O seu destino ficava longe do centro da cidade. Mais precisamente na saída dela, já na rodovia. Se levara meia hora para enfrentar a fila de carros só para sair da faculdade, uma hora fora necessária para atravessar o trânsito da cidade até se jogar na avenida que o levaria para a rodovia.
A tela do celular mostrava um pouco mais da meia noite quando Leonardo finalmente pode acelerar um pouco para seguir a rodovia. Dez minutos depois, uma densa neblina o obrigara a reduzir a velocidade e aumentar a luz do farol, seguindo as placas luminosas que guiavam os motoristas.
Morar perto de montanhas definitivamente era perigoso.
― Ah que merda, deveria ter ido pra casa.
Inclinando-se no painel para espreitar os olhos, lia as placas rapidamente que anunciavam a entrada do parque à poucos metros. Passara por uma rotatória e a pista dupla o fizera atravessar o imenso portal com o nome do parque.
Leonardo apertava os dedos no volante, respirando fundo. O coração já acelerava alucinadamente por estar se aproximando daquele lugar. Tendo finalmente passado a neblina, encontrara o estacionamento lotado e a multidão que entrava e saía dos portões.
Luzes explodiam em cores na entrada. Palhaços e outros figurantes recepcionavam seus visitantes com alegria.
Queria ir embora.
Definitivamente.
Mas ainda assim estacionara o carro novamente e pegara seu grosso casaco no banco de trás antes de sair do veículo.
Enquanto vestia o pesado casaco sobre a blusa de moletom branca, Leonardo não deixava de observar a fachada do parque.
Semelhante a um castelo enorme iluminado por holofotes coloridos. A cor vermelha explodia com o dourado em uma elegância sem fim. Pelo que se recordava, ali era a bilheteria.
Ah... Com certeza teria de gastar seu precioso dinheiro só pra entrar naquele lugar.
Mais um motivo para nunca mais pisar ali.
Enfiando as mãos no bolso, Leonardo driblara os palhaços que buscavam brincar com as crianças e seus pais. Entrando no castelo, surpreendera-se com a multidão que ainda entrava no lugar. A fila da bilheteria estava mediana, mas ainda assim haviam funcionários uniformizados de soldados do quebra nozes realizando atendimentos na fila.
Ficando em pé no final da fila, Leonardo olhava em volta notando mais e mais diferenças. Nas paredes eram mostradas filmagens das atrações, no meio do piso um painel continha o mapa do parque com o horário das apresentações. Alguns malabaristas faziam suas apresentações de boas vindas aos visitantes, e as crianças pareciam gostar de assistir.
A atmosfera do lugar era completamente diferente do que Leonardo se recordava.
Era mais caloroso.
Mais feliz.
― Senhor, veio sozinho?
Piscando para uma atendente que parara em sua frente, Leonardo lembrou-se do motivo de estar ali. Com um sorriso brilhante para mostrar a sua felicidade genuína em trabalhar num lugar como aquele, a garota era mais baixa que Leonardo, e segurava um tablet para facilitar a compra dos tíquetes de entrada.
― Sim, vim sozinho me encontrar com um... ― Os olhos brilhantes da atendente sorridente causaram arrepios em Leonardo. Será que se mencionasse o nome de Vicente ela saberia quem era? Ou se falasse o seu sobrenome... Não, de maneira alguma ela deveria saber quem ele era. ― Funcionário.
― Um funcionário? Quem o senhor procura?
Custaria tentar? Bem, era o nome daquele sujeito de qualquer forma.
― Vicente.
Apesar do sorriso engessado, a garota assentira mexendo em seu tablet. Leonardo arqueava a sobrancelha ao notar a mudança abrupta do comportamento da funcionária, mas antes que pudesse espiar o que ela fazia naquele tablet, os olhos brilhantes e felicidade genuína retornaram-lhe à face.
A funcionária esticara o braço para fora da fila, em um convite.
― Senhor Vicente avisou de sua chegada, Senhor. Pode seguir pela entrada do portal.
― Ahn? Não preciso...
― Não senhor.
Rapidamente dispensado pela garota, Leonardo a fitara surpreso. Isso significava que seu precioso dinheiro fora poupado? Um sorriso débil crescera em seus lábios.
Deixando a fila, o rapaz tornara a caminhar em direção do portal. A tecnologia fazia a sua parte mágica de encantar os visitantes. Aproximando-se das catracas vigiadas por mais funcionários, Leonardo quase fizera a meia volta para comprar o dito do bilhete de entrada.
Talvez o seu olhar perdido e assustado tivesse chamado a atenção de um dos funcionários. Pois o sujeito fantasiado de soldado quebra nozes olhara o tablet em mãos e logo o convidava com a mão. Um sorriso aberto e largo, direcionado somente a Leonardo.
