Depois de pôr todos os livros que havíamos pegado em suas devidas prateleiras, fomos perguntar à senhora recepcionista se havia alguma guilda por ali. Ela não era tão simpática, mas a biblioteca estava praticamente vazia de pessoas naquela hora. Sem falar que, pela idade que ela aparentava ter, ela devia conhecer a cidade. Nos guiamos pelo senso comum e fomos até ela.
— Olá, de novo, senhora. — Jonathan disse.
— Saberia nos informar se há alguma guilda ou algo do tipo aqui, nessa cidade?
Logo após ouvir a pergunta do meu irmão, a senhora levantou uma das sobrancelhas e eu já esperava que ela fosse nos dar uma resposta negativa. Pensei que poderíamos estar enganados sobre essa parte da Guilda e que meu irmão apenas passou vergonha ao perguntar sobre algo que não existe ali.
Porém, não foi isso o que ocorreu.
— Como assim "se há alguma guilda?". É óbvio que há. Diversas guildas, na verdade. — Novamente com um tom bem rude, a senhora respondeu e nós nos dividimos entre ficar envergonhados pela forma como ela nos respondeu e aliviados em saber que, de fato, havia guildas por ali.
— E a senhora poderia nos informar onde fica a guilda mais próxima? — Perguntei.
— Sigam para o sul do reino. — Ela apontou rapidamente para a esquerda, igual aquele comerciante de antes. — Lá fica a principal guilda do Reino de Alexandria. Estou certa de que não é muito longe daqui.
— Muito obrigado.
Nós saímos da biblioteca e começamos a seguir na direção que a mulher havia apontado. A propósito, obtemos outra informação valiosa: Alexandria não era uma cidade, era um Reino.
...**************** ...
Estávamos caminhando na direção que a senhora havia apontado e não tínhamos encontrado nenhuma guilda ainda. Eu pude ver diversos tipos de estabelecimentos e diversos tipos de pessoas, e estava ficando preocupado da senhora poder ter nos passado uma informação errada de propósito só para ter se livrado de nós. Ela realmente não era nada amigável.
— Aquela velha... ela devia estar querendo que nós sumíssemos da vista dela a qualquer custo. — Resmunguei.
— Ah, sim... pode ser.
— Eu não fui com a cara dela desde o primeiro momento em que a vi. Ela poderia ao menos ter sido amigável conosco.
— V-Verdade...
— Digo, eu sei que não nos parecemos com o restante do pessoal daqui, mas ela não precisava nos tratar daquela forma. Né, Jona... than...? — Quando olhei para o meu irmão, eu notei que ele estava com uma cara bem apreensiva e parecia olhar para os lados com um certo medo. Eu achei estranho isso, pois ele estava um pouco animado até poucos minutos atrás.
— Jonathan, tá tudo bem?
— Eu sinto que as pessoas estão nos olhando de forma meio estranha e isso tá me incomodando um pouco.
Ao olhar em volta, eu percebi que era verdade, elas estavam. Elas nos lançavam um olhar confuso e que parecia dizer "quem são esses dois garotos estranhos?". Porém, eu não estava surpreso com isso. Nós parecíamos ser os únicos no local com roupas diferentes e muito provavelmente nós éramos mesmo. Eu estava com meu moletom preto, calças e um tênis casual, já o Jonathan estava usando as mesmas peças que eu, exceto pelo moletom, ele estava com uma camisa cinza.
— Deve ser pelas nossas roupas. — Falei. — Acho que o pessoal daqui não está acostumado a ver o tipo de roupa que estamos usando.
— É, deve ser por isso.
Ele estava perceptivelmente nervoso, mas não tinha o que fazer a respeito disso naquele momento. Porém, seria uma boa ideia comprar roupas no futuro. Não sabíamos quanto tempo iríamos ficar aqui, mas eu não queria chamar nenhuma atenção nesse período.
Achar a Guilda estava sendo uma tarefa complicada, pois ela não parecia estar em lugar algum. No entanto, ao ver uma movimentação mais agitada em uma esquina próxima, eu decidi checar o que estava havendo e acabei encontrando o que procurava.
— Acho que chegamos. — Falei, aliviado.
Havíamos chegado em um grande estabelecimento com um letreiro acima da porta dizendo "Guilda dos Aventureiros de Alexandria". Havia vários grupos reunidos ao redor do local e todos pareciam ser bem intimidantes, mas, por sorte, nenhum deles estava bloqueando a entrada.
Nós estávamos prestes a entrar quando, de repente, saiu um grupo do local.
— Aí, soube do grupo que morreu para um Wyrm Retardatário semana passada? — Quem disse isso foi um cara alto e loiro que estava usando uma armadura, tinha uma espada embainhada na cintura e estava exalando arrogância.
— Sim. — Já isso foi dito por outro cara. Ele tinha cabelo preto curto, usava o que parecia ser um cajado e, como o outro, também estava exalando arrogância — Eu sabia que isso ia acontecer. Eles eram muito fracos, pediram para morrer.
