Mar e sol.

— Achei que as sessões com Vasiliev estavam ajudando.

Paro o carro do outro lado da calçada.

Não quero correr o risco de que Kevin ouça minhas indagações.

— Eu também — Digo amarrando os cabelos num coque alto. — Jéssica, eu sei que você é adulta e sabe se cuidar, mas este cara não parece estranho pra você?

Ela respira por uns segundos olhando para fora do carro. Parece por um momento perdida em pensamentos. Mas quando fala, parece ter certeza.

— Ele não é comum. — Confessa. E nem preciso dizer que concordo, ela percebe quando me encara. — Ele é militar, não é religioso e não tem família. Sei que não é alguém que minha mãe aprovaria. Mas... — Ela faz uma pausa que me preocupa — Já se sentiu como se alguém pudesse preencher um vazio dentro de você, ou como se sua vida fosse só um filme numa tela e alguém viesse transformando tudo que está assistindo em uma cena de verdade?

Não respondo. Não pode ser que esse homem seja tudo isso para ela. Os olhos dele dizem outra coisa. Eles não parecem na mesma sintonia.

Mas ela continua.

— Raz faz isso comigo. — Confessa. Vejo uma Jess vulnerável. Tão inocente, apaixonada. E sinto receio de magoa-la.

— Como ele se sente com relação a você? Ele já... Te falou isso?

Ela sorri, seus olhos ficam pequenos quando faz isso. Sempre achei fofo. Mesmo em sua maior idade, parece uma menininha de 12 anos.

— Sinto que ele me ama também. E eu preciso que você goste dele, porque as coisas estão ficando muito sérias e você é uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Pera ai, amor? Tem tudo nos olhos daquele homem, mas amor não confere.

Eu raramente erro quando leio pessoas. E o que senti ao encara-lo foi puro terror. Raziel deve ser o tipo garanhão que se aproveita de donzelas. E Jess é uma vítima. Em tudo o que prevejo, sei que não posso interferir no relacionamento de outra pessoa. Seria irracional. Algo que Vasiliev não aprovaria em meu comportamento.

Mas eu conheço um predador á quilômetros de distância, e Raziel é do pior tipo. O tipo sem alma. Mas não posso dizer isso a ela agora.

— Como vai fazer com Olga? — Questiono, e é tudo o que posso fazer hoje. Meu corpo está trêmulo de uma crise fora de hora. E sinto que posso desmaiar a qualquer momento se não tomar um banho fervendo e me jogar na cama.

— Kate, preciso da sua ajuda com a minha mãe.

Ela parece infeliz com a idéia de sua mãe não gostar dele.

— Não sei como. — Confesso — Preciso pensar em como te ajudar, mas não prometo.

Ela sorri. Saio do carro e ela me abraça forte.

— Obrigada, prima. — sussurra me apertando. Eu a amo. Faria qualquer coisa por ela.

— Te amo. E preciso saber quando estiver em perigo ok? — Ordeno.

— Tudo bem. Mas Raz não oferece perigo. — Ri.

— A não ser, que me deixe com ciúmes.

Sua voz surge do nada me fazendo pular para o lado estremecendo feito vara verde. Mas que droga! Tenho 26 anos e acabei de gritar como uma adolescente medrosa.

Ela corre e o abraça e eu agradeço por nenhum dos dois ter reparado em meu susto. Não vejo graça em seu comentário, principalmente porque enquanto diz isso seu rosto permanece sério e inexpressivo. Nada irônico ou brincalhão.

Raziel me assusta. Encaro-o nos olhos e mantenho meu rosto firme.

— Onde está a van? — Questiono sabendo que minha pergunta é idiota após aquele comentário.

— Deixei estacionado em frente ao Brewer Inn. Seu grupo é bem falante.

Franzo o cenho. Como ele sabe onde trabalho? Olho para minha prima.

— Sempre eficiente esse meu namorado. — Ela o beija rapidamente. — Eu disse a ele que você poderia ir para o escritório com Kev amanhã já que vai passar a noite aqui.

E sinto temor por tê-lo tão perto da minha vida e minha casa. Mas me sinto obrigada a agradecer mais uma vez. Por Jess.

— Agradeço por isso.

Ele não reage. Nem parece ter ouvido meu agradecimento. Continua com os olhos presos em mim, vagando por meu corpo e queimando onde passa. Um misto de desejo sombrio com sede. Se não vivesse no mundo real diria que Raziel é um animal.

— Preciso ir. — Sigo para a entrada da casa grande e iluminada de meu melhor amigo. — Avise sua mãe se for dormir fora mais uma noite.

Entro na sala espaçosa sem olhar para trás. Nunca havia me sentido tão desconfortável na presença de um homem como hoje. Algo como olhar para uma noite escura, onde não se vê nada além de poeira e sombras. Raziel era o oposto do dia, do amor, da bondade, da luz... Tudo nele chamava as sombras dentro de mim, e isso era como reviver pesadelos ruins em poucos segundos. A presença dele fazia eu me sentir acuada como um coelho diante de um urso.

Não era o tipo de conexão que eu tinha com amantes.

