Havíamos chegado ao nosso terceiro dia neste mundo e posso dizer que já nos sentíamos mais confortáveis com ele. Talvez o fato de sermos tão familiarizados com jogos, animes e séries fez com que não tivéssemos tanta dificuldade para nos adaptarmos e sabermos como as coisas funcionam por aqui.
Eu ainda não sabia muito sobre o local onde estávamos, mas tinha as principais informações.
Estávamos atualmente no Reino de Alexandria. Era um local com uma bela arquitetura, parecia ter um tamanho gigantesco e era extremamente movimentado por pessoas de diversas espécies. Além de humanos, nós conseguimos ver elfos, anões e homens-fera andando por todos os lados.
Os elfos foram fáceis de identificar. Eles possuíam aquela famosa orelha bem mais pontiaguda e todos eles possuíam cabelo cor de prata. Eu não sabia se isso era realmente um padrão de toda a raça, mas todos os elfos que nós havíamos visto até aquele momento tinham o cabelo dessa cor.
Os anões eram basicamente gente como a gente, porém eles eram um pouco mais baixos que o comum. A estética deles era exatamente igual à dos anões de RPG e a dos anões descritos na mitologia nórdica: estatura baixa, corpo largo e bem barbudos. Para completar o pacote, só faltava eles serem mestres na arte da mineração e da forja.
Os homens-fera também não foram difíceis de identificar porque, bem, eles possuíam orelhas de animais em suas cabeças e caudas em seus traseiros. A maior parte deles parecia ser metade gato ou lobo, mas eu não me surpreenderia se a variedade de suas raças fosse bem maior que isso.
Enfim, a diversidade de espécies era grande no Reino de Alexandria, contudo, a maioria dos seres que vagavam por aqui eram humanos e eu agradeci imensamente por isso. Se nós tivéssemos sido teletransportados para um lugar habitado principalmente por não-humanos, a situação poderia se tornar mais complicada talvez.
Após a conversa que havíamos tido no dia anterior, eu e o Jonathan decidimos visitar uma loja de armas, então saímos à procura de uma logo depois de tomar café da manhã.
— Vai ser muito louco se nós formos mesmo os protagonistas daquele livro, né?
Ao contrário de mim, o Jonathan não pareceu ter se assustado tanto com a possibilidade de nós sermos os protagonistas do livro que nos trouxe para cá. Na verdade, ele parecia até estar um pouco animado com isso.
— Não é como se eu não quisesse voltar para casa, mas eu sinto que aqui a gente pode realmente ter a chance de ser alguém.
De fato. Eu também sentia um pouco disso. Para ser sincero, depois que eu descobri que podia usar magia aqui, uma parte de mim ficou um pouco empolgada com as portas que ela talvez pudesse abrir para mim nesse mundo. Como o Jonathan disse, eu poderia ter a chance de finalmente ser alguém. Mas, mesmo assim, a parte mais racional de mim dizia que eu tinha que descobrir como voltar para casa, pois, querendo ou não, eu pertencia a outro mundo.
— Vamos pensar nisso depois. — Falei. — Temos que encontrar a loja de armas, certo?
— Sim, verdade.
Eu sabia que, para o meu irmão, voltar para casa devia não ser uma prioridade tão grande assim. Obviamente, eu havia notado toda a euforia dele com esse novo mundo e parecia que ficar aqui não era uma ideia tão ruim assim para ele. No entanto, nós nunca devíamos estar ali para começo de conversa, então devíamos voltar, certo? Talvez, até a nossa presença ali devia ser algo problemático. Digo, supondo que nós ficássemos ali, poderíamos causar algum tipo de desequilíbrio na matrix daquele mundo... ou eu estou viajando demais? Bem, eu já vi diversos filmes onde coisas assim acontecem.
De qualquer forma, irei pensar nisso depois. Tudo que tínhamos que fazer agora era achar a loja de armas.
— Acho que é ali. — Jonathan disse apontando para um estabelecimento que possuía uma grande placa com duas espadas cruzadas acima da porta.
— Vamos lá ver.
Assim que entramos, o Jonathan ficou abismado com a diversidade de armas que viu.
— Uau... isso é incrível!
Havia vários tipos de armas, desde espadas e arcos e flechas até adagas e clavas. Todas as armas pareciam ser únicas e tinham até características bem diferentes umas das outras. Havia espadas mais longas e espadas mais curtas, espadas retas e curvas, espadas de dois gumes e de apenas um gume. Haviam arcos feitos de diferentes materiais e havia diferentes tipos de flechas também. Havia clavas de diferentes tamanhos e proporções, e o mesmo se aplicava as adagas.
