Sono sem volta

Demoro apenas 20min para chegar á Vila Widerness. E avisto uma agitação na rua interna, alguns rostos eu reconheço como meus vizinhos. É incomum, levando em conta que todos são reservados e raramente dão festas.

Pela primeira vez em muito tempo sinto aquele medo de anos atrás. O mesmo medo que me fez pedir para não ir á capela com meus pais aquela manhã. Aquele aviso de que algo estava errado e que não devíamos continuar. Aquele aviso que meu corpo entendeu como se eu estivesse prester a cair de cama com um resfriado terrível, e que hoje entendo como pressentimento ruim ou Sexto sentido. Sinto As sombras daquela noite aparecendo lentamente.

Algumas pessoas saem da frente do carro enquanto sigo me aproximando. Percebo um grupo grande de pessoas amontoados próximo a casa de Kevin. Será que encontraram meus turistas???

Vejo luzes piscando e os carros brancos com a faixa azul da polícia de Lincoln estacionados, também vejo um carro enorme do corpo de bombeiros... Meu coração volta a acelerar. Muita aceleração pra um dia só. Estou exausta desses picos cardíacos. Tenho a Sensação de que vou cair dura num infarto a qualquer minuto.

Alguns vizinhos me vêem chegar. Procuro em seus rostos o entendimento do que está acontecendo até que percebo que toda aquela movimentação está á frente da minha casa. Minha garagem está aberta com policiais em volta. Paro o carro e puxo o freio de mão já descendo em passos largos.

Aproximo-me pisando na grama perfeitamente aparada na entrada de casa. Há uma faixa amarela indicando que houve um crime e é aí que me desespero.

— O que ta acontecendo? — Questiono á um dos policiais que impede minha entrada.

— Desculpe senhora, mas não pode ultrapassar a faixa.

Ele diz isso com as duas mãos á minha frente.

— Eu moro aqui, idiota! Sai da frente! — Digo o empurrando e já sinto as lágrimas quentes começando a rolarem pelo meu rosto.

Passo por baixo da faixa e corro garagem a dentro. Na sala, há mais policiais.

O pior aconteceu. Eu sei disso.

— Porque estão na minha casa. O que aconteceu?

Meu corpo já sabe, porque as lagrimas escorrem sem parar. Meu cérebro é o único que não consegue acompanhar e processar, a não ser que alguém fale com ele. Mas nem mesmo eu tenho forças pra falar e acalma-lo.

Procuro algum rosto conhecido e vejo o delegado barrigudo. O mesmo que me interrogou hoje cedo.

— Senhorita. Eu sinto muito, Mas não pode ficar na casa até a perícia terminar. Precisa se retirar...

Corro pra cozinha, e está tudo limpo e estranhamento organizado.

Deus, o que tá acontecendo? Não consigo raciocinar. Volto pra sala e vejo um Kevin descer as escadas com os olhos inchados e cabelos desarrumados. Não enxergo direito, porque meus olhos escorrem tanto que sinto vontade de gritar ou socar algo de tanto chorar.

— Kevin, pelo amor de Deus me diz o que ta acontecendo! Porque tantos policiais?

Quase grito segurando a camisa dele como se fosse espanca-lo se não me dissesse.

Ele me olha triste.

- Eu sinto muito, Kate.

Algo ruim aconteceu. A ultima vez que o vi chorar foi...

Um grito de dor vem do segundo andar.

Nem penso. Agora é meu cérebro reagindo e meu corpo indo com ele. Corro escada acima decidida a descobrir. Ignoro terrivelmente meu amigo me dizendo pra esperar.

Corro pro quarto de Jess, e está tudo normal. Sigo para o próximo que com certeza é de onde veio o grito. O Quarto da minha tia.

No mesmo instante me arrependo de ter subido. Congelo no umbral da porta e a cena de terror que presencio me faz cair de joelhos tapando a boca, como se me impedisse de gritar também.

O corpo de tia Olga ainda em sua usual camisola branca estirado sobre a cama perfeitamente arrumada, a não ser pelo corpo de minha prima sacudindo em um choro desconsolado enquanto segura a cabeça da mãe em seu colo e tenta acorda-la de um sono sem volta.

Tia Olga não está dormindo, ou não teria uma faixa amarela na entrada. Uma mulher toda de branco implorava pra minha prima se acalmar e a deixar fazer seu trabalho, ao mesmo tempo que grita para os policiais lá embaixo. Quando ela me vê, tenta me repreender, mas a ignoro. Meu corpo sozinho assume o controle, porque não percebo que ainda estou de joelhos e com lágrimas molhando toda a minha blusa. Só me arrasto pelo chão tentando chegar até lá. E sem forças toco na perna da minha prima, pois não encontro voz e ela grita outra vez tendo consciência da minha presença pela primeira vez.

Jess solta a mãe e deixa seu corpo cair no chão junto a mim, Ainda convulsionando de tanto chorar. E eu só consigo acolhê-la num abraço tão apertado, que eu sei que se ela não estivesse sentindo dor na alma, estaria sentindo dor em seu corpo, pois a aperto em meu peito sentindo nossos corpos sacolejarem juntos com seus soluços.

Meus olhos procuram Olga. Ela está deitada, mas consigo ver seu corpo e rosto de onde estamos. Sua pele pálida que sempre admirei agora sem vida. Seus olhos fechados numa expressão tranquila como se estivesse dormindo. Será que não foi um engano? Será que ela não está só descansando?

Qualquer vestígio de apenas um sono foge, quando desço meus olhos do seu rosto para seu corpo e percebo a mancha vermelha enorme na altura de sua barriga com algo parecido com uma adaga cravado ali como uma faca fincada numa manteiga e a ficha cai como um tapa no rosto. Meu Deus! Alguém a matou! Alguém assassinou minha tia Olga.

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Comments

Nalú Faria Machado

Nalú Faria Machado

como tem mortes na vida dela primeiro os pais agora a tia muito triste mesmo 😞😢😞😢😕😞😢

2022-07-02

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