Faltando apenas um dia para o aniversário do Gabriel, eu decidi avisar a todos que eram próximos dele no castelo sobre seu aniversário e como ele lidava com essa data. Eu, inclusive, acho que fiz bem em avisá-los. A maior parte deles já estava percebendo que ele parecia meio deprimido e não estava saindo muito de seu quarto.
Eu avisei ao Lorde William, a Silvia e a princesa Illyssa, pois eles eram os que tinham mais contato com meu irmão, além de mim. Todos eles entenderam sem problemas e decidiram dar a ele seu devido espaço.
Lorde William disse que se não fosse por isso, ele provavelmente faria uma pequena comemoração para poder agradecer ao Gabriel por tudo que ele fez por ele e por sua filha. Quando eu soube disso, até pensei que algum tipo de festa surpresa poderia elevar o humor do meu irmão, mas logo descartei isso. A festa poderia acabar dando errado no sentido de piorar tudo para o Gabriel.
A Silvia me disse que faria um enorme bolo para ele poder comemorar. Ela gostava bastante do meu irmão e ele gostava bastante dela também. Vira e mexe eles conversavam juntos na cozinha do palácio.
Já quando eu fui falar com a Illyssa, ela disse que já suspeitava que houvesse algo errado com o Gabriel, pois ele havia cancelado todas as aulas que ele iria dar a ela naquela semana.
— Eu não havia entendido o porquê dele fazer isso, mas agora que você me explicou, tudo faz sentido.
— É... Eu sinto muito que você não vai poder ter aulas, mas essa é realmente uma data complicada para o meu irmão.
— Não, não, tudo bem. Eu entendo perfeitamente.
— Muito obrigado, Illyssa.
Eu estava prestes a sair, mas então ela me chamou.
— Espera, Jonathan!
— Hã? O que foi?
— Bem, eu entendo que seu irmão quer ficar sozinho, mas será que ele aceitaria pelo menos um presente?
— Hmm... — Eu pus a mão no queixo e comecei a pensar.
Como eu havia mencionado, a melhor forma de lidar com o meu irmão no aniversário dele era deixando ele quieto. Eu creio que qualquer coisa diferente que você pudesse tentar, acabaria dando errado. Porém, essa ideia do presente da Illyssa pareceu valer a pena ser testada a meu ver. Eu e o meu irmão nunca ganhamos nenhum presente de aniversário e, a princípio, a gente se acostumou a isso, mas talvez a Illyssa pudesse dar a ele algo que fosse fazer a diferença.
— Eu acho que talvez sim. — Respondi.
— Ok, então.
Assim que eu saí, eu comecei a pensar em como o meu irmão reagiria ao ganhar um presente da Illyssa. Por mais deprimido que ele estivesse, tenho certeza que ele não faria a desfeita de recusar. Mas, de qualquer jeito, eu torci para que tudo ocorresse bem entre eles.
Após tudo isso, eu fui ver como o Gabriel estava. Ele havia passado os três últimos dias trancado no quarto e só saía para fazer coisas básicas. Quando cheguei ao nosso quarto, ele estava lá jogado na cama e com o humor super pra baixo, como o esperado.
— E aí, irmão, como está se sentindo? — Perguntei cautelosamente.
— Estou me sentindo como eu sempre me sinto nessa época do ano.
— Imaginei.
— Você vai fazer alguma missão hoje?
— Sim, vou me encontrar com a Elizabeth na guilda daqui a pouco.
— Ok. Boa sorte.
— Valeu...
Eu ia sair, mas então me virei para ele novamente.
— Aí, talvez seu aniversário esse ano seja um pouco diferente dos anos anteriores.
— Como assim?
— Eu sinto que você pode acabar se surpreendendo esse ano.
— Por que está falando isso?
— É só um pressentimento. Mas enfim, eu vou nessa. Até mais!
— Até.
Como eu sabia que ele muito provavelmente iria ganhar algo da Illyssa, eu tentei usar isso para melhorar o seu humor. Não pareceu funcionar muito, mas acho que foi uma tentativa válida. Aliás, quem sabe ele iria acabar se surpreendendo de verdade quando ganhasse o presente dela, seja lá o que ela fosse dar a ele.
...****************...
Chegando na guilda, eu vi a Elizabeth lá sentada em uma das mesas me esperando. Nós havíamos marcado de nos encontrarmos, mas eu acabei me atrasando um pouco. Ela parecia estar bem entediada e estava com o rosto apoiado sobre uma das mãos quando eu me aproximei.
