5 dias se passaram desde a morte de tia Olga.
O velório aconteceu na Capela Santa Luzia, onde Jess e eu não desgrudamos uma da outra em momento algum. Foi um velório cheio de comoção dos nossos vizinhos, amigos de Olga, fiéis da Catedral e principalmente dos pais de Kevin que viviam fora de NH mas decidiram ficar por tempo indeterminado por apoio ao filho e a nós. Doutor Homero Vasiliev também prestou suas condolências, embora eu achasse que ele estivesse muito diferente fora do consultório.
Kevin foi literalmente o homem da casa em todo o tempo, se manteve sério dando apoio jurídico e físico á nós duas e isso me fazia ama-lo mais ainda, mesmo que todos os acontecimentos tivessem nos feito deixar de lado nosso relacionamento. Ele e seus pais também tinham sua cota de sofrimento. Sofreram conosco pela morte de meus pais, sofreram conosco pela morte de Olga. Eram as únicas pessoas que podíamos contar para ficar ao nosso lado.
A sensação de estar sendo observada era forte. O cheiro daquele perfume dos cabelos dela não saia de minhas narinas. A polícia não encontrava vestígios dos turistas, e muito menos de quem tinha feito aquilo com Olga. Todos nós fomos investigados, prestamos depoimentos e fomos liberados. Fizeram uma busca com o retrato falado de Raziel feito por Jess que não acreditou que pudesse ser realmente ele o autor dos crimes e o defendeu diante do delegado e de todos. Eu queria acreditar na inocência dele, como ela. Ao invés disso procurei por ele nas redes sociais, e em toda parte que pude, assim como os amigos influentes de Kevin.
A polícia de Lincoln emitiu alertas e anunciou recompensa pra quem tivesse qualquer notícia sobre o homem no retrato. Toda a cidade parecia temerosa no que a mídia dizia poder se tratar de um Serial killer.
Não deixamos nossa casa e mantivemos o quarto onde tudo aconteceu trancado. Também mantive o escritório fechado e todo o trabalho online.
Minha prima dormia comigo todas as noites, e iniciou uma terapia com o doutor da família, enquanto eu deixava de ir em todas as minhas consultas.
Não havia sinal das sombras, eu havia voltado a tomar todos os remédios normalmente. Parecia que quanto mais eu focava em proteger minha prima do namorado, mais minha mente entendia que deveria ficar bem para isso. E Funcionou muito bem. Até entrarmos na sexta noite de luto.
Kevin dormia no quarto de Jessica enquanto nós duas dormíamos em meu quarto. Ele não nos deixava muito tempo sozinhas e se não fosse sua presença, já teria surtado. A noite estava fria e mesmo com o aquecedor ligado, minha pele era chicoteada por arrepios, que me deixaram inquieta por muitas horas antes de finalmente cair no sono.
Mais tarde, abro os olhos assustada sentindo uma brisa gélida correndo pelo quarto, forte o bastante para sacudir a cortinas. Puxo a máscara de dormir para a testa. São 03h06min. Levanto-me da cama puxando minha perna com cuidado, onde minha prima havia jogado a sua por cima. Percebo de onde vem o vento. A janela está aberta, o que é estranho, pois me lembro de ter trancado antes de deitar.
Forço meu corpo sonolento á caminhar até a enorme janela do segundo andar. Lá fora, analiso o jardim e o portão varrendo meu olhar pela rua deserta onde há duas viaturas paradas do outro lado da calçada. Todas as casas estão no escuro apenas com suas luzes das varandas acesas. A presença das viaturas deveriam me tranquilizar, mas não o faz. Realmente está frio e eu puxo os dois lados da janela fechando e travando. Em seguida, puxo as cortinas.
— Estava me esperando?
A voz rouca e forte quase me faz pular de susto ao mesmo tempo que meu corpo gela dos pés a cabeça e se tivesse um termômetro ao meu lado seria como nos desenhos animados, onde num segundo está vermelho e depois cai drasticamente para azul e o personagem vira um picolé.
“Não é possível”. Digo pra mim mesma enquanto viro lentamente para perceber uma sombra na figura de um homem em pé ao lado da porta fechada do meu quarto. Está escuro, preciso apertar meus olhos. Mas eu nem precisava, pois aquela voz seria necessário correr muitos mundos para esquecê-la. A voz nas sombras. A voz de um assassino frio e sem escrúpulos. A voz de Raziel.
— Co... como entrou aqui? — consigo gaguejar passando os olhos por Jess que dorme como se estivesse morta.
A sombra não se move. Mas sei que está olhando diretamente pra mim, como se um campo de força estivesse fluindo de sua direção. “Estou sonhando”. Digo a mim mesma. Respiro fundo. Só pode ser um sonho daqueles bem reais. Olho pra baixo estou de short de dormir e blusa fina.
