Ao fim da refeição, enquanto Cláudio seguiu para lidar com a limpeza da mesa, os outros saíram, rumo ao pagode, para retomarem sua rotina de treinamento e estudos.
— Enquanto descansam o almoço, apenas ouçam. Assim que eu terminar, mostrarei. — Exu disse.
Léo apenas assentiu com a cabeça.
— Sim! Seguimos de onde paramos? — Thaís perguntou.
— Não. Recomeçaremos pelo Léo. Como não está tão distante, não será um empecilho, certo, menina Thaís?
— Falando assim parece estar me dando uma bronca!
— E estou! — exclamou. — Isso serve de aviso ‘pra você, menino Léo. Sou paciente e jamais negarei meus segredos a vocês, mas quanto mais demorarem, menos se desenvolverão.
— Sim, Exu. — Léo assentiu, focado. — Prometo me esforçar e tentar não atrapalhar o avanço de Thaís. Desculpa, Tatá!
— Tudo bem… Exu é impaciente, mas está certo. Estou aqui há mais de vinte anos e nem saí do básico… mas, os segredos são bastante difíceis mesmo.
— Sério!? — Léo indagou.
— Sim… e são vários!
— Eu soube… Exu, ela está falando dos domínios, certo?
— Não, menino Léo. Segredos são outra coisa — disse, rindo.
— E o que são!?
— Ferramentas invisíveis, sem forma, com efeitos e utilidades. Bem, meus segredos são simples. No primeiro grau, exponenciam seu poder de convencimento e sedução. Depois, permite sentir mentiras, mesmo quando quem conta não sabe. Por último, torna seus passos ligeiros e inaudíveis para pessoas comuns.
— Os outros níveis avançam o poder destes segredos?
— Sim. Meu segredo detém quatro graus, por exemplo, mas isso difere de um Orixá para o outro.
— Preciso exercitar… ou só estudo resolve? — Léo perguntou.
— Ampliar o emi e exercitar, após descobrir como funciona, inevitavelmente elevará o grau — explicou.
— Tudo bem, então… como começamos?
— Léo, acabamos de comer! — Thaís repreendeu.
— Sério!? Parece que já estou há muito tempo sentado, pensando… nem me sinto pesado mais! — Léo pasmou.
Exu observou e Léo não mentiu. Usando de minúcia na observação, percebeu que o corpo de Léo realmente lidara com a etapa da digestão que estavam aguardando.
— Thaís, descanse mais um pouco. — Exu disse. — Você, menino Léo, vem. Ensino. Assim se pegar, alcança a menina Thaís e volto a lecionar usando o nível da moça.
— Tudo bem. Vamos! — disse, empolgado.
Exu mostrou a manipulação do emi. A partir de movimentos do corpo e da respiração era possível ativar o segredo, sem a necessidade de um encanto, afinal, alguns efeitos permaneceriam ativos após a primeira ativação.
Léo mostrou-se habilidoso na arte de seduzir e observar o coração das pessoas, mas ao tratante dos passos leves e rápidos demorou, necessitando da ajuda de Exu para obter êxito.
— Menino Léo, já tem meus domínios. Eles se estendem a todos e podem usar. Vejamos. Se conseguir usar, não precisará treinar os segredos, pois, estará no máximo nível de graus, que meu segredo oferece! — Exu disse, baixo. — Tem a ferramenta de Ibeji, mas não possui os domínios. Ele não te ensinou como usar, logo precisará desenvolver. Primeiro o meu e depois o de erê ibi.
Léo assentiu, muito centrado.
— Concentre-se e sinta o fluxo de seu emi. Depois, direcione-o à minha frequência energética. Por último, brade minha reverência e lhe responderei!
O rapaz seguiu as palavras, calmamente.
— Laroiê! — bradou bem forte.
Exu nem sequer surpreendeu-se com o prodígio, apesar da dificuldade, conseguindo executar aquilo que lhe fora ensinado.
O corpo do jovem começou a esquentar e ele pôde ver o suave movimento das brisas ao seu redor. Conseguiu perceber o intento de Exu para mover-se, antes mesmo de Exu fazê-lo.
— Nossa, menino Léo! — exclamou. — Parabéns! Agora sabe, não precisa estar mais aqui! Pode ir brincar com seus abikus.
— Nem tentei fazer algo quanto aos domínios de Ibeji! — Léo disse. — Além disso, acho que não conheci o outro.
— Porque só o verá quando terminar com seu domínio. Que bom que já sabe serem dois!
— Já sabia e ele confirmou quando nos encontramos… — disse, talvez agitado demais. — Então… Posso… ir?
— Pode. O resto é estudo. Lembre-se, tente alcançar os domínios de Ogum antes de amanhã. Surpreenda seu pai!
