O parque Nacional de New Hampshire é a atração principal de quem visita os Estados Unidos, é lá que encontrarei os turistas que desejam conhecer a tão famosa cadeia de montanhas do apalache.
E enquanto dirijo pela Kancamagus Cornway, que também liga Lincoln a North Cornway, aprecio a beleza que somente essa estrada oferece. Um espetáculo de cores e montanhas que levam até o park, e te faz sentir o desejo de parar e tirar uma foto, ou pintar um quadro.
Meu coração sempre aperta quando faço a curva acentuada próximo ao local do acidente onde perdi meus pais.
Entro com minha pequena Van no estacionamento externo do Park. Está movimentado, estamos na primavera e isso atrai os amantes da natureza. Pego minha mochila, celular, mapa alterado com os principais destinos daqueles turistas em específico e aperto as minhas botas de exploradora que ajuda a guiar de forma confortável e elegante.
Caminho um pouco até o Caves Park e aguardo. Não espero muito e meu grupo chega.
— Olá! Me chamo Katherine e serei a sua Guia. — Digo sorrindo e recepcionando um grupo de 5 pessoas. Entre elas uma Cigana brasileira de 65 anos que fala inglês fluentemente e é viúva á 15 anos. Fico curiosa e pergunto o motivo de estar viajando sozinha.
— Meu marido apenas mudou de roupagem. Ainda está aqui ao meu lado. Prometemos um ao outro viajarmos por todo o mundo. — Ela abre um sorriso amarelado — E antes de chegar a minha vez, aproveitaremos o máximo.
Sinto um arrepio com sua resposta. Acho fofo ela manter o esposo vivo em suas lembranças e mesmo nesta idade estar viva, bem disposta e feliz, seu ar é jovem apesar das rugas e sua energia é forte apesar de seu corpo pequeno.
Me vejo como ela aos sessenta anos. Com todos esses pontos, menos a lembrança de um marido morto, porque preciso ser sincera, ficar sozinha é viciante e tem suas maravilhas.
Pegamos o teleférico para subir. E como sempre, os turistas vibram de emoção com a beleza do park. Não posso negar, cada vez que o exploro consigo ficar impressionada.
— Kate porque as montanhas levam esse nome? — Pergunta a turista mais velha. A todo tempo ela parece interagir com alguém, que não é nenhum dos amigos turistas que ela fez. Nem comigo.
— Toda a White Mountain é composta por árvores Vidoeiro-branco, também chamada bétulas brancas. Há quem diga que as cadeias montanhosas que faz parte dos montes apalaches tem esse nome por causa das Bétulas, mas acredito que seja pela beleza que ela possui no Outono e Inverno. Tudo é lindo por aqui nessa época.
Como uma cobertura branca num sorvete de chocolate.
O teleférico nos permite ter uma linda visão do alto. Nosso Tour se dividirá em 2 dias que inclui a estação de esqui Loo Moutain, trilhas, alguns lagos históricos, o monte whashington, o zoológico Polar Caves Parke e uma escalada no Alpines adventures.
— Dá pra ver que você gosta muito deste lugar.
O comentário de Kahina, a senhora brasileira me faz olha-la.
— Venho muito aqui. — Digo num tom baixo — E a senhora não iria acreditar se eu dissesse que nunca me acostumo com a beleza desse lugar.
— Acredito, minha filha. — Ela diz de forma carinhosa. — Você tem uma conexão de outro século com este lugar. Sinto isso quando olho pra você.
Respiro fundo. Como se ela soubesse de tudo que me prende a esta terra.
Cada pedaço do White mountain me faz sorrir. Lembro de quando meus pais me traziam para fazer trilhas desde muito nova. Quando criança eu amava o Story2Land, um dos melhores parques de diversões da cidade. Eu amo este lugar e amo ter que visita-lo como guia turístico.
Estar aqui é algo que dinheiro nenhum pode comprar. Estar aqui é fazer meus pais estarem vivos, e de certa forma me sinto como Kahina e me identifico com sua história sobre visitar lugares e manter memórias.
