O reinado da força bruta

A sexta-feira à noite estava agitada no bar Rodie’s graças a um vocalista agitado sobre o palco. O repertório da noite eram cover de bandas dos anos oitenta carregando nostalgia para os fãs, que cantavam junto erguendo suas garrafas e canecas.

Com o palco sendo pequeno demais, Leonardo pulava do palco para andar entre as mesas interagindo com o público que se animava cada vez. A euforia recheava aquele bar lotado, tendo as vozes se erguendo seguindo em ritmo à melodia. As letras gritadas pareciam dar ao vocalista a energia necessária para continuar com seu passeio entre o público, antes de pular de volta para o palco.

O solo de guitarra, baixo e seguido da bateria também receberam os aplausos dos clientes.

Precisava de mais.

Muito mais.

Sua garganta ainda não ardia como desejava.

Seus pulmões não estavam ofegantes o suficiente.

Não era o suficiente.

Com o final da apresentação, os aplausos do público eram músicas aos seus ouvidos. Leonardo erguia o microfone ao alto, celebrando mais um sucesso em outro trabalho de meio período.

― Querem mais? ― Ria o rapaz se sentando no palco, olhando para o público que respondia com gritos. ― O que fazer? Tocamos o nosso repertório inteiro hoje. Devemos pegar algumas desconhecidas pra vocês aproveitarem?

O grito do público fazia Leonardo alargar o sorriso em satisfação.

― Muito bem! Bora com Cry Baby, versão brasileira.

Virando-se para os colegas da banda, que assentiam ao pedido, logo a nova música saía dos acordes. Geralmente tocavam músicas conhecidas, mas Leonardo queria cantar aquela música. Versão brasileira da abertura de um de seus animes prediletos, adorava a versão que sempre escutava no youtube.

E ela tinha o que Leonardo mais desejava fazer naquele momento.

“A força bruta era o que reinava, no golpe que te derrubou

Depois de tanto relutar, viver os sonhos já não importava.

Sobre as feridas veio a chuva, você tentava se esconder

Me olhando com um sorriso e dizendo que tudo estaria bem.

Você nunca brigou com ninguém, como iria esse mal merecer?

Não finja pra mim que superou, eu posso ver em seu olhar o quanto está sofrendo”.

Pulando no palco, Leonardo ficava em pé sobre um caixote encarando diretamente a plateia. Era como se a mensagem fosse diretamente para eles, apontando em suas direções dizendo uma verdade incontestável.

A bateria erguia o som e o ritmo acelerava para que a voz de Leonardo fosse escutada por todos. O refrão chegava com o vocalista mostrando seu talento em atingir notas mais altas.

“Deixe que a dor se vá nas lágrimas, não prenda-se ao rancor

Liberte-se, liberte-se do tormento

Eu te darei conforto, se o coração não suportar

Não desista, luta contra esse final cruel

Mesmo que a dor sufoque a vontade de viver feliz

Deve ir seguir a sua vida

É por seu sorriso, que encontro forças pra avançar

Em meio à chuva meu grito vai ecoar

Eu faço um juramento aqui

Terei nossa revanche!”

Revanche? Será que essa seria a palavra correta para aquilo que Leonardo sentira naquele momento?

Mesmo tendo uma semana se passado desde o acontecido na Dreamland, Leonardo era incapaz de se esquecer daquela fúria incandescente que sentira ao socar aquele brutamontes. Apesar de ser uma pessoa fisicamente diferente, o que ele enxergava era uma mera sombra do seu passado.

Uma sombra da qual desejava desesperadamente esganar.

“Eu serei forte e revidarei, esse motivo me tomou

É o que preciso para avançar, só dessa forma ao meu lado você estará

Aquele dia triste alguém irá lembrar, não importa quanto eu caia vou me levantar

Uma voz em mim, uma voz em mim me diz você nunca deve desistir.

Por que não revida?

Me diga por que não se vinga?

Me diga por que não revida?

Me diga por que nem mesmo tenta?

Por quê?”

E fora naquele momento, em que sua voz gritava ao microfone junto da guitarra e da bateria que o clímax da apresentação era alcançado. O som que Rafael tirava da guitarra fora aplaudido pelo público, que levantaram-se novamente para gritar em euforia pela música tocada.

A bateria e o baixo davam o toque final daquele ápice, tendo o ritmo diminuído novamente para a entrada do vocal. Leonardo segurava o microfone escondendo o semblante na franja comprida e escura.

