— Srta Katherine, está nos dizendo que, enquanto guia, pediu que alguém deixasse os desaparecidos no Hotel por volta das 22h?
— Sim. Eu e minha prima voltamos no meu carro pessoal, e o namorado dela Raziel entrou na minha Minivan com os 5 turistas. Hoje nos encontraríamos novamente para a segunda parte do tour, mas eles não me atendem e não respondem mensagens. Já deveriam ter entrado em contato comigo.
O homem de barriga avantajada está com as duas mãos na mesa á minha frente, me mostrando um notebook com imagens dos turistas deixando o Hotel ontem. Sobre a mesa estão fotos de cada um deles, bem como registro de passagens reservadas de vinda, e volta para seus países. Data, horários... Tudo incontestável, muitos dos documentos eu mesma havia pedido aos turistas. Pois só guio pessoas após verificar documentos pessoais, antepassados, viagens anteriores e todos os dados da viajem atual, do início ao fim.
Sou cuidadosa com tudo que se diz respeito á minha vida profissional. Conto ao homem toda a história, inclusive o tempo que Raziel namorava minha prima e a primeira vez que o vi, mas sem o sobrenome e informações pessoais, é impossível ajudar mais.
— Nenhum deles chegou. O Hotel em seu procedimento normal, nos aciona quando algo foge do padrão— Seu olhar é duro e interrogativo e passa de mim para meu advogado e melhor amigo — Preciso do nome desta pessoa que supostamente foi a última a ve-los. Não acredito nessa história, e a senhora não sai desta delegacia sem fornecer todas as informações necessárias pra montarmos esse quebra-cabeça. Espero que não esteja escondendo nada!
— Sr.Minha cliente está disposta a ajudar no que puder, mas não pode colocar em questionamento sua conduta, uma vez que ela não está presa e serve a esse país com honestidade e sem nenhum indício de que vive erroneamente, nao possuindo antecedentes.
Kevin olha pra mim sério e continua:
— Kate, você não é obrigada a falar sobre os fatos que estão sendo imputados, tampouco ser coagida a isso.
— Devo lembrar que a Senhorita pode se meter numa baita encrenca aqui. A não ser que ajude o Departamento de Polícia.
— O dever de busca de informações é da polícia e dos demais agentes públicos designados para a investigação criminal, e não da minha cliente. Que pode manter o silêncio a teor do direito fundamental, a fim de manter intacta sua integridade e privacidade.
O homem bufa como se estivesse cansado demais de ouvir isso.
— Eu estou sendo acusada?
Questiono a Kev. Ele balança a cabeça.
— Ainda não, você apenas se dispôs a responder um chamado e ajudar provando seu hálibi. Podemos ir embora agora mesmo, se quiser.
Olho para o homem a minha frente.
— Vocês precisam encontrar o namorado da minha prima, só o vi uma única vez, mas se algo aconteceu com os turistas, ele deve saber.
Ele assente.
— Faremos isso. Se eles entrarem em contato com você, nos comunique. Obrigada.
Kevin e eu saímos do Departamento. Meu celular toca.
“Merda, Jéssica onde você está?”
“Peguei um engarrafamento horrível, ainda estou tentando falar com Razi. Pode me dizer o que aconteceu?”
Respiro fundo com uma dor de cabeça latejante que está me deixando com tanta raiva que sinto minha pulsação forte batendo na têmpora.
“Aconteceu que seu namoradinho pilantra fez alguma besteira ontem.”
“Nossa Kate, como assim?”
“Os turistas que guiei ontem nem chegaram ao Hotel, a polícia emitiu buscas por todo o estado e advinha? Seu astro do rock foi o último a estar com eles. E não disse nada sobre ter levado eles à outro lugar.”
Minha garganta está tão seca que arde.
“Mas isso é impossível. Ele me disse que os deixou na porta do Hotel e levou sua van pra Vila logo depois”.
“Isso foi o que ele te disse. Encontre esse cara logo, espero que seja verdade ou eu mesma vou matar esse infeliz”.
