Algumas semanas se passaram desde que eu havia me juntado a Elizabeth. Apesar de nosso primeiro encontro ter sido turbulento, percebemos que trabalhávamos bem como uma dupla e a personalidade horrível dela foi melhorando aos poucos. Acho que, na verdade, tive apenas uma má impressão de quem ela era realmente. Nós fizemos várias missões juntos, algumas mais fáceis e outras, um pouco mais difíceis; Porém, a Elizabeth se demonstrou ser uma pessoa extremamente amigável e bem diferente de quando conversamos, ou melhor, brigamos da primeira vez.
Nós eliminamos um bando de Lagartos da Floresta que estavam chegando muito perto das casas e começaram a atacar os animais de uma fazenda que havia por perto. Eles costumavam se reproduzir em excesso naquela época do ano, então, de vez em quando, serviços como esses costumavam surgir.
Nós matamos alguns Javalis Albinos e fornecemos a sua carne para um açougue que havia em Alexandria. A carne desse Javali era bastante consumida por aqui e diversos pratos poderiam ser feitos com ela. Eu já provei alguns e percebi que o gosto era muito parecido com o da carne de porco, porém era um pouco mais salgado.
Nós também já até matamos outro Urso Nebuloso. A pele desse animal era bastante requisitada por aqui e poderia ser vendida por um preço bem bacana. Ela era usada para diversos tipos de coisas, como confecção de roupas, decorações para casas e também poderia ser exportada para outros lugares de Galonia.
Após fazer tantas missões com a Elizabeth, nosso entrosamento foi crescendo cada vez mais e nós éramos um par perfeito um para o outro, na minha opinião. Nós costumávamos usar uma tática em que eu atacava pelo chão com minha espada enquanto ela ficava nas árvores me dando cobertura com seu arco. Como ela era uma arqueira, a especialidade dela era cobrir a retaguarda e oferecer suporte a média distância, e ela fazia isso com perfeição. Sempre que eu deixava algo escapar, ela não demorava para o atingir com uma flecha. A mira dela era surreal. A propósito, eu fiquei impressionado em ver como ela tinha facilidade para subir em árvores. Ela se agarrava nos galhos e rapidamente se camuflava entre as folhas.
Nós havíamos combinado de fazer outra missão logo pela manhã novamente, então, como de costume, eu acordei, me arrumei, tomei café da manhã e fui direto para a Guilda. Chegando lá, eu dei uma olhada em volta para procurar a minha parceira.
— Parece que Elizabeth ainda não chegou.
A Guilda estava bem calma e eu conseguia me movimentar com bastante liberdade lá dentro. Eu me dirigi até o quadro de missões para ver quais tinham e quais nós poderíamos pegar. O quadro não estava tão cheio, mas não estava tão vazio também.
— Matar cinco Lagartos da Floresta? Nós já fizemos isso, então essa deve ser moleza.
Essa missão era de rank D e, agora, eu poderia aceitá-la sem ter que implorar para a Lavigne porque, bem, hmm, eu subi de rank! É isso aí, depois de fazer tantos serviços eu finalmente subi o meu rank e, agora, era um aventureiro de rank D. Dito isso, o serviço parecia ser bem simples e poderia ser concluído rapidamente por nós. Eu estava prestes a pegar o folheto, mas recusei quando vi quanto era a recompensa.
— Apenas quinhentas moedas Haoni?! Não, obrigado.
Como eu havia começado a fazer missões mais difíceis desde que me juntei à Elizabeth, eu também comecei a receber mais por elas e acabei me acostumando com isso, então 500 moedas Haoni já era uma quantia um pouco baixa para mim. Não quero parecer arrogante, mas eu sabia do que eu era capaz e de quanto eu poderia ganhar.
— Hmm, vejamos...
Eu continuei procurando por alguma que julgaria ser interessante, até que uma mão encostou em meu ombro.
— AAAH!
Tomei um baita susto e, quando olhei para trás, vi a Elizabeth se acabando de rir.
— Pelos Deuses. Hahahahaha! Você se assusta muito fácil para um aventureiro.
— Eu estava aqui concentrado e do nada você encosta em mim. Óbvio que eu ia me assustar.
— Ok, ok... e aí, achou alguma missão interessante?
— Ainda não, estou procurando há um tempo, mas parece que só há missões muito fáceis e com recompensa extremamente baixa.
— Deixa eu tentar dar uma olhada.
Ela então começou a procurar alguma missão junto comigo e logo apontou para uma.
— Que tal essa? — Ela perguntou.
