De volta pra casa

Tal como dito por Vicente, a última porta do corredor na esquerda já tinham suas coisas encaixotadas.

O quarto era grande, pois além de comportar a cama e o armário, havia uma mesa de estudos de frente para a janela. Para sua sorte, era uma suíte completa para ele ficar confortável. A julgar pela ausência de poeira e os lençóis arrumados, sua chegada era muito aguardada.

Antes de explorar o lugar, Leonardo desempacotara suas coisas e as arrumara no guarda roupa. Definitivamente era bem melhor ter um lugar como aquele. Já que na sua kitnet suas roupas ficavam dobradas milimetricamente em uma cômoda barata, cujos pés já estavam caindo aos pedaços graças ao mofo causado por uma goteira nunca arrumada.

Até mesmo tinha uma cama maior agora, sem precisar se espremer em um colchão fino de solteiro. Tinha espaço de sobra para se esparramar.

Estava relutante em ficar perto do parque e do circo, e imaginava que isso desencadearia memórias irritantes. Contudo deveria admitir a sua vontade de soltar um grito alegre por ter algum comodismo.

Enquanto arrumava suas coisas na gaveta, o celular tocava em seu bolso. Pegando-o reconhecendo o nome de Rafael, atendera logo.

― Eaí cara.

― Mano já te mandei o nosso projeto por email. O que tu acha de ouvir as pontuações por telefone?

― Tá de boa... ― Olhando em volta, Leonardo percebia o notebook em cima da mesa de estudos. ― Acho que consigo, me liga quando for a hora.

― Beleza, até depois então.

Desligando o telefone, Leonardo segurara o notebook o olhando de tudo quanto era jeito. Não era dos melhores e mais caros, mas era bom. Parecia ser daqueles que custavam dois mil reais, só para serem usados pra internet. Se quisesse baixar algum jogo sua capacidade de memória e drive de vídeo não aguentariam.

― Será que posso usar ele? Se tá aqui...

Ansioso para mexer naquele notebook, Leonardo abandonara sua tarefa de arrumar as coisas para ligar o eletrônico. Entrara na sua conta de email, abrira o trabalho e checara as horas. Ainda era cedo, e provavelmente teria que esperar o tempo daqueles caras fecharem o parque.

Então, tudo bem ele se perder ali um pouco, não?

Poderia explorar a mansão mais tarde.

Tinha uma bolsa de estudos para manter.

Estralando os dedos das mãos, logo Leonardo puxava sua mochila tirando os cadernos. Usara a tarde toda para estudar, fazendo o trabalho do ponto onde haviam parado. Sua dedicação e concentração o levaram longe, sem nem ouvir os gritos vindo dos brinquedos do parque.

De vez em quando mandava mensagens para seus amigos apontando mais erros de cálculos e de material. Quando ele acendera a luz do quarto, já havia prendido os cabelos que caíam em seus olhos e colocado um par de óculos para continuar seus estudos.

Às sete e meia da noite o celular tocava, e a orientação começava via telefone. Leonardo aproveitava para tirar dúvidas e concertar o trabalho, mostrando a sua responsabilidade em entregar nada menos que perfeito.

Na ponta do lápis realizava os cálculos junto com o professor, sem ouvir alguém bater na porta e a figura de Vicente aparecendo em sua procura. Percebendo que o rapaz estava concentrado, um sorriso surgia nos lábios daquele cuja presença se ausentara logo em seguida.

A orientação durara meia hora, ainda assim Leonardo continuara com os amigos no telefone para fazerem o trabalho. A porta fora aberta novamente, tendo Vicente aparecendo com uma bandeja com uma xícara de café e alguns biscoitos com gotas de chocolate.

― Jovem mestre, por favor se alimente até que o jantar esteja pronto.

― Ahn? Ah, valeu.

Vicente soltara um riso baixo com a falta de atenção de Leonardo. Ele nem o olhara, só concordava com a cabeça sem desgrudar os olhos do papel onde rabiscava o projeto. Mas ele segurara a alça da xícara tomando um gole do café, e mordera os biscoitos.

― Leo, deixa o resto pra amanhã. O Rafinha já tá babando em cima do caderno.

Verificando em seu relógio se tratar um pouco mais das nove da noite, Leonardo soltava o lápis.

― De boa. Vão descansar e amanhã a gente continua.

