa, para a irritação de Leonardo. Ou, mais provável ainda, que a irritação do rapaz seja a sua própria preocupação sobre o que acontecera na semana anterior. Seria um tiro em seu orgulho se perguntasse, mas por outro lado não tinha como não desejar saber o que havia resultado aquela briga.
Naquela balança mental, engoliria uma ponta do seu orgulho.
― Aquele cara, por acaso trouxe problemas?
Os olhos de âmbar de Vicente brilhavam astutamente. O fino sorriso não fora escondido, mesmo com o rapaz baixando a cabeça pensativo.
― Isso irá depender de qual resposta deseja ouvir, jovem mestre Leonardo. A que vai te agradar ou a verdade?
― Prefiro a verdade.
― Por alguns funcionários terem testemunhado e sendo vitimados dos comportamentos do Senhor Brahan, ele foi convidado a se retirar do nosso sistema de patrocinadores. O que é uma lástima, pois perdemos uma grande quantia de investimento.
Leonardo engolia em seco. Droga, já havia imaginado que o sujeito era rico só pelas roupas que vestia. E até o ouvira dizer para o trapezista que havia investido dinheiro nele. Sua cabeça simplesmente não seguira o fio lógico daquela conversa para chegar naquela conclusão, que agora parecia ser tão óbvia.
Se tivesse, teria evitado a briga?
Ou teria arrastado ele pra algum lugar com menos gente só pra ser ainda mais violento em seus socos?
Coçando a nuca, nascia ali um arrependimento pequenino e azedo.
― Puta merda... Mas vocês vão conseguir lidar com isso, já que são famosos. Aquele cara não vai sair difamando vocês.
― Senhor Brahan saiu para uma longa e demorada caminhada, então provavelmente não desejará nos ver novamente. Por isso abrimos vagas para novos patrocinadores e estamos trabalhando na campanha contra assédio sexual. Mas ainda temos alguns problemas financeiros.
― Certo... E aquele cara, tá bem?
― Aquele cara? ― A confusão era nítida em Vicente, mesmo com Leonardo arqueando a sobrancelha como se a resposta fosse óbvia.
― É, a marionete. Ele que foi quase levado a força, não é?
Um sorriso largo surgia na face de Vicente.
― Oh, certo. Sim, Benjin está bem e me pediu para convidá-lo a retornar ao circo, pois gostaria de agradecê-lo pessoalmente.
Leonardo erguia a ponta dos lábios em um sorriso.
― Tá querendo me levar pra lá de novo, seu palhaço.
― Foi tão óbvio assim?
Um riso escapara dos lábios do universitário, que deixava as mãos na cintura estando completamente incrédulo do quão direto Vicente conseguia ser em alguns momentos.
― Nem ao menos disfarçou! Qual é, já disse que não vou herdar aquele lugar.
― Felizmente o comportamento do jovem mestre na semana passada trouxe uma situação da qual me ajudará a convencê-lo do contrário. ― Vicente abria o seu grosso casaco retirando dele um papel dobrado. Ao desdobrar, se pôs a ler. ― Pela saída repentina de nosso patrocinador, o financeiro terá de arcar com os prejuízos, já que o Senhor Brahan fornecia equipamentos de segurança para os nossos artistas.
Aquela conversa não estava tomando um rumo agradável. Por cima do ombro Leonardo checou os amigos, que agora usavam um caderno para rabiscar algo, apesar de ainda estarem quase colados à tela do computador. Mesmo que a concentração deles fosse tão forte, o universitário não queria continuar aquela conversa por ali.
Então puxara Vicente pelo braço para fora da oficina do campus, que se encontrava deserto. No lado de fora, aos fundos, havia uma cerca e um comprido terreno vazio. Ninguém escutaria os dois conversando ali, e ainda o ar puro ajudaria Leonardo a pensar melhor.
― O que você quer Vicente? É sua intenção me fazer sentir responsável por esse problema?
― Ora, jovem mestre, mas você é o responsável já que agrediu o nosso patrocinador.
Leonardo balançava a cabeça em negação. Estava sendo encurralado cada vez mais naquela armadilha de Vicente. Se fosse maluco chegaria a ter certeza de que o outro criara toda aquela situação justamente para garantir o seu retorno ao parque.
Mas era impossível isso.
― Então vai me fazer herdar o parque todo só pra que eu pague essa dívida? Nem ferrando.
― Jovem mestre, por que se nega a tomar posse do parque? Devemos começar a nos entender a partir desse ponto.