Léo abraçou Exu, despedindo-se e acenou para Thaís.
A moça nada entendeu, mas ficou quieta.
Assim que se afastou, Léo decidiu testar as ferramentas de Exu, tentando enviar uma mensagem para Pedrinho: “Querido amigo, estou livre, agora. Vocês também estão?”
O jovem sentiu quando um elo com o menino se estabeleceu.
“Quê!? O tio já- Ah! Deixa, sim. Estamos, sim. Pode deixar que vamos esperar por você! Mariazinha… ele ‘tá falando comigo daqui. Olha! Ele é forte!”
O jovem riu, ouvindo as palavras de Pedrinho.
O processo de distanciar-se, encerrando o elo, foi tranquilo.
Decidiu praticar com os passos do vento, apenas para atestar o quão veloz se tornaria e bastou um passo para chegar ao lado de Mariazinha e Pedrinho.
— Ai! Que susto, tio! — Ambos caíram, realmente surpresos.
Léo riu.
— Bem-vindo de volta! — Uma voz poderosa e imponente, porém gentil, cessou sua risada. — Agora, podemos conversar sem maiores problemas, jovem Léo.
Léo olhou na direção de Iroko, assustadiço.
Assentiu com a cabeça, repetidamente, aturdido.
— S-sim, senhor! — disse, com os olhos arregalados.
Enquanto se levantava, Pedrinho riu da cara assustada do jovem.
— Então… veio brincar, tio? — perguntou.
— Sim e não. Preciso de ajuda! — Léo disse.
— O quê!?
— Quero alcançar entendimento sobre os domínios de Ibeji.
— Ah! Isso é fácil… mas, primeiro, brinca com a gente!
— ‘T-tá bom!
Eles iniciaram seu pique-pega. Léo já esperava que a brincadeira se misturasse com o pique-esconde, como aconteceu na primeira vez.
Em dado momento, percebeu que os abikus não só brincavam, mas realmente desafiavam sua capacidade de pegá-los, ou encontrá-los, de forma que um humano normal não faria.
Sobiam em árvores imensas num piscar de olhos. Corriam como o vento.
Quando se esconderam foi realmente impossível encontrá-los!
Contudo, Léo se lembrou das palavras de Ibeji e decidiu se concentrar, repetindo os ensinamentos de Exu, direcionou sua mente a Ibeji e bradou:
— Bejiró!
Sentia algo como uma espécie de radar e apesar de saber aonde se escondiam Mariazinha e Pedrinho, conseguiu sentir centenas de outras presenças infantis ao seu redor.
Conseguiu ver a verdadeira forma dos ibejis, a sua frente, com coroas na forma de um capacete oval, apontando para cima. Seus corpos ostentavam muitos desenhos, como se fossem completamente tatuados. Um tecido azul-claro cobria o rosto de um enquanto um rosa cobria o rosto do outro.
Ambos carregavam uma cabaça. As calças de ambos tinham o tom verde-água, porém, enquanto o azul-claro incorria mais em um, no outro o rosa era mais presente.
Ambos o cumprimentaram, seguindo na direção oposta de Iroko.
— Impressionante! — Iroko disse. — Já esperava que aprendesse rápido, porém, supera minhas expectativas, jovem Léo. Devo-lhe meus parabéns.
— O-obrigado, senhor. — O jovem disse. — O-o… que… devo… fazer, agora?
— Veio brincar com os abikus, não!? — indagou, retórico. — Quando estiver pronto, venha me ver. Melhor, mande Exu vir!
— Sim. — Léo assentiu.
Voltou a divertir-se com os amigos, focando em desenvolver os segredos e ferramentas de Ibeji e Exu.
Foi uma tarde indescritivelmente boa! Recheada com o melhor.
— Já que aprendeu tudo. Nem preciso me preocupar. — Pedrinho disse ao fim do dia, quando o sol começou a se pôr.
— Precisa ir, senão a noite te alcança antes de chegar em casa! — Mariazinha sugeriu, com um belo sorriso no rosto.
— Ainda não irei para casa, pois, tenho um lugar para ir!
Os abikus se entreolharam e voltaram a olhar para o amigo.
— Que Orum te guie e proteja. — Ambos disseram. — Até depois. Tchau, tio Casa!
Léo acabou respondendo junto a Iroko:
— Boa noite! Partam com as bençãos de Obatala!
O jovem se surpreendeu, assustadiço, porém, curvou-se reverenciando-lhe e se despediu, partindo na direção do rio, buscando não se atrasar para o convite de Oxum.
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Atualizado até capítulo 97
Comments
Raquel Souza
esse capítulo foi agradavelmente calmo 😊
2022-06-21
0
Raquel Souza
hora de ver Oxum
2022-06-21
1
Raquel Souza
eita...
2022-06-21
1