“Doces palavras não vão me ajudar ou me abrigar da tempestade que cai

Guardar gentileza não bastará

Eu só poderei cicatrizar o coração ferido se a fraqueza ficar no passado”

Um riso escapara de sua garganta com a sensação eletrizante de se enxergar naquela letra. Maldito fosse quem traduziu a letra, pois havia tocado a sua alma e cutucado sua ferida mais dolorida.

Novamente o ritmo acelerava para o final da música. O público reagia empolgado tendo Leonardo interagindo com eles mais uma vez. Aquela conexão que sentia de vez em quando e sempre comprovava o quão prazeroso era se apresentar junto com seus amigos.

“Deixe que a dor se vá nas lágrimas não prenda-se ao rancor

Liberte-se, liberte-se do tormento

Eu te darei conforto, se o coração não suportar

Não desista, lute contra esse final cruel

Mesmo que a dor sufoque a vontade de viver feliz

Deve ir, seguir a sua vida

É por seu sorriso que encontro forças pra avançar

Em meio à chuva meu grito vai ecoar

Trarei de volta o que perdi, o que o tempo roubou de mim

Os bons momentos que vivi

Irei restituir, juro a você

Terei nossa revanche!”

O grito final ecoava por todo o bar recebendo os aplausos do público. Encarando a cada um que lhe aplaudia, Leonardo tinha a sensação de que sua dor fora ouvida mesmo que ninguém soubesse sua existência. E assim um peso do seu peito se esvaía.

Apesar de seu pequeno desabafo ter sido feito com sucesso, a banda havia acendido o desejo do público em ouvir mais músicas. Aqueles garotos estavam dispostos a tocar a noite inteira, já que era sexta-feira. Não importaria a hora que fossem embora, desde que não se arrependessem de tocar.

Naquela linha de pensamento, os quatro jovens abandonaram o palco por volta das duas da manhã quando a fome já apertava e tiravam suas concentrações. Descendo do palco muitos vieram falar com eles, em especial com Leonardo, aplaudindo a performance energética.

Dona Berta já tinha preparado algum lanche para os meninos, sendo que o baterista Gustavo fora o único a conseguir desvencilhar da aglomeração para se jogar no bar.

― Tô vivo! Uaaau, to morrendo.

― Se decida se vai viver ou morrer, garoto. ― Ria a dona do bar, entregando uma garrafa d’água para o baterista. ― Pensei que na última vez vocês já tinham se superado, mas agora vejo que estava errada. Aconteceu alguma coisa boa?

Gustavo balançava a cabeça enquanto bebia grandes goles da água, e enxugava o suor do rosto com a camiseta fina.

― Sei lá, só senti que precisava seguir o Leo. Ele sim parecia gritar alguma coisa em plenos pulmões.

― Sentiu... Hm. Desde que continuem a me trazer clientes, eu estou feliz.

O baterista rira da dona do bar, e voltava a observar os seus colegas de banda conversarem com o público. De fato aquela apresentação fora lendária para eles.

Em uma mansão reclusa, mais especificamente em uma sala de estar onde uma lareira fora acesa para esquentar os quatro sujeitos ali reunidos, um tópico era conversado.

Relâmpagos clareavam o céu noturno nublado anunciando a tempestade prestes a cair. E não demorara para que as primeira gotas grosseiras da chuva caíssem contra a janela, dando início a mais uma noite calma.

― Aquela confusão foi resolvida? ― Questionava um garoto baixo de cabelos loiros, abraçando uma almofada. ― Fiquei sabendo que foi uma briga.

― Mas é claro que resolvi, como poderia deixar algo assim durar tanto tempo?

Um sujeito de cabelos brancos e olhos avermelhados surgia atrás de Vicente, o abraçando pelos ombros com um sorriso débil na face.

― Espero que tenha punido aquele sujeitinho por ter tocado em nosso Benjin. Se precisar que eu faça alguém desaparecer como mágica...

― Ray comporte-se. ― Sussurrava Vicente, apreciando uma xícara de chá quente. ― É uma lástima que o Senhor Brahan tenha se comportado daquela maneira, era um grande investidor da Dreamland.

― Não precisamos dele agora, estamos bem economicamente. ― Anunciava o garoto loiro, encolhendo-se em um grande casaco de lã. ― Se o público vier a saber que o amado Benjin fora salvo de ser abusado, provavelmente alguma empresa aparecerá para oferecer algo pensando em melhorar nossa segurança.

― Garotinho tá nascendo uma ruga no meio da sua testa. ― Balbuciava Ray apontando para o loiro, que fizera uma careta desgostosa. ― Fica nada bonito nesse rostinho feio seu.

― Inveja mata seu idiota. Mas estou falando sério quanto a isso.

