Eu voltei para o livro e comecei a procurar feitiços de outros elementos. Havia pelo menos uns quatro de cada, mas eles só iam até o nível avançado. Eu decidi tentar algum feitiço de vento, então eu fiz a mesma coisa que tinha feito quando tentei usar magia de fogo: estiquei os braços, me concentrei ao máximo e...
— Rajada de Vento!
Funcionou. Eu disparei uma rajada pequena de vento na direção da árvore e ela acabou quebrando alguns galhos e derrubando várias folhas. Assim como a Bola de Fogo, esse foi um feitiço iniciante. A meu ver, a Rajada de Vento não foi muito forte, mas talvez eu conseguisse derrubar um adulto com ela.
Eu comecei a procurar outro feitiço e vi um de terra que me chamou a atenção. Logo decidi usá-lo também.
— Estaca de Pedra!
Uma estaca pontiaguda de pedra tomou forma na frente da minha mão e eu a lancei na direção da árvore. Apesar de ter sido um feitiço iniciante, eu fiquei impressionado com a velocidade que a estaca atingiu a árvore. Pareceu um pequeno míssil que voou e se despedaçou ao se chocar contra a madeira.
— Acho que se essa estaca tivesse mais resistência, ela poderia ser mortal. Enfim, vamos continuar.
Eu tinha outros feitiços para testar, então voltei ao livro. Dessa vez, eu ia tentar um feitiço de água.
— Jato d'Água!
Um esguicho de água não muito grande atingiu a árvore e a encharcou. Esse feitiço não pareceu ser tão útil assim para usar como forma de ataque, mas ele poderia ajudar bastante para apagar alguns incêndios localizados.
Por último, eu fui tentar um feitiço de raio.
— Raio Cortante!
Um pequeno raio azul tomou forma, foi lançado na direção da árvore e acabou partindo um dos galhos ao meio. Após isso, eu fiquei perplexo. Todos os feitiços haviam funcionado.
— Incrível...
Eu comecei a pensar que eu realmente levava jeito para magia. Eu não sabia se era comum naquele mundo as pessoas terem extrema facilidade para aprender magia como eu tive naquele momento, mas alguma coisa em mim me dizia que eu era um caso especial. Digo, eu havia chegado ali no dia anterior e nunca tinha tido contato com qualquer coisa que sequer chegasse perto de ser considerada magia. No entanto, o fato de eu ter conseguido usar vários feitiços logo na primeira tentativa devia significar alguma coisa.
A árvore que tinha sido meu alvo ficou bem desgastada. Ela estava queimada, molhada, perfurada e com um número menor de galhos. Já nem parecia mais aquela árvore saudável e cheia de folhas verdes de quando eu havia chegado ali. Naquele momento, ela parecia uma árvore podre e velha.
— Desculpe, dona árvore, mas saiba que seu sacrifício não foi em vão.
Todos os feitiços que eu usei foram de nível iniciante. Eles eram legais, mas, como esperado, não eram tão poderosos e, depois de usar todos eles, eu queria testar algum feitiço forte de fato. Eu passei algumas páginas do livro e comecei a ler sobre alguns feitiços intermediários.
— Acho que vou tentar só um.
Eu li um dos feitiços e já me pus em posição. Confesso que fiquei com receio de não conseguir usar o feitiço. Todos que eu havia usado até então eram bem fracos e claramente não exigiam muito, mas a história poderia ser diferente com os feitiços de nível intermediário. Por mais que eles estejam apenas um nível acima, tudo poderia acontecer. Ou melhor, nada poderia acontecer.
Novamente, eu estendi a mão, me concentrei e comecei a falar.
— Lâmina... qual é o nome mesmo?
Eu havia esquecido o nome. Mantendo minha posição, eu olhei para o livro no chão.
— "Lâmina Cortante".
Assim que terminei de falar, eu senti uma energia um pouco mais intensa viajando pelo meu corpo e indo em direção a minha mão. Era algo mais forte do que a energia dos feitiços iniciantes e, em poucos segundos, eu pude ver claramente que um grande jato de ar em forma de lâmina saiu das minhas mãos. Era uma lâmina de vento que estava na horizontal e devia ter pouco mais de um metro de comprimento. Foi um feitiço tão forte para mim que eu caí no chão e, após me levantar, eu esfreguei os olhos e olhei totalmente espantado para o meu alvo.
