~Nota da Autora~
ALERTA!
Este capítulo contém cenas de violência que podem ser fortes demais para alguns leitores.
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~Raziel
Existe um mundo sombrio e uma luta na atmosfera espiritual que quase ninguém conhece.
Você não precisa acreditar nele, se não quiser. Sua falta de fé não vai fazê-lo deixar de existir e em algum momento você vai se deparar com ele, o que pode significar um desastre em todas as áreas da sua vida, considerando que não está preparado pra lutar. Lutar nele pode ser uma escolha, encontrar com ele não.
Eu vivo nesse mundo.
Desde os meus 7 anos. E esse mundo é feito de muitas coisas, menos fraqueza. Se vacilar, você morre. Não estou preparado pra morrer ainda.
A voz dela é irritante! Não importa o que eu já tenha feito, ela não acredita que não a quero. Que só continuo lhe usando. Esse tipo de ser humano vive um estado emocional deplorável. Totalmente dependente. A tranquei no quarto tem meia hora, mas continua com a voz fina me chamando daquele apelido idiota e dizendo que me ama e não entende o porquê a trato assim.
Eu matei a mãe dela! E ela continua com esse sentimento doentio de que me pertence e nascemos um para o outro. A maluca continua dizendo que fará o que eu quiser, e esse é o ponto em que quero chegar com ela.
Dylan está preparando o carro para sairmos. Reunião de última hora.
Alguns sentinelas traziam um recado de Balthasar, que só poderia ser entregue pessoalmente.
— Vamos logo com isso, ou vou voltar naquele quarto e mata-la antes de cumprir meu propósito. De todas, essa Semyta é a mais repugnante que já tive que lidar.
Ele entende a urgência de concluirmos essa missão.
— De todas, essa é a Semyta mais repugnante que já tive que lidar.
— Tá falando dela ou da ruiva gostosa?
Lanço um olhar maligno em sua direção. Ele entende prontamente.
A forma que nos comunicamos por olhares é algo impressionante e evita que eu tenha que explicar muita coisa. Eu e Dylan crescemos juntos no Santuário Anaque. Tivemos o mesmo treinamento, mesmo estudo. E ao contrário de qualquer outro Sentinela, somos ligados por uma irmandade. Sem moleza. Trabalhamos melhor junto. Matamos mais junto. E meu propósito é o seu. Sempre na mesma sintonia. Algumas surras vez ou outra, mas nada que interfira na parceria. Só às vezes, seu senso de humor.
Dylan faz piada de quase tudo, parece viver numa bolha infantil e isso trás muitas consequências desnecessárias no nosso mundo. O que sempre gera em nós cicatrizes impossíveis de esquecer.
Entramos no 4x4 escuro e piso fundo sabendo da merda que viria a seguir e que eu precisava urgentemente controlar.
Neste momento me permito pensar nela. A ruiva. Me custa toda concentração na estrada lembrar de seu cheiro e olhos grandes.
Bonita pra cacete! Confesso.
Lábios cheios e ao mesmo tempo finos e desenhados na parte superior, coisa que faz qualquer homem normal perder o equilíbrio só de imaginar o que poderia fazer com eles. Naquele dia, agradeci por não ser um homem normal.
A ruiva possui um corpo bem cuidado e uma personalidade confusa. Parece inteligente, mas é transparente como a água. Todo seu corpo parecia um livro aberto, dava pra sentir no meu todas as suas reações sob meu domínio. Contudo, o mais fascinante, foi vê-la não ceder.
Aquela altura qualquer um se jogaria em cima de mim implorando pra ser possuída, mas ela... Ah ela não. Conseguia sentir o cheiro da sua excitação como mel em meus lábios, mas sua mente lutava contra mim. Uma Semyta das mais fortes que já conheci.
Tão forte quanto sua mãe. Uma lutadora, que no momento parecia não saber lutar.
Sinto um arrepio estranho na espinha ao pensar na noite em que invadi seu quarto e em seu cheiro forte e tentador. Uma presa realmente apetitosa.
Qualquer Semyta treinada teria tentado lutar, mesmo os que viviam fora dos limites da Ordem tentariam resistir em demonstrar suas emoções que julgavam como fraqueza, assim como nós.
Isso me fez ver que ela não entendia ou não conhecia direito o seu próprio mundo.