— Eu sinceramente não sei se nós conseguiremos dar conta disso.
Era uma missão pedindo para abater uma manada de Búfalos Lanosos. Não era incomum ver esse tipo de missão na guilda, ela geralmente servia para fazer um controle populacional dos búfalos. Se eles se reproduzissem em excesso, poderiam invadir plantações e fazendas, e, dependendo do tamanho da manada, poderiam acabar com uma grande plantação em poucas horas. Eu já ouvi sobre casos onde fazendeiros perderam toda sua plantação quando alguns búfalos a invadiram.
— Ah, vamos lá! Não deve ser tão complicado. Pense nisso como um novo desafio!
Eu comecei a pensar se valia a pena. A princípio, os Búfalos Lanosos eram animais de rank D e não eram animais agressivos se você não mexesse com eles. Mas, no nosso caso, nós íamos atacá-los diretamente e isso poderia ser perigoso visto que são animais grandes e robustos. Além do mais, apesar da Elizabeth ser uma aventureira de rank B e parecer já estar familiarizada com os Búfalos Lanosos, eu nunca enfrentei nenhum deles e minha inexperiência poderia acabar nos atrapalhando bastante.
— Aliás, a recompensa é muito boa. — Ela apontou para o final do folheto.
Eu olhei para a recompensa e vi que era bastante boa. Três mil moedas Haoni.
— Uau... Isso parece recompensa de missão de rank C, não? — Desconfiado, eu perguntei.
— Parece que demos sorte então. O que me diz?
— Ok. Vamos aceitar.
Nós pegamos o folheto e fomos até a localização da manada de Búfalos Lanosos. Eles se concentravam principalmente depois dos bosques ao norte de Alexandria, em uns campos que ficavam próximos a uma cordilheira de montanhas. Aquelas montanhas ajudavam a demarcar o limite da jurisdição do Reino de Alexandria. Esse trajeto poderia ser feito em menos de meio dia.
...****************...
Depois que saímos do último bosque, nos deparamos com uma paisagem limpa e belíssima. Havia algumas pequenas colinas aqui e ali, uma estrada de terra batida, uma brisa soprando sobre os gramados e grandes montanhas com neve em seus picos lá longe.
— O quê será que há após aquelas montanhas? — Perguntei.
— Acho que há a Terra de Zambezio, se eu não me engano.
Eu encarei por um momento as montanhas, pois era uma paisagem bem bonita e digna de um filme produzido por um ótimo diretor ou um quadro pintado por um artista renomado. Era algo de tirar o fôlego.
— Já era para termos visto algum búfalo, acredito eu. — Elizabeth disse.
— Bem, no folheto dizia que eles se concentravam por aqui. Creio que logo veremos algum.
Eu não era um expert nos Búfalos Lanosos, mas sabia de algumas coisas. Aparentemente, eles só eram encontrados na Terra de Haoni, pois lá era o lugar mais adequado para eles. Eles costumavam andar em bandos de cinco ou mais e viviam principalmente pelos campos. Possuíam uma pelagem cinzenta e atingiam alturas consideráveis. Eles eram fortes, mas não eram nem um pouco ágeis. Caso algum viesse atacar, creio que não teria problemas para desviar dele.
Enquanto eu tentava me recordar de tudo o eu sabia sobre esses animais, nós acabamos chegando em um campo tão aberto e vasto que eu me hipnotizei na hora.
— Nossa... Que paisagem linda!
Nós conseguíamos ver a imensidão daquele lugar de onde a gente estava. Era uma planície bem vasta com algumas colinas, casas e árvores aqui e ali. Era tudo incrível. Aquele lugar não parava de me surpreender.
— Ei. — Elizabeth me cutucou. — Eles estão ali.
Havia uma manada de Búfalos Lanosos na direção para a qual ela apontou. Eles estavam perto de uma árvore. Alguns estavam em pé e outros, deitados. Provavelmente estavam descansando depois de terem comido ou acasalado. Eles estavam a uma certa distância de nós, talvez uns trinta ou quarenta metros, e havia uns dez deles.
— Eles são um pouco maiores do que eu imaginava.
Eu imaginava que eles seriam do tamanho de uma vaca bem adulta talvez, mas aqueles eram maiores. Deviam conseguir chegar a dois metros de altura facilmente e isso me assustou um pouco.
— Vamos!
A Elizabeth saiu na frente e eu fui atrás dela. Nós agachamos entre o mato alto enquanto nos aproximávamos dos búfalos e tentamos ser os mais sorrateiros possíveis. Segundo a Elizabeth, nós estávamos a favor do vento e isso nos favorecia bastante.
