Depois de eu ter conversado com a Illyssa e ela ter matado o Urso Nebuloso naquela caverna, ficou visivelmente claro que o humor dela havia voltado ao normal. Por mais que estivéssemos no meio da noite, ela estava bem animada enquanto estávamos voltando para o acampamento e talvez estivesse até se segurando para não ir saltitando de alegria pelo caminho.
Quando chegamos às barracas do acampamento, vimos a Joni lá, em pé, e ela parecia estar pronta para ir atrás de nós, mas desistiu quando nos viu saindo de dentro da floresta. Ela exigiu algumas explicações, mas, como eu estava morto de sono e só queria voltar a dormir, dei apenas um breve resumo do que havia acontecido.
No dia seguinte, nós levantamos bem cedo para voltar para a estrada e a Illyssa não parava de falar sobre ela ter matado um urso na noite anterior. Aparentemente, aquele não foi só o primeiro Urso Nebuloso que ela matou, mas também o primeiro que ela viu em sua vida.
— Você tinha que ter visto, Joni! O urso era enorme!
Ela estava muito, muito animada.
— O Gabriel o empurrou para debaixo das estalactites e eu as fiz cair em cima dele!
Nós já estávamos na estrada havia um bom tempo e ela continuou falando.
— Aquele urso não teve nenhuma chance contra nós!
Ela falou tanto que eu até comecei a sentir um pouquinho de saudade de quando ela estava calada, mas essa saudade não durou muito. Eu preferia muito mais a Illyssa feliz e tagarela do que a Illyssa calada e depressiva!
Enfim, nós estávamos praticamente no meio do caminho de volta para Alexandria. Nós iríamos chegar em dois dias, se tudo seguisse corretamente. Como sempre, eu estava apreciando a bela paisagem que havia a minha volta.
— Por aqui é tudo tão pacífico. — Falei.
— Concordo. — Joni disse. — A propósito parece que você conseguiu trazer a princesa de volta ao normal de fato.
— É. Eu consegui sim!
A Joni estava claramente cansada de ouvir a Illyssa tagarelar sem parar, mas eu sabia que ela também estava muito feliz pela princesa. De vez em quando eu ainda olhava para dentro da carruagem para ver como a Illyssa estava, só por precaução, e, para a minha tranquilidade, ela estava com um rosto bem mais alegre e parecia bem menos tensa. Eu estava com um pequeno sorriso no meu rosto, pois ver ela daquele jeito me deixava bem feliz mesmo.
Acho que o fato da Illyssa ser uma garota tão animada e empolgada fez com que o estado depressivo dela me afetasse de forma maior. A gente espera que pessoas animadas sempre vão ser animadas, mas, no final, todos tem os seus gatilhos. Né?
— Joni, você lembrou de convidar o Alexander para a festa de aniversário da Illyssa? — Perguntei.
— Sim, mas... Se o Alexander for, ele provavelmente vai levar o Thomas junto. Será que isso não vai ser um problema?
Eu comecei a pensar em como seria o desenrolar da situação caso o Thomas aparecesse na festa da Illyssa. Apesar do humor dela ter melhorado, eu não sei se ela já tinha de fato superado aquilo tudo e eu não queria ver ela de novo naquele estado. Eu tive uma enorme preocupação e fiz um grande esforço para ajudar ela, então não queria a ver desmoronando de novo.
— Hmm, isso é algo a se pensar. — Falei. — Eu não gostaria que a Illyssa encontrasse com ele e voltasse a ficar do jeito que estava ontem.
— Será que não seria melhor retirar o convite?
— Eu não sei. Talvez poderíamos~
— Não se preocupem. — Illyssa disse, de repente. — Eu não ligo se o Thomas vai estar na minha festa ou não.
Nos viramos para ela dentro da carruagem. Ela estava séria e com os seus braços cruzados, mas passava uma imagem de confiança.
— Você tem certeza? — Perguntei, receoso.
— Sim. Afinal, é como você disse ontem, eu não tenho que dar ouvidos ao que um idiota como ele diz.
Eu não pude deixar de dar um sorriso depois de ouvi-la dizendo isso e me virei para frente novamente com um pequeno sorriso no rosto.
— Não se preocupe, Joni. Acho que vai ficar tudo bem!
E então, nós continuamos nosso caminho até o fim daquele dia.
...****************...
Quando a noite chegou, fizemos aquele processo todo novamente: paramos perto de uma árvore e a Joni prendeu os cavalos. Enquanto eu estava montando nossas barracas, pensei em perguntar se a Illyssa queria ir buscar madeira, porém não foi preciso.
