Gatilho angustiante

Quando se tem algo da qual deseja esquecer, deve estar preparado para os infinitos gatilhos que se voltarão a você. O menor dos movimentos fará com que o gatilho se torne uma vara de pesca, que tenta trazer à tona aquilo que se deseja esquecer.

As vezes as iscas são grandes o suficiente para percebermos antes de acontecer, nos dando a possibilidade de esquivar. Mas haverão vezes em que a isca é pequena e sorrateira, querendo te enganar para pegar de surpresa.

― Pessoas desaparecidas? Dentro da Dreamland?

― Não sei os detalhes ainda, mas parece que nos tornamos um ponto de partida para uma investigação.

Tudo parecia ir bem antes do jantar. Ray irritando Aslan e Leonardo, Benjin grudento como sempre. Naquelas duas semanas, o jovem mestre havia entrado no ritmo daquelas principais atrações ao ponto de se sentir comodado com eles. Faltava pouco para tornar a Dreamland Mansion em seu lar.

Até perceber a quietude de Vicente.

Agora compreendia o motivo do seu silêncio.

Afinal, ele também começara a se sentir incomodado com a notícia.

― E o que você fez?

― Conversei com o departamento jurídico e verificamos no sistema que Giovani Monteccello é, de fato, um policial credenciado. Então confirmei que a Dreamland World & Comp. irá cooperar com a investigação. ― Contava Vicente continuando a comer, apesar de não parecer nem um pouco faminto. ― Devemos avisar os funcionários que logo após o encerramento das atividades nas atrações, eles precisam permanecer no parque.

― Eu faço o comunicado. ― Prontificava-se Aslan, tendo um pedaço de carne roubada de seu prato por Ray. ― Seu...

― Ah está delicioso!

― Isso é preocupante.

A cereja do bolo das surpresas era perceber Benjin apreensivo. Não era para menos quando ninguém esperava que o circo se tornasse um lugar para pessoas desaparecerem. Era como ser acusado injustamente. Ou pior, descobrir que alguém o esfaquearia pelas costas.

Se fosse comprovado que o parque tinha alguma relação com aquela situação, isso significaria que alguém achava ser dono do lugar pra usá-lo em seus planos sujos. Leonardo não gostara nem um pouco em imaginar tal hipótese.

Tal qual da outra vez.

Ainda se recordava das manchas em carmesim sobre o gramado do parque.

Agora compreendia a quietude do palhaço.

Balançando a cabeça para afastar as memórias indesejadas, Leonardo seguira o mesmo passo que Ray: o sorriso e a indiferença. Se não desse tanta importância para aquele maldito gatilho, talvez sobrevivesse por uma noite.

― Deixem que investiguem o quanto quiserem. Só precisa vigiá-los para que não atrapalhem as atividades do parque.

― Oh, o jovem mestre está fazendo o seu trabalho como herdeiro?

Leonardo sorria ladino diante da ligeira cutucada de Ray. Certamente sua implicância era o suficiente para o jovem mestre esquecer de sua angústia. Dessa vez estava disposto a seguir aquele caminho.

― Enquanto eu não terminar aquele projeto com o Barley, não quero saber de ninguém me atrapalhando. É só isso seu mágico de bosta.

― Fico honrado que esteja preocupado conosco, jovem mestre. ― Sorria Aslan, para o desgosto do mágico.

― Acho que vocês estão se esquecendo de um pequeno detalhe. ― Cantarolava Ray, conseguindo furtar mais um pedaço de carne do prato de Aslan. ― O jovem mestre agora faz parte do quadro dos funcionários. Então ele também será interrogado.

Os outros quatro empertigaram largando os talheres. Vicente levara as mãos à cabeça começando a murmurar lamentações, enquanto Benjin levantava-se da cadeira.

― Eu também vou ser investigado então!

― Todos vocês serão, seu idiota. ― Murmurava Leonardo. ― Tá tudo bem desde que ele não saiba quem eu sou.

― Você é um novato, jovem mestre. Entrará na lista de suspeitos, com certeza.

― Está querendo que eu seja detido, Ray?

O mágico gargalhara, apesar de ser claro e óbvia a sua resposta. Definitivamente se tornara alvo das palavras espinhosas de Ray.

― Claro que não! Imagina!

― Então não tem porquê se desesperarem. ― Dizia Leonardo ao terminar de jantar, levantando-se da mesa. ― To indo estudar um pouco, boa noite pra todos menos o Ray.

