Tudo havia ficado preto. Preto como se eu tivesse dormido. Não senti nenhuma dor nem nada. Foi como se eu tivesse apagado instantaneamente. Não sentia qualquer sensação. Por um instante, pensei no pior: tínhamos morrido e aquele era o vazio da morte. Mas então, comecei a sentir leves cutucadas em meu ombro e ouvi uma voz chamando meu nome:
— Gabriel? Gabriel, acorda.
Não era a voz de Deus, pelo contrário, era uma voz familiar para mim. Então eu abri meus olhos lentamente e vi o rosto do Jonathan. Ele parecia estar um pouco assustado.
— Jonathan? — Falei enquanto esfregava os olhos. Eu me sentia um pouco tonto ainda. — É você?
— Sim, sou eu. Que bom que você está acordado.
Então eu não estava morto e o meu irmão também não, o que foi um alívio. Quando recuperei totalmente os sentidos, me sentei no chão e vi que nós dois estávamos perfeitamente bem, porém, logo percebi que estávamos sentados em uma sala escura e mal iluminada, muito diferente da biblioteca em que estávamos anteriormente.
— Onde estamos? — Perguntei olhando em volta.
— Eu não faço ideia. — Ele respondeu, também olhando ao redor.
A sala era quase completamente vazia, exceto por uma escada que levava para cima e um círculo com figuras estranhas desenhado no chão em que estávamos sentados. A pouca luz que entrava na sala vinha de uma fresta estreita e alta na parede, que mal iluminava o lugar. Senti um calafrio percorrer minha espinha, imaginando que poderíamos estar em um porão, em algum lugar desconhecido e perigoso.
— Quanto tempo eu fiquei desacordado? — Perguntei me levantando com a ajuda do Jonathan.
— Uns quinze minutos, eu acho. Eu fiquei preocupado que algo tivesse acontecido com você.
Olhei em volta novamente, tentando ver se havia alguma pista do lugar em que estávamos. Passei as mãos pelas paredes e pelo chão, procurando qualquer coisa que pudesse nos dar uma ideia de onde estávamos, mas não encontrei nada além de teias de aranha e rachaduras na parede.
— Não há nada aqui. Parece que estamos em um porão velho abandonado. — Falei.
Jonathan concordou, olhando em volta com apreensão. Senti um nó se formar em minha garganta. Não parecia haver praticamente nada naquele lugar e, se houvesse algo que pudesse estar minimamente escondido, não iríamos saber, pois estava tudo realmente muito escuro e eu também estava receoso em revirar tudo ali. Eu não sabia como fomos parar ali e não sabia o que fazer, mas sabia que precisávamos sair dali o mais rápido possível.
Logo soubemos que ficar apenas lá não ia dar em nada e decidimos que era melhor subir as escadas para ver o que havia lá em cima. Lá poderia haver algo que pudesse nos dar algum norte.
— Eu tô com um pouco de medo, para ser sincero. — Jonathan disse. — Eu nunca sequer pisei em um lugar parecido com esse antes. Um local totalmente escuro, e aquele círculo esquisito... chega a dar arrepios. Será que fomos sequestrados?
— Acho que não. Que tipo de sequestradores deixariam suas vítimas totalmente livres após sequestrar elas? Digo, eles teriam ao menos nos amarrado, não?
— Certo, faz sentido.
— Mas, mesmo se tivéssemos sido sequestrados, isso não explica o porquê de nós termos brilhado antes de apagarmos completamente.
— É verdade. Só de lembrar do meu braço brilhando... sinto calafrios. Eu achei que ia morrer de verdade.
Jonathan ainda estava com uma expressão de pavor em seu rosto e era totalmente compreensível, pois ele brilhou, apagou e acordou em um lugar desconhecido. Passar por isso iria assustar qualquer um, mas, mesmo assim, nós não podíamos ficar parados ali esperando algo ocorrer. Nós começamos a subir as escadas.
Chegando ao topo, nós vimos uma passagem do tamanho de uma janela que estava bloqueada por um pedaço de madeira. Parecia não haver nenhum outro cômodo ali sem ser aquele porão escuro. A gente se aproximou da janela e, olhando por pequenos buracos, nós vimos o que parecia ser um beco.
— Acho que temos que quebrar isso. — Falei.
— Parece que sim. Essa madeira não deve ser tão resistente. Se chutarmos ao mesmo tempo, talvez ela quebre.
— Vamos tentar.