Apontando para si mesmo, vira o funcionário assentir. Aproximando-se da catraca, o funcionário usara um crachá para liberar sua entrada. Mesmo cético da facilidade em entrar naquele lugar, Leonardo passara a catraca.
Vicente havia preparado tudo para a sua chegada?
O filho da mãe sabia que ele viria?
Deixando de fitar aturdidamente o funcionário, Leonardo girou sobre os calcanhares sentindo o frio lhe abraçar. E quando percebera, o mundo brilhante explodia na sua frente.
Nada se comparava ao formigueiro que havia ali. Pessoas de um lado para outro, apontando para as lojas enfileiradas atendendo seus clientes. Parecia um corredor de um shopping center. Apesar de ser mais requintado e grandioso. Lojas e lojas de brinquedos, de roupas, de acessórios, de lembranças e demais outras bugigangas que uma pessoa poderia comprar estavam à sua disposição.
Como se não bastasse, pequenas cafeterias e lanchonetes serviam refeições rápidas e baratas. O cheiro de pipoca fora o primeiro a ser sentido por Leonardo, enquanto fitava boquiaberto aquele lugar.
Tão belo.
Havia esquecido-se por completo de seu receio de minutos antes.
Um malabarista de fogo fazia apresentação perto de uma fonte. Cuspindo fogo, a chama impressionava os visitantes arrancando aplausos quentes. Como ele não se queimava?
Depois de andar um tempo, ouvira gritos. Erguendo a cabeça para a esquerda poderia ver a montanha russa funcionando com o carrinho indo de um lado a outro. A fila para entrar no brinquedo era consideravelmente grande.
Ali começava o parque de diversões.
Um sorriso impressionado surgia na face do rapaz.
A música saía dos alto falantes dos postes. Bandeiras estavam penduradas na cor vermelha e branca com a logo do parque. E só de olhar em volta Leonardo já sabia que se perderia facilmente ali, pois de nada se assemelhava ao que se recordava.
― Vamos pro circo, mamãe? Eu quero ver o circo!
― Mas já está terminando o show, minha querida.
― Só um pouquinho...
A criança tentava puxar a mãe para uma rua lateral, apontando para longe. Apesar de seus esforços, a mãe não se derreteu à chantagem emocional que os brilhantes olhos forneciam.
No entanto capturara a curiosidade de um jovem universitário.
Leonardo seguia a rua apontada pela criança, tão longa quanto possível. Lá no fundo pode ver a enorme tenda brilhante logo atrás do portal com o nome do espaço.
Era lá que aquele sujeito o esperava.
Sem nenhuma pressa, Leonardo seguia a rua sem deixar de apreciar o parque. Diversos brinquedos funcionavam criando ecos de gritos de seus clientes. As barracas de comidas e lojas também se dispunham roubando a atenção das pessoas. Tudo aquilo sobre luzes brilhantes combinando com o céu noturno.
Demorada a sua caminhada, finalmente alcançara o portal com o brilhante painel anunciando a entrada.
Dreamland Circus.
Era ligeiramente afastado do parque central, e quando atravessara o portal Leonardo sentia a diferença do ambiente. Ali haviam diversas tendas pequenas, mas todas atrás da principal tenda branca e vermelha onde podia ouvir o clamor do público.
Apertando os dedos no bolso do casaco, ele suspirou pesado. Adentrando na tenda o corredor lhe entregava um tapete vermelho para guiá-lo. Dali já podia ouvir o som do público e de uma banda tocando, sinalizando o show acontecendo.
As paredes continham posteres dos espetáculos que o circo apresentava, desde as mais antigas até as mais recentes e modernas. Cinco cartazes em cada lado pareciam contar a história daquele lugar.
Leonardo parara em frente a um específico. O maior poster que se encontrava na segunda entrada. A imagem de um rapaz jovem de cabelos platinados e maquiagem artística cativara a atenção do universitário. Todos os personagens reunidos no fundo destacavam o personagem principal daquele espetáculo.
Tal que Leonardo conhecia muito bem.
Seus olhos castanhos esbugalhavam com tamanha similaridade. Aquele jovem rapaz certamente cumpria o personagem principal do espetáculo, que levava o nome do show.
A marionete.
A lembrança de uma pelúcia com maquiagem parecida retornava diante de seus olhos. Uma certa pelúcia de um bonequinho maquiado, que jamais saía dos braços de um certo garoto de onze anos de idade.
O grito da plateia chegara aos ouvidos de Leonardo o despertando de seu mar de memórias. Duas entradas, uma à esquerda e outra à direita, se dispunham para o público. Passando pela a da esquerda, Leonardo notava a escuridão em toda a arquibancada, e as dezenas de pessoas olhando para um único lugar boquiabertas.
