Encaro novamente Raziel buscando entender o que está acontecendo.
Ele mantém o olhar fixo no meu e ergue uma sobrancelha antes de falar.
— Sua prima parece um pouco confusa.
Num movimento que me tira o ar, ele solta meu pescoço e puxa meus braços juntos, fazendo meu corpo ficar de pé e me virando em direção a ela.
Se ele não estivesse me segurando, juro que minhas pernas fraquejariam.
Jess está parada á minha frente com as mãos na cintura e uma expressão beirando a doentia na face.
Por detrás, ele prende meus dois braços como se me dissesse pra não tentar nada.
— Porque não explicamos a ela.
Ela não usa seus óculos. E esta vestida com um robe vermelho, como se acabasse de sair do banho, não era preciso muito pra saber que estava nua por baixo daquela seda.
Seus cabelos agora estão lisos e balançando dando a ela uma aura que jamais vi.
Sinto um enjôo momentâneo.
— Eu e Raz ficamos noivos.
— Quê? Por isso me ligou? Fingindo estar chateada?
Ela sorri. Mas não vejo a mesma inocência de seus sorrisos. Seu olhar esta totalmente transformado.
Essa não é a Jess.
— Não, sua idiota. — Ela ri — Liguei porque fazia parte do plano para te atrair até aqui. Sabia que se lembraria da venda da casa e me procuraria.
Fecho a cara sem saber como reagir por um momento.
Maldita! Todo mundo procurando alguém que parecia feliz em ter sido sequestrada. Como assim, Noivos?
— Então os malditos Satoris eram vocês o tempo todo.
Ela sorri.
— Isso mesmo. — Ela alisa o robe que está quase abrindo com a brisa. — Raz precisava de um lugar discreto. E eu sabia desse lugar a venda. Apenas indiquei que comprássemos com nomes falsos da Brewer Innc.
Maldita duas vezes. Já estava planejado. Por isso a desculpa em não poder ir até o escritório e efetuar a compra toda de forma anônima.
A Decepção me atinge.
— Tramaram o falso sequestro naquela noite.
Ela olha pra ele, e eu o sinto parado á menos de um palmo atrás de mim. Me tocando apenas com suas mãos.
Aperto os olhos com força.
— Não precisamos tramar nada. Eu apenas fui com eles porque quis.
— Sua mãe deve estar se revirando no túmulo agora. — Digo com tanta raiva que queria soca-la. — Ou esqueceu que seu queridinho noivo á matou?
Percebo que mencionar sua mãe á faz fechar a cara.
— Não fale da minha mãe! — Ela grita como uma adolescente — Raz jamais faria mal a ela.
— Então você é mais burra do que eu pensei! Olga jamais aprovaria.
Ela suspira de repente calma. Seu rosto parecia uma tela e seu humor estava oscilando mais que o normal. Ela devia estar drogada. A única explicação pra agir de forma bipolar.
— Minha mãe se importava comigo, Kate — Sua voz é mansa como se lembrasse realmente do amor da mãe. E seu rosto muda denovo num segundo— Mas ela não entendia o que sinto por Raz.
— Somente uma mente doentia entenderia o fato de você escolher o assassino da própria mãe à sua família. — Cuspo entredentes — Você só pode estar doente! Você não é assim, Jess. Nunca foi.
— Sou melhor assim. Acredite, nunca me senti mais feliz sendo quem sou agora. — Sua face se contorce até seus olhos assumirem tons de vermelho.
Seus olhos.
Eles ficaram inexpressivos e com a íris avermelhada, como os de Raziel. Alguma coisa fora da concepção humana aconteceu com ela.
— O que fizeram com você? — Estremeço realmente com medo — O que vocês são?
Tento andar até ela, mas ele me segura.
— Somos Sentinelas. — A voz dele é rouca e seu hálito faz a pele do meu pescoço arrepiar.
Não sei o que isso significa. Mas não deve ser bom.
— Ele não ama você. — Susurro incomodada sentindo os dedos dele apertarem em meus braços indicando que estava indo longe. Já não me importava o que fariam comigo. Eu lutaria por ela.
— Cala essa maldita boca Katherine! Você não sabe de nada!
Ele sente meu corpo inteiro tremer e continua me segurando.
— Ele não ama você. Nunca vai amar você! — Grito desafiando sua mente a voltar ao normal - Acorda Jess!