— Posso ajudar? — Um senhor no balcão disse para nós. Ele não parecia ser tão amigável, mas seu tom ainda soou angelical se comparado a recepcionista da biblioteca.
— Sim. Eu queria saber quanto custa aquela espada ali. — Jonathan apontou para uma espada que estava pendurada na parede atrás do senhor.
— Você não vai conseguir pagar por ela, garoto. Esquece.
— Mas você não poderia nem nos dizer o preço?
— Pff... ela custa sete mil moedas Haoni.
De fato, nós não tínhamos como pagar por ela. Ela estava muito, mas muito fora do nosso orçamento. Teríamos que varrer muitos quintais e colher muitas maçãs ainda para ao menos tentar chegar a essa quantia, mas, até lá, já teríamos morrido nesse processo talvez.
— E qual é a arma mais barata que você tem aqui? — Perguntei.
— Isso. — Ele tirou uma faca bem pequena de baixo do balcão. — Custa quatrocentos moedas Haoni.
Eu não sabia qual era a média de preço local, mas, ao averiguar a faca, tive certeza que ela não passava nem perto de custar 400 moedas Haoni. Ela tinha um aspecto velho e sujo, e sua lâmina parecia estar cega em alguns pontos. Devia ser uma arma inútil.
— Não temos essa quantia também.
— Imaginei... olha, se vocês não podem comprar nada, por favor, não tomem meu tempo.
— Entendido. Obrigado por nos atender.
— De nada.
Nós saímos da loja.
Eu já esperava que as coisas por ali não fossem ser baratas, por isso não me surpreendi em nada ao ver os preços e ao ver que não podemos pagar. Contudo, o Jonathan pareceu meio decepcionado. Talvez ele tenha mantido suas expectativas altas e foi pego de surpresa. Ele pareceu bem cabisbaixo.
— Cara, aquela espada era linda. Eu já conseguia me ver usando ela. — Ele balançou suas mãos juntas, simulando golpes de espada.
— Relaxa! Quem sabe um dia você compra ela. — Tentei animá-lo.
— Tomara. Mas é que parece tão injusto você poder usar vários feitiços e eu não. Achei que aquela espada poderia deixar as coisas mais equilibradas entre nós, sabe?
— Eu imaginei. Mas, ei, até nós descobrirmos como voltar para casa, creio que você vai ter bastante tempo para comprar uma espada para você.
— Ah, sim... até nós voltarmos para casa... tem razão.
Ele pareceu ter desconversado, talvez estivesse mais triste do que eu imaginava. Contudo, eu tive uma pequena noção do que o meu irmão quis dizer com "deixar as coisas mais equilibradas entre nós". Estava claro que havia um grande vão entre nós com eu podendo usar vários feitiços e ele, apenas um. Eu não sei a razão disso acontecer, mas, bem, acontece.
— Enfim, vamos para a guilda. — Falei. — Talvez tenha alguma missão nova que possamos pegar.
— Tudo bem.
Seguimos em direção a parte sul do reino novamente.
Chegando na guilda, nós fomos até o quadro de missões. Estava um pouco difícil de se movimentar lá dentro, pois o local estava meio cheio. Havia vários grupos e todos estavam bem agitados. Nós tomamos bastante cuidado para não esbarrar em ninguém e tentar chamar o mínimo de atenção possível, porém é quase impossível se camuflar entre as pessoas quando você e seu irmão mais novo são os únicos com roupas totalmente diferentes de todos e diferentes do que todos já viram também.
Estávamos travando uma pequena batalha para chegar ao quadro quando, de repente, uma garota passou correndo e esbarrou no meu irmão.
— Desculpa! — Ela disse. Após isso, ela se virou de novo e voltou a correr para fora da guilda.
Olhando de primeira, ela parecia ser uma garota normal; tinha cabelos loiros, protetor de peito, uma roupa cinza e um arco e flecha. Entretanto, ela tinha alguns traços mais incomuns. Havia uma espécie de sombra meio alaranjada em volta dos seus olhos, como se fosse quase algum tipo de maquiagem, e ela tinha presas que eram visíveis mesmo com sua boca fechada. Porém, o que mais me chamou a atenção foi que no meio de seus cabelos loiros havia dois pequenos chifres.
Nada disso era feio, mas, como eu nunca vi ninguém com essas características antes, achei estranho e curioso.
— Ela deve estar com pressa. — Falei.
— É, verdade... — Jonathan continuou olhando a garota correr até sair da Guilda. Ele parecia intrigado.
— O que foi?
— Acho que... nada, esquece.