Encerrando o telefone depois de duas horas pendurado, Leonardo finalmente poderia se encostar na cadeira e fechar os olhos que ardiam.

― Jovem mestre?

Leonardo pulara da cadeira ao ver Vicente parado ao seu lado, com um sorriso educado reprimindo o riso.

― Quando chegou?

― Os biscoitos estavam bons?

Descendo os olhos para a bandeja, Leonardo pestanejara aturdido. Quando havia deixado ali? E quando havia comido? Sentia o gosto de chocolate em sua boca.

― Ahn... Tava, eu acho.

Tirando os óculos e a presilha que prendiam seus cabelos, Leonardo sentia seus olhos arderem. Um suspiro cansado escapara de seus lábios quando se espreguiçou.

― Jovem mestre, devo te apresentar aqueles que sabem sobre você. Em breve eles chegarão, e informei que a reunião aconteceria no seu escritório.

― Meu escritório... Eu tenho um?

― Sim, jovem mestre.

Leonardo erguera o dedo para contestar, mas Vicente negava com a cabeça em um claro sinal de perda do seu tempo. Entrariam na discussão novamente? Então realmente seria perda de tempo. Bufando Leonardo apenas pegara uma blusa de moletom para vestir e então seguira Vicente para fora do quarto.

A visão noturna da mansão era bonita. Nas enormes janelas que iam do térreo até o segundo andar mostravam o breu externo. Vicente fora para a escadaria continuando a subir, indo para a direita dessa vez. Fora lá que uma porta dupla amadeirada fora aberta mostrando um grandioso escritório.

O teto fora pintado como um céu estrelado, e o lustre semelhava-se a Saturno com seu anel. Os móveis amadeirados estavam impecavelmente bem cuidados.

― O Mestre Evilian costumava trabalhar aqui. ― Comentava Vicente, tendo Leonardo virando-se surpreso. ― Não tirei seus pertences.

Olhando a mesa, Leonardo visualizava o seu pai sentado trabalhando ali. De alguma forma era nostálgico. Tocando a mesa gelada, tinha a sensação engraçada em si. Não deveria ser estranho entrar em um escritório que pertencia a alguém que já falecera?

Dando a volta na mesa, percebera alguns porta retratos com fotos de sua família. Leonardo pegara uma reconhecendo a si mesmo quando criança, no colo da mãe. Os olhos castanhos estavam medrosos, e suas pequeninas mãos agarram-se à blusa da mãe. Ela, por outro lado, estava belíssima. Um sorriso enorme no rosto ao segurar calorosamente a criança.

Ao seu lado um homem alto de cabelos castanhos bagunçados segurava outra criança, que apontava para a câmera.

A foto fora tirada em frente à tenda do circo.

O som do parque era ouvido. Leonardo aproximou-se da janela afastando as cortinas conseguindo enxergar parte da tenda iluminada do circo. Eram as mesmas cores que as da foto. Repentinamente ele se lembrava de sua infância.

A parte feliz dela.

Quando tinha uma família unida e calorosa, que adorava brincar. Aquela família que jamais voltaria, pois somente ele restara.

Um bolo surgia em sua garganta. Leonardo forçava-o descer se recusando a chorar. Deixando o porta retrato sobre a mesa novamente, o rapaz tornara a se aproximar da janela, sentando no estofado abaixo dela onde assistia silenciosamente a tenda apagar suas luzes brilhantes.

Havia prometido a si mesmo jamais pisar naquele lugar. Apesar de ser o seu começo e as raízes das memórias mais preciosas, era também o lar da desgraça. Do seu maior pesadelo.

Mas lá estava ele. Não somente havia pisado no circo, como também ajudara um artista e também moraria lá temporariamente. Contrariando cada certeza que construíra ao longo daqueles anos.

Será que seu retorno não estaria ligado à sua necessidade de ter a família de volta? Detestava ficar sozinho. Era insuportável.

Será que ao ver Vicente novamente após a morte de seu pai, não sentira alívio?

Puxando o capuz do moletom sobre a cabeça, e encostando-a no vidro, Leonardo fechava os olhos se escondendo nas sombras. Por um instante gostaria de ficar envolto do silêncio, por não se compreender direito.

O que ele estava fazendo lá?

Por que ele voltou?

Será?

Será....

Será... Que ele poderia se agarrar em Vicente, fingindo que ele era parte de sua família?