— Uau...
Eu não pude acreditar no que eu vi. A árvore que estava sendo o meu alvo foi cortada ao meio e, em poucos instantes, a parte superior dela caiu no chão e fez um baita barulho.
— Eu realmente fiz isso?
Eu não estava conseguindo acreditar nem um pouco. Eu havia cortado uma árvore ao meio... com magia! Eu me aproximei dela e vi que o corte tinha sido totalmente limpo. Eu passei a mão na superfície onde ela tinha sido cortada e vi que estava plana. Eu comecei a pular de animação feito um bobo, mas então, eu ouvi um barulho de algo caindo atrás de mim e, quando olhei, vi o Jonathan de boca aberta e com os olhos arregalados. Seu cesto com as maçãs estava caído no chão. Provavelmente, ele ficou tão espantado que o deixou cair.
— Gabriel, você fez isso?
— Ehh...
Eu sinceramente não sabia o que responder. Eu não sabia se dizia a verdade, que eu havia feito aquilo com magia, ou se eu devia mentir e dizer que não tinha sido eu. Porém, após pensar rapidamente, eu percebi que ele ia descobrir se eu mentisse, afinal, só tinha eu naquela área.
— Hmm, talvez tenha sido eu. — Falei, envergonhado.
— C-Como você fez isso?
— Hmm, com magia...?
— É o que?! — Ele berrou.
— Eu estava tentando usar alguns feitiços daquele livro... — Apontei para o livro no chão. — e acabou dando certo.
Por um breve momento, eu fiquei preocupado do Jonathan poder ficar irritado por eu estar testando magias aleatórias quando nós tínhamos outras prioridades. No entanto, foi exatamente o contrário que ocorreu.
— Eu quero tentar também! — Ele correu na direção do livro e começou a revirar as páginas. — Tem vários feitiços aqui! Que incrível!
— Sim, é um livro de magia, afinal.
Ele parecia totalmente hipnotizado pelo conteúdo do livro.
— Por mais que nós estejamos em um mundo com magia, eu nunca imaginei que fossemos ser capazes de usar ela. Mas vendo o que você fez, me faz pensar que... — De repente, sua expressão mudou. Ele olhou para mim com seus olhos semicerrados e, agora, parecia estar desconfiado. — Gabriel, por que você trouxe o livro que o Senhor Smith te deu para cá?
— Hein?
— Você estava planejando testar esses feitiços desde o começo, não é?
— B-Bem, eu não diria que estava planejando...
— E você ainda me enganou com aquela história toda de que achava melhor conhecermos os arredores do Reino.
Fui descoberto. Todo o meu plano foi revelado pelo meu irmão e, agora, eu não sei que tipo de reação ele terá. No entanto, posso dizer que valeu a pena. Eu consegui usar magia e isso foi o suficiente. Me perdoe, Jonathan, mas os fins justificam os meios algumas vezes...
— Assuma que essa era sua verdadeira intenção. — Ele disse.
— Eu assumo. Eu te enganei para testar os feitiços do livro.
— Ótimo. Agora, se me der licença, é a minha vez de testar os feitiços.
Era muito previsível que ele iria querer tentar, afinal, eu realmente tinha usado magia. Além desse fato sozinho já ser incrível, ele era meu irmão e deve ter pensado que, se eu consegui, ele também conseguiria. Eu confesso que se nós estivéssemos com os papéis trocados, eu também iria querer tentar.
Eu expliquei para ele como eu fiz e ele decidiu imitar. Ele se pôs em posição e quis tentar os mesmos feitiços que eu usei. A animação dele era enorme e ele estava bem confiante também. Então ele esticou as mãos, fechou os olhos e...
— Bola de Fogo!
Para a nossa surpresa, nada aconteceu. Eu achei que ele iria conseguir de primeira, mas não pude ver nenhuma pequena chama tomando forma.
— Bola de Fogo! — Ele repetiu.
Nada aconteceu novamente.
— Por que não está funcionando?
— Não sei também, mas isso é estranho.
