Universitário heróico

O aquele maldito palhaço havia dito?

Que chamaria os representantes das principais atrações?

Quanta besteira.

Ele o havia deixado sozinho mais uma vez!

Leonardo rosnava irritado ao checar a hora no celular pela quinta vez depois de mais de dez minutos. Estava no sereno, em meio a uma neblina, no frio, congelando, e aquele maldito o deixara plantado o fazendo esperar mais uma vez. Quanta audácia!

― Eu vou chutar o seu traseiro, seu maldito. Vai ver só. Não só me fez vir pra esse quinto dos infernos, como ainda me deixa pra morrer de frio. Ah, mas eu vou fazer picadinho de você, vai ver só...

Seus rosnados continuaram por longo tempo. Até mesmo quando o público já havia deixado a tenda do circo e alguns brinquedos desligados, Leonardo continuava a esperar fora da tenda de braços cruzados.

Não estava gostando nem um pouco daquela sensação. Era similar demais ao seu pesadelo.

Antes que os pensamentos mais atordoantes surgissem em sua mente, Leonardo enfiara as mãos no bolso e passara a caminhar pelo terreno indo em direção das pequenas tendas mais atrás. Não ficaria parado deixando aquela sensação horrível o comer por inteiro.

Uma vez gasto seu precioso tempo de descanso procurando o palhaço, então seria mais que justo que Vicente o procurasse.

A parte de trás da enorme tenda não haviam apenas as menores tendas, como também alguns trailers e contêiner. Provavelmente seria ali que o pessoal do circo se preparava antes e depois do show.

A raiva fora substituída pela curiosidade. Havia um ou outro artista maquiado, e com poucas roupas, andando de um lado para o outro ignorando por completo a sua presença. Deveriam ser mais atentos, e se Leonardo fosse uma pessoa de má índole que estaria esperando a oportunidade para saqueá-los?

A segurança daquele lugar era péssima.

Um riso ficara preso em sua garganta.

Estaria ele preocupado com as pessoas daquele lugar?

Imagina.

Continuando a caminhar por entre tendas e contêiner, Leonardo encontrava diversos equipamentos sendo carregados de um lado para outro. Os funcionários agiam coordenadamente seguindo instruções para levarem certa coisa para certo lugar. Apesar do horário tardio e o frio, eles não pareciam se incomodar.

Quanta garra.

Em meio à sua andança sem rumo, Leonardo notara um sujeito alto e forte. Os cabelos ajeitados para trás e a barba cheia não eram capazes de esconder o semblante malicioso e o rubor das bochechas daquele sujeito. Leonardo parara de caminhar somente para assistir aquele cara.

Na medida em que o sujeito suspeito caminhava ele esbarrava propositalmente nas funcionárias, fingindo tropeços para tocar suas cinturas. Quando um olhar afiado era lançado, ele sorria pedindo desculpas por ser tão atrapalhado. E nem mesmo os homens eram poupados de sua falta de equilíbrio. Leonardo ficara boquiaberto com a sem-vergonhice do sujeito.

A julgar por suas vestimentas, parecia ser alguém com grana. Ele estava parado na entrada de uma tenda pequena, conversando com alguém que Leonardo não enxergara. Muito menos era capaz de escutar da conversa.

Mas algo o incomodava.

Mais precisamente, aquele olhar e o sorriso.

Uma pessoa desconhecida, mas que fizera parte de seu passado, tinha o mesmo semblante. A diferença era que o dito cujo era um funcionário do circo e tinha o corpo mais magro. Entretanto a malícia escorria de seu semblante.

Uma careta de repulsa surgia na face do jovem universitário.

― Deveria me intrometer? ― Sussurrava para si mesmo, coçando a nuca.

Olhando de um lado para outro, nenhum funcionário ou artista parecia se incomodar com o sujeito suspeito. Somente Leonardo.

Arrastando os pés silenciosamente em direção da tenda, o universitário esticava a cabeça tentando ouvir a conversa. Se ficasse parado no lado de fora só encarando o céu, não se envolveria caso não fosse necessário. Tudo o que precisava era garantir que tivera a impressão errada.

Parando ao lado da tenda, mas perto o suficiente para ouvir, Leonardo esticava a cabeça deixando sua audição à postos.

― Sou grato por seus elogios, senhor Brahan, mas não é necessário um convite desses.

― Não seja tímido, Benjin. É apenas um jantar formal, como sócio do parque devo recompensá-lo pelo sucesso de sua performance.