Enquanto o universitário estava imerso em suas emoções, batidas na porta foram dadas. Vicente silenciosamente fora até ela, abrindo para encontrar as três figuras que pareciam ansiosas em entrar.

Vicente erguera o indicador sobre os lábios fazendo sinal de silêncio.

― Calculei erroneamente algo. ― Sussurrava ele ao encostar a porta depois de passar por ela. ― Imaginei que ele estava preparado, mas há ainda feridas a serem cicatrizadas. De toda forma, entrem.

Abrindo a porta novamente, Vicente entrava fazendo barulho. Leonardo escutara, porém não erguera a cabeça e nem abrira os olhos. Continuara sentado no estofado encolhido, somente ouvindo a voz cuidadosa de Vicente.

― Aqui estão aqueles que guardarão o seu segredo. Pessoal, esse é o herdeiro da Dreamland World e filho do Mestre Evilian.

Leonardo levantou-se do estofado e baixara o capuz, deparando-se com três pessoas além de Vicente. Um garoto que parecia ser mais novo que ele, de cabelos loiros e vestimentas coloridas que Leonardo reconhecera ser um cosplay. O segundo era alto, deveria ter sua idade, tinha cabelos platinados e olhos vermelhos que transbordavam em malícia para si. E o terceiro, o trapezista da qual salvara no outro dia.

Ao reconhecê-lo, Leonardo arqueara a sobrancelha. Então ele havia salvo ninguém mais, ou ninguém menos, que a principal atração do circo todo? Uau, o nível da enrascada da qual havia se enfiado naquele dia se tornava elevado.

― Esse é o jovem mestre...

― Leo!

Para a surpresa do universitário, o trapezista correra até si o abraçando fortemente, enterrando a cabeça em seu peito. Com os braços afastados sem saber o que raios estaria acontecendo, notara que o rapaz segurava algo pesado. Olhando melhor, aquele casaco não era seu?

Por que estaria com ele?

Erguendo os olhos para Vicente em um pedido de socorro, Leonardo recebera apenas um balançar de ombros despreocupado. Ótimo, não receberia ajuda de ninguém pelo visto.

― Finalmente você voltou para casa, Leo.

Capítulos
1 Começo de um espetáculo
2 Visita de um administrador
3 A vida de um universitário ansioso
4 O brilho de um parque
5 Universitário heróico
6 O reinado da força bruta
7 Encurralado por um palhaço
8 Um baterista fanboy?
9 De volta pra casa
10 Acorrentado nas atrações principais
11 Brincadeira de criança
12 Mundo particular do universitário
13 Chá da tarde
14 Cansaço vs desconforto
15 Beijo de tirar o fôlego
16 Perseguindo objetivos
17 O detetive conhece o administrador
18 Gatilho angustiante
19 Conhecendo um novo amigo
20 Aposta para um desejo
21 Começo das investigações
22 Um mágico enciumado
23 As costas de um grande homem
24 Sol brilhante fora da Dreamland
25 O relato de um espião
26 Um domingo tedioso
27 Pensamentos de um jovem mestre solitário
28 Fim de uma pequena gripe
29 Garoto perdido
30 Desaparecimento na cerração
31 Silhueta de um suspeito
32 Conhecendo o jovem mestre Evilian
33 Churrasco dos capatazes
34 Casaco e lábios vermelhos
35 Promessa medrosa
36 Ele está diferente
37 Permissão tímida e silenciosa
38 Pela primeira vez, prazer
39 Medo versus Vergonha
40 Faça o seu desejo
41 Despertar da garota
42 Pedido do trapezista
43 Almoço do cachorro
44 Ilusão dos olhos
45 Cansaço do detetive
46 Convite do dono da Dreamland
47 Calor no camarim do trapezista
48 O último dia do espetáculo
49 O espetáculo da marionete
50 O caminhar da sonâmbula
51 O trauma de um Evilian
52 Pesadelo do jovem mestre
53 Cão de guarda
54 O rapaz do espelho na tenda
55 O trapezista quer ser mimado
56 Invasão ao circo
57 Pensamento assustador
58 Brincando de esconde-esconde
59 Como acalmar a marionete
60 Contrato de Rohan
61 A atração do Bluemoon Plaza
62 Reencontro de amigos
63 Sou o herdeiro
64 O chorão cresceu
65 Secretário dedicado
66 Mime a sua marionete
67 Com todo o amor para a Marionete
68 Relatório do detetive
69 Viola consegue!
70 Conflito de Aslan
71 Não me deixe para trás
72 Distraindo o detetive
73 Acidente no circo
74 Luz no fim do túnel
75 Um jantar na mansão
76 Minha marionete
77 Farol do trem
78 O espelho do vagão
79 A origem de Vicente
80 Fantasia da meia noite
81 Desejo insaciável
82 Esperança do baterista
83 Início das suspeitas
84 O inferno de Gustavo
85 Um novo amigo
86 Acordo com um Evilian
87 Ilusão dos espelhos
88 O último sequestro
89 O nervosismo de Leonardo
90 A determinação do jovem mestre
91 Beijo do diabo
92 Passando pelo espelho
93 Reencontro com Diablo
94 Velhos tempos
95 Noite traumática
96 Devorador de almas
97 Lucca Evilian
98 Doce canção de ninar
99 Pós terremoto
100 Caixa de brinquedos quebrada
101 Epílogo
102 Notas da autora <3
Capítulos