Homens que eu saía vez ou outra para aliviar a tensão.

Não era atração, embora tudo nele me puxasse. É algo quase que maligno. Isso. Essa é a palavra que o definia. Malígno. Mas eu não o conhecia, e isso fazia minha leitura sobre ele ainda mais estranha.

— E aí, Linda! Não ouvi você entrar.

Kev surge de algum lugar da casa e seu perfume se espalha pela sala.

Está sem camisa. Toalha nos ombros.

— Oi. — Respiro fundo quando olho para o sol que ilumina toda fraqueza e sombras do meu dia. Não me lembro de sentir tanta saudade do meu melhor amigo. Vou na sua direção e o abraço.

— Hey — Diz ele recuando para olhar em meus olhos. Provavelmente surpreso com minha demonstração de afeto. — Aconteceu alguma coisa? Está pálida.

Respiro fundo segurando as lágrimas. Kevin sempre foi o porto seguro da minha vida. Desde o acidente. Era como um irmão. Seus pais e ele eram como uma segunda família. E junto com Olga e Jess me ajudaram a passar por todas as limitações de perder meus pais cedo. Mesmo depois de adulta eu preciso deles como o ar que respiro.

Era o pedaço da realidade em que eu me agarrava para não estar em um manicômio agora.

Kev me leva até o sofá e me faz sentar, mantendo seus braços por trás de mim, como se me apoiando para não cair. E toda exaustão do dia pesa sobre meus ombros.

— O fim do dia hoje me bateu como um saco de pancadas.

Ele acha meio engraçado e sorri.

— E esse lutador tem nome?

— Tem. Crise de ansiedade.

Ele me abraça forte. Entendeu. O bom de ter um irmão gêmeo é que não precisa falar muito, você sente e ele sente. É sempre assim perto dele. Fico uns minutos em seus braços respirando seu cheiro de maresia. Kev era todo mar e sol. Seu corpo sempre quente.

Quando começo a relaxar, me afasto.

— Seus pais já chegaram?

— Não. Disseram que chegam ás 23h

Olho para o relógio de parede. São 20:04.

— Faz anos que não tem uma crise aleatória assim. — Ele se levanta procurando sua camisa. Conhece as regras da amizade. — Sabe o que desencadeou?

Penso se falo ou não o real motivo.

— Na verdade não sei. — e em parte é verdade. — Completei a programação com os turistas e conheci o namorado de Jess.

Ele me fuzila.

— Sério? E como é o cara?

Procuro não pensar.

— Esquisito.

Some na cozinha e volta com um copo.

— Tome. — Oferece a agua e um comprimido — Deixou no escritório e eu trouxe pensando que fosse precisar.

E preciso.

Engulo meu medicamento de uma só vez. Tenho que tomar um quando acordo e um antes de dormir. Brinco que é meu despertador. Sem ele não durmo e não acordo.

— Tome um banho que vou esquentar algo pra comer. — Ele diz sumindo mais uma vez — Se quiser, fazemos uma sessão de game pra relaxar depois do jantar. Gina vai dormir aqui.

— Tudo bem.

Gina é a noiva de Kev á 2 anos. Planejam se casar quando ela se formar em História. Mesmo sendo claro que não a ama tanto para casar, Kev é do tipo tradicional. Jamais magoaria uma menina.

Após o banho, deixo meu celular em seu carregador e vou até a cozinha.

— Estou faminta.

Kev está debruçado sobre a mesa de jantar.

— Vem.

Meu estômago ronca quando vejo Raviolli de cogumelos, Fetuccini com queijo e brócolis e uma salada Caesar.

Estou terminando quando ouço meu celular tocar. Está no quarto de Kevin.

Atendo enquanto me sento em sua cama e respiro fundo. Aprendi a fazer muito isso desde o acidente.

“Boa noite, Dr.”

“ Boa noite, Srta Kate. Senti a urgência de sua mensagem. Tudo certo?”

“Tive uma crise hoje enquanto guiava um grupo de turistas.”

“E o que acha que causou esse surto?”

Ele não pergunta se tomei a mediação. Me conhece, jamais devo esquece-la.

“Não entendo que tipo de gatilho despertou hoje.”

“Se sente melhor?”

“Sim. Devo acordar melhor amanhã.”

“Sim. Com toda certeza. Nos vemos no consultório no primeiro horário.”

“Sim. Até mais.”

“Srta?”

“Hum?”

“Tente não sair de casa esta noite”

Por um segundo não entendo o teor de seu pedido. Mas como médico, deve estar preocupado.

“Tudo bem”

Desligo.

— Tudo bem, linda?

Kev entra em seu quarto.

— Doutor Homero.

Guardo o celular após enviar uma mensagem á Olga avisando que não irei pra casa esta noite.

— Posso dormir aqui essa noite? — Pergunto. E ele me conhece o suficiente pra saber que quando faço isso, é receio de ter uma crise noturna.

— Claro. Você sabe que minha casa sempre está aberta pra você. — Ele senta ao meu lado — É que Gina...

— Eu sei. Vou dormir com fone no quarto de hóspedes pra não ouvir vocês transando outra vez.