— Ok. Eu vou tentar subir naquela árvore sem eles me notarem. Depois disso, você tenta atacar e eu te dou cobertura. — Elizabeth disse.
— Beleza.
Ela então foi agachada até a árvore e subiu nela rapidamente feito um esquilo loiro e com chifres. A Elizabeth era incrivelmente furtiva, parecia uma caçadora profissional.
Quando vi que ela estava pronta, eu parti para o ataque e matei o primeiro búfalo enquanto ela matou outro com uma flechada na cabeça. Logo após isso, todos eles se agitaram e começaram a correr por todos os lados. No entanto, nenhum deles correu para longe, pelo contrário, eles vieram até mim um por um e tentavam me derrubar de qualquer jeito.
Nós matamos outro e mais outro e mais outro. Um por um, nós fomos diminuindo o número de búfalos. Faltavam apenas mais dois. A Elizabeth matou um deles e eu estava prestes a matar o outro. Ele estava vindo para cima de mim com sangue nos olhos e eu me preparei para acertá-lo.
— Ok... Pode vir!
Eu levantei minha espada, mas assim que fui dar os primeiros passos para golpear, eu tropecei e ele me acertou.
— Argh!
— Jonathan! — Elizabeth gritou.
O búfalo me acertou de raspão, mas foi o suficiente para me jogar no chão e, com isso, eu deixei minha espada cair longe de mim. Quando levantei a cabeça, vi que o búfalo estava vindo até mim de novo e pronto para me acertar novamente, mas, na hora que ele ia me atingir, a Elizabeth o acertou na cabeça e o matou. Ela, então, desceu da árvore e veio correndo até mim.
— Você está bem?
— Acho que torci o tornozelo.
Eu tentei me levantar, mas não consegui e caí.
— Não vou conseguir andar assim. Droga!
— Espera. Fica parado.
— Hã?
A Elizabeth estendeu a mão sobre o meu tornozelo e fechou os olhos.
— O que você está fazendo? — Perguntei.
Ela não me respondeu e continuou com os olhos fechados. Então, ela falou:
— Cura!
Assim que ela falou isso, saiu uma luz esverdeada de sua mão. Após terminar, eu consegui mover meu tornozelo perfeitamente.
— Uau! Não está doendo mais. Por um acaso isso foi magia?
— Sim. Eu sei usar magia de cura até o nível básico.
— Isso é incrível!
— Acho que você deve conseguir andar agora.
Eu me levantei e andei normalmente. Então, ela era uma arqueira curandeira esse tempo todo? Acho que fiz bem em aceitar fazer missões com ela.
— Sim, eu consigo!
— Ótimo! Vamos voltar.
Nós voltamos para o Reino carregando alguns chifres dos búfalos que matamos, como forma de provar que realmente havíamos os matado. Eles deram um certo trabalho, mas, ainda assim, não foram páreo para nós dois.
Chegando na guilda, pegamos nossa recompensa e dividimos metade para cada. Naquele momento, eu tinha mil e quinhentas moedas Haoni para mim e estava muito satisfeito com isso.
— Eu quase morri hoje, mas até que a recompensa valeu a pena. — Falei.
— Sim, mas acho que você deveria melhorar a sua movimentação um pouco. Aquele erro de hoje poderia ter sido fatal.
— Parece que alguém ficou preocupada comigo. Hehe.
— Bem, se você morresse, eu ia ter que sair a procura de outra pessoa disposta a trabalhar comigo e isso ia dar muito trabalho para mim.
Que cruel, Elizabeth. Então, você só me vê como alguém que te ajuda a ganhar mais dinheiro? Estou deveras decepcionado.
— Isso foi um pouco frio da sua parte...
— Estou apenas sendo honesta. — Ela deu de ombros.
Aaaahhh, fale o que eu quero ouvir ao menos uma vez! É pedir demais isso?
— Hah... Acho que você está certa. Eu vou tentar treinar um pouco mais.
— Eu apoio essa ideia. Não quero que tenhamos outro susto novamente.
— É, nem eu... Acho que já vou indo então. Até mais!
— Até!
Eu voltei para o castelo e fiquei pensando no que Elizabeth havia me falado. Eu havia cometido um erro grave e que não deveria se repetir. Aquela recompensa havia sido realmente boa, mas a minha vida não vale 1.500 moedas Haoni. E, também, se aquele erro tivesse ocorrido em uma missão mais difícil, eu não teria sobrevivido. Então, decidi usar aquela noite para treinar um pouco.
