Quando o chevette preto estacionara na frente da mansão, tudo estava silencioso. Um silencio perturbador para quem não suporta a própria presença era o suficiente para angustiá-lo. Leonardo sentia diversos arrepios por sua pele quando notara o nevoeiro cobrindo toda a sua visão. Nem mesmo a luz alta do carro era o suficiente para fazê-lo enxergar os metros diante dele.
Era um cenário que o fazia lembrar de coisas assustadoras das quais lutara em toda a sua vida para se esquecer.
Mesmo estando em um veículo fechado, era como se houvesse alguém por perto o vigiando. Alguém que soubesse ocultar parte de sua presença para ser notado apenas por ele. Não importava para onde olhava, Leonardo enxergava silhuetas em galhos de árvores e arbustos.
Estava ficando ridículo o pavor que subia pelas pernas.
Até atravessar o portão estava bem, nem pensara em nada. Mas fora só ficar envolto daquela névoa que os pensamentos se tornaram uma verdadeira bomba de informações inúteis. Um segundo fora necessário para Leonardo ficar amedrontado e angustiado, buscando pela mansão com o olhar ansiando por ficar seguro.
Balançando a cabeça para afastar os pensamentos mais escabrosos, Leonardo saíra do carro o trancando e correra pela escadaria para adentrar a mansão. Já se passava das duas da manhã, era provável que o parque já tivesse fechado e todos dormissem.
Por isso entrara silenciosamente, suspirando aliviado ao passar pela porta e trancá-la. A escuridão da casa não era completa graças as enormes janelas, mas o nevoeiro não parecia facilitar para que Leonardo se sentisse mais aliviado.
Por que estava se sentindo apavorado?
Respirava fundo contando mentalmente para manter a calma. Estava seguro na mansão, que era completamente diferente daquele lugar que tanto aparecia em seus sonhos.
Deixando a chave do carro do mobiliário da entrada, o rapaz subira as escadas indo diretamente para o seu quarto. Tentava ao máximo não emitir sons, imaginando que os demais estariam descansando depois de um dia intenso no trabalho.
Se bem que ele mesmo estava cansado também. Andara por todo o parque com Vicente, e ainda tivera a oportunidade de mexer em alguns maquinários. Encerrara o seu dia cantando com entusiasmo como sempre fazia, o que gastava de suas últimas gotas de energia.
Se ainda estivesse vivendo em sua kitnet, aquela noite seria propícia para embebedar-se o suficiente para acordar tarde no domingo. Mas por precisar enfrentar uma rodovia, Leonardo limitou-se ao seu leite quente com mel.
E lá estava ele tremendo de frio, esgotado e irritado por estar assustado. Não haveria leite quente no mundo que o fizesse dormir.
Quando entrara no quarto, não acendera a luz. Apenas tirou os tênis e seguira diretamente para o banheiro onde poderia se banhar. Talvez a água quente o fizesse relaxar. Se fosse rápido o suficiente em se enfiar debaixo das cobertas pesadas, seu corpo não esfriaria e ele teria uma boa noite de sono.
Era o que esperava.
No entanto, ao sair usando a calça de moletom cinza e a camisa branca, a luz do banheiro iluminava a silhueta sentada na cama de costas para Leonardo. O susto que levara quase o fizera cair de costas se não tivesse se agarrado às paredes.
Benjin virara a cabeça o olhando sobre o ombro, abrindo um sorriso afável.
― Finalmente você voltou.
Leonardo piscara algumas vezes até se convencer de que era o maldito trapezista que estava invadindo o seu quarto. Acendendo o abajur de sua escrivaninha para apagar a do banheiro, o rapaz evitava se aproximar de Benjin que o observava imóvel.
― Pensei ter sido claro sobre não entrar no meu quarto.
― Quanto mais você tentar me afastar, maior será o meu desejo de ficar perto. ― Murmurava Benjin apoiando os cotovelos sobre as pernas. ― E eu não vou desistir só porque você me rejeita.
― Isso é abuso! ― Reclamava o rapaz já impaciente. ― O que raios você quer de mim, hein?
― Somos noivos, deve ser bem óbvio o que eu quero.
― O parque? Fica com ele.
Benjin soltara um riso baixo ao se levantar da cama, aproximando-se perigosamente de Leonardo. Dando passos retroativos em uma tentativa de escapar, não poderia fazer o mesmo do olhar intenso que o mais alto lhe dirigia.
― Acho que está interpretando erroneamente alguma coisa. Não estou atrás de você por causa da sua herança.
― Pouco me importa, pode sair do meu quarto e me deixar em paz? Eu to cansado.