Algo novo, pois todos da linhagem de Sem eram disciplinados em sua cultura. Todos sabem quem somos e nos identificam quando chegamos, algo puramente espiritual já que, para as pessoas comuns parecíamos apenas um grupo gótico de lutadores de MMA ou assassinos em série cheios de complexos na infância.
A ruiva tinha ficado confusa com minha presença, parecendo nem mesmo entender a morte de seus pais e sua Tia, assim como a irritante garota presa em meu quarto agora. Haviam sido criada na sociedade comum, e isso as tornou presa fácil, mesmo com os Anciões da Ordem usando todos os meios para protege-las.
Não sei ao certo o que me fez hesitar em leva-la, já que a vida de qualquer Semyta não me importava á não ser quando estava se esvaindo dentre meus dedos.
Achava alarmante o desejo de nosso chefe em tê-la. Porque a ruiva? De que nos serve uma Semyta cega e mestiça? Já que era filha de uma Semyta pura e um homem comum.
Porque Balthasar possuía a foto de uma possível ancestral em sua parede? E se fosse ela na pintura, porque só recentemente nos ordenou pega-la?
Algo estava sendo oculto dos Sentinelas e isso quase me fez recuar na missão.
A ruiva era repugnante por me fazer falhar. Repugnante por nao entender o significado da minha presença.
Agora, tenho que amenizar o impacto das minhas ações com os Sentinelas. Ou perderia minha posição.
Chegamos no local indicado e descemos do carro no meio da floresta, não muito longe do nosso esconderijo.
Ninguém teria coragem de passar por ali. Estávamos longe dos limites recomendados pela reserva local para turistas e moradores.
Cruzo os braços e encosto no capô da picape.
— Sabe que essa merda vai feder, né? Vão querer nosso sangue.
Dylan fala ansioso alongando os braços e a cabeça. Como que se preparando pra entrar no Octógono.
— Sempre estou pronto pra isso. — Afirmo imóvel concentrando meus sentidos nas árvores balançando com o vento. Nenhum som al alcance de ouvidos humanos.
Está totalmente escuro, mas é possível enxergarmos com nossa visão de Anaque.
— Sabe quantos são?
Tento identificar os cheiros que localizo á alguns quilômetros de onde estamos.
Ele parece chegar a conclusão junto comigo, pois sua risadinha surge e eu daria risadas com eles se tivesse o senso de humor de um menino de 4 anos recebendo cosquinhas do pai.
Uma sombra surge em meu lado direito e num segundo já estou com minha faca na mão transferindo um golpe na jugular de um homem todo de preto e olhos vermelhos. Ele urra e cai no chão com as mãos no pescoço e o sangue jorrando do corte aberto.
Retiro a adaga de sua carne e já pulo para o segundo.
Conto doze no total. E me sinto ofendido pelo recado fraco de Balthasar.
D é implacável, mais pesado e mais lento que eu. O que o torna uma baleia gigante quando cai sobre a presa. Impossível de retirá-lo de cima.
Um deles me agarra por trás pelo pescoço, mas me retiro com apenas um movimento, acertando seu baço e abdômen com vários golpes enquanto sinto meus dedos melados por seu sangue úmido e quente.
Nao dura mais que um minuto.
Um som invade meus sentidos enquanto arranco a cabeça de outro e nem consegui soltar o ar dos pulmões ainda.
Uma voz fina como de uma Drag Queen está cantarolando algo que não demoro a identificar.
— It´s Raining Men! Hallelujah, It´s Raining men, amem!
Eu queria rir, porque era o momento oportuno. Realmente chovia homens sobre nós. O diabo deve ser engraçado, porque estávamos no inferno e parecia série de tv.
Me livro do último homem após fazer suas entranhas caírem em seus próprios pés.
— Nada impressionante.
A voz de Zavebe surge antes de sua pessoa detestável se juntar á nós.
— I´ts raining man, every specimen. — Cantarola Dylan sem perder o fôlego — Tall, blonde, dark an lean… Rough and tough, and strong and mean…
Ele finaliza a música recebendo aplausos teatrais do homem albino que, segundos antes desdenhou de nosso desempenho no combate.
Outros Sentinelas aparecem da escuridão e um círculo deles se fecha em volta de nós dois e os corpos espalhados.
Somos cercados e encurralados por nosso próprio bando.
— Obrigado. — D simula um agradecimento se curvando após o espetáculo.