— Melhorar minha movimentação, né? Vou fazer isso.
Quando a noite finalmente havia chegado, eu fui até o Salão de Treinamento e peguei uma das espadas que havia lá. Eu acreditava que todos já estavam dormindo, então eu ia poder treinar em paz e sem interrupções.
— Ok, vamos começar!
Eu comecei a praticar meus golpes e os meus movimentos tentando ver aonde eu poderia melhorar. Na hora que aquele búfalo me atingiu, eu ia tentar sair rapidamente do caminho e golpear a garganta dele de baixo para cima, porém meu pé dobrou na hora. Com isso, eu estava tentando repetir esse movimento várias vezes no Salão até poder executá-lo com perfeição.
Tropeçar e cair não era algo tão raro de se acontecer comigo. Mesmo quando eu não usava a espada, isso vivia acontecendo. Eu sempre fui muito agitado e afobado e acabei ganhando diversos machucados por conta disso. Eu sabia que ter calma era uma virtude essencial, mas era algo extremamente difícil de eu conseguir. Porém, eu sabia que iria chegar o momento onde eu estaria frente a frente com algo realmente desafiador e, nesse momento, a possibilidade de eu errar não iria poder existir.
Passei algum tempo praticando e decidi que talvez devesse treinar minhas outras armas. Eu fui até o corredor e olhei para os dois lados. Vendo que não havia ninguém, eu voltei para o salão e reuni alguns bonecos de treinamento na minha frente.
— Acho que está na hora de praticar um pouco a minha magia.
Eu tentei usar um feitiço de nível básico. Eu havia visto o nome dele em um dos livros de magia que o Gabriel estava lendo. Era um feitiço de raio e, como raio parecia ser o único elemento com o qual eu tinha afinidade, achei que eu ia conseguir usar esse feitiço.
— Fissura Relâmpago!
Não funcionou nem um pouco. Eu fiquei bem decepcionado e me peguei pensando na possibilidade de eu nunca poder ultrapassar os feitiços iniciantes.
ㅡ Raio Cortante!
Esse funcionou. O Raio Cortante continuava sendo o mesmo feitiço fraco de sempre, mas, pelo visto, era o único com o qual eu me dava bem.
Eu realmente gostaria de poder usar a magia convencional e lançar vários feitiços como o meu irmão fazia, mas esse não era o meu forte. Porém, eu ainda tinha a minha habilidade como Herdeiro das Runas e ela poderia se tornar bem eficaz se eu aprendesse a usar ela de forma eficiente. Eu poderia surpreender muitos inimigos com isso. Essa habilidade poderia ser realmente a minha arma secreta, então, após alguns minutos de insatisfação, eu decidi praticar ela.
— Bem, se os feitiços básicos não funcionam, acho que vou focar em aprimorar minha outra magia.
Como de costume, eu fiz a magia de raio fluir pelo corpo. Eu já tinha pegado totalmente o jeito de como fazer isso, porém demorava alguns segundos para eu me preparar. Quando eu me senti pronto, peguei a minha espada e me coloquei em posição.
— Respiração do Trovão: Primeira Forma.
Eu corri na direção dos dez bonecos de madeira que estavam na minha frente e cortei todos em poucos segundos. Isso me fez pensar que eu poderia ser bem útil em uma batalha real e daria conta de um esquadrão inteiro de forma bem rápida. Segundo a Joni, a minha velocidade com aquela magia fazia eu me equiparar a velocidade de um Rei ou Imperador da Espada, contudo não adiantaria muita coisa nós termos a mesma velocidade se eu me esgoto após poucos segundos e se há um abismo entre nossas habilidades ainda.
Porém, isso já é um indicador de algo.
— Hah... Hah... Esse tipo de magia é incrível, mas parece que consome muita mana.
Sempre que eu usava aquela habilidade, eu me sentia exausto depois. Eu não sabia se era normal isso, mas apenas aceitei esse fato. Talvez, ser um Herdeiro das Runas consumisse muita mana.
— Acho que isso está bom por essa noite.
Eu deixei a espada em um canto junto com as outras, saí da sala e comecei a seguir em direção ao meu quarto.
— Será que todos já estão dormindo?
Na realidade, nem era tão tarde assim. Devíamos estar perto das onze da noite. Porém, as pessoas no palácio costumavam ir cedo para os seus aposentos. Lá por volta das dez, todos já estavam recolhidos em seus quartos e raramente alguém ficava acordado até mais tarde do que isso. Então, comecei a andar tentando fazer o mínimo de barulho possível para não acordar ninguém.