No centro da tenda um palco circular onde acontecia a apresentação de um grupo de homens fazendo acrobacias com uma grande rede elástica. Um caía na rede e ia para o alto girando abraçado às pernas. O público simplesmente gritava eufórico com o quão alto aqueles artistas conseguiam pular.
― Uau. ― Deixara escapar com outro pulo sincronizado daqueles caras. ― Espera... Cadê aquele cara?
Nem de um lado e muito menos do outro Leonardo encontrara a sombra de Vicente. Aproveitando que o público estava imerso na apresentação, o rapaz andara por toda a entrada sem encontrar o dito cujo que o fizera por os pés naquele lugar.
As luzes se apagaram ao fim da apresentação, um holofote se acendera para a entrada do palco, onde os palhaços e outros artistas faziam gracinhas para arrancar risos do público. Dançarinos surgiram quando a banda tornara a tocar, e uma voz melodiosa começara a cantar.
Os gritos eufóricos do público rechearam os tímpanos de Leonardo quando uma certa pessoa surgira no palco pelo alto. Sentado em um arco elegantemente, o sujeito parecia a calmaria em pessoa. Assim como cada espectador presente naquela tenda, Leonardo era incapaz de não vislumbrar o começo da apresentação daquele sujeito.
E reconhecera imediatamente aquele número.
A marionete.
Aquele rapaz de aparência jovem estava fazendo o papel principal. Pela fantasia brilhante como de uma boneca de algodão, reconhecera o sujeito do poster.
O arco descia e com os movimentos do sujeito que balançava para frente e para trás, ele começava o trapézio. Pendurava-se pelos pés, girava no ar se segurando no arco. Cada movimento seu fazia a plateia prender a respiração sem deixá-lo de acompanhar.
Os movimentos dele eram delicados e coreografados. Havia um toque de elegância em sua performance. Giros e saltos arriscados que lhe permitia impressionar o público garantia o sucesso de seu número.
E quando o arco começara a circular por cima da plateia, a euforia atingia seu ápice. Sentado no arco com a mão estendida como se cumprimentasse o público, a marionete parecia feliz em explorar o próprio mundo real.
Descendo alguns degraus para olhar melhor aquele sujeito, Leonardo mal piscava. Estupefato ele estava, pois ainda desacreditava na semelhança daquele artista com a pelúcia de sua infância.
O arco repentinamente parara em frente ao público. O trapezista enroscara as pernas no alto do arco, dando continuidade ao seu número ao girar por ali sem encostar nas cabeças do seu público. De um lado para outro, de dentro para fora, vice e versa. Por fim, sentou-se novamente no arco sorrindo docemente para o público o cumprimentando.
Respirando fundo, o universitário balançava a cabeça para dispersar daquele torpor. Aproveitando para buscar Vicente, não encontrara nenhum sinal dele nas arquibancadas. Isso que o dito cujo havia dito que o esperaria na frente da tenda. E até o procurara dentro dela sem ver sua sombra.
Prestes a dar as costas para sair, Leonardo sentira algo pesar em seus ombros. Virando-se novamente em direção do trapezistas, notara que ele o encarava serenamente.
Era completamente estranho alguém parecido com uma marionete o encarar daquela maneira.
Relaxando os ombros, tratara de subir as escadarias para retornar à entrada da tenda.
E então encontrara Vicente sorrindo largamente em sua direção.
― Filho da mãe, parece um fantasma. ― Reclamava o universitário.
Passara por Vicente saindo da tenda, tornando a parar em frente do poster.
― Estava contando com sua vinda, jovem mestre. ― Umedecendo os lábios nervosamente, Leonardo virou-se para trás onde Vicente o olhava ainda sorridente. ― Não é tão assustador pisar aqui como achava, não é?
Espreitando os olhos, Leonardo sentia uma pulga pular atrás de sua orelha.
― É mais assustador saber que você estava à minha espera.
― Contava com isso, jovem mestre. O que achou de nosso espetáculo?
Vicente apontava para a entrada pela qual haviam acabado de passar. O universitário ainda podia ver o show de luzes e ouvir a música e os aplausos do público sinalizando o final do espetáculo.
― Não vi muita coisa, estava te procurando.
― Acredito que tenha visto mais que o suficiente. ― Vicente aproximou-se de Leonardo, ajeitando a gola de seu casaco ― Temos de fechar o parque, mas chamarei os representantes de nossas atrações para ouvir o que o senhor terá a dizer.
― Pensei que já tinha tudo pronto.
― Não posso parar o show mesmo que seja pelo jovem metre. Acompanhe-me, por gentileza.
Aquele sujeito de sorriso afável seguia pelo tapete vermelho sem olhar para trás. Leonardo movera a cabeça de um lado para outro estalando os ossos antes de segui-lo.
Daria um fim aquela situação. Mesmo que seu medo tivesse sido varrido por algum motivo mágico.
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Atualizado até capítulo 102
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