― Hahahaha, o jovem mestre é realmente abusado. ― Sorria o mágico apertando o garfo com força.

Não gostara, nem um pouco, de saber que o parque se tornaria alvo de investigações. Memórias irritantes insistiam em retornar à sua mente, deixando-o angustiado. Leonardo não queria pensar demais.

Não queria lembrar.

Encostando-se na parede do corredor, o rapaz engolia o bolo formado em sua garganta. O arrependimento de ter voltado para aquele lugar crescia depois de duas semanas sendo esquecido. Havia se interessado no projeto de automação, se dedicado a ele tanto quanto se dedicava aos estudos. E por isso esquecera do motivo de estar ali naquela mansão.

Arrastando os pés pelo corredor, Leonardo não fora para o seu quarto. Na verdade os seus passos cegos o levaram até o escritório que outrora pertencera ao seu finado pai, deixando um rastro carmesim de memórias. Fora lá que se refugiara, sentando-se no estofado abaixo da janela encarando a escuridão de fora.

Quando piscara, percebia encarar a foto emoldurada sobre a mesa. Para aqueles quatro na foto.

Isso não significa que algo estava se repetindo?

Por alguns minutos, Leonardo fechara os olhos desejando acordar daquele pesadelo.

― Imaginei que estaria aqui.

A voz suave de Benjin o despertara de supetão. O trapezista se desencostara da porta para fechá-la, e assim se aproximar de Leonardo. No entanto, mantivera uma distância considerável ao se encostar na mesa e cruzar os braços.

― Você é um maldito chiclete.

― Se experimentasse descobriria o sabor do chiclete. ― Ria Benjin ― Por que o nosso jovem mestre veio se esconder ao invés de ir estudar?

Tornando a encostar a cabeça no vidro, Leonardo apertava os lábios.

― Sei lá. Me sinto sufocado.

Apoiando as mãos na mesa, Benjin observava aquele universitário se encolher contra a janela como se desejasse se esconder do mundo. Uma mudança brusca de seu comportamento, já que antes do jantar ele parecia bem ao ponto de brigar consigo por bobeiras.

― Está com medo de que a Dreamland se torne palco de alguma brutalidade?

A pergunta fora tão certeira que Leonardo tornara a espantar-se com Benjin. Apertando os dedos no tecido da calça, o rapaz percebia ali a maldita isca da vara de pesca, grande e rechonchuda. Soltando um riso baixo para afugentar o receio, Leonardo se desencostara da janela para se sentar de frente a Benjin.

― Não estou com medo. Não me importo com o que acontece com esse lugar.

― Se realmente não se importasse, independente do quão persuasivo Vicente fosse, você não viria para cá. Muito menos buscaria refúgio no escritório do Mestre Evilian.

― Pare de falar besteiras, sua marionete estúpida.

― Xingue o quanto quiser, Leo, mas eu te disse que sou a única pessoa que o conhece profundamente. Mentir para mim é impossível.

Seria perda de tempo entrar naquela discussão novamente. Benjin tinha a certeza de que Leonardo era um livro aberto, provavelmente para usar a própria perversão para dominá-lo outra vez. Levantando-se do estofado, Leonardo se aproximou da mesa onde pegara o porta-retrato.

Talvez Benjin fosse entendê-lo já que pensa conhecê-lo tão bem.

― Essa não é a primeira vez que a Dreamland ganha a atenção da polícia. ― Sussurrava o rapaz, retendo o olhar sobre cada rosto naquela fotografia. ― Um artista recém contratado pra fazer o papel da marionete no circo escondeu bem suas sombras. Um ex-presidiário acusado de pedofilia.

― Eu soube de Vicente. ― Sussurrava Benjin, cruzando os braços para controlar seu impulso em tocar no universitário. ― Foi o que te fez desejar nunca mais retornar para cá, não é?

Tentando conter a raiva, Leonardo rangera os dentes apertando os dedos em punho. Só de admitir tais lembranças dolorosas o fazia querer explodir o mundo inteiro. Tentar qualquer coisa que o fizesse sentir melhor e vingado. Aquela vara de pesca conseguira puxar um baita de um peixe.

Um toque acolhedor repousara sobre seu punho. Os dedos carinhosos de Benjin desfizera o aperto até que se entrelaçasse aos de Leonardo, mesmo não ganhando a sua atenção. Seu calor era aconchegante quando se encontrava em meio a raiva. Acolhedor, melhor dizendo.

― Se não fosse por minha causa, Lucca jamais...