Como o Palácio era enorme, eu tive que andar por certo tempo e, enquanto andava, eu acabei passando por vários quartos. Passei pelo quarto de Lorde William, passei pelo quarto da Silvia, passei pelo quarto do Afonso e mais outros serviçais. O último quarto que havia naquele corredor era o da Illyssa, e era esse pelo qual eu estava prestes a passar.
— Ela provavelmente deve estar dormindo já. Como será que estão indo as aulas dela com o meu irmão?
Ela estava adorando ter aulas com o meu irmão e, como sempre, eu sabia que ela não gostava apenas por estar aprendendo magia. De qualquer forma, eu estava feliz por eles dois.
Despreocupado, eu continuei andando e chegando cada vez mais perto do quarto dela. No entanto, quando passei em frente a sua porta, eu ouvi um barulho de repente.
— O que foi isso?
Eu me assustei na hora, pois eu era o único naquele corredor. Eu olhei para todos os lados procurando a fonte do barulho, mas não via nada nem ninguém e até pensei que eu estava delirando, só que eu o ouvi de novo e, dessa vez, tive uma certa noção de onde ele veio.
— Isso veio do quarto da... Illyssa?
Eu estava meio descrente de que o barulho vinha do quarto da princesa, mas a curiosidade falou mais alto naquele momento, então eu me aproximei lentamente de sua porta. Fazendo o mínimo de barulho possível, eu aproximei a minha orelha até que escutei o que pareciam ser gemidos.
— Ela está... Gemendo?
Sim, ela estava gemendo e, bem, eu sabia exatamente o que aquilo significava.
— Cara, ela tá mandando ver! — Sussurrei para mim mesmo. — Mas, bem, ela tem a nossa idade, né? Acho que ela também tem suas necessidades.
Eu não estava em posição de julgar ninguém, até porque eu também tinha os meus "momentos" e isso também era um comportamento totalmente normal para adolescentes da nossa idade. Mas admito que ouvir os gemidos da Illyssa e imaginar a cena foi um tanto estranho para mim. Ela era bonita, mas não me chamava tanto à atenção assim. Talvez se fosse a Elizabeth no lugar dela, a minha reação seria outra.
— Vou deixar ela curtir seu momento de prazer.
Eu comecei a andar de novo e a me afastar mais ainda até que, entre os gemidos, eu ouvi um nome.
— Gabriel...
Eu congelei na hora. Ela havia dito Gabriel, o nome do meu irmão. Eu não soube como reagir na hora, então, sem ter certeza se eu tinha escutado corretamente, eu voltei a me aproximar de sua porta e escutei mais uma vez.
— Gabriel...
Eu fiquei espantado quando ouvi de novo, mas não demorei para entender e confirmar tudo.
— Cara... Meu irmão é um garoto sortudo! Hehehe.
Eu já desconfiava que a Illyssa gostava do meu irmão, mas eu não esperava confirmar isso de uma forma tão... Surpreendente, eu diria. E fiquei até com um pouco de inveja dele. O Gabriel tinha uma princesa super gata que estava apaixonada por ele e falou o nome dele no meio da "ação". Esse seria o sonho de qualquer garoto da nossa idade, mas, a princípio, talvez o Gabriel não ligasse muito para isso e eu tenho certeza que ele não fazia ideia de qual eram os verdadeiros sentimentos da Illyssa em relação a ele.
Enfim, resolvi ir rápido para o meu quarto. Eu não queria correr o risco de escutar mais alguém em um momento de intimidade.
...****************...
Após chegar no meu quarto, eu encontrei meu irmão lá acordado e lendo. Obviamente, eu não ia falar o que eu havia ouvido há alguns minutos e, quando eu vi que ele estava lendo mais um livro de magia, eu comecei a me perguntar por que ele estava tão hipnotizado por aqueles livros.
— Você tá lendo esses livros de novo?
— Sim. Eu te falei que estou fazendo uma pesquisa.
Como ele havia falado muito que estava fazendo uma pesquisa ultimamente, eu comecei a desconfiar.
— Deixa eu ver esse livro.
Assim que eu ia pegar o livro, ele o fechou.
— D-Depois você vê. — Ele pôs o livro em baixo do braço. — Acho que vou ler lá fora um pouco, volto daqui mais tarde.