O tom de voz causara náuseas em Leonardo. Espionando a tenda, reconhecera o rapaz do poster e da apresentação mais cedo. Aquele cuja semelhança com um boneco de pelúcia ainda o surpreendia. Ele parecia calmo demais, teria entendido as intenções daquele sujeito?

― Como eu disse, não é necessário. Suas palavras são o suficiente.

O trapezista deu as costas para se olhar no espelho e começar a tirar os acessórios de sua fantasia. Leonardo erguera o queixo ao notar que o suspeito entrara na tenda e repousara as mãos sobre o ombro do rapaz.

― Investi uma grande quantia para te ver brilhar. Deveria ser mais honesto e demonstrar melhor a sua gratidão.

O rapaz movera os ombros com elegância, afastando as mãos do suspeito em si.

― Deveria chamar os demais artistas então, já que o espetáculo não foi feito apenas por mim.

― Não, não, você é a estrela do show, Benjin.

O resto da frase Leonardo não escutara, pois o sujeito inclinou-se sobre o ombro do rapaz e sussurrara em seu ouvido.

Precisava ver mais? Era nítido que sua impressão não fora errada. E a semelhança daquele cara com a sua lembrança fazia seu sangue ferver.

Dando a volta na tenda, Leonardo verificou se havia alguém por perto que pudesse ajudar o rapaz. Entretanto todos pareciam atarefados carregando algo sem prestar atenção no que ocorria em volta. Onde estava aquele maldito palhaço quando se precisava dele?

― Me solta, senhor Brahan. Está me machucando.

― Não fale desse jeito, Benjin. As pessoas poderão interpretar errado. Estamos apenas saindo para um jantar privado.

Esticando a cabeça, constatou que aqueles dois deixaram a tenda. O trapezista estava claramente sendo levado contra sua vontade.

Foda-se.

Mesmo que contra a sua vontade, mesmo que por meia hora, aquele circo estava em suas mãos. Poderia fazer algo. As consequências de seus atos seriam um presente de despedida pra Vicente lidar mais tarde.

Pulara no lugar se aquecendo. Focado naquele sujeito estupidamente irritante, Leonardo abria um largo sorriso prazeroso. E quando o artista afastou-se o suficiente, o universitário pegara impulso para correr o mais depressa o possível e pular esticando a perna direta.

O chute dado no tórax do sujeito alto o fizera bater contra um funcionário que carregava algumas caixas, tendo ambos caindo ao chão em um estrondo forte.

O trapezista piscava aturdido para o homem alto caído no chão. Virando a cabeça para saber quem teria tido aquela audácia, fora surpreendido por um casaco grande e quente sendo colocado em seus ombros. A pessoa que o colocava, um jovem universitário com um olhar furioso e um sorriso débil, lhe sussurrava.

― Fique seguro, marionete.

Poderia ter dito mais, no entanto o brutamontes já se levantava furiosamente, apontando o dedo para Leonardo.

― Quem você pensa que é? O que raios está fazendo? Sabe quem eu sou?

― Eu sou o cara que vai chutar a sua bunda pra fora daqui.

A audácia do universitário irritara ao extremo o brutamontes. Ele não tardara em tentar socar Leonardo, que desviara maravilhosamente antes de socar sua barriga e dar uma joelhada em seu queixo. Antes que recuperasse o juízo, o rapaz aproveitara para dar um último soco em seu rosto.

A confusão fora armada no instante em que Leonardo chutara o sujeito. Os funcionários e artistas pararam o que faziam para observar aquela briga sem saberem ao certo o que fazer.

― Que confusão! ― Leonardo e o brutamontes, assim como qualquer outro, viraram-se para Vicente que aparecia ali fingindo espanto. ― O que está acontecendo por aqui?

O brutamontes abria um largo sorriso ao ajeitar as próprias roupas, apontando para o jovem universitário.

― Agora vocês deixam qualquer um entrar aqui e fazer a confusão que bem entendem? Ou por acaso é um recruta que ainda não aprendeu as regras da casa?

Vicente lançara um olhar rápido para Leonardo, que voltara a fitar o sujeito com raiva.

Não importava o quanto o olhasse, nada tiraria de sua cabeça tamanha semelhança com aquele sujeito.

“― Venha com o tio, irei mostrar para vocês a verdadeira marionete. Ele vive aqui no circo, não sabiam?”