Mesmo assim, estava começando a ficar desconfortável com cada comentário seu.
O grupo é bem animado, mantendo conversas e perguntando sobre cada parte histórica. Pegamos o Flume Gorge que nos leva á vários cantos do parque. É um desfiladeiro natural que nos deixa sem fôlego, é como uma trilha, mas de escadas de madeira se moldando a cada parte do lugar, ao ponto de descermos dentro de uma cachoeira, ou passarmos sobre piscinas naturais e poder toca-las com o pé em determinados momentos.
Vemos o lago Echo lake e o profile Lake. Voltamos a subir por outro lado do desfiladeiro rumo ao monte whashington. É o pico mais alto da região e nos rouba 2h de caminhada com muita dificuldade, de expresso conseguimos chegar em meia hora, me lembro de sugerir para o dia seguinte caso eles decidam voltar ao pico. Em dado momento pergunto se Kahina está bem, mas ela parece uma criança de 10 anos empolgada e cheia de energia.
Estava batendo 22°c embaixo, no cume mais alto estávamos a 9°.
Alguns dos turistas estavam tremendo de frio. No verão NH tem máxima de 28°, o mais quente que podemos esperar da região.
— Este é o Monte Whashington, com 1917 metros de altitude é o ponto mais alto e perigoso do apalache. No inverno os ventos chegam á 372km/h e a temperatura á -45,6°, sensação térmica causada pelo vento de -75,0°.
— Era conhecida como Agiocochook. — Diz Kahina maravilhada. — Casa do grande espírito antes dos colonizadores.
Estremeço mais uma vez, e não é de frio.
— Sim, Kahina. Dizem que havia o espírito de um Valente nesta montanha, que havia sobrevivido ao dilúvio escondido em uma caverna em Lost River. — Mudo de assunto rapidamente — É hora de descer. Quero mostrar a vocês um dos lugares mais bonitos de New Hampshire antes de finalizarmos o tour de hoje.
Começamos a nossa descida, percebo que em 4h começará a escurecer. Preciso apressa-los, não queremos ficar no parque á noite após o fechamento.
— Este é o Mirror Lake. — Anuncio ofegante após nossa chegada. Fizemos uma conexão até as proximidades de Maine, seguimos de carro até um ponto e tivemos que caminhar por pelo menos 40min até ali. Parando apenas para fazer um lanche.
Todos estão claramente exaustos, mas suas câmeras não param em seus cliques, e a satisfação de olhar para um lugar como esse logo venceu toda exaustão física.
— É o lago mais bonito de New Hampshire sob minha perspectiva, e podemos ver algumas construções antigas dentro dele, onde só tem acesso nadando ou com pequenos barcos. Mas todas elas são privadas, muitas inabitadas. Uma das cachoeiras que passamos fornece o lago, mas o local onde desagua é de difícil acesso. Por isso não está incluso no Tour.
Aproximo-me do lago e deixo os turistas explorarem e tirarem suas fotos, encantados. Como não poderiam ficar? O lago é famoso por sua água ser tão calma que reflete tudo ao seu redor. Cada pássaro, cada folha... Cria uma duplicata perfeita. É o mais gelado do parque e chega ate doze metros de profundidade. É cercado por pinheiros e montanhas magníficas.
É um lugar que todos procuram principalmente no fim de tarde, é como estar no céu. Ou pelo menos o mais próximo dele. Aqui, sinto meus olhos lacrimejarem. Porque aqui, foi onde vivi as melhores lembranças da minha infância. Todo fim e semana, separávamos um dia para ficar ás margens do lago. Contando histórias, fazendo pique nique jogando pedras ou simplesmente observando por horas e horas. Doía tanto vir aqui nos primeiros anos após o acidente, que só sentava e chorava até o anoitecer.