Benjin estendia a mão tocando a face de Leonardo, sentindo suas bochechas aquecerem ao mísero toque. Percebendo aquela resposta tão imediata fizera o trapezista sorrir vitorioso para a irritação de Leonardo.
― Está apavorado. Não deseja ficar sozinho.
― Eu não to apavorado. ― Respondia o rapaz dando um tapa na mão de Benjin. ― Pare de me tocar.
Encurralando Leonardo contra a mesa de estudos, Benjin apoiava as mãos em cada lado do universitário, inclinando-se em sua direção mesmo que o rapaz fosse para trás tentando aumentar a distância.
― Não precisa dizer uma palavra sequer, eu consigo te ver como uma cortina transparente. ― Observando o universitário de cima à baixo, Benjin começava a corar exponencialmente. ― Sou o único capaz de dar aquilo que mais deseja.
― Desejo que você saia do meu quarto e finja que eu não existo, pode ser?
Benjin rira baixo sem deixar de encurralar o universitário. Ficara perto o suficiente para sentir o cheiro de sabonete emanando de sua pele, o deixando ainda mais eufórico.
― Não o deixarei sozinho. Sei que se o fizer, ficará incomodado. Você tem a tendência de pensar demais.
― Não aja como se me conhecesse, seu pervertido de uma figa.
Segurando o rosto de Leonardo apertando suas bochechas para fazê-lo parar de falar, finalmente pudera ter seu olhar retribuído. Era nítido naquelas pérolas castanhas o medo que ele sentia. Se o apertasse um pouco mais, sentiria suas mãos tremendo. Ou até mesmo ouviria seu coração bater descompassado.
Desde o momento em que ele passara pela porta, Benjin simplesmente sabia que Leonardo estava apavorado com algo. Como se o ar envolta dele denunciasse. Como se fosse capaz de sentir nele mesmo.
Ele apenas sabia.
Leonardo percebia aquele ponto. Quanto mais tinha o olhar sustentado por aquele sujeito bizarro, maior era a sua certeza.
Benjin era como um fantasma.
― Se tornou em um rapaz tão bonito, que mau me aguento perto de você. ― Sussurrava o trapezistas, ludibriado pela visão exasperada que Leonardo o transmitia. Sua respiração acelerava na medida em que se aproximava, notando o medo em Leonardo. Era simplesmente excitante a sua recém descoberta. ― Apenas quero abraçá-lo e torná-lo meu para ninguém escute o seu suspiro.
Finalmente Leonardo empurrava os ombros de Benjin, mas tudo o que conseguira fora ganhar meros centímetros de distância. Apesar do trapezista ter um corpo magro e ser mais alto, sua força não era pequena.
Precisou segurar a mão do sujeito para que seu rosto finalmente fosse liberto do aperto.
― Qual é a sua, hein? Isso não faz o menor sentido!
Silenciado pelo indicador comprido, Leonardo percebia que Benjin se divertia com sua raiva e vergonha. O prazer era nítido naqueles olhos claros.
Pouco a pouco Benjin aproximava seu rosto ao de Leonardo, em uma ameaça silenciosa. Mesmo que buscasse alguma rota de fuga, não a encontraria facilmente já que Benjin continuava com os braços em cada lado da mesa o prendendo.
― Eu o farei se sentir confortável, Leo.
A voz soara baixa e sedutora demais, apesar de haver ali uma certeza inabalável. Leonardo não compreendera ao certo quais eram as intenções de Benjin, mas tê-lo tão perto era nostálgico. Por algum motivo.
Pela segunda vez ele era beijado por aquela maldita marionete. Dessa vez cálido e suave como o cair de uma pétala sob um rio.
Estava cansado. Não queria saber mais de lutar.
Queria apenas dormir.
Discutir já não era mais interessante.
Deixaria aquele assunto por aquilo mesmo. Somente naquela noite. Quando acordasse, certamente o esganaria.
Suas defesas caíram e Benjin sorria vitorioso.
Seus olhos se fecharam caindo no mais profundo sono. Benjin o segurara para carregá-lo até a cama. O deitando no colchão e o cobrindo, aninhou-se ao seu lado o abraçando possessivamente. Emaranhou seus dedos compridos aos fios de cabelos castanhos, observando aquela fisionomia serena.
― O menino chorão ainda existe em você, Leo. Mas tudo bem, eu aceito cada face tua. ― Sussurrava acariciando a bochecha do rapaz. ― Essas foram as minhas últimas energias, espero que tenha uma boa noite de sono.
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Atualizado até capítulo 102
Comments
Yakult
Kkk o trapezista tarado kkk
2022-11-12
0
Kim lorrany
perdão cara eu estou confusa, tem hora que o ben parece ser inofenssivo como um passivo, e outras que ele parece o ativo
2022-08-31
1