Corri para o outro quarto desesperada xingando todos os meus ancestrais.
Abro o quarto de Olga ainda intocável, a não ser pelas coisas levadas pela legista. Ninguém aqui. Sigo para o primeiro quarto no corredor.
— Jess! — Kev acorda e pula me segurando
— O que aconteceu, Kate?
— Levaram a Jess. — Corro escada abaixo — Meu Deus, não pode estar acontecendo.
Saio e corro até as viaturas do outro lado da calçada.
— Viram quem a levou? Jessica. Ele a levou. Alguém saiu da minha casa e a levou. Foi aquele desgraçado!
Estou berrando de forma histérica. E os dois homens saem do carro dizendo não ter visto nada, pra eu me acalmar. Mas a raiva flui de mim em ondas e não consigo lidar.
Kevin me puxa para me acalmar.
— Me solta! Você não pôde nem mesmo me ouvir gritar! E esses policiais não servem pra proteger ninguém!
— Kate, por favor. Você está sangrando.
— Me solta!
Volto pra casa apenas pra pegar minha chave e sair com o carro.
Deixo um Kevin preocupado gritando um “Onde está indo?” para trás.
Realmente não sei pra onde ir. Jess sumiu. Raziel á levou. E eu fiquei como uma inútil desmaiada no chão enquanto ele a sequestrava.
Sinto-me impotente. Como se não prestasse para nada quando se tratava daquele monstro. Sinto uma raiva crescer dentro de mim cada vez que pensava nele. Não pude proteger minha família e talvez toda a culpa fosse minha. Talvez não tivesse as amado o suficiente, prestado atenção o suficiente. Meus pais estariam decepcionados comigo. Deveria ter escolhido ser policial ao invés de arquiteta.
Todos esses anos sofri com as Sombras daquela noite sem prestar atenção no perigo físico que nos cercava esse tempo todo. Raziel parecia conhecer bem cada uma de nós, como se por um tempo já planejasse provocar todo esse mal.
Uma única palavra vem a minha mente pra alguém odiar tanto os Brewer. Vingança. Pode ter sido por algo que meu pai fez enquanto servia na polícia, ou até pessoas que foram lesadas por algum serviço da minha mãe no escritório. O fato é que Raziel esta nos pegando uma a uma, e a única razão para não ter me matado, foi pra ter o gosto da vingança a mais tempo nos seus lábios.
Dirijo para fora de Lincoln e quando percebo, estou em frente a Paróquia Santa Luzia. Não sei como ou porque minhas mãos me trouxeram pra cá. Não é horário de missa, mas entro no estacionamento e paro o carro.
Nunca fui muito religiosa, embora me obrigasse a frequentar este lugar todos os domingos. Forçava-me a acreditar que era por causa de meus pais. Olho para a entrada e a arquitetura gótica da Igreja me faz querer entrar.
Desligo o carro e saio. Tento me acalmar, percebendo o tempo que fiquei sem as sombras me oprimindo. Desde a crise em Mirror Lake não me sentia sufocada pelas Sombras, mesmo com as mãos de Raziel prestes a me estrangular. Deveria ser uma Vitória se minha vida não estivesse em perigo.
Entro e procuro um banco na última fileira. Olho para o alto da Paróquia, hoje entendendo sua real beleza.
As paredes são os quatro pontos cardeais e os tetos em vidros decorados com os querubins servem pra nos sentir mais próximo do céu de Deus. E toda a caminhada até o altar é para que o homem experimente a transcendência ao sair de um cenário profano no mundo lá fora, onde sua vida é um caos para emergir num cenário sagrado.
Todas as estátuas espalhadas são como olhos acusadores, lembrando de nossos pecados e eu sempre detestei a imagem de um Jesus ensanguentado, pregado numa madeira com a expressão de dor e lágrimas vermelhas caindo em seu peito nu. Não conseguia, desde pequena, acreditar num rosto tão triste vindo de alguém que para os Cristãos era tão especial. Perfeito. E santo.
Meus olhos focam nele. E tento imaginar um sorriso em sua face. O que faz com que eu me acalme e sorria também.