Porque eu faço questão de manter esse lugar pra mim? Porque é o que tenho. Aqui não me sinto sozinha. É como se estivessem ao meu lado, mamãe acariciando meus cabelos e papai massageando meus pés. Como cantávamos Patience, do guns n roses e Always do Bom Jovi. Eu consigo sorrir com a lembrança. Meu coração é livre aqui. Como se me sentisse a mesma menina e tivesse congelado no tempo.
Retiro minha garrafinha de água da lateral da calça camuflada e tomo um gole.
Recebo minha dose do Lago espelho e sinto paz. Uma tranquilidade que ioga, igreja e spa nenhum já conseguiu me dar. Tudo se resume a este lugar. A conexão que minha alma tem com cada folha, grão de areia e reflexo...
— Kate!
Ouço uma voz animada me gritar.
É Jessica. Havia esquecido que marquei um encontro com ela.
A vejo se aproximar e lhe abraço.
— Estava te procurando. — ela diz com um sorriso de orelha á orelha.
Olha pra trás procurando algo e diz — Ah, Meninos! Vem cá, a encontrei.
Dois homens se aproximam e eu peço licença ao grupo que me acompanha. Consigo franzir a testa para minha prima que parece uma adolescente eufórica.
— Priminha — Ela diz em tom de surpresa e eu quase não acredito no que ela está fazendo. Jess cruza seus braços com o desconhecido e para bem a minha frente, orgulhosa e feliz.
— Este é Dylan, meu amigo e este é Raziel, meu namorado...
Eu poderia dar uma risada histérica e isso resumiria o estado de espírito de minha prima, eu também poderia brigar como uma mãe que não espera ver o namorado da filha tão cedo, estou com raiva por ter demorado... Mas eu só consegui fixar meus olhos no primeiro individuo para tentar avalia-los enquanto ela completa.
— E esta é minha prima, Katherine.
Um deles é bem forte, pouca coisa mais alto que eu e pele morena como a minha, cabelos negros em corte militar, olhos grandes, uma cicatriz no rosto e um jeito leve, brincalhão. Ele abre um sorriso enorme e estende a mão que pego de forma simpática.
- Kate... Prazer em te conhecer.
Consigo sorrir.
Viro minha atenção para o próximo rapaz.
Raziel.
É esse o nome.
Assim que nossos olhos se encontram sinto o corpo gelar e minha boca ficar seca, como se tivesse peregrinado um dia inteiro no deserto.
Ele estende a mão. Procuro as minhas, porque meu corpo parece ter se despedaçado em um segundo. Estendo a mão vacilante, a sua é grande o suficiente para engolir a minha pequena. Mas não consigo dizer nada. Que ridículo!
— Prazer em conhece-la, Katherine. — Sua voz é grave e dura como um bloco de aço. E ela me atinge, me deixando perplexa e estranha.
Procuro em seu rosto o que pode ter me causado tanta perplexidade. Raziel tem a pele branca, cabelos escuros e longos o suficiente para deixar as pontas tocarem em sua testa firme. Lábios finos e bem desenhados sobre um queixo perfeitamente esculpido. Queixo europeu, com certeza.
Era alto, pelo menos 1,80 e forte, observo pelas veias definidas de seus antebraços. Sua postura é digna de realeza. Uma presença nada comum, pelo menos, nada com que eu já tenha tido que lidar durante minha vida.
Após um breve reconhecimento corporal entendo o que me calou.
Seus olhos. Raziel tem os olhos negros, profundos como a noite e sua iris tem tons esverdeados, como topázios. O problema não está na cor mista e incomun, mas na intensidade como esta me avaliando agora mesmo.
Um arrepio sinistro corre por todo meu corpo. Os olhos de Raziel são como os de um felino. Um leão. Um leão sem alma e sem piedade.
Me dou conta de que ainda seguro a sua mão. Dou um pigarro numa tentativa de achar minhas cordas vocais.
— N... Nome incomum. — Gaguejo e imediatamente quero me socar. Sério que é o que consigo dizer?
Desvio meu olhar dele e foco em minha prima, o que me ajuda a respirar melhor.