— Como entrei, não importa. — Sua voz é inumana. Não sei como Jess se sentiu atraída por isso. É como um animal rugindo. É tenebroso, não sensual.
Sua sombra parece se aproximar. Espero acordar, mas isso não acontece. "Reaja, Kate!"
— Raziel, o que está fazendo na minha casa a essa hora? — Tento me manter imóvel e calma e uso a voz mais alta pra que Kevin me ouça do outro quarto — Você sabe que esta sendo procurado pela polícia?
Observo sua sombra vir mais pra perto. Consigo ver melhor a medida que meus olhos se ajustam. Ele é alto. Está vestindo um sobretudo preto sobre uma calça e blusa na mesma cor. Está descalço. Vejo seus pés brancos tocando no tapete felpudo marrom do quarto e isso é esquisito.
— Você faz muitas perguntas, Ruiva.
A essa altura ele está apenas á dois passos de mim.
“Você é burra? Grita logo ou ele vai matar você!” Meu cérebro me cobra, mas nem voz eu tenho. Abro a boca.
— Nem ouse gritar, ou acabo com sua querida prima primeiro.
Fecho a boca no mesmo instante rezando pra Kevin acordar.
“Mesmo que você grite, não vai dar tempo dos policiais chegarem e te salvarem. Se correr pra porta, ele vai te pegar. E se lutar com ele, mesmo com tudo que sabe de artes marciais, vai apanhar feio”
Condeno-me por não saber o que fazer. Ele dá mais um passo.
— Porque está fazendo isso? Porque á matou?
“Atrasa ele. Se está aqui pra matar você. Faça-o falar.”
Mesmo com pouca luz, consigo ver um sorriso frio em seus lábios.
— Não finja ignorância. Você sabe quem eu sou e o que vim fazer aqui— Ele murmura dando mais um passo. E dessa vez consigo olhar em todo seu rosto. Até sua sombra causa arrepios. E ele continua — Esperei tempo demais para cumprir o meu propósito. Não contava que a mulher tivesse seus truques e isso acabou atrasando os planos. E depois aquele velho arrogante!
Não consigo entender o que ele diz. Mas a parte da mulher imagino que fale sobre Olga.
— Sei que você é o namorado esquisito da minha prima. — Consigo afirmar sem gaguejar — Agora sei que também é o psicopata assassino de minha tia. Ah sei também, que a polícia vai estar aqui em menos de um minuto a partir do momento que eu gritar, e Kevin em questão de segundos após me ouvir.
Sua risada me faz pular de susto pra trás e bater com as costas no peitoril da janela. “Que ótimo, encurralada.”
— Acha mesmo que eu entraria aqui sem ter certeza de que sairia sem ser visto? — Raziel não tira os olhos negros de mim — Assim fico até ofendido.
Ah não. Rezo pra que meu amigo esteja vivo.
Lagrimas enchem meus olhos ao pensar nele ferido e ao perceber que Raziel tem razão. Se fosse um assassino ruim, já teria sido pego com todos atrás dele.
— Porque está fazendo tudo isso? O que fizemos pra você? — Preciso entender — É por dinheiro? Te dou tudo. Vamos até o banco que eu transfiro o que tenho... Ah!
Um tapa forte me atinge na bochecha arrancando um gemido de dor. Desgraçado! Com certeza não estou sonhando, porque isso doeu de verdade. E meu corpo reaje desferindo um soco em sua direção. Sem sucesso algum, pois ele segura minha mão e a torce como se fosse papel.
Ah! Tento chuta-lo, mas ele prende minhas pernas nas suas e segura meus braços juntos numa única mão, o que obriga nossos corpos a ficarem mais junto que o necessário. Dói. Me sinto um animal preso. As lágrimas escorrem.
— Está realmente me ofendendo, Ruiva.
Seu rosto está tão perto do meu que sinto seu hálito gélido banhar meu rosto, com um dos lados latejando pelo tapa.
— Acha que faço isso pelo dinheiro? Você sabe quem eu sou, e que um dia viria. Seus pais sabiam, sua querida Tia sabia. O maldito Ancião sabia e conseguiram me atrasar o máximo que puderam. Mas agora estou aqui. Cedo ou tarde os Sentinelas iriam furar seu bloqueio.
Sentinelas? Foi o que ouvi? Isso está ficando cada vez mais estranho.
— Não conheço você, Raziel — minha voz sai num gemido — Só o vi em Mirror Lake. Você só pode ser louco. O que meus pais tem haver com isso? O que te fizeram?
Sua expressão parece confusa por uns segundos.
— Eles não me fizeram nada. Eu fiz. Ou acha mesmo que seus pais morreram num trágico acidente?
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Atualizado até capítulo 29
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