— Você demorou, hein? — Seu tom pareceu um pouco irritado. — Eu fiquei esperando aqui por eras. Onde esteve?
— Foi mal, eu estava resolvendo uma questão de família, por assim dizer.
— Hmph. Tudo bem.
— Vamos dar uma olhada no quadro?
— Não precisa, eu já escolhi a missão que nós vamos fazer hoje.
— E qual é?
— Essa! — Ela me entregou um folheto.
Era uma missão pedindo para matar um bando de Dragonetes em um pântano que ficava um pouco afastado do reino de Alexandria. Dragonetes eram répteis gigantes e ágeis que lembravam os velociraptors e podiam chegar até dois metros de altura. Alguns andavam em duas patas enquanto outros andavam nas quatro patas. Eles eram monstros de rank C e ofereciam um risco considerável quando estavam em bandos.
— E aí? — Elizabeth perguntou. — Vamos?
Eu pensei um pouco antes de aceitar a missão. A recompensa era de 6.000 moedas Haoni, o que era muito bom, mas, devido à distância, nós provavelmente iríamos passar uns dias fora e os Dragonetes poderiam ser monstros complicados de se lidar. Eu confiava nas minhas habilidades, mas ainda estava meio receoso em relação a aceitar a missão.
— Hmm... Acho que essa missão vai ser um pouco longa. — Franzi minha testa de preocupação.
— E tem problema?
O Dragonetes também não eram a minha única preocupação. Eu comecei a pensar se meu irmão ficaria chateado se eu não estivesse perto dele no dia de seu aniversário. Mas como eu já o havia desejado feliz aniversário adiantado e nem ele próprio gostava daquela data, presumi que poderia aceitar a missão sem grandes problemas.
— Não. — Respondi. — Acho que não tem problema. Vamos lá!
— Vamos lá, então!
E então, nós partimos em direção ao pântano para matar alguns Dragonetes.
...****************...
...Gabriel...
Faltava um dia para o meu aniversário e eu não poderia estar mais deprimido.
Devido a vários eventos horríveis que aconteceram perto da data do meu aniversário, eu nunca gostei desse dia. Então, tudo que eu fazia era ficar deitado na cama lendo algum livro ou escutando música.
Mas, infelizmente, eu não havia trazido meu celular para este mundo, então escutar música estava fora de cogitação no momento. Eu tentei pegar alguns livros na biblioteca e trazê-los para o quarto para eu ler eles enquanto o tempo passava, mas isso também não estava funcionando muito.
Os livros que eu havia trazido eram todos ou de magia ou de história. Eu tentei me forçar a ler, mas, naquele momento, meu interesse neles não poderia ser menor, então decidi deixar os livros de lado e apenas ficar deitado olhando para o teto.
Como sempre, muitas coisas do meu passado vieram à tona em minha cabeça enquanto eu fazia isso.
Eu não conseguia parar de lembrar das discussões que meus pais viviam tendo e da quantidade de gritos que eu tive que escutar durante toda a minha infância.
Eu não conseguia parar de lembrar de todas as vezes que o inútil do meu pai chegou bêbado e raivoso em casa e descontou sua raiva em mim e no meu irmão.
Eu não conseguia parar de lembrar das vezes que meus antigos colegas de classe chegaram na aula no dia após seus aniversários e mostraram para todos o que eles haviam ganhado de presente, enquanto eu nunca ganhei nada no meu aniversário.
E, é claro, eu não conseguia parar de lembrar na morte da minha mãe. Ela morreu em uma data perto da data do meu aniversário e, depois que isso ocorreu, eu passei a odiar ainda mais esse dia.
A minha mãe sempre foi uma mulher muito esforçada e carinhosa. Apesar de nós nunca termos tido muito dinheiro, ela sempre deu o máximo dela para que eu e meu irmão pudéssemos viver com alguma dignidade.
Eu já a vi trabalhando até tarde diversas vezes e sempre que eu falava para ela ir dormir, ela dizia que ainda não estava cansada e podia continuar... Mas era mentira. Eu sabia claramente que ela estava cansada.
Vendo todo o esforço que ela fazia por mim e meu irmão, eu fiz uma promessa a mim mesmo. Eu me prometi que iria ser alguém na vida e iria retribuir tudo o que ela fazia por nós. Eu ia dar a Sra. Hoffman a vida que ela sempre mereceu ter. Eu iria fazer isso custe o que custar. Eu iria conseguir dar a minha mãe tudo o que ela queria e merecia. Eu estava certo disso e eu sentia que iria conseguir... Mas, infelizmente, eu não consegui.