Deveria ter desconfiado daquela vez, mas deixou-se levar justamente por aquele sujeito ser a marionete. Leonardo era simplesmente fanático pela marionete quando era pequeno. Sempre andava com aquela pelúcia para cima e para baixo, dormia com ela e não a largava de maneira alguma.

Quando criança, seu pai havia decidido fazer o espetáculo novamente, e um trapezista fora contratado para fazer o papel principal. Obviamente Leonardo queria conhecer o seu personagem favorito, e por isso fora arrastado até sua tenda para conhecê-lo.

Mas não imaginava que aquela decisão acarretaria no pior dia de sua vida. Um dia manchado de cor vermelho carmesim.

Queria matá-lo.

Suas mãos estavam sedentas para segurar aquele pescoço e estrangulá-lo até ouvir o seu último suspiro.

Raiva?

Não era tão simples. Aquele sentimento era mais forte e profundo. Sem lhe dar brechas para pensar direito. Somente em senti-la queimar em cada veia de seu corpo. Em cada músculo, em cada batida de seu coração acelerado.

Deveria matar aquela maldita sombra.

Um toque em seu ombro surtira um efeito inesperado. Como uma onda do mar que leva embora tudo o que puder carregar. Relaxando os músculos da face, Leonardo olhara de canto para Vicente que parecia saber daquele sentimento tão odioso queimando dentro de si.

― Devemos todos nos acalmar, certo?

Estalando a língua, Leonardo movera o ombro afastando o toque de Vicente.

― To vazando.

― Ainda temos que conversar jo...

― Se não quiser que seu precioso circo apareça nos noticiários por um visitante estar cometendo um homicídio, é melhor ficar quieto e me deixar em paz.

Sem o sobretudo para enfiar suas mãos no bolso, o rapaz puxara o capuz e dera meia volta se enfiando entre os funcionários para ir embora. Sem nem olhar para trás, ou para o trapezistas que segurava aquele casaco como se fosse o seu fio de esperança.

― Ele ainda precisa amadurecer. Venha Senhor Brahan, irei escutar o que tem a dizer sobre o ocorrido, e prometo que tomarei as devidas providências para encerrar o assunto. ― Dizia Vicente, virando-se para o homem corpulento com um olho roxo.

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Naiane Kenia

Naiane Kenia

bate mais léo

2022-06-27

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Capítulos
1 Começo de um espetáculo
2 Visita de um administrador
3 A vida de um universitário ansioso
4 O brilho de um parque
5 Universitário heróico
6 O reinado da força bruta
7 Encurralado por um palhaço
8 Um baterista fanboy?
9 De volta pra casa
10 Acorrentado nas atrações principais
11 Brincadeira de criança
12 Mundo particular do universitário
13 Chá da tarde
14 Cansaço vs desconforto
15 Beijo de tirar o fôlego
16 Perseguindo objetivos
17 O detetive conhece o administrador
18 Gatilho angustiante
19 Conhecendo um novo amigo
20 Aposta para um desejo
21 Começo das investigações
22 Um mágico enciumado
23 As costas de um grande homem
24 Sol brilhante fora da Dreamland
25 O relato de um espião
26 Um domingo tedioso
27 Pensamentos de um jovem mestre solitário
28 Fim de uma pequena gripe
29 Garoto perdido
30 Desaparecimento na cerração
31 Silhueta de um suspeito
32 Conhecendo o jovem mestre Evilian
33 Churrasco dos capatazes
34 Casaco e lábios vermelhos
35 Promessa medrosa
36 Ele está diferente
37 Permissão tímida e silenciosa
38 Pela primeira vez, prazer
39 Medo versus Vergonha
40 Faça o seu desejo
41 Despertar da garota
42 Pedido do trapezista
43 Almoço do cachorro
44 Ilusão dos olhos
45 Cansaço do detetive
46 Convite do dono da Dreamland
47 Calor no camarim do trapezista
48 O último dia do espetáculo
49 O espetáculo da marionete
50 O caminhar da sonâmbula
51 O trauma de um Evilian
52 Pesadelo do jovem mestre
53 Cão de guarda
54 O rapaz do espelho na tenda
55 O trapezista quer ser mimado
56 Invasão ao circo
57 Pensamento assustador
58 Brincando de esconde-esconde
59 Como acalmar a marionete
60 Contrato de Rohan
61 A atração do Bluemoon Plaza
62 Reencontro de amigos
63 Sou o herdeiro
64 O chorão cresceu
65 Secretário dedicado
66 Mime a sua marionete
67 Com todo o amor para a Marionete
68 Relatório do detetive
69 Viola consegue!
70 Conflito de Aslan
71 Não me deixe para trás
72 Distraindo o detetive
73 Acidente no circo
74 Luz no fim do túnel
75 Um jantar na mansão
76 Minha marionete
77 Farol do trem
78 O espelho do vagão
79 A origem de Vicente
80 Fantasia da meia noite
81 Desejo insaciável
82 Esperança do baterista
83 Início das suspeitas
84 O inferno de Gustavo
85 Um novo amigo
86 Acordo com um Evilian
87 Ilusão dos espelhos
88 O último sequestro
89 O nervosismo de Leonardo
90 A determinação do jovem mestre
91 Beijo do diabo
92 Passando pelo espelho
93 Reencontro com Diablo
94 Velhos tempos
95 Noite traumática
96 Devorador de almas
97 Lucca Evilian
98 Doce canção de ninar
99 Pós terremoto
100 Caixa de brinquedos quebrada
101 Epílogo
102 Notas da autora <3
Capítulos