— Você havia conseguido lançar esse feitiço?
— De primeira.
— Pff... vou tentar outro.
E lá foi ele tentar outro feitiço...
— Rajada de Vento!
Não funcionou...
— Estaca de Pedra!
Esse também não...
— Jato d'Água!
Adivinhem? Também não funcionou.
— Aaaah, cara! — Ele resmungou. — Por que eu não tô conseguindo?
— Eu não faço ideia.
Eu achei meio esquisito eu ter conseguido usar todos os feitiços tão facilmente e o Jonathan não, e não havia nenhuma explicação aparente para isso. A não ser que esse fosse um daqueles enredos baratos onde um irmão é altamente habilidoso enquanto o outro não é bom em nada, não havia motivo para o Jonathan não conseguir usar magia. Por mais que eu tivesse certeza que não estávamos sendo parte de algum roteiro clichê, para nossa surpresa, ele não estava conseguindo.
— Bem, o feitiço de raio é o único que falta. Tenta usar ele.
— Ok. Torce por mim.
— Estou torcendo.
Eu realmente estava torcendo para ele conseguir. Ia ser bem injusto eu poder usar todos e o Jonathan nenhum, e eu sei que ele ia ficar bem triste também. Eu iria até me sentir um pouco mal se isso acontecesse, mas, bem, não era minha culpa se eu tinha um certo talento para magia naquele mundo.
— Se concentra bem. — Falei.
— Estou me concentrando.
Após alguns segundos, ele finalmente disse.
— Raio Cortante!
Depois de dizer isso, um raio azul saiu de sua mão e atingiu o tronco cortado da árvore.
— Consegui! — Ele começou a pular de euforia. — Você viu? Você viu?
— Eu vi! Parabéns!
Eu fiquei feliz por ele. Por mais que ele aparentemente não conseguisse usar feitiços de todos os elementos, usar um já era algum tipo de vitória, por mais fraco que o feitiço fosse. Não conseguir usar nenhum ia deixar ele muito para baixo.
Ele estava cheio de euforia por ter lançado o feitiço e pulava sem parar, até que ele parou de forma repentina.
— O que foi? Já passou a animação? — Perguntei.
— N-Não, é só que... parece que tem algo acontecendo com o meu corpo.
De repente, ele começou a agir como se estivesse meio tonto e estava cambaleando um pouco. Eu pensei na possibilidade do feitiço ter desgastado ele. Como os feitiços consumiam mana, o Raio Cortante poderia ter consumido muita mana do meu irmão e isso o estava fazendo passar mal. Eu não sabia se era assim que funcionava exatamente, mas foi a explicação mais lógica na qual eu pensei.
— Como assim? — Perguntei.
— Meu corpo está meio estranho. Estou me sentindo meio... enérgico. Isso aconteceu com você também?
Eu não sabia exatamente do que o meu irmão estava falando. No início, pensei que ele estivesse se referindo a mesma energia que eu senti quando estava prestes a lançar um feitiço. Porém, eu não reagi da mesma forma que ele. Sem falar que ele começou a se sentir estranho depois de usar a magia, não antes.
— Bem, eu senti uma energia atravessando o meu corpo e se acumulando na minha mão antes de lançar os feitiços. Mas eu não senti nada após isso.
— Eu também senti essa mesma energia antes de lançar o feitiço de raio, mas... eu sinto como se ela ainda estivesse presa no meu corpo.
— Isso é estranho... mas você consegue se mover? Nós temos que voltar logo.
— Sim, acho que sim. Eu vou pegar o cesto que deixei cair para nós podermos...
Assim que ele foi dar o primeiro passo, algo surpreendente aconteceu: Ele chegou ao cesto quase que instantaneamente, pareceu literalmente um raio azul. Eu consegui até escutar um pequeno barulho de trovão e mal pude acreditar nos meus olhos. O cesto de maçãs dele estava a uns dez metros de nós e, como ele ainda estava cambaleando um pouco, eu me mantive pronto para socorrer o meu irmão caso ele caísse no chão ou desmaiasse. No entanto, não foi preciso.
Totalmente espantado, eu peguei meu cesto e fui até ele.
— C-Como você fez isso?
— Não sei...