Existem duas versões sobre esse mesmo homem pregado. A de que ele era um bom moço que serviu e fez o bem, mas que teve uma morte feia por se dizer quem não era, e a versão que eu mais amava, de forma escondida, pois meus pais não podiam saber. E nela, este mesmo Homem era Deus e havia vindo em carne para morrer pela humanidade a fim de que fôssemos perdoados por todo mal que causamos em vida. Eu amo a ideia de ter alguém morrendo por mim sem me conhecer.
As grandes janelas de vitrais onde desenhos de arcanjos são reproduzidos, não me trás a mesma paz que aquele homem na cruz.
Ao olhar a vidraça percebo minha bochecha suja de sangue. Passo a mão sobre ela e Ai! Arde. Há um pequeno corte superficial que me faz lembrar daquele miserável passando a lâmina em meu rosto. Como se quisesse deixar sua marca.
Fecho os olhos e resolvo fazer o que não fazia a muito tempo.
“Deus, se realmente existe me ajude. Se realmente me ama, me dê forças para ser corajosa.”
Quando volto pra casa, tenho a infelicidade de ver o Delegado novamente sentado em meu sofá.
— Srta Katherine.
— Vou precisar separar um quarto extra. O senhor vai acabar se tornando um morador daqui.
Ele ri. Eu não. Kevin está com ele e me dá um sorriso fraco. Parece desgastado. E deve estar. Muitas coisas aconteceram na última semana, e ele tem lidado com a maior parte sozinho. Me sinto péssima.
Percebo uns homens de preto espalhados pela casa.
— Mais algum corpo?
Eles negam. Me sento para receber as perguntas que sei que ele fará. E que também sei que não servirão de nada, já que Raziel tomou os devidos cuidados.
Infelizmente, acredito que a polícia seja incompetente pra pega-lo. Ou o julgo muito bom para não ser pego.
— Não. Verificamos a casa e rastreamos uma chamada do celular da sua prima. — Ele mexe no tablete e vira pra que eu veja — Bate com a hora aproximada do desaparecimento?
— Sim. Mas o que isso significa?
Ele coça a barba.
— Não tem sinais de invasão. Acreditamos que ela saiu e foi com o sequestrador por conta própria. O que não categoriza como sequestro.
Não respondo. Não é uma impossibilidade, considerando como eu a vi reagir só de pensar nele. Estou certa de ter sido ele. Raziel deve ter me feito apagar e a levou.
— Esperamos que ela volte. Não podemos fazer nada até completar as 72h a não ser que tenhamos provas de um possível sequestro. Checamos as câmeras das casas e da vizinhança. Nenhum sinal de qualquer pessoa se aproximando. Esse cara parece um fantasma.
— Não me diga.
Sou sarcástica com uma autoridade e me arrependo, pois esta não foi a criação que meus pais me deram. E o Delegado conhecia meu pai por nome.
— Como se deu conta que sua prima estava sumida?
Penso.
— Só acordei e vi que não estava na cama ao meu lado.
Ah eu menti sim. Precisava ter dito a verdade, mas me chamariam de louca. Como provar que ele esteve no meu quarto? Que quase me matou?
— O que foi isso?
Ele aponta pra minha bochecha.
— Minha unha. Acabei ficando nervosa demais.
— Meus agentes me informaram que estava alterada. Está mais calma? Achamos que é algo pessoal com os Brewer.
Quase soltei um “Jura?”. Mas me contive.
— E isso pode ter relação com meu pai?
— Estamos averiguando. O que não entendo, é porque ele levou apenas sua prima, se estavam dormindo na mesma cama. Porque não as duas? O que este homem realmentr quer?
Ele me analisa como se soubesse que menti.
E aquela voz se repete em minha mente, me fazendo tremer: Vou tirar tudo o que você mais ama e então, quando não sobrar nada...
— Não faz sentido mesmo. — Afirmo cortando a voz na minha cabeça.
Infelizmente, para mim fazia todo sentido.
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Atualizado até capítulo 29
Comments
Nalú Faria Machado
nossa esse suspense está me deixando muito ansiosa pra caramba
2022-07-02
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