Atualizado até capítulo 102

1
Começo de um espetáculo
2
Visita de um administrador
3
A vida de um universitário ansioso
4
O brilho de um parque
5
Universitário heróico
6
O reinado da força bruta
7
Encurralado por um palhaço
8
Um baterista fanboy?
9
De volta pra casa
10
Acorrentado nas atrações principais
11
Brincadeira de criança
12
Mundo particular do universitário
13
Chá da tarde
14
Cansaço vs desconforto
15
Beijo de tirar o fôlego
16
Perseguindo objetivos
17
O detetive conhece o administrador
18
Gatilho angustiante
19
Conhecendo um novo amigo
20
Aposta para um desejo
21
Começo das investigações
22
Um mágico enciumado
23
As costas de um grande homem
24
Sol brilhante fora da Dreamland
25
O relato de um espião
26
Um domingo tedioso
27
Pensamentos de um jovem mestre solitário
28
Fim de uma pequena gripe
29
Garoto perdido
30
Desaparecimento na cerração
31
Silhueta de um suspeito
32
Conhecendo o jovem mestre Evilian
33
Churrasco dos capatazes
34
Casaco e lábios vermelhos
35
Promessa medrosa
36
Ele está diferente
37
Permissão tímida e silenciosa
38
Pela primeira vez, prazer
39
Medo versus Vergonha
40
Faça o seu desejo
41
Despertar da garota
42
Pedido do trapezista
43
Almoço do cachorro
44
Ilusão dos olhos
45
Cansaço do detetive
46
Convite do dono da Dreamland
47
Calor no camarim do trapezista
48
O último dia do espetáculo
49
O espetáculo da marionete
50
O caminhar da sonâmbula
51
O trauma de um Evilian
52
Pesadelo do jovem mestre
53
Cão de guarda
54
O rapaz do espelho na tenda
55
O trapezista quer ser mimado
56
Invasão ao circo
57
Pensamento assustador
58
Brincando de esconde-esconde
59
Como acalmar a marionete
60
Contrato de Rohan
61
A atração do Bluemoon Plaza
62
Reencontro de amigos
63
Sou o herdeiro
64
O chorão cresceu
65
Secretário dedicado
66
Mime a sua marionete
67
Com todo o amor para a Marionete
68
Relatório do detetive
69
Viola consegue!
70
Conflito de Aslan
71
Não me deixe para trás
72
Distraindo o detetive
73
Acidente no circo
74
Luz no fim do túnel
75
Um jantar na mansão
76
Minha marionete
77
Farol do trem
78
O espelho do vagão
79
A origem de Vicente
80
Fantasia da meia noite
81
Desejo insaciável
82
Esperança do baterista
83
Início das suspeitas
84
O inferno de Gustavo
85
Um novo amigo
86
Acordo com um Evilian
87
Ilusão dos espelhos
88
O último sequestro
89
O nervosismo de Leonardo
90
A determinação do jovem mestre
91
Beijo do diabo
92
Passando pelo espelho
93
Reencontro com Diablo
94
Velhos tempos
95
Noite traumática
96
Devorador de almas
97
Lucca Evilian
98
Doce canção de ninar
99
Pós terremoto
100
Caixa de brinquedos quebrada
101
Epílogo
102
Notas da autora <3

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