Já me perguntei como ele conseguia ser assim. O único capaz de nos fazer imaginar alguém cortando a cabeça de um gato e bebendo seu sangue enquanto pula amarelinha na calçada e colhe uma flor para uma bela jovem.
Encaro á nossa companhia noturna.
— Zabeve. — Murmuro colocando todo ódio na voz — Achei que melhoraria a entrada depois que começasse a servir de lencinho pra bunda do Chefe.
Ele torce o nariz. Tem os cabelos loiros e a pele quase transparente de tão clara. Pra mim, parecia um rato de laboratório.
— Realmente não tive tempo de melhorar o cartão de visita. — Ele diz chutando a cabeça de um dos novatos que enviou pro sacrifício essa noite. — Mas precisava focar em algumas coisas que estavam preocupando o chefe.
Quando Balthasar queria entregar uma mensagem de suma importância, enviava um grupo de Soldados Sentinelas para fazer a entrega e junto dela vinha um bando separado para morrer. Eram os nomeados sacrifícios.
Em geral soldados mais fracos, que haviam falhado em qualquer área e não tinha mais utilidade para o bando. Esses iam pro local do encontro primeiro, atacavam quem receberia a mensagem. Em quase todos os casos, morriam. O que não era dizimado recebia o perdão e o cargo de volta com louvor.
Dessa vez, foram doze soldados. Nenhum vivo.
Ignoro alguns dos nossos começando a limpar toda a sujeira e foco no mensageiro.
— Toda essa preocupação é desnecessária.
Digo retirando minha camisa encharcada de sangue preto. O cheiro é quase insuportável para pessoas normais. Para nós, era como uma bebida quente no inverno. Tento limpar as mãos e minha adaga.
— Não é o que o chefe pensa — Ele me analisa com os olhos vermelhos. E um sorriso presunçoso na boca. — Quando fui convocado, quase não acreditei. O perfeito Soldado, o tesouro, o preferido estava deixando um pulgão na orelha do Senhor dos Anaques.
— Então resolveu colocar a tanguinha de praia e curtir as férias do banheiro do Chefe pela primeira vez.
Dylan não se controla e arranca um rugido do albino. Meu parceiro tem essa influência sobre as pessoas.
Zabeve era o patinho feio dos Sentinelas. Desajeitado, sem sede por sangue e isolado. Ao olhar pra ele, ninguém poderia chama-lo de guerreiro. Ao contrário dos outros Sentinelas, após seus pais serem sacrificados, ele tremia de medo ao ver sangue.
Todos os mensageiros que se tornavam Sacrifício eram levados de volta para o Santuário e entregue aos seus parentes para fazerem o que quiserem com o corpo. Era uma forma de evitar fraquezas no nosso bando. Todos os doze que foram mortos hoje voltariam pra casa um pouco diferentes de quando saíram.
Ao contrário do que pensávamos, o ratinho medroso achou um jeito de superar e virar um guerreiro. Mas lhe ganhou uma péssima fama entre nós. Sempre fazíamos piada sobre seu passado.
Á alguns meses Balthasar começou a convoca-lo para tarefas mais importantes além de cuidar do Santuário.
— Seja breve, Rato. Preciso trabalhar.
Estou ficando de saco cheio da presença deles.
Ele sorri.
— Como quiser.
Um rapaz Jovem em meio aos seus doze ou treze anos, surge de trás de Zabeve. Sua expressão é tranquila.
Minha garganta seca. Porque sei qual será seu destino.
O menino me olha nos olhos e dá um sorriso fraco.
— Merda!
Dylan também entende e coça a cabeça
Não digo nada. Conheço bem o menino. Assim como todos os outros do Santuário.
Não vimos isso pela primeira vez, já havíamos inclusive reproduzido esse ritual. Vezes demais pro meu gosto.
O menino ajoelha em frente ao albino sem tirar os olhos que estão fixos em mim.
Zabeve retira sua adaga do bolso do casaco e pronuncia a frase que eu mesmo já disse incontáveis vezes. “One life for all lives”
Uma vida por todas as vidas.
O menino inclina a cabeça pra trás num sorriso realizado, havia sido treinado para não ter medo de morrer. Havia aceitado seu destino.
E Zabeve de forma lenta passa a lâmina por seu pescoço que jorra imediatamente sujando todo seu corpo magricelo.
Não pisco em momento algum. Sabendo o que essa mensagem significa para mim e para Dylan.
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Atualizado até capítulo 29
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