Benjin olhara de relance para a foto sobre a mesa. O garoto no colo de Mestre Evilian tinha traços idênticos ao de Leonardo, mas sorria apontando para a câmera. Gêmeos. Era a pessoa com quem o universitário tinha um forte vínculo.

Descendo os olhos para sua mão unida ao do universitário, pode sentir o calor vindo dele. Não o calor de sempre. Como poderia puxá-lo de volta para que não fosse abatido?

― Nunca se esqueça que agora a Dreamland pertence a você. ― Sussurrava o trapezista. Prestes a ralhar consigo, Leonardo se impedira ao ver a seriedade de Benjin. Uma fisionomia um tanto quanto inédita. ― Todos nós dependemos de você. Se não quer que esse lugar se torne palco para coisas como aquela, então terá se esforçar em nos proteger.

Era a primeira vez que alguém colocava tamanha responsabilidade sobre seus ombros.

― Mas eu...

― Chega de fugir, Leo. Ficar remoendo isso não trará ninguém de volta à vida. Tudo o que precisa fazer é seguir em frente e proteger quem continua em pé.

Estava recebendo um belo puxão de orelha de Benjin. O que era uma novidade, já que até então o trapezista parecia somente se importar em tentar beijá-lo. Seria a primeira vez que o ouvia falar tão seriamente, com o intuito de mantê-lo de cabeça erguida.

― Você consegue ser tão irritante quanto aquele maldito mágico.

Benjin abria um largo sorriso, levando a mão de Leonardo próximo aos seus lábios depositando um singelo selar no dorso. Mantendo o contato visual, pudera vislumbrar o rubor tomando a face do jovem mestre.

Aparentemente conseguira afastar o maldito gatilho que sobrevoava a cabeça de Leonardo. Pelo menos por ora.

Puxando a sua mão para soltar de Benjin, o universitário dera a volta pela mesa prestes a sair do escritório.

― To indo estudar, e não me siga.

― Consigo ler nas entrelinhas que está me chamando pra te fazer companhia!

― Cala a boca!

Deixando que Leonardo fosse na frente, Benjin dera uma última olhada para a foto sobre a mesa do escritório. E então correra para fora, realizando uma contagem regressiva alta o suficiente para Leonardo o escutar. Poucos segundos depois, ouvira-o correr pela mansão tentando fugir de si mais uma vez.

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Comments

Yakult

Yakult

Esses dois são tão fofos haha

2022-11-12

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Capítulos
1 Começo de um espetáculo
2 Visita de um administrador
3 A vida de um universitário ansioso
4 O brilho de um parque
5 Universitário heróico
6 O reinado da força bruta
7 Encurralado por um palhaço
8 Um baterista fanboy?
9 De volta pra casa
10 Acorrentado nas atrações principais
11 Brincadeira de criança
12 Mundo particular do universitário
13 Chá da tarde
14 Cansaço vs desconforto
15 Beijo de tirar o fôlego
16 Perseguindo objetivos
17 O detetive conhece o administrador
18 Gatilho angustiante
19 Conhecendo um novo amigo
20 Aposta para um desejo
21 Começo das investigações
22 Um mágico enciumado
23 As costas de um grande homem
24 Sol brilhante fora da Dreamland
25 O relato de um espião
26 Um domingo tedioso
27 Pensamentos de um jovem mestre solitário
28 Fim de uma pequena gripe
29 Garoto perdido
30 Desaparecimento na cerração
31 Silhueta de um suspeito
32 Conhecendo o jovem mestre Evilian
33 Churrasco dos capatazes
34 Casaco e lábios vermelhos
35 Promessa medrosa
36 Ele está diferente
37 Permissão tímida e silenciosa
38 Pela primeira vez, prazer
39 Medo versus Vergonha
40 Faça o seu desejo
41 Despertar da garota
42 Pedido do trapezista
43 Almoço do cachorro
44 Ilusão dos olhos
45 Cansaço do detetive
46 Convite do dono da Dreamland
47 Calor no camarim do trapezista
48 O último dia do espetáculo
49 O espetáculo da marionete
50 O caminhar da sonâmbula
51 O trauma de um Evilian
52 Pesadelo do jovem mestre
53 Cão de guarda
54 O rapaz do espelho na tenda
55 O trapezista quer ser mimado
56 Invasão ao circo
57 Pensamento assustador
58 Brincando de esconde-esconde
59 Como acalmar a marionete
60 Contrato de Rohan
61 A atração do Bluemoon Plaza
62 Reencontro de amigos
63 Sou o herdeiro
64 O chorão cresceu
65 Secretário dedicado
66 Mime a sua marionete
67 Com todo o amor para a Marionete
68 Relatório do detetive
69 Viola consegue!
70 Conflito de Aslan
71 Não me deixe para trás
72 Distraindo o detetive
73 Acidente no circo
74 Luz no fim do túnel
75 Um jantar na mansão
76 Minha marionete
77 Farol do trem
78 O espelho do vagão
79 A origem de Vicente
80 Fantasia da meia noite
81 Desejo insaciável
82 Esperança do baterista
83 Início das suspeitas
84 O inferno de Gustavo
85 Um novo amigo
86 Acordo com um Evilian
87 Ilusão dos espelhos
88 O último sequestro
89 O nervosismo de Leonardo
90 A determinação do jovem mestre
91 Beijo do diabo
92 Passando pelo espelho
93 Reencontro com Diablo
94 Velhos tempos
95 Noite traumática
96 Devorador de almas
97 Lucca Evilian
98 Doce canção de ninar
99 Pós terremoto
100 Caixa de brinquedos quebrada
101 Epílogo
102 Notas da autora <3
Capítulos