— Não é?! Um grupo de rank B querendo enfrentar um Dragão é muita idiotice. Eles deviam ter fugido quando o encontraram!
— Sim. Vamos ver se depois a gente vai lá e...
O cara de cabelo preto não conseguiu terminar a frase, pois ele esbarrou em mim.
— Olha por onde anda, imbecil! — Ele disse.
Esse cara tinha um dos rostos mais presunçosos que eu já vi e eu nunca senti tanta raiva na minha vida como tinha sentido naquele momento, mas preferi ficar calado. Se eu respondesse algo, ele poderia se irritar ainda mais, e eu acho que não conseguiria fazer nada contra ele.
Após os caras irem embora, eu e meu irmão entramos na guilda.
"Nota mental: há dragões nesse mundo"
...****************...
...Jonathan...
Eu consegui ver a raiva nos olhos do meu irmão quando aquele cara o chamou de imbecil, e também vi que ele se segurou para não responder nada. Acho que ele fez bem. Se o cara se irritasse mais, talvez meu irmão fosse ficar na pior. Aquele cara parecia ser forte.
Após entrarmos na guilda, nós vimos vários grupos de aventureiros espalhados. Eles falavam bem alto e pareciam ser bem variados. Um grupo estava se gabando de ter matado um Urso Nebuloso, outro grupo estava de saída para o bar e havia ainda um grupo de garotos que pareciam ser mais novos que nós.
"Crianças podem ser aventureiras nesse mundo?", pensei.
Nós fomos cuidadosamente até a recepcionista. Ela era uma mulher de longos cabelos negros, olhos escuros e um decote um pouco chamativo, e ela também tinha uma cicatriz no pescoço. Se eu tivesse que arriscar, diria que ela já tinha sido uma aventureira.
— Bom dia. — Gabriel disse.
— Bom dia! Hmm... vocês são novos aqui?
— Ela perguntou, confusa. — Creio que nunca vi vocês por aqui.
— Sim, somos novos. — Respondi.
— Ah, sim! Bom, eu me chamo Lavigne e... creio que vocês não possuem cadastro, né?
Eu e o Gabriel olhamos um para o outro.
— Não, não possuímos. — Gabriel respondeu. — Podemos fazer um?
— Claro! Só preciso de algumas informações sobre vocês.
— Informações? — Fiquei um pouco nervoso. — Quais?
— Relaxa! É coisa simples! Primeiro de tudo: Seus nomes e suas idades.
— Meu nome é Gabriel Hoffman. Tenho quinze anos.
— Eu me chamo Jonathan Hoffman. Tenho quatorze anos.
— Hoffman? Que sobrenome diferente. — Lavigne disse enquanto anotava em um papel. — Segundo: Vocês possuem alguma experiência como aventureiros?
— Não. — Gabriel respondeu.
— Definitivamente não. — Respondi.
Após isso, a Lavigne se virou e começou a mexer em algumas coisas. Como ela estava de costas, eu não consegui ver o que ela estava fazendo. Porém, ela não demorou. Nós esperamos uns dois minutos talvez.
— Prontinho! Aqui estão seus cartões!
— Só isso? — Perguntei, surpreso. — Não precisa de mais nada?
— Não. — Ela deu um riso. — Eu falei que era coisa simples!
Tudo o que eu consegui pensar após isso foi "ainda bem", e pela cara do meu irmão, acho que ele ficou tão aliviado quanto eu. Eu peguei o meu cartão e comecei a ver como ele era. Parecia ser um cartão simples de metal escuro, mas ele vinha com algumas informações sobre mim.
NOME: Jonathan Hoffman
SEXO: Masculino
RAÇA: Humano
IDADE: 14
OCUPAÇÃO:
RANK: E
— Nossa...
Confesso que tudo aquilo estava sendo incrível para mim. Eu tinha me tornado um aventureiro, pelo visto. Porém, fiquei confuso com o fato da minha ocupação estar vazia. Eu não sabia o que exatamente queria dizer aquilo, mas decidi não perguntar nada naquele momento.
O meu irmão não pareceu ter ficado tão animado quanto eu. Ele guardou seu cartão logo após o receber.
— Vocês sabem como funcionam as coisas aqui? — Lavigne perguntou.
— Não. — Respondi, curioso. — Como funcionam?
— Ok, vamos lá.
Ela então começou a explicar como as coisas de fato funcionavam:
1 – Uso da Guilda de Aventureiros
Ao registrar-se na Guilda de Aventureiros, você terá direito a usar seus serviços.
2 – Serviços da Guilda
Aventureiros registrados podem visitar qualquer uma de nossas filiais – encontradas em todo o mundo – para pegar serviços, receber pagamentos por trabalhos concluídos, vender matérias-primas e trocar moedas.