Jonathan também não parecia acreditar no que ele tinha acabado de fazer e estava bem espantado.
— Você consegue fazer de novo?
— Hã? S-Sim... eu acho...
— Tenta correr até a árvore e voltar.
— Ok.
Nós não fazíamos ideia de como funcionava essa habilidade dele, porém ele parecia já ter algum controle sobre ela. Novamente, após ele dar o primeiro passo, tudo o que pude ver foi um feixe de luz azul indo até a árvore e voltando. O trajeto de ida e volta era de, talvez, vinte metros no total e até um velocista bem treinado levaria alguns segundos para ir e voltar. Mas o meu irmão foi e voltou em menos de um segundo. Se eu tivesse piscado os olhos, poderia não ter visto.
Com tudo isso, eu tive certeza de que o Jonathan era rápido, muito rápido.
— Cara, isso é incrível!
— Sim... hah... hah... — Ele ofegava sem parar. — É mesmo... hah... hah...
— Você tá se sentindo bem?
— Um pouco cansado, na verdade.
— Acho melhor voltarmos agora.
Nós recolhemos as maçãs, entregamos para a senhora e voltamos para dentro do reino. Eu não conseguia parar de pensar em tudo que tinha ocorrido naquele dia. Eu descobri que era muito bom com magia e isso era algo totalmente novo para mim, afinal, eu vinha de um lugar em que não existia nenhum tipo de magia. Já o Jonathan pareceu ter descoberto algum tipo de habilidade especial relacionada à magia de raio e, no final das contas, ele era rápido como um.
— Cara, dá pra acreditar que isso tudo é real? — Ele falou. — Digo, nós conseguimos usar magia! Isso é demais!
— No começo não dava para acreditar, mas agora eu acredito. No entanto, não vamos perder nosso foco. Magia é uma coisa incrível, mas nosso objetivo principal é voltar para casa.
— Tá bom, tá bom, eu sei. Focar em voltar para a casa. É o que devemos fazer, mas... creio que aproveitar um pouco os nossos poderes mágicos não vai fazer mal a ninguém, né?
— Bem...
— Aha! Eu sabia! Você ficou tão animado com a magia quanto eu! Confesse de uma vez, Gabriel!
— Tudo bem, eu posso ter me empolgado, mas isso não quer dizer que eu vou me esquecer do nosso objetivo principal.
— Pff! Que chato. — Ele murmurou. — Mas, aí, será que tudo isso faz parte daquele livro?
— Qual livro?
— O que nos trouxe para cá, ué.
Após ele falar isso, eu me lembrei de algo e congelei no meio da rua.
— O que foi, Gabriel?
— Jonathan, você se lembra do que estava escrito na sinopse daquele livro?
— Hmm, acho que não. Por que?
— Era sobre dois irmãos em um mundo de fantasia, um era um mago habilidoso e o outro...
— Um espadachim veloz...
Eu comecei a acreditar seriamente que eu e meu irmão, de algum jeito, éramos os protagonistas daquele livro, e eu não acreditava que eu tinha deixado isso passar batido. A sinopse do livro batia com quase tudo o que nós estávamos vivendo até então.
— Você acha que nós somos aqueles dois irmãos? — Jonathan perguntou.
— Sinceramente, tudo leva a crer que sim.
— Bom, acho que eu preciso de uma espada então. — Ele deu de ombros.
— A sua calma quanto a isso é de dar inveja.
Eu me preocupei um pouco, mas o Jonathan não. Ele manteve uma grande despreocupação e ainda sugeriu que fossemos a uma loja de armas no dia seguinte. Eu me opus, mas ele apresentou bons argumentos e, como não havia nada muito útil que nós poderíamos fazer quanto a tudo naquele momento, nós fomos de volta para a pousada. Talvez não haveria problemas em visitar uma loja de armas no dia seguinte, nós íamos apenas dar uma olhadinha.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 257
Comments
alex200_br
se tu continuar atacando as árvores o IBAMA vai te pegar moleque
2023-04-28
4
Jozse Da Shilva
E tu não se arrepender nem um pouco por ter destruído um árvore alheia?
2023-03-29
1
Jozse Da Shilva
Eu sinto que ele não será um bom adulto
2023-03-29
2