Isso estava muito estranho. Se era um simples livro de magia, por que eu não poderia dar uma olhada nele? A menos que aquele livro não tivesse o conteúdo que eu achava que tinha, eu não via motivos para eu não poder vê-lo. Eu comecei a suspeitar fortemente de que o Gabriel estava escondendo algo de mim, então tomei uma medida drástica. Ele começou a andar em direção a porta para sair, mas, quando ele ia passar por mim, eu tomei o livro dele.
— Peguei!
— Me devolve!
Eu finalmente ia descobrir o que havia de tão interessante naquele livro. Eu me virei, impedindo ele de pegar o livro de mim e então, o empurrei para longe.
— Vamos ver qual é o nome desse livro.
Eu esperava ver algo surpreendente. Talvez pudesse até ser um livro erótico, mas, assim que eu olhei para a capa, eu fiquei confuso.
— "Fundamentos do Teletransporte"? — Repeti o nome do livro. — Por que você está lendo isso?
Ele ficou em silêncio. Eu olhei para o livro por um tempo e depois olhei de volta para o Gabriel e, no final das contas, eu havia entendido tudo.
— Você... Estava tentando descobrir como voltar para o nosso mundo?
...****************...
...Gabriel...
Sim, eu estava pesquisando sobre teletransporte e não queria que o meu irmão soubesse disso. Não me entendam mal, não é como se eu não gostasse daqui. Na verdade, eu gostava bastante até, mas eu sempre fui um garoto muito racional e sempre preferi dar ouvidos à lógica, e ela vivia me dizendo que eu não pertencia aquele mundo e que era errado eu permanecer lá.
Eu passei o último mês lendo uma imensidão de livros e reunindo informações sobre magia de teletransporte para saber como ela funcionava. Quem sabe eu descobrisse algum jeito de poder transitar entre os mundos? Eu poderia voltar a ver as pessoas do meu antigo mundo e talvez até levar algumas daqui para lá e vice-versa. Será que isso era ser muito otimista?
Eu estava fazendo a minha pesquisa em total sigilo e não queria que ninguém descobrisse, principalmente o Jonathan, mas, naquela noite, ele descobriu do que se tratava a minha "pesquisa" e eu percebi de imediato que ele ficou triste. Ele havia entrado no quarto com uma cara alegre e tinha até um pequeno sorriso no rosto, só que, ao saber o que exatamente eu estava fazendo, o sorriso dele se desfez e sua cara foi dominada por uma expressão de confusão e tristeza.
Ele me perguntou o porquê de eu estar pesquisando sobre teletransporte e eu não soube o que responder. Eu não queria simplesmente responder que eu estava, de fato, procurando sobre como ir para o nosso mundo, pois eu sabia que ele estava amando aquele mundo e que provavelmente a ideia de voltar para nosso antigo mundo nem passava pela cabeça dele.
— Você não está gostando daqui? — Jonathan perguntou.
— Não é isso.
Realmente não era isso. Eu estava gostando bastante daquele mundo também. Eu era um mago habilidoso, dava aulas a uma princesa e estava morando em um castelo. Quem não iria gostar disso?
— Então, por que você está lendo sobre teletransporte?
— É porque... Eu queria saber se existia alguma maneira de voltar para o nosso mundo.
Eu não sabia o que falar, então acabei optando pela sinceridade.
— Você quer voltar então?
— Eu não diria isso. É só que... Uma parte de mim diz que eu tenho que saber sobre isso. Nós não pertencemos a esse mundo, Jonathan.
— E daí? Nós passamos a maior parte da nossa vida vivendo daquela forma miserável, mas aqui nós somos alguém. Você quer jogar tudo isso fora só porque “nós não pertencemos a esse mundo”? Você quer voltar a viver aquela vida medíocre?!
— N-Não, mas... E as pessoas que estão lá?
— Que pessoas?! Você está falando do miserável do nosso pai?! O que vivia gritando conosco e que não fazia nada da vida?!
— Não! Digo, nós tínhamos a senhora Theresa e a Jessica também.
— A senhora Theresa nos ajudava, é verdade, mas ela não era nossa família e a Jessica era só a recepcionista da biblioteca, Gabriel. Ela não dava a mínima para nós!
Ei, ei, aí você começou a pegar pesado. A Jessica gostava muito de nós, principalmente de mim... Né?
— Jonathan, eu sei que você está amando esse lugar, mas eu não vou permitir que você me impeça de fazer o que eu acho correto.
— Hein?!
— Me devolve o livro, por favor.