— Eu pego a madeira!
Illyssa saiu andando para buscar madeira. Depois que a Joni terminou de prender os cavalos, ela veio até mim.
— Eu não sei o que você falou para a princesa, mas parece ter funcionado até demais. Eu acho que ela está até mais animada do que antes.
— Pois é, eu também notei isso. Mas se bem que ela matou aquele urso também, né?
— Bem, é verdade.
Eu não sabia o que havia tido mais efeito na Illyssa, as minhas palavras ou ela ter matado um urso. Porém, a junção dos dois com certeza teve um resultado melhor que o esperado.
Em poucos minutos, a Illyssa voltou e ela trazia muita madeira.
— Uau... — Surpresa, Joni disse. — Você pegou bastante.
— S-Sim. Eu usei um feitiço de vento para tentar quebrar a árvore, mas acho que acabei botando poder demais...
— Não têm problema! — Falei. — Vamos guardar um pouco para poder usar depois.
Eu juntei uma parte da madeira em um pequeno monte e guardei a outra parte. Após terminar, eu me virei para a Illyssa.
— Você quer acender?
— Sim!
Ela acendeu a fogueira com o feitiço Bola de Fogo. A magia realmente tornava tudo tão mais simples.
Depois de comer, a Joni nos deu boa noite e se retirou. Ela sempre era a primeira a dormir. A Illyssa e eu ficamos ali sozinhos.
— Seu pai vai ficar surpreso quando souber que você matou um urso. — Falei.
— Sim. É capaz até dele desmaiar quando souber.
— Mas acho que ele vai ficar feliz também.
— Quem sabe... Mas eu espero que isso sirva de motivação para ele me dar mais liberdade, porque, agora, eu quero ir em busca de mais desafios.
— Relaxa! Eu tenho certeza que ele vai ser mais permissivo daqui em diante.
— Tomara.
Ela estava muito mais confiante em si mesma e eu sabia que ir para mais missões iria fazer bem a ela. Eu entendia um pouco o excesso de preocupação que Lorde William tinha em relação à Illyssa, mas até ele ia ter que perceber em algum momento que ela ficar só trancada naquele castelo e não poder ir a nenhum lugar além de Alexandria não ia servir de nada.
— O céu daqui é bem bonito, não é? — Falei enquanto me deitava no gramado.
— É... é sim...
Ao olhar para ela, eu notei que ela estava olhando para mim de uma forma peculiar. Seu rosto parecia estar meio hipnotizado com o que via.
— Hã? O que foi? — Perguntei confuso. — Tem algo no meu rosto?
— Não, não! — Ela se levantou rapidamente. — Não há nada no seu rosto! Eu acho que vou dormir. Boa noite!
— Boa noite, então.
Ela saiu tão rápido que eu acho que nem me ouviu a desejar boa noite.
— É. Acho você realmente voltou ao normal, princesa.
Eu fiquei lá apreciando o céu por mais alguns momentos até decidir ir me deitar também e, naquela noite, eu não tive dificuldade para pegar no sono. Eu apaguei quase que instantaneamente.
...****************...
Dois dias se passaram e nós já estávamos nos aproximando do Reino de Alexandria. Eu já reconhecia as casas, os bosques, as colinas e praticamente tudo que fazia parte daquele ambiente que ficava perto do reino.
— Ah, como é bom voltar para casa. — Illyssa disse.
Eu posso dizer que compartilhei um pouco do sentimento dela. Por mais que Alexandria não fosse de fato a minha casa, eu já meio que me sentia em casa lá. Mais ainda, eu sentia até que eu pertencia aquele lugar.
— Gabriel, será que seu irmão já voltou da missão dele?
— Eu espero que sim. Ele não tinha voltado quando nós saímos. Se ele ainda estiver fora, eu vou ficar bem preocupado.
Por mais que o Jonathan passasse dias fora, já fazia mais de uma semana desde que ele saiu, mas ele provavelmente não tinha ido muito longe e eu ia encontrar ele são e salvo no palácio. Pelo menos era isso que eu esperava.
— Não se preocupe. — Joni disse com uma voz tranquila. — Estou certa de que ele está bem.
Nós entramos no Reino e seguimos direto para o castelo. Chegando lá, a Joni nos pediu para ir na frente enquanto ela amarrava os cavalos. Nós entramos no palácio e encontramos com o Afonso saindo para fazer a guarda do entorno do castelo e perguntamos a ele onde estava Lorde William. Ele nos informou que o Rei estava em sua sala e, quando eu e a Illyssa chegamos na sala dele, ela não demorou para falar.