Eu sabia que alguma coisa naquela garota havia chamado a sua atenção, talvez ele estranhou sua aparência mais exótica, mas apenas resolveu dar de ombros no final.
Então, finalmente passamos por todos e chegamos ao quadro de missões. Haviam missões bem variadas, desde varrer uma calçada até matar um Drake Dourado. Eu não sabia o que era um Drake, mas, ao olhar a descrição do pedido, tive certeza que devia ser um bicho extremamente perigoso. A missão era de rank S e pagava trinta e cinco mil moedas Haoni.
— Vamos pegar essa. — Jonathan apontou para um folheto. — É para achar um gato perdido nos arredores da parte leste do reino.
— Hmm, é um pouco fora da área principal do reino, e parece ser meio remoto também.
— Vai tentar praticar magia de novo?
— Não, hoje não.
Nós retiramos o folheto e seguimos até a parte leste do reino.
...****************...
Não havia muitas casas naquela parte do reino também e tinha um enorme campo verde. O cenário todo lembrava uma grande área rural e aos poucos eu percebi que o Reino de Alexandria era cercado por vários lugares assim. Eu não sabia se achar um animal perdido por ali iria se uma tarefa tão simples quanto parecia, mas alguém tinha que tentar fazer isso e nós precisávamos de dinheiro. A propósito, o nome do gato era Milorde e, segundo a descrição, ele era todo preto.
— Ok. Vai pela esquerda e eu vou pela direita. Vamos voltar para cá em trinta minutos.
— Tudo bem! — Jonathan se direcionou para a estrada da esquerda e começou a gritar. — Milorde! Cadê você, Gatinho? Tenho alguns peixes aqui comigo, Milorde!
"Que cena ridícula", pensei.
Comecei a ir pela direita, mas decidi não gritar. Eu estava com um pouco de vergonha de fazer isso e eu sabia que gatos eram animais bem egocêntricos que dificilmente atendiam quando chamados, principalmente quando era um desconhecido que estava chamando.
...****************...
Milorde parecia não estar em lugar algum e eu já estava perdendo as esperanças de que iria encontrá- lo. Um gato não é um animal tão grande e tão notável, porém, eu achava que um gato completamente preto iria se destacar facilmente do cenário cheio de cores vivas que havia ao meu redor. Acho que me enganei.
— Esse gato já deve estar bem longe daqui. Espero que o Jonathan tenha mais sorte que eu na busca.
Eu já me preparava para desistir até que vi uma cena inusitada quando cheguei perto de uma pequena colina. Havia uma garota perto de uma árvore e ela estava em pé e com as mãos estendidas bem abertas.
— Ei, ela tá na mesma posição que eu estava ontem.
Aquela cena despertou a minha curiosidade e eu fui chegando mais perto, até que a ouvi falar:
— Bola de fogo!
"Ela tá praticando magia?", pensei.
— Bola de fogo! — Ela tentou novamente. — Aff... por que eu não estou conseguindo?
De fato, ela estava praticando magia. Ou melhor, tentando praticar. Ela não conseguia lançar uma simples Bola de Fogo e, vendo que ela estava com dificuldades, decidi oferecer uma mão amiga.
— Precisa de ajuda?
Ela virou seu rosto para e sua expressão não era nada amigável. Me senti até um pouco intimidado.
— Não. — Seu tom, grosseiro. Eu pude sentir sua aura quase me expulsando dali. Então ela se virou para frente de novo e voltou a tentar. — Bola de fogo!
Ela realmente falou como se não me quisesse ali e, a princípio, eu pensei em ir embora após ouvir sua resposta. Porém, uma ideia melhor me veio em mente. Eu me aproximei, cheguei do lado dela, estendi apenas uma mão e...
— Bola de fogo.
Eu disparei o feitiço. Minha bola de fogo viajou uma boa distância até se apagar em pleno ar.
A garota, perplexa, se virou para mim.
— Como você fez isso?
— É segredo.
— Por favor, me diga.
— Por que eu faria isso?
Ela cerrou os punhos e os dentes. Eu percebi que tinha a deixado bem irritada e achei que ela iria começar a me xingar de várias coisas diferentes, mas, então, ela soltou um suspiro e respondeu:
— Olha, eu quero muito aprender esse feitiço.
— Agora ela soou surpreendentemente calma. — Não custaria nada você me ajudar, creio eu.
— Mas você tinha dito que não precisava de ajuda.
— É, mas... agora eu preciso... — Ela murmurou com o rosto corado. — Você vai me ajudar ou não?
Eu comecei a pensar no caso dela. Ela foi bem grosseira comigo no início, mas, ao ver que eu conseguia fazer o que ela estava tendo tanta dificuldade para conseguir, ela mudou e se tornou um ser bem mais tranquilo.