Um ano após eu me prometer aquilo, minha mãe morreu, e, depois disso, não tinha mais como eu cumprir a minha promessa.
Sempre que meu aniversário chegava, eu voltava a lembrar dessas coisas e, naquele ano, não estava sendo diferente. Nem o fato de eu estar em outro mundo e ser um mago incrível fez com que eu pudesse superar a depressão que vinha com o meu aniversário.
Naquele momento, eu estava deitado em minha cama e sofrendo internamente. Quando olhei pela janela e vi que já era de noite, resolvi me forçar a pegar no sono.
— Acho que amanhã é o "grande dia", né?...
Após falar isso, eu me virei e dormi.
...****************...
E então, amanheceu. O dia do meu aniversário finalmente havia chegado.
Sem ânimo algum, eu me levantei, me arrumei e fui para a sala de jantar tomar café da manhã. Eu fui me arrastando pelos corredores do palácio e se eu pudesse, iria apenas pegar algo para comer e voltar para o meu quarto. Porém, eu sentia que não poderia fazer isso, pois seria uma falta de educação tremenda e até falta de consideração com os demais. No entanto, a vontade que eu tinha de ficar na sala de jantar era zero.
Quando eu estava me aproximando, comecei a ouvir algumas pessoas conversando e logo reconheci as vozes. Eram Lorde William e Illyssa.
"Ah, tomara que eles não tenham inventado de fazer algum tipo de comemoração surpresa para mim...", eu pensei.
Eu estava torcendo muito para não dar de cara com um enorme bolo e enfeites assim que entrasse na sala de jantar. No momento em que o pessoal gritasse "surpresa!", eu acho que não ia aguentar e ia simplesmente me virar e voltar para o quarto.
No entanto, quando finalmente cheguei na sala de jantar, eu apenas vi o Rei e sua filha tomando café da manhã normalmente. Não havia bolo de aniversário, nem nada que desse a entender que iria haver uma comemoração, e eu agradeci imensamente por isso.
— Bom dia. — Me sentei a mesa.
— Bom dia, Gabriel.
— Bom dia, Professor.
Com um desânimo tremendo, eu comecei a me servir.
— Hmm, Gabriel. — Lorde William disse. — Sei que hoje é seu aniversário e seu irmão me explicou sobre como você lida com essa data.
— Sério?
— Sim. Ele veio até mim ontem para falar sobre isso.
Eu fiquei em silêncio.
— Eu havia pensado em fazer uma comemoração para você, mas creio que não seria uma ideia muito boa.
"É, não seria mesmo...", pensei.
— Então, eu apenas gostaria de lhe dar parabéns e agradecer por tudo que fez por mim e minha filha.
— Ah, não foi nada. — Respondi tentando não demonstrar toda a minha angústia. — Mas muito obrigado, senhor. Não só por me desejar parabéns, mas também por entender o meu lado.
— Sem problemas. — Lorde William se levantou. — Bem, se me dão licença, tenho coisas a fazer agora.
Lorde William saiu, ficando apenas eu e a Illyssa na mesa. Ela parecia estar meio nervosa e inquieta, como se quisesse falar algo, mas não soubesse quais palavras usar.
— Hmm, Gabriel?
— Sim, Illyssa?
— Seu irmão falou comigo também. Quero lhe desejar parabéns e quero que saiba que eu lhe entendo perfeitamente também.
— Muito obrigado.
— A propósito quantos anos você está fazendo?
— Dezesseis.
— Sério? achei que você fosse mais velho.
— Não sou. — Meu tom saiu meio frio e grosseiro, droga, eu não queria ter falado assim com você, Illyssa, mas estou em uma situação realmente complicada aqui.
— T-Tudo bem. — Ela se retraiu.
Um silêncio tomou conta da sala e, quando terminei de comer, eu me levantei.
— Vou voltar para o meu quarto.
— Ah... Ok.
Arrastando meus pés pelo chão, eu voltei para o meu quarto e me joguei na cama.
Enquanto estava deitado, eu não pude deixar de agradecer mentalmente ao Jonathan. Se o pessoal do castelo tivesse feito algum tipo de festa para mim, eu com certeza não iria saber como lidar com ela. Eu sabia que, se isso ocorresse, eu não iria ficar na festa porque não ia aguentar, mas eu também sabia que fazer isso iria ser uma desfeita tremenda. Então, ainda bem que nada disso ocorreu.