― Ora ora, se o nosso pequeno gênio enxerga uma possibilidade, devo aproveitá-la. ― Sorria Vicente deixando a xícara sobre o pires silenciosamente.

― É apenas uma ideia. Existe a preocupação por parte dos visitantes também. É uma faca de dois gumes.

― Ah, quanto bla bla bla, que assunto chato. Vamos falar do que interessa? ― Ray pulava no estofado ficando de joelhos, olhando em direção da janela onde um rapaz de cabelos azul acinzentado estava abraçado a um casaco ― A nossa pequena estrela está andando feito uma múmia há dias.

Vicente e o garoto loiro também olharam na direção da janela. O trapezista mal prestava atenção na conversa, apenas se mantinha abraçado ao casaco que cobria parte de seu rosto. Vez ou outra ele aspirava o perfume preso nele, tendo seu rosto enrubescendo.

― O que ele tá fazendo? Tá doente por acaso?

Vicente suspirava deixando a xícara na mesa de centro.

― Ele está ansioso apenas.

― O que acontece se eu tirar dele aquele casaco?

Um tapa fora dado na cabeça de Ray, que formara um bico nos lábios ao olhar para trás deparando-se com o olhar repreendedor do loiro baixinho.

― Você não tinha que costurar alguma roupa? Vá logo e pare de atormentar o Ben.

― Está com ciúmes Aslan? ― Brincava o mágico, levantando-se em um pulo para abraçar o garoto baixinho. No entanto o loiro esquivara, o fazendo abraçar o ar. ― Ah, o seu amor gélido é encantador.

― Vai logo seu pervertido!

Ignorando por completo a discussão corriqueira daqueles dois, Vicente levantou-se do estofado indo até a janela onde o trapezista estava sentado. Permanecera ao seu lado observando o semblante embriagado dele, sem soltar o casaco que carregara para todo o canto desde o fatídico dia em que fora repousado em seus ombros.

― Benjin, desse jeito vai ficar doente. Deveria ao menos descansar direito.

― Eu finalmente o encontrei, Vicente. ― Sussurrava o rapaz, abrindo um sorriso largo descendo os olhos esverdeados para o casaco em seus braços. ― O meu Leo vai voltar para mim, finalmente.

Um relâmpago iluminava aquela embriaguez romântica na face do trapezista. O trovão faziam as vidraças tremerem como se fossem o coração daquele artista. Vicente ajeitava os óculos na face suspirando derrotado.

Precisava arrumar alguma maneira de fazer o jovem mestre voltar ao seu lar.

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Kim lorrany

Kim lorrany

hamm👁👄👁

2022-08-31

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Capítulos
1 Começo de um espetáculo
2 Visita de um administrador
3 A vida de um universitário ansioso
4 O brilho de um parque
5 Universitário heróico
6 O reinado da força bruta
7 Encurralado por um palhaço
8 Um baterista fanboy?
9 De volta pra casa
10 Acorrentado nas atrações principais
11 Brincadeira de criança
12 Mundo particular do universitário
13 Chá da tarde
14 Cansaço vs desconforto
15 Beijo de tirar o fôlego
16 Perseguindo objetivos
17 O detetive conhece o administrador
18 Gatilho angustiante
19 Conhecendo um novo amigo
20 Aposta para um desejo
21 Começo das investigações
22 Um mágico enciumado
23 As costas de um grande homem
24 Sol brilhante fora da Dreamland
25 O relato de um espião
26 Um domingo tedioso
27 Pensamentos de um jovem mestre solitário
28 Fim de uma pequena gripe
29 Garoto perdido
30 Desaparecimento na cerração
31 Silhueta de um suspeito
32 Conhecendo o jovem mestre Evilian
33 Churrasco dos capatazes
34 Casaco e lábios vermelhos
35 Promessa medrosa
36 Ele está diferente
37 Permissão tímida e silenciosa
38 Pela primeira vez, prazer
39 Medo versus Vergonha
40 Faça o seu desejo
41 Despertar da garota
42 Pedido do trapezista
43 Almoço do cachorro
44 Ilusão dos olhos
45 Cansaço do detetive
46 Convite do dono da Dreamland
47 Calor no camarim do trapezista
48 O último dia do espetáculo
49 O espetáculo da marionete
50 O caminhar da sonâmbula
51 O trauma de um Evilian
52 Pesadelo do jovem mestre
53 Cão de guarda
54 O rapaz do espelho na tenda
55 O trapezista quer ser mimado
56 Invasão ao circo
57 Pensamento assustador
58 Brincando de esconde-esconde
59 Como acalmar a marionete
60 Contrato de Rohan
61 A atração do Bluemoon Plaza
62 Reencontro de amigos
63 Sou o herdeiro
64 O chorão cresceu
65 Secretário dedicado
66 Mime a sua marionete
67 Com todo o amor para a Marionete
68 Relatório do detetive
69 Viola consegue!
70 Conflito de Aslan
71 Não me deixe para trás
72 Distraindo o detetive
73 Acidente no circo
74 Luz no fim do túnel
75 Um jantar na mansão
76 Minha marionete
77 Farol do trem
78 O espelho do vagão
79 A origem de Vicente
80 Fantasia da meia noite
81 Desejo insaciável
82 Esperança do baterista
83 Início das suspeitas
84 O inferno de Gustavo
85 Um novo amigo
86 Acordo com um Evilian
87 Ilusão dos espelhos
88 O último sequestro
89 O nervosismo de Leonardo
90 A determinação do jovem mestre
91 Beijo do diabo
92 Passando pelo espelho
93 Reencontro com Diablo
94 Velhos tempos
95 Noite traumática
96 Devorador de almas
97 Lucca Evilian
98 Doce canção de ninar
99 Pós terremoto
100 Caixa de brinquedos quebrada
101 Epílogo
102 Notas da autora <3
Capítulos