Atualizado até capítulo 102

1
Começo de um espetáculo
2
Visita de um administrador
3
A vida de um universitário ansioso
4
O brilho de um parque
5
Universitário heróico
6
O reinado da força bruta
7
Encurralado por um palhaço
8
Um baterista fanboy?
9
De volta pra casa
10
Acorrentado nas atrações principais
11
Brincadeira de criança
12
Mundo particular do universitário
13
Chá da tarde
14
Cansaço vs desconforto
15
Beijo de tirar o fôlego
16
Perseguindo objetivos
17
O detetive conhece o administrador
18
Gatilho angustiante
19
Conhecendo um novo amigo
20
Aposta para um desejo
21
Começo das investigações
22
Um mágico enciumado
23
As costas de um grande homem
24
Sol brilhante fora da Dreamland
25
O relato de um espião
26
Um domingo tedioso
27
Pensamentos de um jovem mestre solitário
28
Fim de uma pequena gripe
29
Garoto perdido
30
Desaparecimento na cerração
31
Silhueta de um suspeito
32
Conhecendo o jovem mestre Evilian
33
Churrasco dos capatazes
34
Casaco e lábios vermelhos
35
Promessa medrosa
36
Ele está diferente
37
Permissão tímida e silenciosa
38
Pela primeira vez, prazer
39
Medo versus Vergonha
40
Faça o seu desejo
41
Despertar da garota
42
Pedido do trapezista
43
Almoço do cachorro
44
Ilusão dos olhos
45
Cansaço do detetive
46
Convite do dono da Dreamland
47
Calor no camarim do trapezista
48
O último dia do espetáculo
49
O espetáculo da marionete
50
O caminhar da sonâmbula
51
O trauma de um Evilian
52
Pesadelo do jovem mestre
53
Cão de guarda
54
O rapaz do espelho na tenda
55
O trapezista quer ser mimado
56
Invasão ao circo
57
Pensamento assustador
58
Brincando de esconde-esconde
59
Como acalmar a marionete
60
Contrato de Rohan
61
A atração do Bluemoon Plaza
62
Reencontro de amigos
63
Sou o herdeiro
64
O chorão cresceu
65
Secretário dedicado
66
Mime a sua marionete
67
Com todo o amor para a Marionete
68
Relatório do detetive
69
Viola consegue!
70
Conflito de Aslan
71
Não me deixe para trás
72
Distraindo o detetive
73
Acidente no circo
74
Luz no fim do túnel
75
Um jantar na mansão
76
Minha marionete
77
Farol do trem
78
O espelho do vagão
79
A origem de Vicente
80
Fantasia da meia noite
81
Desejo insaciável
82
Esperança do baterista
83
Início das suspeitas
84
O inferno de Gustavo
85
Um novo amigo
86
Acordo com um Evilian
87
Ilusão dos espelhos
88
O último sequestro
89
O nervosismo de Leonardo
90
A determinação do jovem mestre
91
Beijo do diabo
92
Passando pelo espelho
93
Reencontro com Diablo
94
Velhos tempos
95
Noite traumática
96
Devorador de almas
97
Lucca Evilian
98
Doce canção de ninar
99
Pós terremoto
100
Caixa de brinquedos quebrada
101
Epílogo
102
Notas da autora <3

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