Eu fiquei deitado na cama por um bom tempo e mudei de posição várias vezes, pois nenhuma parecia me satisfazer. Já fazia pouco mais de uma hora que eu estava lá, deitado e perdido em meus pensamentos depressivos. Eu estava prestes a mudar de posição novamente quando ouvi alguém bater na porta.
— Quem é? — Perguntei.
— É a Illyssa.
Eu comecei a me perguntar o que ela queria e, para ser sincero, não estava muito a fim de falar com ela. Eu e a Illyssa éramos completos opostos naquele momento. Ela normalmente era uma empolgação ambulante, mas eu estava em uma depressão profunda. O choque de energias poderia ser tão forte que iria criar uma fenda dimensional se ficássemos muito tempo perto um do outro.
— Pode entrar. — Falei.
Ela entrou e fechou a porta.
— Olá, Gabriel. — Ela não parecia tão animada como de costume. Ela estava bem séria, na verdade.
— Olá.
— Parece que seu irmão não blefou quando disse que seu aniversário era uma data complicada para você.
— Ele disse isso?
— Sim.
— Bem, ele acertou em cheio.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Eu não sabia o que ela queria comigo e tentar falar algo para me animar iria ser inútil. Por mais que nós já nos conhecêssemos havia alguns meses, a Illyssa não sabia exatamente tudo sobre mim e, se ela soubesse, teria noção de que me deixar sozinho era a melhor opção.
— Há uma coisa que eu queria te dar.
— E o que é? — Apesar de eu ter perguntado, acabei falando em um tom que dizia "eu não ligo".
— Olha para cá.
Como eu fiquei deitado olhando para o teto o tempo todo, em nenhum momento desde que Illyssa entrou no quarto eu havia olhado para ela. Mas quando finalmente virei meu olhar em sua direção, eu a vi sentada na cama do Jonathan segurando algo que estava embrulhado.
— O que é isso? — Perguntei.
Parecia ser algum tipo de bastão, mas havia algo um pouco grande em sua ponta.
— Abra e você descobrirá. — Ela disse.
Então, eu me sentei na cama e ela passou aquela coisa para mim. Eu comecei a rasgar o embrulho de cima para baixo e aos poucos a minha curiosidade em relação aquilo foi crescendo. Quando arranquei todo o embrulho, eu fiquei perplexo.
— O que...?
— É um cajado! — Ela disse, agora com sua animação de sempre. — Acho que um bom mago precisa de um bom cajado.
Eu não estava conseguindo acreditar. O cajado era simplesmente lindo. Era todo preto e possuía uma pedra azul no topo. Eu fiquei tão emocionado que comecei a lacrimejar.
— Isso é... Pra mim?
— É claro!
A Illyssa saiu da cama do Jonathan, veio para a minha, se sentou ao meu lado e começou a detalhar o cajado.
— Eu comprei esse porque achei que você gostasse da cor preta, digo, todos gostam de preto, né? E essa pedra azul no topo, eu confesso que achei muito bonita e ela se destaca bem de todo o contorno preto e também...
Ela parou de falar quando viu meu rosto. Eu estava sem reação, mas as lágrimas não paravam de sair dos meus olhos. Vendo isso, a Illyssa pôs a mão em meu ombro.
— Gabriel...
No momento em que eu me virei para ela, ela me abraçou forte e falou uma pequena frase.
— Feliz aniversário, Gabriel.
Quando eu ouvi isso, eu simplesmente desabei. Não consegui parar de chorar. Aquela situação toda foi muito emocionante e parecia até surreal para mim. Eu já havia passado por tantas coisas ali, mas, ainda assim, eu tive dificuldade de acreditar que eu realmente estava passando por aquela situação. A Illyssa me abraçava forte e as minhas lágrimas não paravam de cair em seu ombro. Só então, eu me dei conta do que eu sentia e do que tinha acontecido.
Pela primeira vez, eu havia ganhado um presente de aniversário; pela primeira vez, aqueles pensamentos depressivos que eu sempre tinha naquele dia do ano haviam sumido da minha mente; e, pela primeira vez, eu gostei de fazer aniversário.
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Atualizado até capítulo 257
Comments
juan
epsodio bom só que eu sou doido e achei que a Illyssa ia beijar o Gabriel kkk
2022-05-01
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