Frente a imagem de Thaís banhando-se, Léo se ocultou entre as árvores, vendo-se mediante um dilema: sabia que Thaís era adulta e o desejava; o jovem estava carente e sentia que sua chance de ter com a mulher que amava passara.
Não estava pronto, nem preparado para se entregar a outra.
Foi cruel sentir o vento passar em seu rosto por todo o tempo em que ele refletiu, mas lembrando-se que não envelheceria, tornou a optar pela justiça e honestidade como Thaís.
Ele partiu para casa, abnegando seus instintos.
Thaís percebera sua presença, afinal era muito forte, fácil de identificar, e entristeceu-se quando ele partiu. Naquele momento, concluiu que o jovem jamais cederia, jamais tentaria.
— Laroiê! — Léo bradou ao chegar na casa de Exu.
Sentindo a drástica mudança na vibração da reverência e uma mudança ainda maior na presença do emi de Léo, Exu respondeu:
— Eu sou mojubá. O que houve, Léo? Tomou fermento, foi?
— Pois é, Exu. — O jovem riu. — Acho que sim. Talvez dê tempo de continuar com os afazeres de casa. Já acabei com o treinamento e o estudo de hoje.
— Dá ‘pra ver… Se é que podemos dizer que só fez o de hoje, ‘né? Olha só, rapaz! — disse, abismado com o desempenho.
— Menos, Exu. — riu, acanhado. — Assim fico sem graça.
— É bom se preparar. Quando a menina Thaís te ver, vai ficar louca! — Exu tornou a rir alto.
Léo emudeceu, ainda mais acanhado, coçando a cabeça. Seguiu na direção da cozinha, mantendo a modéstia.
Cláudio ouvindo a galhofa de Exu, também rumava a cozinha, buscando entender o motivo de Exu estar tão impressionado.
Antes que visse Léo, sentiu o forte emi, muito intenso e agressivo. Olhou assustado na direção e viu o rapaz entrando na cozinha. Ele estava de costas e tinha massa muscular superior, sendo fisicamente mais forte que ele.
— E-Exu, quem é esse? — Cláudio indagou.
— O Léo, ‘ué! ‘Tá assustado?
— E-eu… Não, Exu. ‘Euhein. Cada pergunta… Eu tendo medo de macho? — indagou, arrogante.
— Sei bem… — O mestre assentiu, rindo.
Cláudio apenas deixou a casa. Tomado por inveja, socou a parede externa. Sentia muito orgulho de ser o mais habilidoso e experiente, mas o novato lhe passara a perna. Não julgava justo que os Orixás dessem tanto valor a um moleque recém-chegado.
“O que Léo tem que eu não tenho?”, indagou-se.
— Irmão, o que houve? — Thaís indagou, ao ver Cláudio se apoiando na parede, irascível. — ‘Tá se sentindo mal?
— Não é nada. Vamos! A feijoada já está no fogo.
— Tudo bem, ‘né?
Ambos entraram. Assim que Thaís entrou, vendo Léo de costas, soltou um sutil grunhido de surpresa e admiração.
— Mas, menino! Que isso? — arguiu, segurando o queixo.
— Homem! — Exu gargalhou. — Nunca viu?
— Ai, Exu! Desse jeito não. Benza Deus em Léo.
— Misericórdia divina, menina Thaís, olha esse fogo aí… vai acabar queimando alguém!
— Deus meu! Se for ‘pra queimar, tenho um alvo, sabe, Exu!?
— Cruz credo! Vou até sair de perto. — O mestre riu.
— Ao invés de pegar no meu pé, ‘cê pode me ajudar levando as coisas para a mesa… — Léo sugeriu por entre tímidas risadas.
— Antes eu realmente estivesse apenas pegando no seu pé, mas, realmente… o que aconteceu, Léo?
— Bem… coisas… desculpa não posso contar!
— Mas… — suspirou. — Tudo bem. Se é para o seu bem, fico muito feliz. Prometo não insistir.
Sentindo as palavras de forma honestamente gentil e tenra, Léo se aproximou de Thaís fitando seus olhos.
A moça, claro, ficou sem reação, olhando-o sem graça. Espantada com o rapagão se aproximando.
— O que fo-
Léo a interrompeu, envolvendo sua cintura e beijando-lhe.
O corpo da moça estremeceu e ela fraquejou em seus braços, porém, ansiosa por aquilo, ela não tardou a corresponder.
Vendo a cena, Cláudio irritou-se ainda mais, levantou, dizendo:
— Desculpem. Perdi a fome. Buscarei lenha na floresta.
Exu olhou para trás de rabo de olho. Debochado, o respondeu:
— Entendo… tudo bem… ‘tá acabando a lenha mesmo. Ainda mais agora que o fogo ‘tá alto!
Ouvindo suas palavras, bufando, Cláudio saiu.
O momento do beijo, invocou a lembrança de seu primeiro beijo com Rebeca, levando lágrimas aos olhos de Léo.
Thaís, romantizando as lágrimas do rapaz, acabou emocionando-se também.
Apesar de haver beleza no momento, Exu conseguiu enxergar toda a melancolia e saudade de Léo, mas nada disse.
— O que houve? Eu te machuquei? — Léo preocupou-se ao abrir os olhos e ver as lágrimas de Thaís.
— Não. ‘Tô muito feliz.
Léo sorriu, disfarçando, e mentiu descaradamente:
— Eu também ‘tô.
Thaís, romântica, caiu na mentira. “Consegui o que queria!”
— Bem, tenho duas perguntas: primeiro, quando vão se casar? — Exu brincou, rindo — Segunda, ainda tem coisa ‘pra fazer na casa? Se não, deveria passear com a Thaís, sabe!?
— Cruzes, Exu! — Thaís respondeu, envergonhada. — Assim do nada? Começamos agora. Deixa rolar. Não vou sair com ninguém agora… tenho estudos e treino. Léo realmente já fez tudo, agora, só falta o jantar.
— Mais tarde quero, sim, passear com a Thaís. — Léo disse. — Agora, vou adiantar a janta e sair. Além disso, quero ser diferente, então…
O rapaz ajoelhou na frente da moça, segurando sua mão.
Thaís arregalou os olhos, extremamente nervosa, trêmula.
— Quer namorar comigo? — O jovem pediu.
— Ai, meu Oxossi!
— Sim ou não?
— S-sim!
A jovem pulou em seu pescoço, numa explosão de alegria.
“Tem certeza disso, Léo?”, Exu indagou o rapaz em sua mente.
“Sim… é por mim, mas também pelo bem dela e de seu coração. Ela merece o meu melhor. Acho que mereço seu carinho… então, se formos devagar, vai dar tudo certo.”
“Entendo. Amanhã cedo daremos um passeio e você decide isso de verdade, hein.”
“Tudo bem”, o jovem assentiu, certo de sua decisão.
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Atualizado até capítulo 97
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