Engulo seco. O quê? Pisco fazendo as lágrimas caírem enquanto novas surgem rápido demais. Que merda ele está falando? Sofremos um acidente.
— Eu estava lá. No caminhão.
Ah meu Deus! Era ele? O motorista que causou o acidente que matou meus pais e quase me deixou aleijada no hospital?
— Não. Não... Não pode ser. — Murmuro confusa misturando indignação com um riso nervoso.
Eles disseram que o motorista havia morrido no acidente também. Não pode ser ele. Havia um corpo além de meus pais. O motorista do caminhão estava morto. Como podia ser ele no volante?
— Sou eu, Katherine. — Sua voz é como um zumbido — Era para seus pais morrerem, e era pra parecer um mero acidente. Mas não tivemos sorte com você.
Embora suas palavras não fizessem sentido e minha mente estivesse embolada, Raziel parecia falar a verdade. De outra forma, não saberia do acidente. Se bem, que namorou minha prima e eu não sei até onde ela contou sobre nossa família. Pode ter dito tudo o que ele queria, já que estava de quatro por ele.
Parece impossível dezesseis anos depois aquele motorista ter vindo atrás de mim. Porquê? Se não queria dinheiro?
— Havia um corpo lá.
Ele ri novamente dando um passo atrás e me deixando soltar o ar, o que quase me custa um desmaio.
O som é tão macabro. Raziel exala perigo e morte. Nada que eu conheço pode ser comparado a ele.
— Sim. O dono do caminhão.
“Se ele fosse me matar agora, já teria feito” Penso, não me tranquilizando nenhum pouco ao vê-lo caminhar até a cama e sentar na beirada macia. Jess ainda dorme como uma pedra e quase havia me esquecido que os remédios que tomou causariam esse efeito.
O vejo procurar algo em seu sobretudo.
— Vejo em seus olhos toda essa confusão. — Ele diz acariciando algo nas mãos — Está se perguntando por que você? Porque voltei pra terminar o trabalho?
Assinto.
— Não entendo porque minha família. O que te fizeram?
Entro em pânico quando percebo que é uma adaga, como a que vi no ventre de Olga. Porque não acaba logo com isso e vai embora?
A resposta em minha mente é imediata.
Porque Raziel é do tipo que gosta de ver a presa com medo, agonizando. Este é o tipo dele. Ver o sofrimento ao máximo antes de matar. Esse é o pior tipo de demônio, que zomba de você enquanto sangra até morrer.
Penso em gritar e acabar logo com tudo. Se hoje é meu dia, que seja rápido e indolor. Se vou morrer como minha tia, que haja pelo menos uma chance de salvar a pobre Jessica.
— Você sabe que isso tudo é pessoal, Semyta.
— Para de falar como se eu soubesse da merda em que estou envolvida aqui!
Dessa vez eu grito cansada e indignada e ele reage correndo até mim com a coisa brilhante nas mãos. Imagino que seja agora. Fecho os olhos e espero o impacto da arma.
Não vem, ao invés disso um aperto em minha garganta me faz abrir os olhos e gemer.
Seu rosto é duro e pela primeira vez vejo uma ponta de dúvida em seu olhar, e uma iris avermelhada que deixa sua aparência sobrenatural. Se nao fosse tão cética, acreditaria em monstros.
— Realmente não sabe quem sou?
Seus dedos envolvem minha garganta fazendo uma pressão forte suficiente pra eu não mexer a cabeça, e leve o suficiente para não desmaiar.
Novas lágrimas aparecem e nunca me senti tão humilhada, nunca chorei tanto e isso desperta raiva também. Raiva por estar presa e não conseguir reagir como uma pessoa normal, que tentaria fugir e pedir ajuda. Raiva por querer respostas, mais do que querer sobreviver.
O rosto ainda queima da tapa que levei pela primeira vez na vida e eu nem quero imaginar o que ele é capaz de fazer com uma mulher. Sua força é algo que experimentei apenas por sua mão, certamente poderia me esquartejar sem precisar de uma faca. Um sentimento estranho se mistura ao resto das emoções, e posso dizer que ficaria um pouco excitada com sua pegada se não fosse uma presa temendo pela vida agora.
A essa altura, já não estou com tanto medo de morrer. Na verdade, penso que se o acidente tivesse me matado eu não teria convivido tanto tempo com as sombras, e se houvesse mesmo um céu, estaria com meus pais. Sabe aquele momento de perigo que seu corpo reage, mas na sua mente você está pronta, venha o que vier? Pronta pro inevitável.
— Você é o namorado de Jess e assassino de Olga, droga! — tento me mexer e ele aperta mais me fazendo sufocar e reunir todo o ar que ainda resta em meus pulmões — Se for me matar, acaba logo com isso. Não ligo mais para a porcaria dos seus motivos. Me mate de uma vez, Raziel! Mas deixa Jess fora disso. Deixa-a em paz...
Minha voz falha e um zumbido em meus ouvidos aparecem.
Sei que vai acontecer. Porque sinto seus dedos se apertarem ao redor do meu fino pescoço e uma ardência urgente em meus pulmões buscando ar.
Minha visão embaça e sinto meu corpo enfraquecer. Vou morrer asfixiada. Uma morte triste.
— No momento certo, meu maior prazer será te matar pequena ruiva... — Sua voz parece oca como se estivesse no fundo de um poço — Mas quero vê-la sofrer um pouco mais. Vou tirar tudo o que você mais ama e então, quando não sobrar nada...
Algo frio e afiado está tocando minha bochecha.
—Vou me banhar no seu sangue...
É tudo que ouço antes da escuridão me tomar.
Puxo o ar histérica querendo gritar e abrindo os olhos novamente, mas desta vez sei que estou deitada no chão porque está gelado sob meu corpo. Levanto assustada procurando por ele.
Já é dia. E não há ninguém no meu quarto. Droga! O que houve?
Procuro por qualquer sinal de que Raziel pudesse ter estado ali, e fico ainda mais histérica quando percebo que não há. Foi um sonho?
Como posso ser tão louca e ter vindo parar no chão do quarto com um pesadelo?
Olho para meu corpo procurando algum ferimento. Estou bem, apesar da dor aguda em minha cabeça e uma ardência na garganta. A janela está... Trancada. Não acredito nisso. Preciso ser internada urgentemente.
Até que percebo que ele realmente esteve aqui.
— Não... — Levo as mãos ao alto da minha cabeça quando a realidade me atinge. — Não, não! Merda!
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Atualizado até capítulo 29
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