3 – Seu Registro
Todas as informações relacionadas ao seu registro na guilda ficarão gravadas exclusivamente em seu Cartão de Aventureiro, pelo qual você é o responsável. Caso seu cartão seja destruído ou acabe sendo perdido, um novo poderá ser emitido. Entretanto, seu rank será redefinido para E, e uma taxa específica será imposta de acordo com a região.
4 – Deixando a Guilda
Os aventureiros registrados podem sair da guilda indo a qualquer filial. É permitido fazer um novo registro em outro momento, mas seu rank será redefinido para E.
5 – Condutas Proibidas
Os aventureiros são estritamente proibidos de: Violar leis locais;
Tomar qualquer ação gravemente prejudicial à reputação da guilda;
Impedir outro aventureiro de realizar suas tarefas;
Comprar ou vender serviços da guilda;
Qualquer violação desta política resultará em uma multa e na revogação de seu status de aventureiro.
6 – Violação de Contrato
Qualquer aventureiro que não concluir o trabalho que pegar será obrigado a pagar um quinto da recompensa oferecida, sendo essa uma penalidade por violação de contrato. A taxa deverá ser integralmente paga dentro de até meio ano. O não pagamento dentro do prazo resultará na revogação de seu status como aventureiro.
7 – Rank
Os aventureiros são classificados em seis níveis, começando com base em sua experiência e habilidades, iniciando no rank E e avançando até o rank S. Como regra geral, só podem realizar serviços classificados dentro de seu rank atual.
8 – Promoção / Despromoção
Ao concluir um definido número de serviços, os aventureiros podem garantir uma promoção para uma classificação superior. Se um aventureiro não se sentir pronto para partir para um rank mais alto, poderá recusar a promoção. Além disso, não concluir um determinado número de serviços consecutivamente poderá acarretar em uma despromoção para um rank inferior.
9 – Deveres e Responsabilidades
Caso as autoridades locais solicitem ajuda em casos de ataque de monstros ou coisa parecida, todos os aventureiros são obrigados a oferecer sua assistência. Além disso, espera-se que os aventureiros obedeçam a qualquer ordem emitida pela filial local da guilda em casos de emergência.
...****************...
— Vocês entenderam?
Ok, confesso que isso foi muita informação para mim e eu não tinha certeza se eu realmente tinha entendido tudo. Porém, eu sentia que eu não podia simplesmente dizer "não".
— Eu entendi. — Gabriel disse.
— Eu também. — Falei.
Eu tinha entendido o básico, então eu achava que isso ia ser o suficiente e eu não iria ter nenhum problema. O dia já estava quase virando noite e nós fomos rapidamente pegar uma missão no quadro de missões. Havia várias e de diversos ranks diferentes. Os ranks mais baixos pareciam ser apenas de serviços básicos, como procurar mascotes perdidos, ajudar na limpeza da cidade ou ajudar em algum estabelecimento. Já os ranks mais altos envolviam matar bichos dos quais eu nunca ouvi falar e eu tinha certeza de que essas missões deveriam ser bem complicadas.
— Que tal essa aqui? — Apontei para uma das missões. — É para varrer o quintal de um senhor.
— Deixa eu ver.
Gabriel se aproximou para ler o folheto.
...****************...
...E...
TAREFA: Varrer e limpar um quintal com um grande acúmulo de folhas.
RECOMPENSA: 250 moedas Haoni. DETALHES: Trabalho manual.
LOCALIZAÇÃO: Reino de Alexandria, Bloco 13, residência Smith.
DURAÇÃO: Talvez meio dia. PRAZO: Não definido.
CLIENTE: Erwin Smith.
NOTAS: Meu quintal está cheio de folhas e eu gostaria de alguém para limpá-lo para mim, já que não posso fazer isso.
...****************...
— Ele está dando uma boa recompensa. — Gabriel disse.
— Não é?
Nós havíamos perguntado a Lavigne quanto custava hospedagem e comida pelo local e ela disse que não era muito caro, ela até nos recomendou um lugar que alugava quartos por um bom preço e não ficava longe da guilda. Com 250 moedas nós poderíamos comer e alugar um quarto por dois ou três dias talvez
— Esse deve ser um senhor bem caridoso. — Falei. — Acho que essa é nossa melhor opção por hoje.
— É, eu também acho...
Ele continuou olhando o folheto da missão com a mão no queixo. Algo estava o intrigando.
— O que foi? — Perguntei. — Algo errado?
— Não. É só que... olha o nome da moeda.
Eu olhei para o nome por alguns segundos, então olhei de volta para o Gabriel e disse:
— Acho que estamos na Terra de Haoni, pelo visto.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 257
Comments
Jozse Da Shilva
Será? Não, não pode ser, né?
2023-03-29
3
Jozse Da Shilva
Buguei
2023-03-29
1
Adriano Bernardo Domingos
interessante estou gostango
2022-09-12
2