— Papai, você não vai acreditar! Eu matei um Urso Nebuloso!
— O quê?! — Lorde William se espantou. — Como assim?
— Eu e o Gabriel estávamos em uma caverna quando um urso apareceu!
Lorde William estava com os olhos arregalados e parecia não estar acreditando no que estava ouvindo, mas eu estava atrás da Illyssa e apenas confirmei com a cabeça tudo o que ela disse.
— O Gabriel o empurrou para longe e eu o matei!
— Isso tudo é verdade, Gabriel? — Lorde William me perguntou.
— Sim, senhor. Sua filha é uma exímia matadora de Ursos Nebulosos.
Lorde William não parecia crer no que ouvia, mas logo o espanto enorme em seu rosto se desfez e ele deu um suspiro.
— Devo dizer que estou surpreso de ouvir tudo isso... Mas também estou feliz.
Ele se tranquilizou e realmente pareceu contente em ouvir a história da Illyssa. Ele parecia finalmente ter descoberto do que a sua filha era capaz de fazer. Eu o informei que os documentos já estavam com Alexander e ele me agradeceu. Após isso, eu me retirei, mas a Illyssa ficou na sala para continuar falando sobre ela ter matado um urso.
Eu dei uma volta pelo palácio e vi todos que sempre via por lá, menos o Jonathan. Decidi ir até a Silvia.
— Bom dia, Silvia.
— Bom dia, senhor Gabriel. Como foi a viagem?
— Cansativa, porém tranquila.
— Que bom! Fico feliz em saber disso.
Nossa querida Silvia sendo um amor de pessoa como sempre.
— Silvia, por um acaso você viu o meu irmão?
— Hmm... — Ela pôs a sua mão em seu queixo e começou a pensar. — Agora que o senhor falou, já tem um tempo que não vejo o senhor Jonathan.
— Como assim?
— Creio que a última vez que o vi foi no dia anterior ao seu aniversário.
Depois de escutar isso, eu não consegui fazer outra coisa a não ser quase surtar de preocupação.
— Obrigado, Silvia.
O meu irmão ainda estava fora e várias situações horríveis pelas quais ele poderia estar passando começaram a vir na minha cabeça. Ele poderia estar ferido. Talvez a missão tivesse sido mais perigosa do que o comum e algo deu muito errado. Eu sabia que ele poderia acabar mal com essa coisa de aventureiro em algum momento e era isso que eu acreditava que tinha ocorrido.
Eu comecei a me dirigir até a saída do palácio e a única coisa que me passava pela cabeça era que eu tinha que encontrar o Jonathan. Eu estava com meu cajado na mão e ia sair para encontrá-lo, só que quando eu estava próximo de sair, vi a Joni chegando. Percebendo a minha agitação, ela decidiu me questionar.
— Gabriel, aonde você vai? — Ela perguntou.
— Vou atrás do Jonathan.
— Ele ainda não chegou?
— Não. Eu tenho que ir atrás dele.
Eu estava começando a ficar apavorado. Se alguma coisa tivesse acontecido com meu irmão, eu não sabia o que eu ia fazer. Eu não iria saber lidar com isso nem no nosso antigo mundo.
— Gabriel, fica calmo. O Jonathan sabe se virar. Tenho certeza que cedo ou tarde ele vai aparecer.
— Já faz mais de uma semana que ele está fora. Ele não costuma ficar tanto tempo assim fora.
— Seu irmão é um aventureiro e aventureiros passam por imprevistos. Além do mais, você nem sabe onde ele está.
— Eu não ligo. Eu vou sair perguntando para todos até achar ele.
A Joni me segurou e nós começamos a ter uma pequena discussão ali mesmo.
— Joni, me solta!
— Não. Não vou permitir que você saia.
Eu comecei a ficar com tanta raiva de toda a situação que pensei sériamente em apontar meu cajado na direção da Joni, mas, então, ela me soltou.
— Eu não falei que ele ia aparecer? Olha atrás de você, Gabriel.
Quando eu olhei, o Jonathan estava lá, entrando no palácio.
— Oi. — Ele disse.
Eu comecei a ir em sua direção com bastante raiva.
— Onde você estava?!
— C-Calma. Eu vou explicar.
— É bom mesmo.
Eu estava extremamente preocupado com meu irmão e ele apareceu do nada. Vamos ver qual vai ser a explicação dele para tudo isso...
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Atualizado até capítulo 257
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