Ele parecia uma mistura de tristeza e raiva. Eu sei que ele não esperava ouvir aquilo tudo que eu disse, mas eu não posso permitir que os sentimentos do meu irmão em relação aquele mundo me guiem.
— Ah, cara, faz o que você quiser. — Ele me devolveu o livro. — Eu vou tomar banho e dormir.
E então, o Jonathan fez o que disse que iria fazer: tomou banho e dormiu. Ele devia estar meio cansado, pois apagou praticamente na mesma hora em que deitou.
Depois de um tempo, eu fiz a mesma coisa. Mas, ao contrário dele, eu tive bastante dificuldade para dormir naquela noite. Eu comecei a me questionar se eu devia continuar com aquela pesquisa ou não. Para ser sincero, a minha pesquisa não estava dando muitos frutos, porém eu ainda poderia continuar se quisesse. O Jonathan se entristeceu ao saber o que eu estava fazendo, só que as emoções dele eram algo que eu não poderia controlar. No entanto, as minhas ações, eu podia. Eu tive que pôr na balança se valia ou não a pena continuar lendo sobre teletransporte e, a partir daí, eu tinha que tomar uma decisão...
...****************...
Quando acordei pela manhã, eu olhei para a cama do meu irmão e vi que ela estava vazia. Foi uma cena surpreendente, pois era bem raro ele se levantar antes de mim.
— Ele deve ter ido fazer alguma missão.
Ultimamente, ele havia feito tantas missões que não seria surpresa se ele tivesse ido para mais uma. Eu lembro que ele disse que estava as fazendo junto com uma garota. Ela se chamava Elizabeth, se não me engano.
— Bem... — Me levantei. — Vamos lá para mais um dia.
Após me arrumar, eu fui tomar café. Pensei que talvez pudesse encontrar o Jonathan na mesa, mas ele não estava lá também.
— É, acho que ele deve ter saído mesmo...
Eu tomei café sozinho. A Illyssa ainda estava dormindo. Eu iria dar aula a ela naquele dia.
Depois de tomar café, eu fui para a biblioteca, peguei um livro e comecei a ler. Porém, eu não conseguia parar se pensar na conversa que eu havia tido com o Jonathan na noite anterior. Em minha opinião, ele foi um tanto imaturo, mas, mesmo assim, eu não queria ficar brigado com o meu próprio irmão por causa daquilo. Por mais que eu não tivesse culpa alguma, eu sentia uma sensação bem ruim.
Eu tentava me afogar no livro, porém não estava funcionando. Minha atenção não parava em lugar algum e meus pensamentos me perturbavam. Que droga!
— Bom dia.
Quando olhei para a porta da biblioteca, vi o Jonathan lá. Ele estava arrumado e parecia pronto para sair, porém, seu rosto entregava que ele não estava bem.
— Bom dia. Achei que você tinha saído.
— Eu vou sair daqui a pouco.
— Ah... Ok...
Ela se sentou e um silêncio constrangedor se instaurou na sala. Eu queria falar alguma coisa, mas eu não sabia o que falar, e, olhando rapidamente para o Jonathan, vi que ele parecia meio nervoso e talvez estivesse sentido o mesmo que eu.
— Aí. — Ele falou. — Foi mal pela minha reação ontem. Acho que fui meio imaturo.
— Ah, relaxa. Eu te entendo.
— Valeu.
Voltou a ficar um silêncio novamente. Eu estava muito nervoso e queria muito dizer algo, porém despedidas e desculpas nunca foram o meu forte. Eu sempre fui muito ruim em elaborar as duas. Mas, então, eu percebi que tinha tomado uma decisão em relação a tudo e resolvi falar de uma vez:
— Eu vou parar de pesquisar sobre teletransportes.
— Hã? Por que?
— Eu acho que... Quero ficar aqui.
— Sério?
— Sim.
— T-Tudo bem. — Ele pareceu confuso. — Mas o que te fez mudar de ideia?
Olhando em retrospectiva, eu não tinha praticamente nada no meu mundo. Não tinha amigos, não tinha vida social, não tinha um pai decente, eu não ia pra escola e eu não era ninguém. As únicas coisas que eu tinha eram a minha mãe e o meu irmão, mas eu perdi a minha mãe e o meu irmão estava ali comigo. Nós estávamos juntos nesse mundo. Um mundo onde eu tinha habilidades, tinha amigos e um mundo onde eu literalmente morava em um castelo. Ali era um lugar onde eu poderia ser alguém, ou melhor, talvez eu já fosse alguém ali. Eu havia conquistado muitas coisas e em muito pouco tempo. Não havia razão para eu largar tudo isso.