No fundo, eu sabia que não era verdade.
Kevin segue dirigindo para o escritório. Ao chegarmos, ele desliga o carro e sinto sua mão em meu ombro.
— Tem certeza que quer trabalhar depois dessa notícia? Podemos fechar por hoje e remarcar as visitas aos imóveis pra semana.
Ele diz isso massageando meu ombro e nuca. Suspiro.
— Não posso acumular tanto trabalho. — Digo o encarando — Ir pra casa não vai ajudar. Vou me medicar e vamos nos dividir e mostrar os imóveis disponíveis. Preciso não pensar no que pode ter acontecido ao meu grupo. Só quero que estejam bem e apareçam logo.
Saímos do carro e eu sei que não devia, mas quero focar no trabalho e rezar pra que os turistas tenham encontrado uma forma de diversão na qual tenha os feito esquecer-se de voltar pro hotel.
Afundo-me no trabalho tanto que me esqueço de tomar minha medicação no horário certo. Alguns flashes da noite do acidente enchem minha mente com força e tento afasta-las.
Estou indo bem, como Doutor Vasiliev me ensinou. Não deixar os problemas e notícias ruins me paralisarem. Isso realmente funciona. E me sinto no controle durante todo o resto do dia. Kevin parece preocupado, mas eu agradeço a Deus por ter seu apoio, e por ser um advogado excelente.
Ele me orienta sobre os próximos passos da polícia, e como vou responder á eles caso tudo se vire contra mim, mesmo eu sendo inocente.
Saio do último imóvel e me despeço do casal com um filho pequeno.
Meu celular vibra. Mensagem de whatsap. Reparo nas mensagens de Kevin, Jess, meu psicólogo e a que me faz ter um calafrio vem da minha conversa com Kahina. A resposta é seca. “Ela não pode responder no momento. Está indisposta.”
Começo a tremer. Abro a conversa e digito: "Quem está falando?"
Não demora para subir o ícone de resposta em caixa alta: A SUA SOMBRA.
Meu coração acelera e se fosse possível sairia pela boca.
Que porra está acontecendo? Será que estou ficando louca?
Envio pra Kevin que responde com emoji de raiva em seguida me diz pra ir pra casa que ele fecha o escritório e segue pra lá, está mais perto que eu. Também diz que vai atualizar a minha defesa.
Meu nível de estresse nunca esteve tão alto. Estou tremendo tanto que não consigo ligar o carro. Encosto a testa no volante e tento acalmar minha respiração por um tempo...
As sombras me cercam. Se não fosse uma forma minha de me referir aos ataques de pânico, diria que estou sendo vigiada. Embora essa sensação nunca tivesse me deixado desde a noite do acidente Quem saberia disso? Só um universo muito injusto e maquiavélico pra usar isso contra mim depois de todos esses anos.
A verdade é que a sensação de estar sempre sendo vigiada me persegue desde os 9 anos. Vasiliev diz que é normal depois de grandes tragédias, algumas pessoas desenvolverem Ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático e diverso outros problemas.
“Esteja no controle, Senhorita Kate.” Lembro-me de sua voz hoje de manhã.
“Precisa estar no controle. Nada disso pode te atingir se estiver no topo de si mesma.”
Preciso recuperar minha sanidade. Seja o que for, ou quem for, vai ser preso e todo esse mal será resolvido.
Tento me convencer, tento trazer a razão tudo o que pode estar acontecendo.
Não sei quanto tempo fico ali até que ligo o carro, e tenho certeza de que lutar contra o pânico não vai funcionar por muito tempo. Preciso dos meus remédios, mas lembro que deixei no escritório. Então, a opção é chegar em casa e engolir uma das cápsulas guardadas em minha escrivaninha.
Só desejo que o dia termine e eu possa tomar um banho quente e deitar em minha cama Queen size. Só desejo que as sombras não permaneçam por tanto tempo.
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Atualizado até capítulo 29
Comments
Nalú Faria Machado
nossa que história complicada não estou conseguindo entender
2022-07-02
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