― Eu não entendo nada sobre isso, Vicente! Isso era o sonho do meu pai e não o meu. Não tenho qualquer laço com aquele lugar.
― Ora, quanta besteira, mas é claro que tem. ― Vicente ria, mesmo que a conversa gerasse mais desespero do que bom humor ― Jovem mestre o parque foi o lugar onde nasceu e cresceu. Há muitos funcionários da qual costumava brincar na época que continuam por lá. É justamente o contrário, você é o que deve herdar por fazer parte da história de Dreamland. Se o problema for sobre o seu baixo conhecimento administrativo o Mestre Evilian me encarregou de ensiná-lo devidamente.
― Eu faço faculdade de engenharia mecânica e não administração, Vicente. Não sou apto para isso. E eu não quero voltar.
Suspirando baixo, Vicente encarava o estudante sendo retribuído. Um olhar silencioso e avaliativo, sem nenhuma sombra de bom humor de outrora. E então concordara com a cabeça.
― Muito bem, podemos ir por outro caminho. Um período de experiência na Dreamland.
― Qual é Vicente...
― Jovem Mestre cumprirá com seus deveres enquanto herdeiro por alguns meses. Aprenderá o básico de administração e cuidará do circo. Posso me encarregar de assuntos complicados em seu nome, estarei sempre do seu lado para simplificar as coisas.
Leonardo fazia uma careta. Definitivamente não se via da mesma maneira que o sujeito da qual socara da outra vez. Usando um terno e gravata de marca sentado atrás de uma mesa, ou participando de reuniões com gráficos sendo vomitados na sua cabeça.
Aquele não era o seu estilo de vida.
― Não vai rolar.
Vicente erguera a mão, pedindo que o outro esperasse.
― Certamente ninguém, além de um grupo muito seleto de pessoas, saberão sobre o jovem mestre. Não precisará participar das reuniões, mas certamente eu e você discutiremos as pautas.
Quando Leonardo cruzara os braços e franzira a testa parecendo seguir sua linha de pensamento, Vicente limitou-se a sorrir minimamente.
― Durante esse período de experiência conhecerá teu noivo e a situação do parque antes de tomar qualquer decisão. Além disso, aqueles que saberão sobre o jovem mestre poderão avaliá-lo também. É claro que se autossabotar propositalmente acarretará no aumento do seu período de experiência.
― Se eu fizer isso, não precisarei me responsabilizar pela dívida que aquele cara deixou?
― Certamente. ― Voltando a ler a folha em mãos, Vicente logo continuara ― As condições são para que o jovem mestre passe a viver na Dreamland Mansion junto com o grupo seleto, onde poderemos falar abertamente sobre os assuntos administrativos do parque.
― Nem ferrando. Aha, mas estava demorando pra vir uma coisa dessas. Por que raios eu deveria morar lá? Eu já tenho um apartamento.
Tornando a dobrar o papel e a guardá-lo no bolso interno do seu casaco, Vicente mantinha toda a calma diante da recusa de Leonardo.
― O jovem mestre tem a bolsa de estudos para manter, e por isso seu tempo deve ser devidamente administrado. Posso me responsabilizar por sua agenda. No entanto, os funcionários do parque também tem suas tarefas diárias. Não tem como eles se deslocarem até o jovem mestre a todo momento. É melhor que more na Dreamland Mansion.
Droga, fazia sentido. Sua faculdade por si só era longe demais do parque. Naquela noite em que fora encontrar Vicente, o tempo perdido no trânsito o irritara imensamente. Não tinha como ir o tempo todo para lá, nem os funcionários fazerem o mesmo para vê-lo.
Espera... Estava realmente ponderando aquilo?
― Eu também tenho meu trabalho de meio período.
― Pensaremos melhor na medida em que encontrarmos a nova rotina, jovem mestre.
― E vai ser apenas por um tempo, não é?
― A menos que deseje desistir de abrir mão de sua herança.
Aquele âmbar brilhava com tamanha astúcia que causavam arrepios em Leonardo. A última coisa que desejava era se endividar com um parque famoso como aquele, tendo a responsabilidade do ocorrido na semana anterior pesando em seus ombros.
Não tinha ideia de como sair daquela teia de aranha. Vicente parecia preparado em encurralá-lo de qualquer forma e arrastá-lo para aquele lugar.
Coçando a nuca o rapaz bufava furiosamente.
― Tá, que seja. Vamos terminar logo com isso.
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Atualizado até capítulo 102
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