Acho que demonstrar alguma benevolência com as pessoas dali não deve fazer mal.
— Ok, vou tentar te ajudar. — Respondi.
Após isso, eu dei algumas dicas genéricas como "faça isso", "fique nessa posição" e "a curvatura do seu corpo e a sua respiração podem ter uma influência direta no seu fluxo de mana quando você está começando a usar magia, então você tem que ser manter ereta, calma e concentrada". Eu apenas falei coisas que eu havia visto no livro de magia e, na verdade, algumas das dicas eu apenas inventei. Eu queria ajudar, mas todo o meu conhecimento sobre magia vinha de um livro totalmente raso. Contudo, no final das contas, ela conseguiu lançar o feitiço.
— Uhull!!! Eu consegui! — Ela começou a pular de alegria. — Muito obrigada, de verdade!
— Não há de quê!
Ela ficou extremamente feliz e eu fiquei completamente encantado por aquele rosto cheio de euforia. Era um rosto bem diferente da cara fechada que eu havia encontrado quando cheguei ali. A propósito, ela era uma garota extremamente bela; tinha longos cabelos negros, estava usando um vestido preto e um colar dourado.
Mas, acima de tudo, ela tinha um corpo legal, sabe? Talvez ela estivesse no mesmo nível da Jessica.
— Você poderia me dizer seu nome?
— Me chamo Gabriel. Gabriel Hoffman.
— Hoffman? Que sobrenome diferente.
Já era a segunda pessoa a dizer isso.
— Bom, prazer, Gabriel! Eu me chamo Illyssa Lancaster. — Nesse momento, ela ergueu um pouco as pontas do seu vestido e dobrou um pouco seus joelhos.
Eu estranhei isso. Foi uma saudação típica de gente nobre ou da realeza e, por um momento, me lembrei dela sendo realizada por princesas em alguns filmes que eu vi.
De todo modo, eu estendi minha mão em seguida.
— É um prazer te conhecer, Illyssa!
Ela encarou minha mão parecendo meio confusa.
— Não vai apertar? — Perguntei. Então ela piscou várias vezes.
— Ah, s-sim... claro. — Ela apertou minha mão de forma desajeitada e com pouquíssima força, foi como se estivesse sendo delicada demais. — Dessa forma?
— É, pode ser.
Algo me dizia que essa era a primeira vez que ela apertava mão de alguém na vida.
Após as apresentações, eu comecei a tentar puxar assunto. Ela parecia estar em um estado bem mais amigável e eu achei que seria interessante conhecer pessoas daquele mundo de fato. Quem sabe eu não estava prestes a fazer a minha primeira amiga por aqui?
...**************** ...
A Illyssa se mostrou ser uma pessoa um pouco diferente do que eu imaginava. Apesar de parecer ser um pouco mimada, ela era uma garota meiga, gentil e muito bem-educada. Nós parecíamos realmente pertencer a mundos diferentes, se é que me entendem. Enquanto eu era um completo zé-ninguém, ela tinha uma aura de garota importante e parecia vir de uma boa família. Eu sentia que ela tinha uma vida totalmente oposta à minha.
Nós conversamos por um bom tempo e eu até teria conversado mais, mas eu lembrei que deixei o meu irmão sozinho. Eu o havia mandado esperar por mim após trinta minutos, então a chance de ele estar em pé me esperando era alta.
Eu me levantei e tirei a poeira da roupa.
— Você já vai?
— Sim. Foi mal, mas tenho que ir embora agora.
Ela pareceu ter se entristecido com isso, mas logo sorriu.
— Ah, sem problemas! Espero que nos encontremos de novo!
— Eu também! Tchau!
Eu saí, mas eu realmente tinha vontade de poder encontrar com a Illyssa de novo. Eu sabia que as chances disso ocorrer eram baixas, mas, de qualquer forma, o tempo que eu conversei com ela foi precioso para mim.
Voltei para o ponto de reencontro com meu irmão e o vi lá em pé segurando um gato preto.
— Você demorou, hein? — Ele disse.
— Foi mal, surgiu um imprevisto.
— Certo. Agora, olha! — Ele levantou o gato.
— Achei o Milorde!
— Boa! Vamos voltar.
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Atualizado até capítulo 257
Comments
alex200_br
realmente até conseguirem voltar pra casa vai da pra comprar uma espada....se é que tem como voltar já que eles vieram pelo livro e quando chegaram tavam sem ele
2023-04-28
0
nibinubts Júlia
pra q esconder coisas do seu brother?
2023-04-28
1
Adriano Bernardo Domingos
entendi
2022-09-12
1