Atualizado até capítulo 102

1
Começo de um espetáculo
2
Visita de um administrador
3
A vida de um universitário ansioso
4
O brilho de um parque
5
Universitário heróico
6
O reinado da força bruta
7
Encurralado por um palhaço
8
Um baterista fanboy?
9
De volta pra casa
10
Acorrentado nas atrações principais
11
Brincadeira de criança
12
Mundo particular do universitário
13
Chá da tarde
14
Cansaço vs desconforto
15
Beijo de tirar o fôlego
16
Perseguindo objetivos
17
O detetive conhece o administrador
18
Gatilho angustiante
19
Conhecendo um novo amigo
20
Aposta para um desejo
21
Começo das investigações
22
Um mágico enciumado
23
As costas de um grande homem
24
Sol brilhante fora da Dreamland
25
O relato de um espião
26
Um domingo tedioso
27
Pensamentos de um jovem mestre solitário
28
Fim de uma pequena gripe
29
Garoto perdido
30
Desaparecimento na cerração
31
Silhueta de um suspeito
32
Conhecendo o jovem mestre Evilian
33
Churrasco dos capatazes
34
Casaco e lábios vermelhos
35
Promessa medrosa
36
Ele está diferente
37
Permissão tímida e silenciosa
38
Pela primeira vez, prazer
39
Medo versus Vergonha
40
Faça o seu desejo
41
Despertar da garota
42
Pedido do trapezista
43
Almoço do cachorro
44
Ilusão dos olhos
45
Cansaço do detetive
46
Convite do dono da Dreamland
47
Calor no camarim do trapezista
48
O último dia do espetáculo
49
O espetáculo da marionete
50
O caminhar da sonâmbula
51
O trauma de um Evilian
52
Pesadelo do jovem mestre
53
Cão de guarda
54
O rapaz do espelho na tenda
55
O trapezista quer ser mimado
56
Invasão ao circo
57
Pensamento assustador
58
Brincando de esconde-esconde
59
Como acalmar a marionete
60
Contrato de Rohan
61
A atração do Bluemoon Plaza
62
Reencontro de amigos
63
Sou o herdeiro
64
O chorão cresceu
65
Secretário dedicado
66
Mime a sua marionete
67
Com todo o amor para a Marionete
68
Relatório do detetive
69
Viola consegue!
70
Conflito de Aslan
71
Não me deixe para trás
72
Distraindo o detetive
73
Acidente no circo
74
Luz no fim do túnel
75
Um jantar na mansão
76
Minha marionete
77
Farol do trem
78
O espelho do vagão
79
A origem de Vicente
80
Fantasia da meia noite
81
Desejo insaciável
82
Esperança do baterista
83
Início das suspeitas
84
O inferno de Gustavo
85
Um novo amigo
86
Acordo com um Evilian
87
Ilusão dos espelhos
88
O último sequestro
89
O nervosismo de Leonardo
90
A determinação do jovem mestre
91
Beijo do diabo
92
Passando pelo espelho
93
Reencontro com Diablo
94
Velhos tempos
95
Noite traumática
96
Devorador de almas
97
Lucca Evilian
98
Doce canção de ninar
99
Pós terremoto
100
Caixa de brinquedos quebrada
101
Epílogo
102
Notas da autora <3

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