Ela parece irritada e se aproxima me dando um tapa no rosto. Dói. E é o segundo que recebo em menos de uma semana. Dessa vez me irrita como nunca.
Trabalhei anos de terapia pra controlar a raiva, buscando uma vida de equilíbrio.
Um tapa jogou fora todo esse investimento.
— Mandei calar a maldita boca, ou vou matar você!
— Como pode? Ele está te usando, sua burra! Te usou para me pegar. Foi só pra isso que serviu.
Ela se prepara pra me dar outro tapa, enquanto Raziel me mantem firme no lugar, mas cerro os dentes e preparo o rosto pra receber. Dessa vez não doeu tanto.
Não desisto. Estou no meio deles, com o lago dos dois lados. Os seguranças a essa hora ja devem estar mortos.
Não posso fugir, mas posso faze-la parar com essa ideia louca de noiva do demônio.
— Porque não para esse teatro ridículo, Jess? Ainda pode se livrar das acusações e denunciar esse monstro.
Ele me solta de repente e entra na minha frente impedindo minha prima de me estapear denovo.
— Já chega. — Ele segura as mãos dela. — Vamos seguir com o plano.
— Agora que estava me divertindo, amor. — Ela o abraça dengosa. E patética.
— Você é só a vadia dele.
Ao ouvir minha voz, ela dá um passo a frente com as mãos em punho me fazendo recuar.
— Vou acabar com você.
— Não quero te machucar, Jéssica. Não faça isso denovo.
Ela ri friamente.
— Você sempre foi uma covarde! Se escondendo naquele consultório enquanto a vida passava por você.
Levo um soco no ego por nunca ter ouvido isso dela.
— Não precisa fazer isso. — Digo recuando mais um passo. Ela avança na intenção de me atingir. Nenhum sinal de que a razão voltou pra sua cabeça. Ela só ruge feito animal.
Preparo minha defesa, mas ela não faz o que imagino.
Sua intenção é me empurrar na água.
Então seu corpo tromba com o meu com uma força absurda e eu a puxo comigo tornando a nossa queda inevitável.
Nós duas somos lançadas pra fora do píer.
Consigo sentir o impacto da água muito fria como um choque em meu corpo quando afundo.
Nunca fui uma nadadora profissional, mas gostava de nadar no lago nos verões, Claro que não na parte funda que deveria ter dez vezes a minha estatura em profundidade.
Começo a lutar para subir e respirar.
Consigo colocar a cabeça para fora mas a vejo pular sobre mim me empurrando novamente para baixo.
Ela realmente quer me matar!
Uma quantidade de água salgada invade meu nariz.
Luto com uma inimiga invisível dentro da água que começa a fazer doer cada parte do meu corpo. Muito tempo ali me faria congelar por completo.
Consigo me desvencilhar de suas mãos e a empurro para baixo também.
Agora sou puro instinto de sobrevivência. Se alguém tiver que sair viva será eu.
Consigo acertar um chute lento embaixo da água escura, e sei que a acertei, pois ela desaparece e se afasta. Mas eu estou perdendo o fôlego
Aproveito a deixa e me debato subindo em busca do ar.
Quando falta pouco para me libertar, sinto um puxão forte no meu tornozelo que me faz afundar denovo e soltar um grito silencioso aspirando mais líquido dessa vez, enquanto a laringe luta tentando fechar e proteger o meu corpo.
É muita água.
Consigo sentir meus pulmões inundarem a medida que meu corpo não aguenta e perde a luta.
Nesse momento minhas células estão sendo detonadas e sinto a falta do oxigênio começar a causar danos lentamente ao meu cérebro...
Um sono profundo me invade enquanto a água se torna amiga, não mais inimiga. Começando a me deixar relaxada e em paz.
Eu quero essa paz.
Só quero dormir... Penso.
Nessa fração de segundos entre a vida e a morte um filme passa em minha mente. O rosto de meus pais todas as manhãs ao me acordar para ir á escola ou ás missas; Tia Olga fazendo meu bolo preferido, Kevin e eu jogando videogame, Jess contando suas histórias de princesa para mim quando pequena... E Raziel. Mas esse Raziel não era mau. Estava sorrindo pra mim. Sinto meu rosto repuxar em um quase sorriso pra ele de volta.
Meu corpo não luta mais, parece ter aceitado que perdeu e eu sinto uma dormência em todo o corpo, enquanto lentamente perco a consciência e sou vencida pela escuridão.
Meu corpo afunda.
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Atualizado até capítulo 29
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