Ele fica vermelho.

Dou-lhe um soco no ombro. E consigo rir de sua vergonha.

— Fico feliz em divertir você com minha vida sexual. Mas você sabe o que me deixa desconfortável.

Sei. Gina não gosta muito de mim, e tem ciúmes. Kevin e eu sempre fomos unha e carne. Mas nunca olhei pra ele com olhos pecaminosos. Não que ele não fosse bonito e tivesse um corpo incrível. Mas por medo de magoar a única pessoa que confio totalmente, pois sou péssima em questão amorosa.

Quanto á Gina, ela sabe que seu namorado teve uma queda por mim antes de conhece-la. E ela não supera esta ideia.

Ela percebe como somos unidos, e temos uma amizade que está acima de muitas coisas. Ela tem medo de que esteja acima até dela.

— Vou falar o menos possível. — Brinco — Vocês já decidiram a data?

Ele recua coçando a cabeça.

— Por Gina casamos hoje mesmo. — Ele confessa e me olha nos olhos — E eu casaria, porque ela está feliz comigo. Mas...

— Não ama ela o suficiente pra casar e dar filhos?

Ele assente e sinto que em parte, a culpa é minha. Nunca o correspondi como mulher. E Já falamos disso abertamente por diversas vezes. Aos 20 anos nos beijamos loucamente durante um banho de piscina. Se eu gostei? Muito. Antes disso aos 16 anos Kev declarou que seria comigo que iria casar. Mas não podia me dar o luxo de me relacionar com alguém que amo tanto, e que jamais desejaria magoar. Eu não queria um relacionamento naquela época. E continuo nao querendo hoje.

Kevin me pediu em namoro e eu disse não. E desde então prometemos jamais tentar ficar juntos denovo. Pelo menos até agora.

— Desculpe tocar nisso. Estou tentando não pensar no vexame que dei hoje á tarde.

Seus olhos verdes brilham. São lindos. Como todo ele.

— Entendo. Mesmo que Gina e eu nos casemos, sempre vou estar aqui para você e Jéssica. — Ele se aproxima e acaricia meu rosto. — Vocês sempre serão minhas meninas. E meu dever sempre será protege-las.

Como um perfeito amigo e cavalheiro ele diz isso acariciando meu rosto.

- Posso dizer que cumpriu perfeitamente a parte de nos proteger.

Consigo rir.

— Está lembrando de algo do colegial né?

Ele sempre vai ser a pessoa que me conhece melhor do que qualquer um.

— Você socou dois meninos só porque eu e Jess trocamos bilhetinhos com eles.

— Eles só queriam acrescentar vocês á lista suja deles pra depois se gabarem de terem beijado as duas.

— Tínhamos 7 anos!

Rimos juntos.

— Mesmo com 7 anos você era a menina mais linda.

Eu amo como ele faz as sombras dentro de mim se dissiparem. E dói a idéia de nunca mais vê-lo. E nem sei porque esse pensamento me veio á mente, mas consigo deixar uma lágrima escapar. Porque eu iria perde-lo? Casar não era o fim do mundo. Mas o meu medo era real. Quase tangível. Egoísta e até imaturo.

A única lágrima em consequência da minha terrível e inesperada tristeza escorre pelo meu rosto e meu amigo a pega em minha bochecha. Essa não foi a primeira lágrima que ele já enxugou.

Kevin já acalentou meus soluços. Já me despertou de pesadelos e ficou ali enquanto eu voltava a vida. Kevin me abraçou quando cheguei do hospital após o acidente e curou minhas feridas. E toda minha gratidão seria pequena comparada ao amor que ele trouxe á minha existência. E por vezes foi por ele que não desisti da minha sanidade, quando todos achavam que eu enlouqueceria.

Inesperadamente ele deposita um beijo onde a lágrima termina e isso me faz tremer. Sei que ele sente, porque meu corpo balança pra frente e pra trás. Meu braço onde apoio o peso do meu corpo, amolece. Ele me segura.

— Kate... — Ele sussurra. Com o rosto muito próximo do meu — Vocês são a coisa mais importante pra mim nesse mundo.

Sua voz é tão doce, como o canto de um pássaro quando abrimos a janela numa manhã de sol. Isso me aquece.

Sei que fizemos uma promessa, mas nesse momento eu nem pensava nisso. Ele também não.

— Todo dia eu acordo pensando em como tirar essa dor que você carrega...

Seus olhos são tão verdes, que chegam a ser transparentes. Como um lago. E eu sinto vontade de mergulhar. Mas essa é uma situação da qual sempre tivemos o cuidado de evitar. Porém, não tenho força alguma. Porque o dia sugou tudo de mim. Raziel sugou tudo de mim.

Nossos lábios estão tão perto que seu hálito mistura com o meu.

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Comments

Evellyne

Evellyne

Grata pelo seu comentário! Pode parecer um pouco confuso, mas tudo vai se desenrolando! Espero que os ame tanto quanto eu!

2022-07-01

0

Nalú Faria Machado

Nalú Faria Machado

está meio complicada essa história

2022-07-01

1

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