Jess está... Feliz. Mas não contrasta com a expressão do namorado. Ele não está radiante, e isso me preocupa.
— Origem Aramaica. — Sua voz grave explica e seus olhos prendem o meu denovo como um predador segura uma presa fácil. — Meus pais eram amantes de anjos caídos — ironiza.
De repente me sinto ser invadida por uma sensação de perigo. As sombras dão ao meu corpo um sinal.
Um alerta, que todo ser humano tem em sua mente capaz de fazer seu coração bombear sangue mais rápido e em maior quantidade para todos os membros, preparando seu corpo para fugir de uma situação que seu cérebro reconheceu como risco. Mas olho ao redor e está tudo normal.
Nenhuma situação que exija pânico.
Mas o pânico me atinge, como na noite do acidente só que sem nenhuma explicação lógica.
Levo a mão ao peito.
“Não posso estar tendo uma crise de pânico agora. Tomei minha medicação esta manha.” Penso comigo mesma.
O ar sai de meus pulmões me deixando desorientada e a sensação é de uma jibóia se enrolando em volta do meu pescoço, lentamente me asfixiando.
— Kate, você está bem? — Jess vem ao meu socorro. — Está tendo uma crise?
Puxo o ar. E tento me controlar.
Está tudo bem, Kate. Respire fundo. Não está dentro do carro. Está em pé. No lugar lindo. Só respira.
Meu corpo se retrai como se eu fosse vomitar. Merda! Que grande hora de surtar.
— Eu estou bem. — Digo sufocada. Queria dizer “Tire esse cara daqui! Não está vendo que ele fez isso comigo?”
Mas minha atitude seria irracional.
Olho para o lago e agacho apoiando o cotovelo nos joelhos e respirando fundo. Como Dr. Vasiliev diz para fazer. E aos poucos vou retomando o controle.
O grupo de turistas está a minha volta, preocupados. Minha prima ao meu lado acariciando minhas costas, me sinto humilhada pelas Sombras. Com raiva, por estar numa situação difícil na frente dele.
Levanto e o encaro. Me surpreende que sua expressão continue intacta. A mesma. Como se soubesse o efeito que causa quando olha daquele jeito para os outros. Algo em Raziel me fez querer vomitar ali. Esmurra-lo.
— Kate, quer ir ao hospital? — Pergunta Jess.
— Não. — respondo tentando sorrir para o grupo. — Vou deixa-los no Hotel e encontrar Kev na casa dele.
Ela assente.
— Foi um prazer conhece-lo, Raziel. — Digo imediatamente chamando o grupo para me acompanha.
Preciso fugir.
— Podemos ir com você.
— Não vejo necessidade, Jes embora precise conversar com você a sós.
— Posso deixar seu grupo no Hotel. — Diz Raziel entendendo meu desejo — E depois encontro vocês.
Respiro aliviada aceitando a deixa. Pergunto ao grupo se tem algum problema outra pessoa acompanha-los ao Hotel. Eles dizem que não. Então seguro a oportunidade de conversar com minha prima e afastar o namorado ela.
— The Notch Hostel — Digo alto para ele. Seguindo-os para fora da floresta. Observo minha BMW Preta, que havia emprestado a Jess estacionada ao lado da minha minivan de trabalho.
— Vão com a Van.
Tiro as chaves do bolso e lhe entrego.
Jess e ele se despedem com um beijo, mas quando a beija mantém os olhos fixos em mim. E isso me causa outra onda de náusea.
— Obrigada.
Digo fugindo para meu seguro carro e os deixando finalizar as despedidas.
Seja qual forem os eventos que se seguirão, eu jamais esquecerei esse dia. Jamais esquecerei a sensação de perigo diante das sombras que não vinham assim tão agressivas e tão de repente faziam anos.
Acho melhor enviar uma mensagem para o Doutor adiantando minha sessão de 1x na semana para o dia seguinte. Isso se eu sobreviver esta noite.
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Atualizado até capítulo 29
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