Atualizado até capítulo 102

1
Começo de um espetáculo
2
Visita de um administrador
3
A vida de um universitário ansioso
4
O brilho de um parque
5
Universitário heróico
6
O reinado da força bruta
7
Encurralado por um palhaço
8
Um baterista fanboy?
9
De volta pra casa
10
Acorrentado nas atrações principais
11
Brincadeira de criança
12
Mundo particular do universitário
13
Chá da tarde
14
Cansaço vs desconforto
15
Beijo de tirar o fôlego
16
Perseguindo objetivos
17
O detetive conhece o administrador
18
Gatilho angustiante
19
Conhecendo um novo amigo
20
Aposta para um desejo
21
Começo das investigações
22
Um mágico enciumado
23
As costas de um grande homem
24
Sol brilhante fora da Dreamland
25
O relato de um espião
26
Um domingo tedioso
27
Pensamentos de um jovem mestre solitário
28
Fim de uma pequena gripe
29
Garoto perdido
30
Desaparecimento na cerração
31
Silhueta de um suspeito
32
Conhecendo o jovem mestre Evilian
33
Churrasco dos capatazes
34
Casaco e lábios vermelhos
35
Promessa medrosa
36
Ele está diferente
37
Permissão tímida e silenciosa
38
Pela primeira vez, prazer
39
Medo versus Vergonha
40
Faça o seu desejo
41
Despertar da garota
42
Pedido do trapezista
43
Almoço do cachorro
44
Ilusão dos olhos
45
Cansaço do detetive
46
Convite do dono da Dreamland
47
Calor no camarim do trapezista
48
O último dia do espetáculo
49
O espetáculo da marionete
50
O caminhar da sonâmbula
51
O trauma de um Evilian
52
Pesadelo do jovem mestre
53
Cão de guarda
54
O rapaz do espelho na tenda
55
O trapezista quer ser mimado
56
Invasão ao circo
57
Pensamento assustador
58
Brincando de esconde-esconde
59
Como acalmar a marionete
60
Contrato de Rohan
61
A atração do Bluemoon Plaza
62
Reencontro de amigos
63
Sou o herdeiro
64
O chorão cresceu
65
Secretário dedicado
66
Mime a sua marionete
67
Com todo o amor para a Marionete
68
Relatório do detetive
69
Viola consegue!
70
Conflito de Aslan
71
Não me deixe para trás
72
Distraindo o detetive
73
Acidente no circo
74
Luz no fim do túnel
75
Um jantar na mansão
76
Minha marionete
77
Farol do trem
78
O espelho do vagão
79
A origem de Vicente
80
Fantasia da meia noite
81
Desejo insaciável
82
Esperança do baterista
83
Início das suspeitas
84
O inferno de Gustavo
85
Um novo amigo
86
Acordo com um Evilian
87
Ilusão dos espelhos
88
O último sequestro
89
O nervosismo de Leonardo
90
A determinação do jovem mestre
91
Beijo do diabo
92
Passando pelo espelho
93
Reencontro com Diablo
94
Velhos tempos
95
Noite traumática
96
Devorador de almas
97
Lucca Evilian
98
Doce canção de ninar
99
Pós terremoto
100
Caixa de brinquedos quebrada
101
Epílogo
102
Notas da autora <3

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