Contamos até três e chutamos a madeira. Ela parecia ser bem velha e quebrou com certa facilidade. Assim que saímos, vimos que, de fato, havia um beco do lado de fora. Era um beco bem comprido e largo, talvez coubessem umas três pessoas ali, uma do lado da outra, facilmente. Tinha um pouco de lixo no chão e algumas poças espalhadas. Nós já conseguíamos ver o céu claro acima de nós e vimos até um pequeno grupo de pássaros voando, o que ajudou a aliviar a tensão. Mas, o mais importante, nós também começamos a ouvir algumas vozes.
— Creio que deve ter alguma rua aqui perto.
— Jonathan disse. Ele parecia bem mais aliviado. Talvez ouvir aquelas vozes e ver o céu tenha o acalmado. — Não sei como viemos parar aqui, mas acho melhor voltarmos para a biblioteca.
— Será que a Jessica se preocupou com o meu desaparecimento repentino? Eu tenho que pensar em algo para dizer a ela quando voltarmos. Ela pode estar me procurando nesse momento.
— Ah, é. Ela deve estar muito preocupada mesmo... — Seu tom, nitidamente irônico. — Para de fantasiar sobre ela e vamos logo. Ainda temos que levar a cerveja do nosso pai.
— Tudo bem.
O beco era comprido e nós fizemos algumas curvas dentro dele. Enquanto íamos até a saída, começamos a ouvir cada vez mais barulhos. Além das vozes, eu escutava o que pareciam ser cavalos trotando e isso foi me deixando confuso. Eu não lembrava de ouvir tantos cavalos assim andando pelas ruas da cidade.
A propósito, nós estávamos no fim da tarde e o sol estava se pondo antes, então por que ele está no bem no meio do céu agora, como se fosse meio dia ou algo assim?
— Isso é estranho... — Falei para mim mesmo.
— Hein? Disse alguma coisa?
— Não, nada.
Nós ainda estávamos saindo do beco, até que finalmente conseguimos ver um pouco da rua. Porém, nós notamos que havia algo estranho naquela rua e diminuímos o passo. As pessoas pareciam usar roupas diferentes das quais estávamos acostumados a ver, sem falar que não passou nenhum carro, mas muitas carroças e carruagens sendo puxadas por cavalos.
Nós continuamos seguindo em frente até que finalmente chegamos na rua e pudemos ver tudo perfeitamente.
— Uau... isso é... incrível! — Jonathan estava completamente impressionado.
Espantados, nós demos uma boa olhada em volta e vimos que era tudo diferente: as roupas das pessoas, os estabelecimentos, as casas. Até o ar era diferente, era bem mais limpo.
— O que é isso tudo...? — Falei, perplexo. Eu não conseguia acreditar nos meus olhos.
As pessoas usavam roupas que pareciam ser de séculos atrás e algumas delas andavam com espadas em suas cinturas ou segurando o que pareciam ser cajados. Havia grupos andando para lá e para cá que eram idênticos aos guerreiros da época medieval. Algumas construções pareciam ser feitas de forma e materiais mais simples, porém outras eram mais refinadas e nitidamente tinham uma estrutura mais reforçada. No entanto, todas tinham uma arquitetura que parecia extremamente antiga. Os cavalos estavam por quase todo canto. Eles puxavam carroças, carruagens e alguns até passavam sozinhos sendo guiados por pessoas montadas em suas costas.
Após isso tudo, nós olhamos um para o outro e percebemos que tudo aquilo só podia significar uma única coisa, e então nós falamos ao mesmo tempo:
— Nós estamos em outro mundo...
Jonathan falou isso com entusiasmo, mas eu não... eu estava apavorado.
...****************...
...Jonathan...
— Nós estamos em outro mundo!
Eu confesso que estava bem animado. Eu estava vivendo o sonho de quase todos os otakus. Porém, quando eu olhei para o meu irmão, vi que, apesar dele ter dito a mesma frase que eu, ele parecia bem assustado.
— Gabriel, você está bem?
— Não... não... isso é impossível...
— Gabriel?
— Nãããão! — Ele voltou correndo para o beco.
— Gabriel, volta aqui!
Eu saí correndo atrás dele. Essa foi uma reação bem inesperada, visto que ele permaneceu calmo durante tudo o que havia ocorrido até aquele momento. Ele seguiu de volta todo o caminho que nós havíamos feito, tinha passado por aquela pequena passagem e entrado de volta na sala.
— Gabriel? Você está aqui?
Eu fui descendo as escadas e então vi uma cena impressionante para mim: Gabriel estava choramingando em cima daquele círculo esquisito. Eu soube na hora que, para ele estar daquele jeito, a situação toda foi um choque bem grande. Ele estava chorando e batendo no chão onde o círculo estava desenhado. Ele parecia não só estar chocado, mas revoltado também.