— Aqui é legal, sabe?
— Sei. — Com um pequeno sorriso em seu rosto, ele disse. — Aqui é legal mesmo.
Eu sempre dei mais ouvidos a lógica, mas acho que está na hora de ouvir mais a emoção e curtir mais o momento.
— Mas então, você conseguiu descobrir alguma coisa sobre teletransporte?
— Nada.
— Como assim? Você ficou todo esse tempo pesquisando e não aprendeu nada sobre magia de teletransporte?
— Sobre teletransporte em si, sim. Mas nada relacionado à teletransportar coisas de um mundo para o outro.
— Hmm... Entendi. Talvez isso seja um pouco mais complexo.
É, eu aprendi bastante sobre teletransporte, mas não achei o que eu procurava e talvez nunca fosse achar. Porém, eu já tinha me decidido e não precisava mais me incomodar com aquilo.
— Bem... — Jonathan se levantou. — Acho que já vou indo. Eu realmente não queria sair estando brigado com você.
— Não esquenta! Nós somos irmãos e irmãos brigam e depois se perdoam. Não é?
— É isso aí!
O Jonathan estava prestes a sair, mas então ele se virou e me chamou.
— Aí, Gabriel.
— Diga.
— Talvez um dia você encontre algo sobre como voltar. Mas, enquanto isso, vamos tentar aproveitar o recomeço das nossas vidas.
— Vamos sim.
— Falou então, vou nessa!
E então ele foi embora.
"Aproveitar o recomeço das nossas vidas"... Essa foi uma frase meio clichê, mas, bem, acho que ele estava certo quando disse isso.
Eu peguei o livro que estava lendo, me levantei e fui o colocar de volta na prateleira. Assim que eu o pus lá, a Illyssa apareceu rapidamente na porta.
— Bom dia, Gabriel! Já estou pronta para nossa aula, estou te esperando no jardim. Tchau!
E rapidamente ela foi embora.
— Uau! Ela parece bem enérgica hoje.
Antes de ir, eu refleti mais uma vez sobre tudo o que havia acontecido desde que eu cheguei ali. Foram tantas coisas e em tão pouco tempo. Eu não sei como eu tive capacidade de acompanhar o ritmo de tudo, mas eu acompanhei e não podia negar que foi tudo muito legal!
Eu passei por situações que nunca imaginei que iria passar e pensei um pouco em quais situações ainda estariam por vir. Será que esse mundo ainda guardava alguma surpresa a mais para nós? O que será que nos esperava no futuro? As perguntas eram muitas, mas eu resolvi deixar as coisas seguirem seu fluxo natural.
Após tudo isso, só me veio uma frase na mente. Então, eu a falei:
— É... até que esse mundo não é tão ruim!
...Fim do Volume 1...
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...Espaço do Autor...
E aí, leitores! Johnny aqui!
Nesse primeiro arco, eu apresentei os nossos protagonistas e mais alguns personagens que estarão ao lado deles durante sua jornada nesse novo mundo.
Gabriel descobriu seu talento com magia e Jonathan descobriu seu talento com espadas. Houve essa pequena richa entre eles sobre voltar ou não para casa, mas, no final, eles decidiram ficar. Aliás, com a vida que eles levavam, quem não iria querer ficar, né? Esses malditos estão vivendo o meu sonho...
Tivemos a presença da bela e mimada Princesa Illyssa Lancaster e da destemida e confiante demônio, Elizabeth Shiina.
Agora, briguem entre vocês para decidirem qual das duas será a favorita! Eu quero ver sangue! Mwahahahaha!
Retomando o raciocínio... o Rei de Alexandria, William Lancaster, resolveu dar as caras também, assim como sua fiel segurança, a incrível Joni. Ah, Joni... Você tem um lugar especial dentro de mim.
Enfim, me digam o que acharam desse primeiro arco? Quero saber se gostaram ou não e qual foi o melhor momento até agora para vocês.
Não se esqueçam de curtir os capítulos, pois isso me motiva muitão mesmo!
Abraços, pessoal!
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Atualizado até capítulo 257
Comments
CALVO LEITOR
você é um escritor incrível cara ! a história está muito boa mesmo, continue com o ótimo trabalho.
2023-09-04
1
Neila Da Silva
vc é um ótimo escritor . parabéns
2022-06-15
2
alex200_br
filho de um em um real se faz um milhão
não recusa o dinheiro não
2022-02-25
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