— Me leva de volta!
— Gabriel...
— Me leva de volta! Me leva de volta! Eu não quero ficar aqui!
Eu conseguia entender ele. Por mais que a nossa vida no nosso mundo não fosse tão boa, ser teletransportado do nada para outro mundo talvez não fosse uma das melhores opções para qualquer um.
Creio que as pessoas prefeririam mudar suas vidas utilizando métodos normais como trabalhar, ganhar dinheiro e comprar uma casa. Pouquíssimas pessoas iriam simplesmente escolher serem levadas para outro mundo, apesar dessa ideia não parecer tão ruim para mim. Porém, por mais que eu não estivesse muito abalado com tudo aquilo, o Gabriel estava. Eu tinha que acalmar ele de alguma forma.
...****************...
Depois de alguns minutos, o Gabriel voltou ao normal. Ele sempre foi bem calmo, então foi um tanto surpreendente vê-lo chorar. Na verdade, posso dizer que aquela cena me serviu também para me lembrar de que o meu irmão de fato chora. Não é como se ele nunca tivesse chorado na vida, mas é que ele fez isso poucas vezes. Normalmente, isso ocorre só em alguns poucos eventos que realmente são traumáticos para ele.
Nós voltamos para o beco e começamos a entender nossa situação. Nós estávamos em um mundo bem semelhante à Europa medieval. Quase tudo a nossa volta lembrava as imagens que víamos em nossos livros de história quando ainda estudávamos.
— Então, nós fomos trazidos para um mundo que se parece com a Europa na idade média e quase todos os mapas de jogos de MMORPG... — Falei. — Que clichê.
Eu estava com algumas ideias na minha cabeça e, se tudo estivesse de acordo com o que eu pensava, havia a possibilidade de aquele mundo não ser assim tão estranho para mim. Eu já vi diversas vezes esses clichês onde o personagem é levado para um mundo medieval e precisa se virar, então, talvez, eu poderia tirar proveito do meu conhecimento sobre isso.
Mas, ainda assim, era surpreendente o fato de aquilo estar acontecendo comigo. Quem diria que eu, Jonathan Hoffman, iria passar por uma situação dessas...
— Ok... — Gabriel se recompôs. — Nós precisamos de um plano sobre o que devemos fazer primeiro. Digo, não vamos dar uma de protagonistas de anime, série ou seja lá o que for. Estamos em um mundo completamente diferente do nosso e precisamos nos focar em sobrevivermos até voltarmos para a casa, né?
— Sim, sim, claro. — Concordei com a cabeça, apesar de não ter dado muito ouvidos.
— Então, tem alguma sugestão?
— E-Eu? B-Bem... nós poderíamos... talvez devêssemos...
— Haah... — Com um suspiro, Gabriel deixou nítido que percebeu que não estávamos em sintonia. Enquanto ele se preocupava em pensar em algo, eu permaneci impressionado com o fato de eu estar realmente em outro mundo. — Acho que o melhor a se fazer primeiro é reunir informações sobre este mundo e criar um plano de ação a partir daí. Conhecimento pode ser a nossa melhor arma e defesa por aqui. O que acha?
— Sim, concordo.
— Então, onde as pessoas costumam ir para adquirir conhecimento?
— Em outras ocasiões, eu responderia internet. Porém, não acho que há internet por aqui.
— Se o principal meio de transporte por aqui é o cavalo, creio que a última coisa que este lugar deve ter seja internet.
— Onde devemos ir então?
— O local em que estávamos a menos de uma hora atrás, a biblioteca.
Realmente. Bibliotecas são um poço de informações e conhecimentos. Eu não sou muito chegado a leitura, mas eu não nego que os livros podem oferecer informações valiosas e, naquele momento, eles poderiam ser a nossa maior arma.
— Vamos lá então?
O rosto e a voz do Gabriel pareciam estar bem mais aliviados. Nem parecia que ele estava se debatendo e choramingando há menos de meia hora.
— Vamos. — Respondi.
Nós saímos em busca de uma biblioteca. Estávamos em um local desconhecido, então nossa melhor maneira de sobreviver era conhecendo o lugar.
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Atualizado até capítulo 257
Comments
André Luiz
História boa mano. Só acho que poderia caprichar mais nos detalhes da ambientação. Mas tirando isso, tá ótimo👏
2024-09-02
1
Gaiola do canário
parece ser uma história boa para ser lê
2023-12-10
3
nibinubts Júlia
po, logo tu
2023-04-28
1